{"id":1111,"date":"2018-01-14T16:00:03","date_gmt":"2018-01-14T16:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1111"},"modified":"2018-02-09T13:05:48","modified_gmt":"2018-02-09T13:05:48","slug":"multilinguismo-sobre-aquisicao-e-aprendizagem-de-linguas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/01\/14\/multilinguismo-sobre-aquisicao-e-aprendizagem-de-linguas\/","title":{"rendered":"Multilinguismo: sobre aquisi\u00e7\u00e3o e aprendizagem de l\u00ednguas"},"content":{"rendered":"<p>Sabemos que as l\u00ednguas do mundo possuem diferentes estruturas, diferentes conjuntos e formas de combinar seus sons, al\u00e9m de v\u00e1rias diferen\u00e7as sem\u00e2nticas e pragm\u00e1ticas. Ainda assim, n\u00e3o \u00e9 estranho notarmos a exist\u00eancia de pessoas que conseguem utilizar com flu\u00eancia mais de uma l\u00edngua. Damos a essas pessoas o &#8220;t\u00edtulo&#8221; de Bil\u00edngue ou Multil\u00edngue. Por outro lado, existem ao menos dois tipos de bilinguismo que devem ser vistos de forma separada.<\/p>\n<h3>Tipos de Bilinguismo \/ Multilinguismo<\/h3>\n<p>O primeiro tipo de bilinguismo acontece quando j\u00e1 somos adultos e desejamos, por diversas raz\u00f5es, usar uma outra l\u00edngua. Nesse caso, n\u00f3s j\u00e1 temos uma l\u00edngua nativa, j\u00e1 sabemos o que \u00e9 uma l\u00edngua e os seus componentes. Assim, quando vamos aprender, j\u00e1 temos ao menos uma ideia de o qu\u00ea precisamos procurar nesse novo conjunto de sons que escutamos de um falante estrangeiro. As pessoas que passam por esse tipo de habitua\u00e7\u00e3o a uma nova l\u00edngua passam pelo processo de <strong>Aprendizagem<\/strong>, independente de parte desse processo ser consciente ou inconsciente.<\/p>\n<p>O segundo tipo de bilinguismo acontece quando somos crian\u00e7as e crescemos ouvindo mais de uma l\u00edngua. Considere, por exemplo, que voc\u00ea, brasileiro, casou com uma chinesa e ambos moram no Jap\u00e3o. Muito provavelmente voc\u00ea ir\u00e1 conversar com seu filho em Portugu\u00eas, a m\u00e3e em chin\u00eas enquanto o mundo usa o japon\u00eas. A crian\u00e7a ter\u00e1, constantemente, acesso a tr\u00eas l\u00ednguas diferentes numa fase em que ela ainda n\u00e3o sabe o que \u00e9 uma l\u00edngua, n\u00e3o sabe o que procurar, simplesmente a aprende! Esse processo \u00e9 conhecido pelo nome de <strong>Aquisi\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo desse segundo caso, veja a sequ\u00eancia de 5 v\u00eddeos de Wendy Vo, uma menina de 8 anos de origem vietnamita e que mora nos EUA. Ao longo de seu desenvolvimento, Wendy teve contato com pessoas de diferentes etnias e, com isso, obteve flu\u00eancia em 11 l\u00ednguas.<\/p>\n<p><iframe title=\"Wendy Vo,child prodigy of music and language #1.\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZZOPI7DzfUY?list=PLhHgj4i7j27RzfOHDQySXo6U5TUMr9GjO\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3>Um pouco sobre Aquisi\u00e7\u00e3o de Linguagem<\/h3>\n<p>Em Biologia \u00e9 muito comum estabelecermos uma janela temporal em que o organismo precisa receber os est\u00edmulos do meio para se desenvolver. Por exemplo, se uma crian\u00e7a nascer surda, os m\u00e9dicos precisam realizar um implante coclear, inserindo um aparelho que emula a &#8220;tradu\u00e7\u00e3o&#8221; (o termo t\u00e9cnico \u00e9 transdu\u00e7\u00e3o) do sinal ac\u00fastico para sinais bioel\u00e9tricos capazes de serem percebidos e processados pelo c\u00e9rebro. Por\u00e9m, esse implante deve acontecer at\u00e9 por volta dos dois anos de idade, do contr\u00e1rio, o sistema auditivo da crian\u00e7a n\u00e3o consegue mais se desenvolver.