{"id":1352,"date":"2018-08-09T14:09:31","date_gmt":"2018-08-09T14:09:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1352"},"modified":"2021-06-30T16:41:41","modified_gmt":"2021-06-30T16:41:41","slug":"sob-o-encanto-das-metaforas-as-metaforas-influenciam-o-pensamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/08\/09\/sob-o-encanto-das-metaforas-as-metaforas-influenciam-o-pensamento\/","title":{"rendered":"Sob o encanto das met\u00e1foras: as met\u00e1foras influenciam o pensamento?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Por: Josie Helen Siman<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Met\u00e1foras s\u00e3o uma figura de linguagem muito frequente no nosso dia a dia, presente em todos os g\u00eaneros textuais (sim, inclusive em artigos cient\u00edficos de todas as \u00e1reas). Sendo assim, n\u00e3o se trata apenas de uma figura ret\u00f3rica ou po\u00e9tica, um ornamento desnecess\u00e1rio dos textos. As met\u00e1foras s\u00e3o uma forma de compreender e de dizer sobre o mundo e se manifestam de diversas maneiras: na linguagem (atrav\u00e9s de express\u00f5es lingu\u00edsticas), em imagens (filmes, quadrinhos, comerciais), em sons, entre outros. A consist\u00eancia com a qual utilizamos certas met\u00e1foras leva cientistas a proporem que elas s\u00e3o mais do que uma mera figura de linguagem, s\u00e3o uma figura do pensamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cotidianamente, n\u00f3s nos deparamos com diversas met\u00e1foras. Quando dizemos \u201cOs pre\u00e7os <\/span><b>ca\u00edram<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, estamos usamos a met\u00e1fora MENOS \u00c9 PARA BAIXO. E quando dizemos \u201cOs linf\u00f3citos <\/span><b>atacam\/destroem\/defendem <\/b><span style=\"font-weight: 400\">o organismo\u201d, estamos entendendo doen\u00e7as em termos de guerra. At\u00e9 mesmo na express\u00e3o \u201cela est\u00e1 <\/span><b>em<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> crise\u201d h\u00e1 uma met\u00e1fora: estados emocionais (\u201ccrise\u201d) s\u00e3o entendidos em termos de cont\u00eaineres, um espa\u00e7o delimitado onde voc\u00ea pode entrar, estar dentro ou de onde pode sair: \u201cela<\/span><b> saiu <\/b><span style=\"font-weight: 400\">da crise sozinha\u201d. H\u00e1 em todos esses exemplos mapeamentos entre dois dom\u00ednios de conhecimento, de forma que, (geralmente) um dom\u00ednio mais abstrato \u00e9 entendido atrav\u00e9s de um mais concreto.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1353\" aria-describedby=\"caption-attachment-1353\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/08\/sirenes.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1353 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/08\/sirenes-300x248.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"248\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/08\/sirenes-300x248.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/08\/sirenes.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1353\" class=\"wp-caption-text\">Odisseu e as Sirenes (1891), John W. Waterhouse. (&#8230;) com sua voz ela encanta, com sua beleza ela priva de raz\u00e3o\u2026 (Cornelius a Lapide)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde a publica\u00e7\u00e3o da Teoria da Met\u00e1fora Conceptual (Lakoff e Johnson, 1980), discutimos a possibilidade de que as met\u00e1foras influenciem o pensamento das pessoas. Essa possibilidade parece encontrar respaldo nas recentes pesquisas sobre os efeitos de enquadramento metaf\u00f3rico. Ser\u00e1 que voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 sendo influenciado pelas met\u00e1foras, essas criaturas m\u00e1gicas que invadem seu pensamento guiando seu racioc\u00ednio e seu comportamento, essas Sirenes da linguagem?<\/span><\/p>\n<h2>Vamos testar essa hip\u00f3tese!<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um dos experimentos mais conhecidos sobre efeitos de enquadramentos metaf\u00f3ricos (estudos sobre como as met\u00e1foras \u201cmoldam\u201d o pensamento), e que vem recebendo destaque na m\u00eddia, \u00e9 o de Thibodeau e Boroditsky (2011). