{"id":1108,"date":"2018-01-11T00:58:32","date_gmt":"2018-01-11T00:58:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1108"},"modified":"2018-01-11T00:58:33","modified_gmt":"2018-01-11T00:58:33","slug":"andrei-zalizniak-e-os-problemas-de-linguistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/01\/11\/andrei-zalizniak-e-os-problemas-de-linguistica\/","title":{"rendered":"Andrei Zalizniak e os Problemas de Lingu\u00edstica"},"content":{"rendered":"<p>Faleceu ontem, aos 82 anos, Andrei Anat\u00f3lievitch Zalizniak, o criador do g\u00eanero dos problemas de lingu\u00edstica autossuficientes. Embora relativamente pouco conhecido no Brasil, na R\u00fassia Zalizniak \u00e9 reconhecido como um dos principais linguistas do s\u00e9culo XX, inspirando gera\u00e7\u00f5es de linguistas mais jovens, na universidade, na escola e nas olimp\u00edadas de lingu\u00edstica.<!--more--> Para ilustrar a import\u00e2ncia de sua obra, frisemos algumas de suas grandes contribui\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<h3>Lingu\u00edstica computacional <em>before it was cool<\/em><\/h3>\n<p>Enquanto ainda estudava na Faculdade de Letras da <em>Universidade Estatal de Moscou<\/em>, Andrei passou um ano na <em>Escola Normal Superior<\/em> em Paris e, orientado pelo estruturalista Andr\u00e9 Martinet, redigiu o primeiro dicion\u00e1rio russo-franc\u00eas, que continha informa\u00e7\u00f5es minuciosas acerca das complexas propriedades morfol\u00f3gicas de cada palavra da l\u00edngua russa. Na \u00e9poca, sem o computador como recurso, procedia escrevendo cada palavra em uma ficha, que era ent\u00e3o posta em uma bandeja de p\u00e3o. Ao todo, foram necess\u00e1rias quatro bandejas, cada uma contendo 25.000 fichas. O dicion\u00e1rio foi publicado em 1961.<\/p>\n<p>Em 1965, Zalizniak defendeu a tese \u201cClassifica\u00e7\u00e3o e s\u00edntese dos paradigmas nominais da l\u00edngua russa moderna\u201d, que foi submetido como tese de candidatura (o primeiro grau de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no antigo sistema sovi\u00e9tico) mas foi reconhecido como uma tese de doutorado em ci\u00eancias (o t\u00edtulo mais alto, normalmente considerado equivalente a um p\u00f3s-doutorado no ocidente), dando ao estudante o t\u00edtulo correspondente (esse procedimento n\u00e3o era muito usual, mas o valor incomum do trabalho levou a isso).<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas de trabalho mais tarde, em 1977, o linguista publicou um dicion\u00e1rio gramatical da complexa morfologia russa, uma obra monumental utilizada at\u00e9 hoje como base para quase todo o uso computacional da l\u00edngua russa, desde softwares at\u00e9 as ferramentas de busca e de tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, como o Google e a russa Yandex. De fato, podemos dizer que a obra de Zalizniak sobre a l\u00edngua russa foi precursora de muito do que viria a acontecer na lingu\u00edstica computacional.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1091\" aria-describedby=\"caption-attachment-1091\" style=\"width: 645px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/12\/5245d72c530ebd25007a9594ca744050.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1091 size-large\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/12\/5245d72c530ebd25007a9594ca744050-645x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"645\" height=\"1024\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1091\" class=\"wp-caption-text\">O famigerado dicion\u00e1rio de 77<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Lingu\u00edstica hist\u00f3rica: das cascas de b\u00e9tula \u00e0 Campanha de Igor<\/h3>\n<p>Mais tarde, Andrei estudou cartas escritas entre os s\u00e9culos XI e XV, em cascas de b\u00e9tula, por residentes da antiga regi\u00e3o de Novgorod.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1092\" aria-describedby=\"caption-attachment-1092\" style=\"width: 678px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/12\/a736a7274af01543ef1d5d59b45b6ccf.