{"id":1090,"date":"2018-04-30T16:51:41","date_gmt":"2018-04-30T16:51:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1090"},"modified":"2019-07-13T22:49:39","modified_gmt":"2019-07-13T22:49:39","slug":"como-as-criancas-aprendem-a-falar-fonetica-e-fonologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/04\/30\/como-as-criancas-aprendem-a-falar-fonetica-e-fonologia\/","title":{"rendered":"Como as crian\u00e7as aprendem a falar &#8211; Fon\u00e9tica e Fonologia"},"content":{"rendered":"<h5>[Texto de Mariana Hungria, mestranda em Lingu\u00edstica na Unicamp]<\/h5>\n<h3>Sobre a aquisi\u00e7\u00e3o de linguagem<\/h3>\n<p>A aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem sempre foi uma das \u00e1reas mais atraentes e estudadas da Lingu\u00edstica. Desde o in\u00edcio da sua funda\u00e7\u00e3o como ci\u00eancia, a origem e os mecanismos que governam essa habilidade, tem fascinado n\u00e3o s\u00f3 profissionais da \u00e1rea como pessoas comuns. Talvez seja porque \u00e9 a habilidade que nos distingue de todos os outros animais, ou at\u00e9 mesmo porque pais e m\u00e3es de todo o mundo sempre esperaram ansiosamente pelos primeiros sons de seus filhos, balbucios aparentemente aleat\u00f3rios aos quais se procura dar sentido. \u00c9 comum os pais esperarem ansiosamente para ouvir o primeiro \u201cpapai\u201d ou \u201cmam\u00e3e\u201d que a crian\u00e7a ir\u00e1 enunciar, seja em qual l\u00edngua for.<\/p>\n<p>O linguista Roman Jakobson chegou a publicar um artigo seminal em 1962, que abordava o assunto intitulado \u201c<em>Why mama and papa?\u201d<\/em> ou \u201c<em>Por que mam\u00e3e e papai?<\/em>\u201d em portugu\u00eas. No artigo, Jakobson discute as poss\u00edveis causas que levariam os beb\u00eas a elegeram certas palavras como suas primeiras durante o desenvolvimento da fala.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas que sucederam os estudos de Jakobson, estudos nas mais diversas l\u00ednguas voltaram suas aten\u00e7\u00f5es \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem. Algumas \u00e1reas como a sintaxe foram bastante prol\u00edficas nesse tema, sobretudo os trabalhos de inspira\u00e7\u00e3o Gerativista, proposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica fundada e propagada pelo linguista Noam Chomsky na d\u00e9cada de 50 e de importante destaque at\u00e9 os dias de hoje. Por\u00e9m, talvez a \u00e1rea da Lingu\u00edstica que tenha mais se debru\u00e7ado sobre o tema tenha sido a \u00e1rea de Fon\u00e9tica e Fonologia.<\/p>\n<h3><strong>Fon\u00e9tica e Fonologia<\/strong><\/h3>\n<p>A grosso modo, a fon\u00e9tica \u00e9 a \u00e1rea da lingu\u00edstica que se dedica a estudar os sons da fala no que diz respeito \u00e0 suas caracter\u00edsticas ac\u00fasticas e f\u00edsicas e a fonologia privilegia o estudo da organiza\u00e7\u00e3o dos sons nas diferentes l\u00ednguas. Historicamente, essas duas faces da mesma \u201cmoeda\u201d t\u00eam sido consideradas como \u00e1reas distintas ou indissoci\u00e1veis, dependendo da proposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica assumida.<\/p>\n<p>No contexto da aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem, a fonologia tem feito muitas contribui\u00e7\u00f5es importantes para desvendar as origens e, principalmente, o processo de aquisi\u00e7\u00e3o da fonologia pelos beb\u00eas.<\/p>\n<h3>O padr\u00e3o Consoante-Vogal<\/h3>\n<p>Um dos temas estudados pelos fon\u00f3logos \u00e9 o fen\u00f4meno da co-ocorr\u00eancia de consoantes e vogais (CV). O fato dos beb\u00eas apresentarem a prefer\u00eancia de combinar consoantes e vogais, formando a s\u00edlaba can\u00f4nica CV<sup>1<\/sup>, na maioria das l\u00ednguas do mundo \u00e9 quase um universal lingu\u00edstico.<\/p>\n<p>A co-ocorr\u00eancia CV pode ser explicada pela influ\u00eancia do ambiente lingu\u00edstico ou por fatores biomec\u00e2nicos enraizados na evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>Teorias de orienta\u00e7\u00e3o biodin\u00e2micas tem preval\u00eancia no debate: as que se ocupam do trato vocal superior, mais destacadamente a Teoria Molde\/Conte\u00fado de Davis e MacNeilage (1995) e a Fonologia Articulat\u00f3ria de Browman e Goldstein (1992); e a Teoria do Modelo Constritor Lar\u00edngeo proposta por Esling (2012), que se ocupa do trato vocal inferior.