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os cientistas cognitivos submeteram os participantes de um experimento \u00e0 leitura de dois textos similares, com apenas a altera\u00e7\u00e3o de enquadramentos metaf\u00f3ricos (CRIME \u00c9 UM PREDADOR e CRIME \u00c9 UM V\u00cdRUS). Os autores observaram que os participantes que leram o texto em que crime era descrito como um predador, ao serem perguntados sobre o que fazer em rela\u00e7\u00e3o ao crime, responderam com medidas punitivas para o problema (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ex:<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> colocar criminosos atr\u00e1s das grades), enquanto que aqueles que leram o segundo texto (crime \u00e9 um v\u00edrus) responderam com medidas voltadas para reforma (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ex:<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> encontrar o foco do crime e dar palestras para aquela popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel). Os autores concluem, n\u00e3o sem pol\u00eamicas, que as met\u00e1foras \u201cmoldam\u201d o pensamento. Mas, ser\u00e1 que moldam mesmo?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vejamos outro exemplo: Participantes de um experimento foram expostos ou a um texto com met\u00e1foras de GUERRA contra o c\u00e2ncer ou a um texto neutro (sem as met\u00e1foras). Depois de lerem um desses textos, perguntava-se o que eles pretendiam fazer para <\/span><b>lutar contra <\/b><span style=\"font-weight: 400\">desenvolver c\u00e2ncer (metaf\u00f3rico) ou para <\/span><b>reduzir o risco <\/b><span style=\"font-weight: 400\">de desenvolver c\u00e2ncer (neutro). Os participantes expostos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o com met\u00e1foras de GUERRA escolheram (em uma lista oferecida no experimento) mais medidas proativas (ex: comer mais vegetais) do que medidas auto-limitantes (ex: limitar o consumo de carne) para se prevenir contra o c\u00e2ncer, o que \u00e9 consistente com nossos conhecimentos sobre a GUERRA (isto \u00e9, n\u00f3s tendemos a fazer esfor\u00e7os para lutar contra um inimigo, n\u00e3o a limitar nosso comportamento) (HAUSER; SCHUWARZ, 2014). <\/span><\/p>\n<h2><b>Um pouco de teoria\u2026<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Algumas premissas da Teoria da Met\u00e1fora Conceptual (TMC) apoiam a reivindica\u00e7\u00e3o de que as met\u00e1foras moldam o pensamento. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nas origens da teoria, era proposto que, atrav\u00e9s de uma met\u00e1fora, um dom\u00ednio concreto e estruturado impunha sua estrutura a um outro dom\u00ednio abstrato, sem estrutura pr\u00f3pria, possibilitando desta forma nosso entendimento de algo que sem a met\u00e1fora n\u00e3o poderia ser entendido (nem expresso atrav\u00e9s de palavras). Por exemplo, dizia-se que o dom\u00ednio concreto e estruturado da JORNADA moldava o dom\u00ednio sem estrutura, abstrato, do AMOR (\u201cesse relacionamento <\/span><b>n\u00e3o vai a lugar nenhum<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, \u201c<\/span><b>chegamos a um beco sem sa\u00edda<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d). Posteriormente, foi proposto que ambos dom\u00ednios possu\u00edam estruturas (frames) e que as met\u00e1foras ligavam as duas estruturas \u201cpreservando as rela\u00e7\u00f5es de semelhan\u00e7as entre os dois\u201d, de forma que \u201cviajantes\u201d (no dom\u00ednio da Viagem) era ligado a \u201camantes\u201d (no dom\u00ednio do Amor); \u201cve\u00edculo\u201d era ligado a \u201crelacionamento\u201d, por exemplo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pensando-se nesses termos, era proposto ent\u00e3o que as met\u00e1foras moldavam nosso entendimento, desta forma nos levando a pensar e agir de maneira consistente com a met\u00e1fora (afinal, segundo essa vis\u00e3o, n\u00f3s mal poder\u00edamos entender certas quest\u00f5es sem as estruturas, organiza\u00e7\u00f5es e infer\u00eancias que as met\u00e1foras traziam ou possibilitavam).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, a TMC tentava tratar das met\u00e1foras sem recorrer \u00e0 no\u00e7\u00e3o de analogia, que era uma ideia problem\u00e1tica na \u00e9poca, j\u00e1 que se pensava que as analogias \u201crevelavam\u201d uma semelhan\u00e7a impl\u00edcita e preexistente entre duas coisas. Fugindo do conceito antigo de analogia, uma explica\u00e7\u00e3o alternativa era que as met\u00e1foras seriam baseadas em correla\u00e7\u00f5es entre experi\u00eancias (met\u00e1foras prim\u00e1rias), e essas met\u00e1foras se combinariam para formar sistemas metaf\u00f3ricos maiores (cf. GRADY, 1997; JOHNSON, 2008).