{"id":1448,"date":"2018-12-02T03:46:05","date_gmt":"2018-12-02T03:46:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1448"},"modified":"2021-06-30T16:38:55","modified_gmt":"2021-06-30T16:38:55","slug":"em-que-lingua-as-pessoas-surdas-pensam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/12\/02\/em-que-lingua-as-pessoas-surdas-pensam\/","title":{"rendered":"Em que l\u00edngua as pessoas surdas pensam?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Por: Giovanna Rizzo Fonseca<\/strong><br \/>\nMestranda em Lingu\u00edstica na Unicamp<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 se fez essa pergunta? \u00c9 uma indaga\u00e7\u00e3o comum e antiga que hoje se encontra por a\u00ed circulando em forma de meme.<\/p>\n<p>Pra variar, n\u00e3o existe uma resposta simples. Mas algumas coisas sendo estudadas e debatidas na lingu\u00edstica e suas interfaces parecem nos ajudar a refletir sobre poss\u00edveis respostas. Esse post \u00e9 sobre essas coisas. Vamos passar pela psicologia especulativa, falar sobre a voz na sua cabe\u00e7a, esclarecer algumas coisas sobre surdez e l\u00ednguas que n\u00e3o se baseiam em sons, e esbarrar em estudos que medem a atividade el\u00e9trica nos m\u00fasculos (eletromiografia).<\/p>\n<p>Pra come\u00e7ar, boa parte da incerteza envolvendo a quest\u00e3o vem de um debate que coloca em d\u00favida inclusive em que l\u00edngua VOC\u00ca, ouvinte curioso, pensa. Nosso primeiro t\u00f3pico \u00e9 sobre uma contenda mais geral que tenta definir qual \u00e9 a l\u00edngua do pensamento \u2013 do pensamento de qualquer ser humano, surdo ou n\u00e3o:<\/p>\n<h4>1. Mental\u00eas vs. L\u00ednguas naturais<\/h4>\n<p>Talvez voc\u00ea esteja pensando: \u201cU\u00e9, mas eu sei que eu penso em portugu\u00eas (ou em ingl\u00eas, em espanhol, em japon\u00eas ou em seja l\u00e1 qual for a sua primeira l\u00edngua)!\u201d.<br \/>\nNesse caso voc\u00ea est\u00e1 se colocando do lado de quem defende que a l\u00edngua do pensamento \u00e9 uma l\u00edngua natural, como o neerland\u00eas, o coreano, o franc\u00eas, o apinaj\u00e9 e etc.<\/p>\n<p>O outro lado da discuss\u00e3o defende que a forma do pensamento humano \u00e9 o mental\u00eas, uma l\u00edngua inata e n\u00e3o-consciente, isto \u00e9, uma l\u00edngua que n\u00e3o precisamos adquirir atrav\u00e9s da experi\u00eancia e da qual n\u00e3o temos acesso pela reflex\u00e3o consciente (ou introspec\u00e7\u00e3o). Segundo essa proposta, um pensamento sempre teria a forma do mental\u00eas, sendo \u201ctraduzido\u201d para uma l\u00edngua natural quando viesse a consci\u00eancia (para ser proferido em voz alta ou n\u00e3o). Assim, ao ler esse texto seu c\u00e9rebro estaria, sem voc\u00ea saber, traduzindo senten\u00e7a por senten\u00e7a do portugu\u00eas para o mental\u00eas \u2013 a l\u00edngua \u201cdos bastidores\u201d na qual a sua mente realmente opera.<\/p>\n<p>Pode parecer um pouco absurdo a princ\u00edpio, mas pensar em um paralelo com computadores ajuda a enxergar a possibilidade do mental\u00eas: assim como um computador, dispor\u00edamos de uma l\u00edngua mais profunda (como as linguagens de programa\u00e7\u00e3o, interpret\u00e1veis pelo sistema) que pudesse gerar frases em uma l\u00edngua natural \u2013 processo semelhante ao que o computador realiza para exibir estas palavras em sua tela. Da mesma forma, um computador recebe inputs externos e os converte a uma representa\u00e7\u00e3o na sua linguagem interna, assim como far\u00edamos ao receber est\u00edmulos em l\u00edngua natural e traduzi-los para o mental\u00eas, de modo que pudessem ser computados pelo c\u00e9rebro.<br \/>\nToda essa transla\u00e7\u00e3o mental\u00eas-l\u00edngua natural, l\u00edngua natural-mental\u00eas parece um pouco trabalhosa, n\u00e3o? Bem, essa \u00e9 uma das queixas contra a hip\u00f3tese do mental\u00eas. Por que motivo despender\u00edamos tanta energia e recursos nessas intermin\u00e1veis tarefas de tradu\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de fazer tudo apenas com as l\u00ednguas naturais?