<\/p>\n<p>Enquanto a Teoria Molde\/Conte\u00fado procura explicar as prefer\u00eancias CV por fatores puramente biomec\u00e2nicos atrav\u00e9s de mecanismos relacionados \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o e mastiga\u00e7\u00e3o do beb\u00ea, a Fonologia Articulat\u00f3ria oferece uma explica\u00e7\u00e3o alternativa que concebe os movimentos da mand\u00edbula e l\u00edngua como gestos interiorizados. Segundo essa teoria, a co-ocorr\u00eancia CV pode estar ligada \u00e0 sinergia entre os gestos chamados consonantais e os voc\u00e1licos, que possuem dura\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>J\u00e1 a teoria MCL, que se ocupa do trato vocal inferior, prop\u00f5e que a origem da fala est\u00e1 na laringe. De acordo com essa teoria, os primeiros sons, independentemente do ambiente lingu\u00edstico no qual a crian\u00e7a est\u00e1 inserida, s\u00e3o produzidos nessa regi\u00e3o do trato vocal. Segundo Esling, o trato vocal inferior da crian\u00e7a \u00e9 mais adequado para combina\u00e7\u00f5es envolvendo consoantes lar\u00edngeas. A medida que o beb\u00ea se desenvolve, a fala vai se tornando cada vez mais bucalizada, ou seja, as vocaliza\u00e7\u00f5es passam a se originar tamb\u00e9m das regi\u00f5es mais superiores do trato vocal.<\/p>\n<p>No caso do portugu\u00eas brasileiro, um estudo recente de Hungria e Albano (2016), buscou, atrav\u00e9s do estudo de caso de tr\u00eas crian\u00e7as brasileiras entre seis e vinte meses de idade, analisar a aquisi\u00e7\u00e3o da fonologia observando e coletando dados da intera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea entre as crian\u00e7as e seus cuidadores<\/p>\n<p>Esse estudo buscou integrar as tr\u00eas proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas mencionadas al\u00e9m do ambiente lingu\u00edstico, a fim de explorar o processo de bucaliza\u00e7\u00e3o e as prefer\u00eancias CV no portugu\u00eas brasileiro.<\/p>\n<p>Os resultados n\u00e3o refutam nem confirmam as proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas mencionadas, mas sugerem que esse processo pode depender de caracter\u00edsticas individuais de cada crian\u00e7a e apontam para a necessidade de mais estudos que investiguem n\u00e3o s\u00f3 o papel da influ\u00eancia do ambiente, como tamb\u00e9m a intera\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7a e adulto durante o processo de aquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o tema da aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem continua sendo n\u00e3o somente fascinante como fundamental para compreendermos o que nos faz humanos \u2013 a linguagem.<\/p>\n<h4><\/h4>\n<h4>Nota<\/h4>\n<p><sup>1<\/sup> H\u00e1 evid\u00eancias de l\u00ednguas cuja s\u00edlaba can\u00f4nica \u00e9 VC, por\u00e9m elas s\u00e3o raras.<sup><br \/>\n<\/sup><\/p>\n<h5>[Texto de Mariana Hungria, mestranda em Lingu\u00edstica na Unicamp]<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>REFER\u00caNCIAS<\/h3>\n<p>Browman, C.; Goldstein, L. (1992). Articulatory phonology: an overview. In: Phonetica 49.3\u20134, pp. 155\u2013180.<\/p>\n<p>Davis, B., Macneilage, P., (1995). The articulatory basis for babbling. Journal of Speech and Hearing Research, 38(6), pp.1199-1211.<\/p>\n<p>Esling, J., (2012). The Articulatory Function of the Larynx and the Origins of Speech. Proceedings of the Annual Meeting of the Berkeley Linguistics Society 38.<\/p>\n<p>Hungria, M., Albano, E. C., (2016). CV co-occurrence and articulatory control in three Brazilian children from 0:06 to 1:07. In: Gradus \u2013 Revista Brasileira de Fonologia de Laborat\u00f3rio v.1 n.1. pp. 67-95.<\/p>\n<p>Jakobson, R. (1962). \u201cWhy \u2019mama\u2019 and \u2019papa\u2019?\u201d In: Selected Writings. Vol. I. The Hague: Mouton, pp. 538\u2013545.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><h3>Sobre a aquisi\u00e7\u00e3o de linguagem<\/h3>\n<p>A aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem sempre foi uma das \u00e1reas mais atraentes e estudadas da Lingu\u00edstica. 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