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda que essa proposta n\u00e3o deixe de contribuir para explicar certas met\u00e1foras, o conceito de analogia n\u00e3o deve ser descartado, mas revisado (at\u00e9 porque muitas met\u00e1foras, incluindo CRIME \u00c9 UM PREDADOR, n\u00e3o poderiam fazer parte de um sistema conceptual, al\u00e9m de n\u00e3o serem t\u00e3o bem explicadas por correla\u00e7\u00e3o entre experi\u00eancias). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na verdade, as analogias surgem da percep\u00e7\u00e3o (mediada pelo corpo e pela cultura) e dos prop\u00f3sitos comunicativos (o que voc\u00ea quer explicar ou dizer, ou voc\u00ea quer fazer rir? Cada objetivo pode lev\u00e1-lo a escolhas de \u201cve\u00edculos\u201d diferentes para a mesmo \u201ct\u00f3pico\u201d a ser tratado metaforicamente). A semelhan\u00e7a entre as coisas n\u00e3o \u00e9 \u201cdescoberta\u201d pela pessoa; \u00e9 percebida e \u201ccriada\u201d. Mas n\u00e3o de forma completamente arbitr\u00e1ria. \u00c9 o grau de verossimilhan\u00e7a entre o ve\u00edculo metaf\u00f3rico e seu alvo que torna uma met\u00e1fora apta, e \u00e9 sua aptid\u00e3o e utilidade comunicativa que a coloca em circula\u00e7\u00e3o entre falantes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Algumas met\u00e1foras, como as prim\u00e1rias, \u201c<a href=\"https:\/\/www.ted.com\/talks\/lera_boroditsky_how_language_shapes_the_way_we_think\">moldam o pensamento<\/a>\u201d de certa forma, j\u00e1 que ao aprendermos estas, aprendemos tamb\u00e9m uma forma convencional (e algumas vezes \u201c\u00fanica\u201d) de ver o mundo na nossa cultura<\/span><span style=\"font-weight: 400\">. As met\u00e1foras prim\u00e1rias envolvem experi\u00eancias mais b\u00e1sicas, como AFEI\u00c7\u00c3O \u00c9 CALOR (\u201cRecebi um abra\u00e7o <\/span><b>caloroso<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, \u201cEla foi <\/span><b>fria<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> comigo\u201d). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por outro lado, as met\u00e1foras complexas s\u00e3o diferentes, veja s\u00f3: podemos conceptualizar amor como GUERRA, MAGIA, DOEN\u00c7A, JOGO, etc. a depender de cada experi\u00eancia em particular. E tamb\u00e9m podemos rejeitar todas essas met\u00e1foras e ainda falar sobre amor! Imagine uma m\u00e3e que diga para a filha adolescente apaixonada que \u201co amor que voc\u00eas sentem um pelo outro \u00e9 <\/span><b>doentil<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, voc\u00ea acha que a filha ir\u00e1 querer se <\/span><b>curar<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> (\u201cse livrar\u201d) desse amor (um comportamento que demonstraria que ela foi influenciada pela met\u00e1fora) ou ir\u00e1 retrucar dizendo que a m\u00e3e est\u00e1 absolutamente enganada? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando pesquisadores analisam certos problemas culturais, \u00e9 comum encontrarem uma correla\u00e7\u00e3o entre o uso de determinada met\u00e1fora e um comportamento ou pensamento das pessoas consistente com a met\u00e1fora. Um poss\u00edvel problema anal\u00edtico seria pensar que as met\u00e1foras causaram o pensamento e o comportamento (da\u00ed propor que alterar o uso de met\u00e1foras teria um impacto sobre o problema social). H\u00e1 v\u00e1rias palestras sobre isso no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xF-CX9mAHPo\">TED<\/a><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. No entanto, h\u00e1 outras possibilidades anal\u00edticas, como: 1) as condi\u00e7\u00f5es culturais (valores, ideologias, etc.) levam ao uso de certas met\u00e1foras ou 2) as condi\u00e7\u00f5es culturais e os usos de met\u00e1foras se influenciam mutuamente gerando um problema. Sendo assim, n\u00e3o seria o caso de que o uso da met\u00e1fora \u201c<\/span><b>Al\u00edvio<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> dos impostos\u201d pela maldosa direita estaria influenciando a popula\u00e7\u00e3o, levando-a a pensar em impostos como um \u201c<\/span><b>fardo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<a href=\"https:\/\/www.fastcompany.com\/90208548\/this-is-how-tiny-changes-in-words-impacts-the-way-you-think\">como afirma Lakoff<\/a><\/span><span style=\"font-weight: 400\">); pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o fato de muitas pessoas na popula\u00e7\u00e3o (por raz\u00f5es hist\u00f3ricas