<\/p>\n<p>Essa janela temporal \u00e9 chamada <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Critical_period\"><strong>per\u00edodo cr\u00edtico<\/strong><\/a>. Em <strong>aquisi\u00e7\u00e3o de linguagem<\/strong>, utilizamos o mesmo termo para indicar a idade em que a crian\u00e7a ainda adquire uma l\u00edngua como l\u00edngua nativa, e que vai at\u00e9 por volta dos 7 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 comum que o nascimento da crian\u00e7a seja visto como o marco zero do processo de aquisi\u00e7\u00e3o, visto que somente nesse momento a crian\u00e7a ter\u00e1 contato com a produ\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica das pessoas a sua volta. Por\u00e9m, existem evid\u00eancias de que ao menos parte do processo de habitua\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es r\u00edtmicos da l\u00edngua aconte\u00e7am ainda dentro do \u00fatero. <a href=\"https:\/\/insights.ovid.com\/crossref?an=00001756-201708010-00004\">Um artigo recente de autores da Universidade de Kansas<\/a> utilizando a t\u00e9cnica de biomagnetometria demonstra que, mesmo ainda no \u00fatero, o feto de cerca de 35 meses consegue distinguir entre o japon\u00eas e o ingl\u00eas americano.<\/p>\n<p>A ideia por tr\u00e1s do experimento \u00e9 que crian\u00e7as costumam se agitar quando escutam padr\u00f5es diferentes daqueles em que est\u00e3o habituados. Por exemplo, o <a href=\"http:\/\/revistacrescer.globo.com\/Revista\/Crescer\/0,,EMI175952-15105,00.html\">chupet\u00f3grafo<\/a> \u00e9 um aparelho com sensores capazes de medir o qu\u00e3o forte e r\u00e1pido as crian\u00e7as est\u00e3o chupando a chupeta enquanto s\u00e3o estimuladas em um experimento cognitivo. Os estudos com fetos normalmente utilizam t\u00e9cnicas de ultrasom, capaz de medir a frequ\u00eancia card\u00edaca da crian\u00e7a. A biomagnetometria tamb\u00e9m mede a frequ\u00eancia card\u00edaca, mas atrav\u00e9s de campos magn\u00e9ticos gerados no interior do \u00fatero da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Os pesquisadores estimularam as gr\u00e1vidas com um \u00e1udio de 2 minutos em ingl\u00eas para fazer uma medi\u00e7\u00e3o de base. 18 minutos depois, 12 mam\u00e3es foram estimuladas com outro \u00e1udio em ingl\u00eas enquanto outras 12 foram estimuladas com um \u00e1udio em japon\u00eas, gravado pela mesma pessoa, falante nativa das duas l\u00ednguas. Os fetos cujas m\u00e3es escutaram o \u00e1udio em japon\u00eas apresentaram um aumento em sua frequ\u00eancia card\u00edaca enquanto os filhos das outras 12 gr\u00e1vidas n\u00e3o apresentaram qualquer altera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Testes como esse demonstram que \u00e9 importante observar como as crian\u00e7as aprendem suas l\u00ednguas mesmo antes do nascimento.<\/p>\n<h3><strong>Um pouco sobre Aprendizagem de L\u00ednguas<\/strong><\/h3>\n<p>Quando aprendemos uma l\u00edngua depois de adulto, \u00e9 comum encontrarmos &#8220;erros&#8221; de estrutura ou de pron\u00fancia que, geralmente, s\u00e3o a forma correta de se falar na nossa l\u00edngua nativa.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso, por exemplo, do <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/01\/05\/o-ingles-de-joel-santana-muito-mais-que-um-sotaque\/\">ingl\u00eas do Joel Santana, que discutimos aqui no blog<\/a>. O uso de estrutura e sons da l\u00edngua nativa numa l\u00edngua estrangeira \u00e9 chamado de Transfer\u00eancia Lingu\u00edstica. Mas vale lembrar que <a href=\"http:\/\/www.linguisticario.letras.ufrj.br\/uploads\/7\/0\/5\/2\/7052840\/bruna_tessaro.pdf\">as transfer\u00eancias tamb\u00e9m acontecem no sentido