<\/p>\n<h4>1.1 O Mental\u00eas como l\u00edngua do pensamento<\/h4>\n<p>Por outro lado, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Steven_Pinker\">Steven Pinker<\/a>, psic\u00f3logo e cientista cognitivo defensor da hip\u00f3tese do mental\u00eas, apresenta alguns argumentos interessantes a favor de uma l\u00edngua profunda do pensamento. O mental\u00eas daria conta de explicar os momentos em que temos uma informa\u00e7\u00e3o \u201cna ponta da l\u00edngua\u201d, mas n\u00e3o conseguimos diz\u00ea-la; os momentos em que n\u00e3o encontramos palavras para falar de algo e temos dificuldade de nos expressar; e as ocasi\u00f5es em que uma nova palavra surge para dar conta de uma ideia j\u00e1 existente, mas que ainda n\u00e3o tinha nome. Essas seriam situa\u00e7\u00f5es em que ter\u00edamos j\u00e1 formulados pensamentos (em mental\u00eas), mas n\u00e3o suas vers\u00f5es em l\u00edngua natural. Al\u00e9m disso, o pensamento n\u00e3o ter fundamentalmente forma de l\u00edngua natural explicaria o fato de seres que n\u00e3o possuem ou ainda n\u00e3o adquiriram linguagem, como crian\u00e7as e animais, tamb\u00e9m disporem de pensamento.<\/p>\n<p>Ao que os defensores das l\u00ednguas naturais como l\u00edngua do pensamento retrucam: a dificuldade de expressar um pensamento pode n\u00e3o estar na sua \u201ctradu\u00e7\u00e3o\u201d para uma l\u00edngua natural, mas sim na pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o do pensamento. E n\u00e3o h\u00e1 palavras (novas ou n\u00e3o) que n\u00e3o possam ser expressadas por meio de outras j\u00e1 existentes, de forma que novas palavras n\u00e3o surgem para \u201cdar conta\u201d de um pensamento, mas por motivos externos. E, apesar de n\u00e3o podermos negar que crian\u00e7as e animais s\u00e3o capazes de pensamento mesmo sem possu\u00edrem uma l\u00edngua, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 como negar que h\u00e1 grandes diferen\u00e7as entre o pensamento e a cogni\u00e7\u00e3o daqueles que disp\u00f5em de l\u00edngua e daqueles que n\u00e3o disp\u00f5em, e talvez o pensamento da forma que n\u00f3s, seres falantes, conhecemos s\u00f3 seja poss\u00edvel pela linguagem, pois essas duas coisas s\u00e3o largamente coincidentes.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o \u00e9 longa e provavelmente vai continuar sem resposta definitiva por um tempo. At\u00e9 que desenvolvamos um meio de acessar a l\u00edngua do pensamento no c\u00e9rebro humano, a quest\u00e3o se circunscrever\u00e1 no campo da psicologia especulativa (como o propositor do mental\u00eas, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jerry_Fodor\">Jerry Fodor<\/a>, j\u00e1 afirmou) e tudo que podemos fazer \u00e9, bom&#8230; especular.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora parece que n\u00e3o falamos de surdos (na verdade falamos sim, mais sobre isso daqui a pouco) e n\u00e3o conseguimos responder nada!<\/p>\n<p>Deixemos a discuss\u00e3o do mental\u00eas um pouco de lado. A pergunta do nosso velociraptor filos\u00f3fico parece n\u00e3o estar preocupada com o mental\u00eas. Ela j\u00e1 assume o papel importante das l\u00ednguas naturais como a forma dos pensamentos (nossos ou alheios) a que temos acesso, assim como as duas hip\u00f3teses da contenda que acabamos de discutir. Isto \u00e9, a indaga\u00e7\u00e3o parece ser mais sobre o que chamamos de \u201ca voz nas nossas cabe\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Sabemos por introspec\u00e7\u00e3o que l\u00edngua fala nossa voz interna. L\u00edngua essa que coincide com nossa l\u00edngua dominante. E qual seria a l\u00edngua da \u201cvoz na cabe\u00e7a\u201d de surdos? Essa pergunta \u00e9 muito mais f\u00e1cil de responder: por analogia, provavelmente \u00e9 a l\u00edngua dominante do surdo em quest\u00e3o. E essa \u00e9 a minha deixa para falar sobre l\u00ednguas de sinais.