{"id":109,"date":"2016-09-09T22:00:28","date_gmt":"2016-09-09T22:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=109"},"modified":"2016-10-20T21:05:30","modified_gmt":"2016-10-20T21:05:30","slug":"109","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2016\/09\/09\/109\/","title":{"rendered":"Kaspar Hauser e o enigma da linguagem"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #ff0000\">Como uma crian\u00e7a aprende a falar? Em que condi\u00e7\u00f5es se d\u00e1 a aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem?<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Estas quest\u00f5es s\u00e3o tratadas no filme <em>O enigma de Kaspar Hauser<\/em>, que apresenta um caso extremo e historicamente documentado de uma crian\u00e7a abandonada que aprende a falar tardiamente e que \u00e9 analisado por <em>Aline Pires<\/em>, mestranda em Lingu\u00edstica.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O filme <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=R9qxbd3uR48\" target=\"_blank\">O enigma de Kaspar Hauser<\/a> trata sobre a figura enigm\u00e1tica de Kaspar Hauser, uma crian\u00e7a abandonada em Nuremberg, Alemanha, no s\u00e9culo XIX. O filme, de 1974, \u00e9 dirigido pelo cineasta alem\u00e3o Werner Herzog.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser3.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-112 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser3-213x300.jpg\" alt=\"hauser3\" width=\"213\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser3-213x300.jpg 213w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser3.jpg 412w\" sizes=\"(max-width: 213px) 100vw, 213px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O que se diz sobre a hist\u00f3ria real de Kaspar \u00e9 que, aos seis meses de idade, a crian\u00e7a foi deixada por sua m\u00e3e vi\u00fava com uma fam\u00edlia. Aos quatro anos, a fam\u00edlia passou a deix\u00e1-lo acorrentado em um por\u00e3o sem contato com outras pessoas. Em 1828, quando tinha dezesseis anos, Kaspar foi deixado em uma pra\u00e7a e, com ele, foi encontrada uma carta que explicava sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando foi encontrado, Kaspar falava cerca de seis palavras, depois de pouco mais de um ano, conseguia j\u00e1 construir enunciados complexos como qualquer outro adulto.<\/p>\n<p>O caso de Kaspar nos permite destacar algumas quest\u00f5es lingu\u00edsticas, como, por exemplo, o modo como se deu a aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem pelo menino.<\/p>\n<p>O meio em que a crian\u00e7a vive tem um papel importante no processo de aquisi\u00e7\u00e3o, pois s\u00e3o as experi\u00eancias lingu\u00edsticas fornecidas pelo meio que acionam o dispositivo respons\u00e1vel pela aquisi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua.<\/p>\n<p>De acordo com o filme, Kaspar viveu os primeiros anos de sua vida aprisionado, sem contato com o mundo exterior; mesmo o contato que o protagonista tinha com o personagem que se dizia seu pai era bastante limitado, como mostram as primeiras cenas do filme. O suposto pai quase n\u00e3o conversava com o filho. Desse modo, podemos dizer que o meio em que Kaspar viveu durante seus primeiros anos de vida n\u00e3o era prop\u00edcio para a aquisi\u00e7\u00e3o de uma l\u00edngua.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser2.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-111 alignright\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser2-185x300.jpg\" alt=\"hauser2\" width=\"185\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser2-185x300.jpg 185w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser2.jpg 344w\" sizes=\"(max-width: 185px) 100vw, 185px\" \/><\/a>Ainda com rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o, podemos nos questionar como, mesmo depois de ter passado a viver em sociedade, Kaspar continuou tendo dificuldades com algumas quest\u00f5es de linguagem.<\/p>\n<p>O filme tamb\u00e9m mostra que Kaspar tinha dificuldade para criar abstra\u00e7\u00f5es, como mostra o seguinte trecho retirado do filme:<\/p>\n<p><strong>Hauser:<\/strong>\u00a0<em>N\u00e3o entendo, s\u00f3 um homem muito grande poderia ter constru\u00eddo isso\u00a0<\/em>(ele olha para a torre).