contr\u00e1rio, da l\u00edngua aprendida para a l\u00edngua nativa<\/a>, como quando voc\u00ea mora um tempo na Fran\u00e7a e volta falando que vai &#8220;<em>se<\/em> <em>douchar<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.qmul.ac.uk\/media\/news\/2017\/hss\/a-bit-like-hawaiian-yodas-language-is.html\">Em entrevista recente ao portal de not\u00edcias da Queen Mary University of London<\/a>, o professor David Adger, que trabalha com o tema, foi pego de surpresa com uma pergunta inusitada. Com o recente lan\u00e7amento do filme Star Wars: The Last Jedi, o entrevistador perguntou se, atrav\u00e9s desses estudos, seria poss\u00edvel descobrir qual a l\u00edngua nativa do mestre jedi verdinho. Adger responde que, na Terra, existe uma l\u00edngua que possui estrutura semelhante aquela na qual Yoda usa o ingl\u00eas, o Havaiano. Nesse sentido, caso o mestre Yoda tivesse nascido e crescido\u00a0na Terra, muito provavelmente ele seria um havaiano se comunicando em ingl\u00eas, atrav\u00e9s de uma forte transfer\u00eancia sint\u00e1tica, assim como o nosso querido papai Joel.<\/p>\n<h3>Para terminar<\/h3>\n<p>Espero que esse post tenha sido esclarecedor ao diferenciar que existem dois tipos de bil\u00edngues, aquele que sabe duas l\u00ednguas de forma nativa e aqueles que aprenderam uma segunda depois de adultos. Toda essa discuss\u00e3o serve de exemplo das consequ\u00eancias biopsicol\u00f3gicas envolvidas em cada tipo de aprendizagem. As crian\u00e7as usam suas l\u00ednguas nativas de forma natural e sem qualquer rastro de sotaques. Os bil\u00edngues nativos tamb\u00e9m t\u00eam uma capacidade maior de recuperar uma de suas l\u00ednguas nativas depois de muito tempo sem uso. J\u00e1 os bilingues tardios, al\u00e9m de sofrerem maior interfer\u00eancia das estruturas e sons de sua l\u00edngua nativa, podem perd\u00ea-la muito mais rapidamente caso deixe de us\u00e1-la durante alguns anos.<\/p>\n<p>Caso queira saber um pouco mais sobre tudo o que foi discutido aqui, voc\u00ea pode acessar os links inseridos ao longo do texto ou baixar o <a href=\"http:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-87\/\">epis\u00f3dio #87 do Spin de Not\u00edcias<\/a>, podcast do portal Deviante, em que falo sobre estes dois temas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Sabemos que as l\u00ednguas do mundo possuem diferentes estruturas, diferentes conjuntos e formas de combinar seus sons, al\u00e9m de v\u00e1rias diferen\u00e7as sem\u00e2nticas e pragm\u00e1ticas. Ainda <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/01\/14\/multilinguismo-sobre-aquisicao-e-aprendizagem-de-linguas\/\" title=\"Multilinguismo: sobre aquisi\u00e7\u00e3o e aprendizagem de l\u00ednguas\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":150,"featured_media":1112,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[36,42],"tags":[195,182,194,193,196,198,197,111,200,199],"class_list":["post-1111","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-aquisicao-de-linguagem","category-noticias","tag-aprendizagem-de-linguas","tag-aquisicao-de-linguagem","tag-bilinguismo","tag-deviante","tag-educacao","tag-jedi","tag-multilinguismo","tag-scicast","tag-starwars","tag-yoda"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/01\/image-courtesy-of-designcrowd-com.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/150"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1111"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1119,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions\/1119"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1112"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}