e pessoais) j\u00e1 detestarem pagar impostos que os tornam propensos a julgar a met\u00e1fora \u201cAl\u00edvio de impostos\u201d como pertinente para o que eles j\u00e1 pensam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste ponto, j\u00e1 temos uma ideia de que a rela\u00e7\u00e3o entre as met\u00e1foras, os indiv\u00edduos e a cultura n\u00e3o \u00e9 trivial. As met\u00e1foras n\u00e3o influenciam o pensamento de forma independente dos conhecimentos e cren\u00e7as das pessoas, mas \u00e9 poss\u00edvel que haja condi\u00e7\u00f5es em que certas met\u00e1foras complexas possam moldar o pensamento, sendo uma delas aquela em que uma pessoa n\u00e3o tem experi\u00eancias pr\u00e9vias sobre o t\u00f3pico ao qual a met\u00e1fora remete (e considerando-se que o enunciador da met\u00e1fora \u00e9 confi\u00e1vel). Por exemplo, se um pol\u00edtico supostamente confi\u00e1vel disser para a popula\u00e7\u00e3o que a negocia\u00e7\u00e3o com certo pa\u00eds est\u00e1 sendo uma <\/span><b>guerra <\/b><span style=\"font-weight: 400\">(NEGOCIA\u00c7\u00c3O \u00c9 GUERRA), e considerando que essa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha outros meios para obter outras informa\u00e7\u00f5es sobre esse assunto, \u00e9 muito poss\u00edvel que tal popula\u00e7\u00e3o acredite que trata-se de uma negocia\u00e7\u00e3o <\/span><b>dif\u00edcil e cheia de disc\u00f3rdias\/confrontos<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, que esse pa\u00eds em quest\u00e3o seja um <\/span><b>inimigo<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, etc (infer\u00eancias plaus\u00edveis e compat\u00edveis com a met\u00e1fora usada). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As met\u00e1foras podem ser (em alguns casos) uma fonte de conhecimento anal\u00f3gico: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a ess\u00eancia das met\u00e1foras \u00e9 compreender [&#8230;] uma coisa em termos de outra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, afirmam Lakoff e Johnson (1980). Gentner e Gentner, em 1983, j\u00e1 tinham um experimento sobre isso. No entanto, o que os novos experimentos sobre efeitos de enquadramento metaf\u00f3rico reivindicam (em alguns casos) n\u00e3o \u00e9 que as met\u00e1foras s\u00e3o \u00fateis para o pensamento anal\u00f3gico, ou que s\u00e3o did\u00e1ticas ou que transmitem informa\u00e7\u00f5es. Mas que as met\u00e1foras moldam o pensamento das pessoas, mesmo sem elas saberem disso, e levam-nas a pensar e potencialmente a agir de maneiras consistentes com as met\u00e1foras. Se este for o caso, as met\u00e1foras seriam uma arma na m\u00e3o de pol\u00edticos e marqueteiros, que poderiam us\u00e1-las para manipular a popula\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste ponto j\u00e1 podemos fazer uma s\u00e9rie de perguntas: Quais met\u00e1foras podem influenciar o pensamento? As met\u00e1foras influenciam o pensamento de quais pessoas (especialistas? n\u00e3o especialistas?)? E por quanto tempo (at\u00e9 que a pessoa encontre uma nova met\u00e1fora? por algumas semanas? para sempre?)? Quem pode influenciar pessoas com met\u00e1foras (qualquer um? uma pessoa\/entidade socialmente reconhecida?)?<\/span><\/p>\n<h2><b>O que pode estar errado no experimento sobre o crime (e outro similares)\u00a0<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Agora voltemos ao caso dos efeitos de enquadramento metaf\u00f3rico. H\u00e1 v\u00e1rios potenciais problemas com o experimento em quest\u00e3o (Thibodeau e Boroditsky, 2011). N\u00e3o \u00e9 simplesmente o caso de dizer que h\u00e1 um erro nos experimentos, mas sim que h\u00e1 uma discrep\u00e2ncia entre o que \u00e9 feito e as conclus\u00f5es a que se pode chegar sobre como a cogni\u00e7\u00e3o funciona.<\/span><\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Primeiro, os participantes n\u00e3o t\u00eam nada a perder em rela\u00e7\u00e3o a que tipo de resposta d\u00e3o ao teste. Eles podem estar apenas \u201cjogando o jogo\u201d e respondendo de acordo com as poucas informa\u00e7\u00f5es que o texto oferece, sendo que a principal informa\u00e7\u00e3o vem da met\u00e1fora em quest\u00e3o. Na vida real, eles poderiam pensar: \u201cpreciso saber mais sobre esse assunto antes de chegar a qualquer conclus\u00e3o sobre o que deve ser feito em rela\u00e7\u00e3o a esse crime em particular\u201d, ou eles poderiam checar se essa descri\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica do crime na cidade X \u00e9 compat\u00edvel com como eles percebem a realidade do crime naquele lugar.