<\/p>\n<h4>2. L\u00ednguas de sinais e modalidades de l\u00ednguas<\/h4>\n<p>Vamos come\u00e7ar estabelecendo que l\u00ednguas de sinais s\u00e3o l\u00ednguas naturais como o portugu\u00eas, o franc\u00eas, o sua\u00edli ou qualquer outra. N\u00e3o s\u00e3o gestos, n\u00e3o s\u00e3o m\u00edmica, n\u00e3o s\u00e3o c\u00f3digos. S\u00e3o sistemas complexos de signos capazes de gerar infinitas senten\u00e7as sobre qualquer tipo de referente \u2013 abstrato, ficcional, passado, futuro, imposs\u00edvel, etc, <a href=\"http:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-345\/\">como qualquer outra l\u00edngua natural<\/a>. N\u00e3o se tratam de l\u00ednguas artificiais, inventadas; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8jTWD1IrBFA\">s\u00e3o l\u00ednguas que surgem naturalmente em comunidades de surdos<\/a>, assim como l\u00ednguas baseadas em sons surgem e se desenvolvem naturalmente em comunidade de ouvintes. (Vale mencionar o caso famoso da l\u00edngua de sinais da Nicar\u00e1gua, que surgiu recentemente e tem dado a linguistas a oportunidade de estudar o surgimento (natural!) de uma nova l\u00edngua. Mais sobre isso no v\u00eddeo abaixo).<\/p>\n<p><iframe title=\"O nascimento de uma nova l\u00edngua de sinais em Nicar\u00e1gua (legendada)\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8jTWD1IrBFA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre uma l\u00edngua como o portugu\u00eas e uma l\u00edngua como a L\u00edngua Brasileira de Sinais (LIBRAS) que nos fazem pensar (erroneamente) que elas se tratam de sistemas fundamentalmente diferentes est\u00e3o todas ligadas ao fato de a primeira ser da modalidade oral-auditiva e a segunda da modalidade visual-motora. Mas ambas s\u00e3o abarcadas pelo conceito de l\u00edngua por compartilharem das propriedades fundamentais e capacidades desse objeto (espetacular, diga-se de passagem).<\/p>\n<p>Por isso, diferente do que voc\u00ea pode ter pensado enquanto lia a primeira parte deste texto, a discuss\u00e3o sobre mental\u00eas vs. l\u00ednguas naturais tamb\u00e9m diz respeito a surdos (sinalizantes), pois l\u00ednguas de sinais tamb\u00e9m s\u00e3o l\u00ednguas naturais.<\/p>\n<p>Um surdo n\u00e3o pode adquirir plenamente uma l\u00edngua oral-auditiva, pois a \u201cmat\u00e9ria-prima\u201d de uma l\u00edngua desse tipo, o som, n\u00e3o tem realidade psicol\u00f3gica para algu\u00e9m que n\u00e3o pode ouvir. (Ali\u00e1s, apesar de n\u00e3o perceberem sons, surdos podem oralizar assim como ouvintes! Por isso n\u00e3o se deve usar o velho termo \u201csurdo-mudo\u201d).<\/p>\n<p>Mas nada impede que surdos adquiram l\u00ednguas visual-motoras. E \u00e9 exatamente isso que acontece quando eles s\u00e3o expostos a esse tipo de l\u00edngua. O ser humano \u00e9 faminto por uma primeira l\u00edngua, a l\u00edngua materna. Ele \u00e9 muito apto a adquir\u00ed-la. Vide o fato de essa aquisi\u00e7\u00e3o acontecer naturalmente, bastando que o indiv\u00edduo seja exposto a uma l\u00edngua em uma modalidade que ele possa perceber.<\/p>\n<h4>2.1 O caso Helen Keller<\/h4>\n<p>Para ilustrar essas afirma\u00e7\u00f5es, vale mencionar o caso de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Helen_Keller\">Helen Keller<\/a>. Helen viveu entre 1880 e 1968. Ela perdeu a audi\u00e7\u00e3o e a vis\u00e3o quando tinha menos de 2 anos e, por isso, n\u00e3o recebeu inputs lingu\u00edsticos at\u00e9 os 7 anos, quando come\u00e7ou, por interm\u00e9dio de uma professora, a ser exposta a uma l\u00edngua de modalidade t\u00e1til. Essa l\u00edngua envolvia que algu\u00e9m soletrasse palavras sinalizando as letras na m\u00e3o de Helen. Assim, ela pode adquirir uma l\u00edngua, o que permitiu que se desenvolvesse normalmente, se tornasse escritora e obtivesse t\u00edtulo de bacharel.