{"id":1432,"date":"2018-11-12T00:56:48","date_gmt":"2018-11-12T00:56:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1432"},"modified":"2021-06-30T16:39:57","modified_gmt":"2021-06-30T16:39:57","slug":"deu-bafao-a-polemica-sobre-a-questao-do-enem-em-relacao-ao-dialeto-secreto-de-gays-e-travestis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/11\/12\/deu-bafao-a-polemica-sobre-a-questao-do-enem-em-relacao-ao-dialeto-secreto-de-gays-e-travestis\/","title":{"rendered":"Deu baf\u00e3o! A pol\u00eamica sobre a quest\u00e3o do Enem em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cdialeto secreto\u201d de gays e travestis."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Por: Jonathan Moura (UFRJ)<\/strong><\/p>\n<p>No domingo, dia 04\/11\/2018, aproximadamente, 5,5 milh\u00f5es de candidatos foram fazer a prova do <a href=\"https:\/\/enem.inep.gov.br\/\">Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (ENEM)<\/a>. Entre v\u00e1rias quest\u00f5es de Linguagens, Ci\u00eancias Humanas (totalizando 90 quest\u00f5es) e a Reda\u00e7\u00e3o, houve algumas pol\u00eamicas, entre elas, a quest\u00e3o sobre o pajub\u00e1, o dito \u201cdialeto secreto\u201d de gays e travestis. Mas o que h\u00e1 de pol\u00eamico na quest\u00e3o? O que causou alvoro\u00e7o nas redes sociais p\u00f3s prova?<\/p>\n<h4>Um pouco de Sociolingu\u00edstica<\/h4>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que estudos lingu\u00edsticos provam sobre a heterogeneidade constitutiva das l\u00ednguas naturais. Podemos citar os exemplos do ingl\u00eas: o brit\u00e2nico e o estadunidense; do espanhol: o europeu e o argentino; o portugu\u00eas: o europeu e o brasileiro. O precursor da sociolingu\u00edstica, <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/William_Labov\">William Labov<\/a>, apontou essa caracter\u00edstica heterog\u00eanea das l\u00ednguas em diversos estudos que ele fez. Um dos mais famosos foi o de uma comunidade de pessoas negras no Harlem, bairro de Nova Iorque, nos Estados Unidos, em que ele tentou entender se o dialeto falado por essa comunidade afetava o processo de aprendizagem de leitura das crian\u00e7as de tal comunidade. Resumindo bastante e n\u00e3o deixando de lado o processo hist\u00f3rico dos Estados Unidos entre brancos e negros, em que os \u00faltimos eram constitucionalmente marginalizados, Labov fundou a sociolingu\u00edstica e provou por A mais B a heterogeneidade do ingl\u00eas estadunidense.<\/p>\n<p>Saindo dos Estados Unidos e voltando ao Brasil, podemos perceber uma guinada do ensino de L\u00edngua Portuguesa nos Par\u00e2metros Curriculares Nacionais, da d\u00e9cada de 90; e nas Orienta\u00e7\u00f5es Curriculares para Ensino M\u00e9dio nos anos 2000, em que a quest\u00e3o da variedade lingu\u00edstica e da adequa\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica atravessam os documentos quase do in\u00edcio ao fim. Focando no Ensino M\u00e9dio, geralmente no 1\u00ba ano, a ementa das escolas coloca para ensinar varia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica. Fala-se das diferen\u00e7as de pron\u00fancia entre sudeste e sul, entre sudeste e nordeste, \u00e0s vezes, dependendo da forma\u00e7\u00e3o do professor, discute-se sobre os falares do pr\u00f3prio estado. Essas variantes v\u00e3o da fonologia, passando pela morfologia, sintaxe, sem\u00e2ntica, l\u00e9xico, pros\u00f3dia, chegando ao discurso. Enfim, \u00e9 uma tema riqu\u00edssimo, que, quase sempre, o professor n\u00e3o consegue explorar tudo de t\u00e3o rico que \u00e9.<\/p>\n<h4>De volta a quest\u00e3o<\/h4>\n<p>Chegando at\u00e9 aqui, voc\u00ea deve estar se perguntando: \u201cOk! Mas e a pol\u00eamica da quest\u00e3o do Enem?