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Pode ser o caso de que em geral poucas pessoas na popula\u00e7\u00e3o tenham uma convic\u00e7\u00e3o de que crimes devam ser resolvidos com puni\u00e7\u00f5es e outras poucas tenham a convic\u00e7\u00e3o de que os crimes devam ser resolvidos por medidas preventivas. No geral, pode ser que as pessoas entendam que essa \u00e9 uma quest\u00e3o complicada e que casos diferentes pedem medidas diferentes. Se os crimes s\u00e3o graves demais e abjetos, coloquem os criminosos atr\u00e1s das grades; se s\u00e3o crimes \u201ccorriqueiros\u201d: palestras sobre preven\u00e7\u00e3o contra o crime. Como os textos dos experimentos n\u00e3o trazem informa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas sobre o tipo de crime, na\u00a0falta de informa\u00e7\u00f5es, as pessoas respondem ao experimento de acordo com as sugest\u00f5es das met\u00e1foras em quest\u00e3o. \u00a0<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">De maneira similar, pense no experimento sobre a preven\u00e7\u00e3o contra o c\u00e2ncer: para al\u00e9m de v\u00e1rios problemas te\u00f3ricos que poder\u00edamos apontar, h\u00e1 este: quantas vezes que uma pessoa, na vida real, toma sua decis\u00e3o quanto \u00e0 preven\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer imediatamente ap\u00f3s ter lido um texto sobre c\u00e2ncer com met\u00e1foras de guerra (em oposi\u00e7\u00e3o a esquecer o leu no texto, e ouvir seu m\u00e9dico, seus amigos, seus vizinhos, ou mesmo, a fazer simplesmente o que lhe for mais f\u00e1cil e conveniente)? <\/span><\/li>\n<\/ol>\n<h2><b>E agora?\u00a0<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vamos pensar mais um pouco. Na primeira ora\u00e7\u00e3o deste artigo, falamos que as met\u00e1foras s\u00e3o muito frequentes no dia a dia. Ali\u00e1s, cotidianamente, n\u00f3s nos deparamos com met\u00e1foras diferentes e que se contradizem entre si. N\u00e3o \u00e9 estranho, ent\u00e3o, que os experimentos nos digam que as met\u00e1foras \u201cmoldam\u201d o pensamento das pessoas? Uma afirma\u00e7\u00e3o dessas, quando pensamos nos contextos reais das pessoas, n\u00e3o parece um pouco suspeita?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">At\u00e9 agora, podemos afirmar que as pessoas s\u00e3o capazes de partir das met\u00e1foras para pensar analogicamente e resolver problemas como aqueles colocados pelos experimentos; elas sabem se pautar nas met\u00e1foras para fazer infer\u00eancias metaforicamente consistentes. E h\u00e1 um ind\u00edcio de que as met\u00e1foras possam influenciar o pensamento a depender do contexto e do tipo de tarefa (ex: leitura atenciosa de um texto versus leitura r\u00e1pida) (ver GIBBS, 2017). Mas, porque o uso da linguagem pode sofrer interfer\u00eancias de uma s\u00e9rie outros fen\u00f4menos de ordem cognitiva, experimentos que fazem uso de informa\u00e7\u00f5es complexas (como textos e senten\u00e7as semanticamente complexas) tendem a ser menos confi\u00e1veis e seus resultados, pass\u00edveis de explica\u00e7\u00f5es alternativas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os experimentos citados aqui s\u00e3o no m\u00e1ximo uma vers\u00e3o \u201cplaca de Petri\u201d de como as met\u00e1foras funcionam. Ainda precisamos realizar outros experimentos para ter certeza de que as met\u00e1foras influenciam o pensamento (e de quais pessoas, por quanto tempo, etc.). \u00c9 poss\u00edvel que as met\u00e1foras cotidianas n\u00e3o influenciem o pensamento de maneira direta (como mostram os experimentos), mas que influenciem de maneira um pouco mais indireta (atrav\u00e9s de val\u00eancias negativas ou positivas, por exemplo). Ou, ainda, talvez realmente seja o caso de que as met\u00e1foras influenciem o pensamento das pessoas\u2026 mas s\u00f3 quando elas n\u00e3o t\u00eam conhecimentos nem cren\u00e7as pr\u00e9vias sobre o assunto tratado pelas met\u00e1foras. Delimitar esses efeitos de enquadramentos metaf\u00f3ricos com parcim\u00f4nia e sofistica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 uma quest\u00e3o para experimentos futuros. <\/span><\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>1- A TMC n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica teoria sobre met\u00e1foras. H\u00e1 v\u00e1rias outras. 