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1092 size-mh-magazine-lite-content\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/12\/a736a7274af01543ef1d5d59b45b6ccf-678x381.jpg\" alt=\"\" width=\"678\" height=\"381\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1092\" class=\"wp-caption-text\">Detalhe de uma carta na casca de b\u00e9tula. Fonte: https:\/\/russkiymir.ru\/publications\/210552\/<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao faz\u00ea-lo, ele descobriu que o que se pensava ser russo mal escrito era, na realidade, uma variedade eslava extinta: o chamado novgorodiano antigo. Andrei seguiu seu trabalho participando das escava\u00e7\u00f5es at\u00e9 seu fim, dando palestras a cada ano e destrinchando as novas cartas escavadas, bem como cada um de seus aspectos lingu\u00edsticos, de forma acess\u00edvel para o p\u00fablico geral. O comp\u00eandio das informa\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas sobre o novgorodiano antigo foi publicado pela primeira vez em 1999.<\/p>\n<p>O linguista tamb\u00e9m demonstrou conclusivamente como o sistema t\u00f4nico \u201cca\u00f3tico\u201d do russo pode ser derivado de um sistema consideravelmente mais regular atestado nos registros medievais da l\u00edngua, atrav\u00e9s de um conjunto de regras relativamente simples.<\/p>\n<p>Outro trabalho interessante foi a comprova\u00e7\u00e3o da autenticidade do <em>Conto da Campanha de Igor<\/em>, um poema \u00e9pico datado do s\u00e9culo XII e de extrema import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria da literatura russa. Antes de Zalizniak, alguns especialistas acreditavam que o manuscrito havia sido falsificado no s\u00e9culo XVIII. Ent\u00e3o ele procedeu a uma acurada an\u00e1lise de caracter\u00edsticas (por exemplo, a ordem dos cl\u00edticos presentes) e, com isso, descobriu que o texto obedecia a regras at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas, mas comprovadas por outros textos, descobertos depois do suposto ato de falsifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1093\" aria-describedby=\"caption-attachment-1093\" style=\"width: 758px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/12\/Biliwar.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1093 size-large\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/12\/Biliwar-758x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"758\" height=\"1024\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1093\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A expuls\u00e3o do Khan Batyga&#8221;, ilustra\u00e7\u00e3o de Ivan Bilibin para o Conto.<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Problemas de Lingu\u00edstica<\/h3>\n<p>Al\u00e9m das suas contribui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, Zalizniak deu importantes contribui\u00e7\u00f5es para a difus\u00e3o da lingu\u00edstica na sociedade. Segundo Alexander Piperski, ele \u201cn\u00e3o era apenas um grande cientista, mas tamb\u00e9m uma pessoa que difundiu em torno dele a alegria da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (&#8230;) mostrando que a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas \u00fatil e importante, mas tamb\u00e9m excitante.\u201d Nesse \u00e2mbito da difus\u00e3o, talvez sua principal contribui\u00e7\u00e3o tenha come\u00e7ado em um artigo de 1963, intitulado \u201cProblemas de lingu\u00edstica\u201d. Nele, apareciam problemas como o seguinte:<\/p>\n<blockquote><p>Abaixo est\u00e3o algumas frases em alban\u00eas, assim como as suas tradu\u00e7\u00f5es para o hebraico cl\u00e1ssico (na chamada representa\u00e7\u00e3o consonantal).<\/p>\n<p>alban\u00eas hebraico cl\u00e1ssico<br \/>\n1. Miz\u00eb pi \u2014 y\u0161th zbwb.<br \/>\n2. Miza pinin \u2014 \u0161tw zbwbym.<br \/>\n3. Miz\u00eb pinte \u2014 \u0161th zbwb.<br \/>\n4. Mizat pin\u00eb \u2014 y\u0161tw hzbwbym.<br \/>\n5. Miza pin\u00eb \u2014 y\u0161tw zbwbym.<br \/>\n6. Miza pi \u2014 y\u0161th hzbwb.<\/p>\n<p>Traduza do hebraico cl\u00e1ssico para o alban\u00eas: \u0161th hzbwb; \u0161tw hzbwbym.