\u201d. Ent\u00e3o&#8230; depois de tudo isso escrito acima, acho que conseguimos perceber que as l\u00ednguas s\u00e3o vari\u00e1veis e que <a href=\"http:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/scicast\/scicast-248\/\">variam no espa\u00e7o, no tempo e entre os sujeitos<\/a>. N\u00e3o precisamos pensar muito para adequarmos o nosso falar dependendo da circunst\u00e2ncia, das pessoas, da faixa et\u00e1ria, etc. E a quest\u00e3o sobre o \u201cdialeto secreto\u201d \u00e9 justamente sobre isso: adequa\u00e7\u00e3o, contexto, comunidade de fala. Se fosse uma quest\u00e3o sobre o dialeto dos skatistas, dos surfistas ou dos m\u00e9dicos, teria toda essa pol\u00eamica?<\/p>\n<p>Aq\u00fcenda a munganga deles&#8230;<\/p>\n<p>Confesso que quando li a quest\u00e3o fiquei feliz, embora tenha visto alguns problemas inicialmente. Acho que o primeiro deles foi o apagamento da l\u00edngua Tupi que tamb\u00e9m constitui o pajub\u00e1. Se recorrermos ao <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Aur%C3%A9lia_(dicion%C3%A1rio)\">Aur\u00e9lia<\/a>, podemos perceber no verbete que define o que \u00e9 essa l\u00edngua:<\/p>\n<blockquote><p>Bajub\u00e1 \u2013 S.m. Baseado nas l\u00ednguas africanas empregadas pelo candombl\u00e9, \u00e9 a linguagem praticada pelos travestis e posteriormente estendida a todo universo gay. O bajub\u00e1 falado emprega uma mistura lexical (do pr\u00f3prio bajub\u00e1, do portugu\u00eas e, em menor grau, do tupi) sobre a base gramatical e fonol\u00f3gica da l\u00edngua portuguesa. [var.: pajub\u00e1].<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/11\/aurelia_min_cfda-2732595.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1434 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/11\/aurelia_min_cfda-2732595.jpg\" alt=\"\" width=\"312\" height=\"548\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/11\/aurelia_min_cfda-2732595.jpg 312w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/11\/aurelia_min_cfda-2732595-171x300.jpg 171w\" sizes=\"(max-width: 312px) 100vw, 312px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Importante ressaltar que j\u00e1 na defini\u00e7\u00e3o os autores apontam que o Tupi est\u00e1 presente em menor grau, mas est\u00e1! Isso mostra que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 influenciado pelo Yorub\u00e1. Outro aspecto que me incomodou na quest\u00e3o do Enem foi o silenciamento dos outros sujeitos que tamb\u00e9m constituem a comunidade: os bissexuais e as l\u00e9sbicas. Esse \u201cdialeto\u201d tamb\u00e9m \u00e9 deles. Como pode colocar s\u00f3 gays e travestis? Por\u00e9m, de uma maneira geral, fiquei feliz porque deu visibilidade a comunidade que foi\/\u00e9 marginalizada durante muitos anos, ainda mais em uma prova nacional em que a maior parcela que faz s\u00e3o jovens os quais precisam lidar com a diversidade o tempo todo seja ela de qualquer natureza.<\/p>\n<p>Ao entrar nas redes sociais, percebi que a pol\u00eamica n\u00e3o era sobre o silenciamento das l\u00ednguas ind\u00edgenas ou dos outros sujeitos que integram a comunidade LGBT (L\u00e9sbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transg\u00eaneros), mas sim porque candidatos estavam indignados por acharem que deveriam \u201csaber\u201d sobre \u201co falar dos gays\u201d. Li novamente a quest\u00e3o do Enem e percebi que o candidato poderia respond\u00ea-la sem nunca ter ouvido algu\u00e9m falando o pajub\u00e1 na sua frente, sem ter amigos que perten\u00e7am a comunidade LGBT. Era uma quest\u00e3o sobre varia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica e n\u00e3o sobre voc\u00ea saber\/conhecer sobre \u201co dialeto gay\u201d.<\/p>\n<p>Desaq\u00fcenda que os alib\u00e3s est\u00e3o vindo&#8230; para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de cores.<\/p>\n<h4>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/h4>\n<p>Essa pol\u00eamica toda sobre a quest\u00e3o do Enem nos faz apontar algumas coisas: 1) A ideia de homogeneidade lingu\u00edstica pode vir a ficar forte dependendo de como se estruture o pr\u00f3ximo governo. 