2- H\u00e1 quem acredite que as met\u00e1foras influenciam o pensamento. H\u00e1 aqueles que repudiam essa ideia. E h\u00e1 todos os outros tipos poss\u00edveis entre os dois extremos. 3- Esta breve introdu\u00e7\u00e3o ao tema n\u00e3o faz jus a tudo o que j\u00e1 foi discutido, mas alegrem-se, h\u00e1 mais textos por vir!<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><b>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/11\/ciencia\/1523440058_896528.html<\/span><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"pzFsjcPbBL\"><p><a href=\"https:\/\/www.stuartmcmillen.com\/comic\/metaphors\/\">Metaphors<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Metaphors&#8221; &#8212; \" src=\"https:\/\/www.stuartmcmillen.com\/comic\/metaphors\/embed\/#?secret=PYuGE5v91Y#?secret=pzFsjcPbBL\" data-secret=\"pzFsjcPbBL\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias:\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BOWDLE, B. F; GENTNER, D. The career of metaphor. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Psychological Review<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. V. 112. No.1. 2005. P.193-216.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GENTNER, D.; GENTNER, D. Flowing waters and teeming crowds: mental models of electricity. In: Gentner D, Stevens A, editors. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mental Models<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers. 1983.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GIBBS-JR, R. W. Metaphor Wars: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Conceptual Metaphors in Human Life<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Cambridge: Cambridge University Press. 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">GRADY, J. E. Foundations of Meaning: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Primary Metaphors and Primary Scenes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tese (Doutorado em Lingu\u00edstica). University of California, Berkeley. 1997.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">HAUSER, D.; SCHWARZ, N. \u00a0\u2018The war on prevention: Bellicose cancer metaphors hurt (some) prevention intentions,\u2019 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Personality and Social Psychology Bulletin<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.41\/1: 2015. P. 66\u201377. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">JONHSON, M. Philosophy\u2019s debt to metaphors. In: (Ed) GIBBS-JR, R. W. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Cambridge Handbook of Metaphor and Thought.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Cambridge: Cambridge University Press. 2008. P. 39-52.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">LAKOFF, G.; JOHNSON, M. (1980). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Met\u00e1foras da vida cotidiana<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Campinas: Mercado das Letras, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">THIBODEAU, P.; BORODITSKY, L. Metaphors We Think With: The Role of Metaphor in Reasoning. 2011. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0016782\"><b>http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0016782<\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, acesso em agosto de 2018. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por: Josie Helen Siman Met\u00e1foras s\u00e3o uma figura de linguagem muito frequente no nosso dia a dia, presente em todos os g\u00eaneros textuais (sim, inclusive <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/08\/09\/sob-o-encanto-das-metaforas-as-metaforas-influenciam-o-pensamento\/\" title=\"Sob o encanto das met\u00e1foras: as met\u00e1foras influenciam o pensamento?\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":322,"featured_media":1353,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[240,238,239,28,237],"class_list":["post-1352","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem-e-mente","tag-cognicao","tag-frames","tag-lakoff","tag-mente","tag-metaforas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/322"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1352"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1352\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2180,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1352\/revisions\/2180"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}