{"id":1189,"date":"2018-04-27T18:45:20","date_gmt":"2018-04-27T18:45:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1189"},"modified":"2021-06-30T16:40:45","modified_gmt":"2021-06-30T16:40:45","slug":"a-autoconsciencia-nos-torna-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/04\/27\/a-autoconsciencia-nos-torna-humanos\/","title":{"rendered":"A autoconsci\u00eancia nos torna humanos?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1191\" aria-describedby=\"caption-attachment-1191\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/04\/teste-espelho.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1191\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/04\/teste-espelho-300x260.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/04\/teste-espelho-300x260.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/04\/teste-espelho.jpg 515w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1191\" class=\"wp-caption-text\">Chimpanz\u00e9 se reconhecendo no espelho<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por: Karen Waldemarin Kalil<\/strong><br \/>\nMestranda em Lingu\u00edstica na Unicamp<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ser\u00e1 que seu animal de estima\u00e7\u00e3o sabe que existe? Como voc\u00ea sabe que existe? \u00a0Voc\u00ea provavelmente n\u00e3o soube responder \u00e0 primeira e, \u00e0 segunda respondeu que sabe que existe porque voc\u00ea pensa ou porque tem consci\u00eancia. Uma defini\u00e7\u00e3o elementar de consci\u00eancia seria saber da nossa exist\u00eancia enquanto seres individuais no mundo e chamaremos, nesse texto, de autoconsci\u00eancia. Ent\u00e3o, tentando provar que existe autoconsci\u00eancia em animais n\u00e3o-humanos, foi proposto o teste do espelho de Gallup. Nesse teste eram feitas marcas de tinta em chimpanz\u00e9s sedados e, ao serem reanimados, eram colocados em frente ao espelho a fim de observar se compreendiam que a mancha estava em seus pr\u00f3prios corpos e assim o fizeram. Segundo Gallup, isso indicava que os chimpanz\u00e9s eram autoconscientes. O teste popularizou-se e foi feito com diversos animais. <\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Os resultados mostraram que a maior parte das esp\u00e9cies n\u00e3o&#8221;passou&#8221; no teste, pois, ao inv\u00e9s de limpar a mancha, confrontam a sua pr\u00f3pria imagem no espelho. \u00a0Desse modo, Gallup concluiu que esses animais enxergavam a pr\u00f3pria imagem como um outro indiv\u00edduo e, portanto, n\u00e3o seriam autoconscientes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os animais que \u201cpassam\u201d no teste (se reconhecem no espelho) s\u00e3o todos os grandes primatas (gorila, orangotango, bonobo, chimpanz\u00e9 e humanos), golfinhos e elefantes. O teste do espelho come\u00e7ou a ter resultados heterog\u00eaneos entre uma mesma esp\u00e9cie e isso levou \u00e0 cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 precis\u00e3o do teste e a conclus\u00e3o de que se um animal se reconhece, ele \u00a0limpa a mancha, afinal, \u00e9 poss\u00edvel que se reconhe\u00e7am no espelho, por\u00e9m, n\u00e3o se preocupem com a mancha. Portanto, o teste n\u00e3o \u00e9 preciso em medir a autoconsci\u00eancia e claramente a nossa consci\u00eancia n\u00e3o resume-se apenas ao autorreconhecimento. Logo, \u00e9 mais produtivo pensar nas diferen\u00e7as entre n\u00f3s e as outras esp\u00e9cies para entendermos como funciona a nossa cogni\u00e7\u00e3o. A compara\u00e7\u00e3o mais comum \u00e9 entre seres humanos e outros primatas, principalmente o chipanz\u00e9, nosso parente mais pr\u00f3ximo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A primeira diferen\u00e7a que podemos pensar \u00e9 na anatomia do c\u00e9rebro. Os beb\u00eas chipanz\u00e9s nascem com a maior parte de seu c\u00e9rebro j\u00e1 formada, ent\u00e3o, seus comportamentos ser\u00e3o, em sua maioria,\u00a0 instintivos. Enquanto que os seres humanos nascem com um c\u00e9rebro com <\/span><span style=\"font-weight: 400\">plasticidade cerebral<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, ou seja, a maioria dos nossos comportamentos \u00e9 aprendida ao longo da vida. Segundo Tomasello (2003), a distin\u00e7\u00e3o dos aprendizados humanos se divide em tr\u00eas tipos b\u00e1sicos: aprendizagem por imita\u00e7\u00e3o, por instru\u00e7\u00e3o e por colabora\u00e7\u00e3o. As \u00faltimas duas dependem da teoria da mente, definida como \u201c\u00fanica e muito especial forma de cogni\u00e7\u00e3o social qual seja, a capacidade de cada organismo compreender os co-espec\u00edficos como seres iguais a ele, com vidas mentais e intencionais iguais \u00e0s dele. Essa compreens\u00e3o permite aos indiv\u00edduos imaginarem-se \u201cna pele mental\u201d de outra pessoa, de modo que n\u00e3o s\u00f3 aprendem do outro mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s do outro\u201d (TOMASELLO, 2003, p. 7). Portanto, a teoria da mente \u00e9 essencial para o aprendizado humano porque permite que o conhecimento seja transmitido culturalmente e isso \u00e9 o que nos diferencia dos outros animais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os macacos, apesar de conseguirem inovar e criar solu\u00e7\u00f5es criativas, n\u00e3o possuem a teoria da mente a qual viabiliza uma transmiss\u00e3o social confi\u00e1vel para permitir a preserva\u00e7\u00e3o de sua forma melhorada at\u00e9 que surja uma nova melhoria (TOMASELLO, 2003). Por exemplo, um chimpanz\u00e9 pode criar uma ferramenta para ca\u00e7ar e isso evidencia a exist\u00eancia de um pensamento intencional, planejado. Al\u00e9m disso, algumas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas s\u00e3o aprendidas por imita\u00e7\u00e3o. Entretanto, isso n\u00e3o garante uma transmiss\u00e3o cultural do conhecimento mais t\u00e9cnico da confec\u00e7\u00e3o e do uso, que permita evolu\u00e7\u00e3o cultural-tecnol\u00f3gica no uso de ferramentas por causa do modo de aprendizagem dos macacos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m de permitir a transmiss\u00e3o cultural e o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, a teoria da mente tamb\u00e9m nos permite prever situa\u00e7\u00f5es bem como descrever estados mentais e isso se reflete na l\u00edngua. Por exemplo, quando digo \u201cEu pensei que ele viesse\u201d, o verbo \u201cpensar\u201d, assim como o uso do modo subjuntivo no verbo da ora\u00e7\u00e3o subordinada remete a uma situa\u00e7\u00e3o mental e nos leva \u00e0 conclus\u00e3o de que, na realidade, \u201cele n\u00e3o veio\u201d. Portanto, a rela\u00e7\u00e3o entre linguagem e teoria da mente ocorre logo no in\u00edcio da vida e, ambas se desenvolvem progressivamente. De acordo com De Villiers (2007), a inten\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0 linguagem na medida em que a leitura de, por exemplo, um gesto intencional que aponte para um objeto, contribui para produzir diversos contextos de uso e relacion\u00e1-lo a um nome. Apenas a leitura da dire\u00e7\u00e3o do olhar e de apontamentos intencionais ajudam a delimitar o poss\u00edvel significado de uma palavra assim como encaix\u00e1-la nas categorias sint\u00e1ticas.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1190\" aria-describedby=\"caption-attachment-1190\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/04\/Mind-Reading.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1190 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/04\/Mind-Reading-300x176.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"176\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1190\" class=\"wp-caption-text\">O reconhecimento do funcionamento da mente do outro.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desse modo, com a linguagem \u00e9 poss\u00edvel expressar inten\u00e7\u00f5es (Eu pretendo ser linguista), desejos (Eu quero ser linguista), cren\u00e7as (Eu acredito na lingu\u00edstica) e falsas cren\u00e7as (Ela acredita que entende de lingu\u00edstica, mas n\u00e3o entende). O teste mais conhecido para comprovar a exist\u00eancia da Teoria da Mente chama-se \u201cteste de Sally e Anne\u201d e \u00e9 feito com crian\u00e7as. No processo de teste, ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o de duas bonecas (Anne e Sally), come\u00e7a-se a contar uma hist\u00f3ria em que Sally pega uma bolinha de gude e a esconde em uma cesta. A personagem Sally ent\u00e3o deixa a sala e sai para uma caminhada. Enquanto ela est\u00e1 fora, Anne pega a bolinha da cesta de Sally e coloca em sua pr\u00f3pria caixa. Sally \u00e9 ent\u00e3o reintroduzida e a crian\u00e7a \u00e9 questionada sobre a quest\u00e3o-chave, a quest\u00e3o de cren\u00e7a: &#8220;Onde Sally procurar\u00e1 sua bolinha?