2) Lamentavelmente, o Brasil \u00e9 um pa\u00eds muito LGBTf\u00f3bico. Como pode uma simples quest\u00e3o causar todo esse alvoro\u00e7o e at\u00e9 pronunciamento do presidente eleito dizendo que vai fiscalizar a prova do Enem? 3) Um dos deveres dos linguistas \u00e9 resistir a essa onda homogeneizadora e sempre apontar que essa homogeneidade \u00e9 uma fal\u00e1cia sem fim.<br \/>\nPor fim, enquanto linguistas, devemos cada vez mais nos debru\u00e7ar sobre estudos de comunidades clivadas de direitos ao longo da hist\u00f3ria da humanidade: os LGBTs, as mulheres, os negros, os deficientes f\u00edsicos e mentais, os ind\u00edgenas, os pobres. Podemos colocar no centro do debate pessoas que sofrem com a marginaliza\u00e7\u00e3o h\u00e1 anos e ainda continuam sofrendo. Somos v\u00e1rios e temos muitas cores (parafraseando a bandeira do movimento LGBT, um arco-\u00edris) &#8230; Se o movimento do \u201cNingu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d persistir, encararemos essa onda e passaremos por esse momento dif\u00edcil sem perder a nossa diversidade.<\/p>\n<h4>Vocabul\u00e1rio<\/h4>\n<p>Deu baf\u00e3o: Aconteceu uma confus\u00e3o<br \/>\nAq\u00fcendar: Olhar<br \/>\nMunganga: Caras e Bocas<br \/>\nDesaq\u00fcenda: Dispersar, esquecer<br \/>\nAlib\u00e3: policial<\/p>\n<h4>Refer\u00eancias:<\/h4>\n<p>BAGNO, M. Preconceito Lingu\u00edstico. S\u00e3o Paulo, SP. Ed: Par\u00e1bola. 56\u00aa Edi\u00e7\u00e3o. Ano 2015.<br \/>\nFOUCAULT, M. Hist\u00f3ria da Sexualidade- O uso dos prazeres. Rio de Janeiro, RJ. Ed:Graal. 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Ano [1984] 1988.<br \/>\n_____. A Ordem do Discurso. Aula Inaugural no Coll\u00e8ge de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Ed:Loyola. 21\u00aa ed, S\u00e3o Paulo, SP. Ano [1970] 2011.<br \/>\nGADET, F. &amp; P\u00caCHEUX, M. O real da l\u00edngua \u00e9 o imposs\u00edvel. IN: A l\u00edngua inating\u00edvel: o discurso na hist\u00f3ria da Lingu\u00edstica. Capinas, SP. Ed: Pontes. Ano [1981] 2004.<br \/>\nGUIMAR\u00c3ES, E. L\u00ednguas do Brasil. Ci\u00eancia e Cultura (Temas e Tend\u00eancia). S\u00e3o Paulo, SP. N\u00famero 2. Vol 57. Pags-39-42. Ano 2005.<br \/>\nGUIMAR\u00c3ES, E. &amp; ORLANDI, E. P. Identidade Lingu\u00edstica. IN: L\u00edngua e Cidadania: O Portugu\u00eas no Brasil. Campinas, SP. Ed. Pontes. Ano 1996.<br \/>\nLABOV, W. O estudo da l\u00edngua em seu contexto social. In: Padr\u00f5es sociolingu\u00edsticos. S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bola. P. 215-299. Ano [1972] 2008.<br \/>\nLIBI, F. &amp; VIP, A. Aur\u00e9lia, a dicion\u00e1ria da l\u00edngua afiada. S\u00e3o Paulo, SP. Ed. Bispo. Ano 2006.<br \/>\nMOLLICA, M. C. &amp; BRAGA, M. L. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Sociolingu\u00edstica \u2013 o tratamento da varia\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, SP. Ed: Contexto. 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Ano 2012.<br \/>\nMOURA, J. R. F. Da Sombra \u00e0s Cores: an\u00e1lise discursiva do dicion\u00e1rio LGBTs Aur\u00e9lia. Tese de doutorado defendida no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ano 2018.<br \/>\nORLANDI, E. P. A Linguagem e seu Funcionamento: As Formas do Discurso. S\u00e3o Paulo, SP. Ed: Brasiliense. Ano 1983.<br \/>\n______. Terra \u00e0 vista \u2014 Discurso do confronto: velho e novo mundo. S\u00e3o Paulo, SP. Ed: Cortez. Ano 1990.<br \/>\n________. Ser diferente \u00e9 ser diferente: a quem interessam as minorias?. In: Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi. (Org.). Linguagem, Sociedade, Pol\u00edticas. 1ed.Campinas: RG v. 1, p. 29-38. Ano 2014.<br \/>\n______. Eu, tu, ele \u2013 Discurso e real da hist\u00f3ria. Campinas, SP. Ed: Pontes. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Ano 2017.<br \/>\nSOUZA, T.C.C. de. 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