\u00a0<em>Eu gostaria de conhec\u00ea-lo.<\/em><\/p>\n<p><strong>Tutor:<\/strong>\u00a0<em>N\u00e3o \u00e9 preciso ser t\u00e3o grande para constru\u00ed-la, pois existem andaimes. Entender\u00e1 quando o levar a uma constru\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea morou nesta torre, atr\u00e1s daquela janela. N\u00e3o se lembra?<\/em><\/p>\n<p><strong>Hauser:<\/strong>\u00a0<em>Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, pois s\u00f3 tem alguns passos de largura. Quando estou dentro do quarto e olho para a direita, a esquerda, a frente e para tr\u00e1s, s\u00f3 <\/em><em>enxergo o quarto. Quando olho para torre e depois me viro a torre desaparece, ent\u00e3o o quarto \u00e9 maior que a torre.<\/em><\/p>\n<p>Se assumirmos que o homem nasce com uma capacidade inata para adquirir uma l\u00edngua e que os significados est\u00e3o fortemente relacionados com a l\u00edngua, como explicar\u00edamos a dificuldade que Kaspar tem para construir significados?<\/p>\n<p>A aquisi\u00e7\u00e3o tardia talvez nos possibilite explica\u00e7\u00f5es de algumas caracter\u00edsticas de Kaspar, como estas citadas acima. N\u00e3o podemos dizer que Kaspar n\u00e3o adquiriu uma l\u00edngua, pois ele de fato adquiriu, ele apenas tinha dificuldade com alguns aspectos.<\/p>\n<p>Na aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem, a janela de intera\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 inato e a influ\u00eancia do meio se d\u00e1 no per\u00edodo cr\u00edtico. Este \u00e9 um per\u00edodo de tempo do desenvolvimento humano em que os aspectos inatos s\u00e3o suscet\u00edveis a influ\u00eancia do ambiente, e essa influ\u00eancia \u00e9 necess\u00e1ria para que o indiv\u00edduo possa se desenvolver normalmente.<\/p>\n<p>Provavelmente, o fato de Kaspar ter sido isolado apenas aos quatro anos e n\u00e3o desde seus primeiros dias de vida, nos forne\u00e7a alguma resposta. Possivelmente, antes de ser isolado, Kaspar j\u00e1 tivesse adquirido a compet\u00eancia lingu\u00edstica de uma crian\u00e7a de sua idade. Esse per\u00edodo pode ser a explica\u00e7\u00e3o para o sucesso de Kaspar no desenvolvimento da capacidade da linguagem\u00a0 quando foi encontrado. Mesmo uma curta exposi\u00e7\u00e3o a uma l\u00edngua, \u00e9 suficiente para fornecer uma base para a aquisi\u00e7\u00e3o, ainda que seja em um per\u00edodo tardio.<\/p>\n<p>Considerando que Kaspar apresenta dificuldades com v\u00e1rias quest\u00f5es relacionadas a aquisi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, pode-se pensar que a janela para a aquisi\u00e7\u00e3o foi aberta no momento ideal \u2013 nos primeiros anos de vida de Kaspar \u2013 entretanto, esse per\u00edodo n\u00e3o foi suficiente para que ele pudesse desenvolver normalmente sua l\u00edngua materna.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser.png\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-110 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser-300x168.png\" alt=\"hauser\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser-300x168.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser-678x381.png 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser-128x72.png 128w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser.png 700w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Como uma crian\u00e7a aprende a falar? Em que condi\u00e7\u00f5es se d\u00e1 a aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem? Estas quest\u00f5es s\u00e3o tratadas no filme O enigma de Kaspar <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2016\/09\/09\/109\/\" title=\"Kaspar Hauser e o enigma da linguagem\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":151,"featured_media":111,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[29,27,15],"class_list":["post-109","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem-e-mente","tag-cultura","tag-fala","tag-linguagem"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2016\/09\/hauser2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/151"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":172,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109\/revisions\/172"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}