\u201d. Se a crian\u00e7a responder \u201cna cesta\u201d, isso mostra que ela entende uma falsa-cren\u00e7a, ou seja,\u00a0 Sally acredita que a bolinha est\u00e1 na cesta pois foi onde ela a deixou, \u00a0essa cren\u00e7a \u00e9 falsa pois a bolinha est\u00e1 na caixa. Esse teste mostra o desenvolvimento da teoria da mente, pois \u00e9 preciso entrar na pele mental\u00a0 da personagem da hist\u00f3ria para entender que quando a personagem n\u00e3o est\u00e1 no ambiante, ela n\u00e3o v\u00ea as mudan\u00e7as e, portanto, vai procurar no \u00faltimo lugar em que viu a bolinha de gude.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em suma,\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">a teoria da mente\u00a0 nos permite passar nossos conhecimentos culturalmente atrav\u00e9s, principalmente, da linguagem, que n\u00e3o serve apenas para comunicar, mas tamb\u00e9m para representar estados mentais (inten\u00e7\u00f5es, desejos e cren\u00e7as) nossos e de nossos co-espec\u00edficos. Portanto,\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">autoconsci\u00eancia humana n\u00e3o se resume \u00e0 esfera individual (saber que existimos), pois est\u00e1 relacionada \u00e0 esfera social (saber que temos uma vida mental assim como os seres da nossa esp\u00e9cie) e, desse modo, nos reconhecermos atrav\u00e9s do outro\u00a0 e isso diferencia a nossa cogni\u00e7\u00e3o da dos outros animais. <\/span><\/p>\n<p><strong>Para saber mais:<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>[1]\u00a0<\/strong> A rea\u00e7\u00e3o de diversos animais ao espelho: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GaMylwohL14\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GaMylwohL14<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>[2]<\/strong> Teste do espelho em elefantes: <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-EjukzL-bJc\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-EjukzL-bJc<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>[3]\u00a0<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">Document\u00e1rio \u201cteoria da mente\u201d DA BBC: <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LK6eep6GQFI&amp;t=113s\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LK6eep6GQFI&amp;t=113s<\/span><\/a><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DE VILLIERS, J. The InterfaceS of Language and Theory of Mind. <\/span><b>Lingua. International review of general linguistics. Revue internationale de linguistique generale<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, v. 117, n. 11, p. 1858\u20131878, nov. 2007. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400\">DE VILLIERS, P. A. (2005). <\/span><b>The Role of Language in Theory-of-Mind Development: What Deaf Children Tell Us<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. In J. W. Astington &amp; J. A. Baird (Eds.),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Why language matters for theory of mind<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0(pp. 266-297). New York, NY, US: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n<p><b>O teste do espelho de Darwin tem algo a ver com a consci\u00eancia?<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/hypescience.com\/teste-do-espelho-pode-nao-ter-nada-a-ver-com-autoconsciencia\/&gt;. Acesso em: 16 abr. 2018. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">TOMASELLO, M. <\/span><b>Origens culturais da aquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento humano<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. [s.l.] Martins Fontes, 2003. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por: Karen Waldemarin Kalil Mestranda em Lingu\u00edstica na Unicamp Ser\u00e1 que seu animal de estima\u00e7\u00e3o sabe que existe? 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