<\/p><\/blockquote>\n<p>Num primeiro momento, pode parecer assustador: como algu\u00e9m que n\u00e3o sabe nem alban\u00eas nem hebraico pode traduzir frases de uma l\u00edngua para outra? Mas o prop\u00f3sito de Zalizniak era precisamente este: que os jovens n\u00e3o precisariam ter medo de analisar dados em l\u00ednguas n\u00e3o-familiares; com um corpus adequado e o uso de racioc\u00ednio e intui\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, qualquer estudante interessado poderia decifrar as estruturas lingu\u00edsticas subjacentes, mesmo sem nunca ter tido qualquer contato pr\u00e9vio com as l\u00ednguas em quest\u00e3o. Assim nascia o conceito de problemas de lingu\u00edstica autossuficientes.<\/p>\n<p>Foi assim que, dois anos depois, em 1965, aconteceu a primeira Olimp\u00edada Tradicional de Lingu\u00edstica de Moscou, para alunos de ensino m\u00e9dio. Claro que a olimp\u00edada ainda n\u00e3o era tradicional, mas o nome pode ser entendido hoje como um desejo que se tornou realidade: em 2018, esta olimp\u00edada, agora abrangendo toda a R\u00fassia, ter\u00e1 sua 48a edi\u00e7\u00e3o; al\u00e9m disso, ela inspirou olimp\u00edadas de lingu\u00edstica similares em mais de 30 pa\u00edses, al\u00e9m de uma olimp\u00edada internacional (<a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/2017\/09\/16\/olimpiada-de-linguistica\/\">esta hist\u00f3ria j\u00e1 foi contada aqui no blog<\/a>).<\/p>\n<p>Zalizniak comp\u00f4s 26 problemas de lingu\u00edstica utilizados na olimp\u00edada de Moscou nos anos seguintes, al\u00e9m de ter participado ativamente na prepara\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o de diversos outros problemas. Para darmos mais um gostinho, segue outro problema do artigo original:<\/p>\n<blockquote><p>Observe as seguintes frases bascas. Uma delas cont\u00e9m um erro gramatical.<\/p>\n<p>1. Gizona joaten da.<br \/>\n2. Gizonak zaldia ikusten du.<br \/>\n3. Astoa atzo joaten zan.<br \/>\n4. Gizonak atzo joaten ziran.<br \/>\n5. Astoak zaldiak atzo ikusten zuen.<br \/>\n6. Zaldiak gizona ikusten du.<br \/>\n7. Zakurrak joaten dira.<br \/>\n8. Gizonak zakurra atzo ikusten zuen.<br \/>\n9. Zakurrak astoak ikusten ditu.<br \/>\n10. Zaldiak gizonak atzo ikusten zituen.<br \/>\n11. Zakurra atzo joaten zan.<br \/>\n12. Gizonak astoak atzo ikusten zituen.<\/p>\n<p>Identifique o erro e corrija-o, substituindo apenas uma palavra.<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_885\" aria-describedby=\"caption-attachment-885\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-885 size-full\" src=\"http:\/\/www.blogs.ea2.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017.jpg 960w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017-678x509.jpg 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017-326x245.jpg 326w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/09\/Zalizniak_LLSH_2017-80x60.jpg 80w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-885\" class=\"wp-caption-text\">Andrei Zalizniak em confer\u00eancia com os estudantes ol\u00edmpicos da R\u00fassia na Escola de Lingu\u00edstica de Ver\u00e3o 2017. Cr\u00e9ditos: Boris Iomdin<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante sua atividade como linguista, Andrei Zalizniak fez parte do corpo docente das universidades de Moscou, Constan\u00e7a, Provence, Paris X e Genebra, ministrando cursos de s\u00e2nscrito, \u00e1rabe cl\u00e1ssico, entre outros. Ele se manteve em plena atividade e consci\u00eancia at\u00e9 o \u00faltimo momento e, sem sua obra, a OBL \u2014 nem as outras olimp\u00edadas de lingu\u00edstica \u2014 provavelmente n\u00e3o existiriam do jeito como as conhecemos.<\/p>\n<p><em>*Texto escrito em parceria com Andrey Nikulin e Cynthia Herkenhoff, a partir de artigos, entrevistas e notas publicadas. Para saber mais, recomendamos dois artigos em russo em mem\u00f3ria ao linguista, publicados no <a href=\"https:\/\/nplus1.ru\/material\/2017\/12\/25\/andreyazaliznyak\">N+1<\/a> e no <a href=\"https:\/\/daily.afisha.ru\/brain\/7763-ego-lekcii-sobirali-stadiony-kollegi-filologi-ob-akademike-zaliznyake\/\">Afisha Daily<\/a>. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Faleceu ontem, aos 82 anos, Andrei Anat\u00f3lievitch Zalizniak, o criador do g\u00eanero dos problemas de lingu\u00edstica autossuficientes. 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