<\/p>\n<p>Em um de seus livros, Helen relata que pode comparar as lembran\u00e7as da sua experi\u00eancia pr\u00e9-lingu\u00edstica com a sua vida interna ap\u00f3s ter adquirido uma l\u00edngua e que as diferen\u00e7as na maneira de se relacionar com si mesma e o mundo eram dr\u00e1sticas. Al\u00e9m disso, ela relata que, ap\u00f3s adquirir uma l\u00edngua, ela adquiriu tamb\u00e9m uma \u201cvoz interior\u201d, sentindo frases serem soletradas em sua m\u00e3o quando pensava. Por esse relato, podemos imaginar que se a pergunta do velociraptor tivesse sido direcionada a Helen, ela responderia que pensa na l\u00edngua que tamb\u00e9m \u00e9 sua \u201cl\u00edngua externa\u201d, na mesma modalidade em que a experiencia. Da mesma forma, um surdo deve pensar na l\u00edngua de sinais que usa diariamente e \u00e9 sua l\u00edngua dominante.<\/p>\n<h4>3. Subvocaliza\u00e7\u00e3o em surdos<\/h4>\n<p>Se voc\u00ea ainda n\u00e3o est\u00e1 convencido de que a \u201cvoz na cabe\u00e7a\u201d de surdos possa falar em alguma l\u00edngua de sinais (LIBRAS, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L%C3%ADngua_de_sinais_americana\">ASL<\/a>, l\u00edngua de sinais da Nicar\u00e1gua, etc), existem alguns resultados de estudos sobre a subvocaliza\u00e7\u00e3o (o uso da voz interna) em surdos que podem te persuadir.<\/p>\n<p>No livro \u201cPsychology of Reading\u201d, Keith Rayner e colegas falam um pouco de estudos que monitoraram, durante uma tarefa de leitura silenciosa, a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eletromiografia\">atividade el\u00e9trica dos m\u00fasculos<\/a> do trato vocal e dos antebra\u00e7os de surdos e ouvintes. Nesses estudos, se notou que durante a leitura silenciosa surdos apresentam alta atividade el\u00e9trica nos antebra\u00e7os, enquanto ouvintes apresentam o mesmo na regi\u00e3o do trato vocal. E essa atividade el\u00e9trica diferenciada n\u00e3o ocorria quando os sujeitos n\u00e3o estavam realizando a tarefa de leitura. Segundo os autores, a literatura cient\u00edfica mostra tamb\u00e9m que a atividade no trato vocal de ouvintes se apresenta em qualquer tarefa de linguagem, seja ela ler, ouvir algu\u00e9m falando ou pensar.<\/p>\n<p>Faz sentido imaginar que essa atividade el\u00e9trica seja resultado da subvocaliza\u00e7\u00e3o, da \u201cvoz interna\u201d, das pessoas enquanto leem, ouvem e pensam, n\u00e3o? E se em ouvintes a voz interna \u00e9 como a voz externa a ponto de a \u00e1rea do corpo que a produz externamente ser ativada tamb\u00e9m na sua inst\u00e2ncia n\u00e3o exteriorizada, \u00e9 de se esperar que esse tamb\u00e9m seja o caso com surdos. E \u00e9 exatamente isso que os resultados desses estudos indicam: os antebra\u00e7os de surdos sinalizantes, parte do corpo respons\u00e1vel por grande parte da sinaliza\u00e7\u00e3o, exibem alta atividade el\u00e9trica durante a leitura, mesmo quando ela \u00e9 silenciosa, o que deve ser atribu\u00eddo \u00e0 subvocaliza\u00e7\u00e3o, que, por sua vez, est\u00e1 ligada aos antebra\u00e7os e deve se dar na forma de alguma l\u00edngua sinalizada.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1, n\u00e3o sei se resolvi a quest\u00e3o, mas espero ter alimentado a sua curiosidade quanto \u00e0 linguagem e \u00e0 lingu\u00edstica e, quem sabe, ter te dado mais material para perguntas interessantes.<br \/>\nDe qualquer jeito, eu recomendo que voc\u00ea verifique a resposta ensaiada aqui. E um dos melhores jeitos de fazer isso \u00e9 refazendo a pergunta para alguma pessoa surda sinalizante. Que tal aprender um pouquinho de LIBRAS pra conseguir levar um papo sobre isso? Existem muitos recursos para isso dispon\u00edveis de gra\u00e7a na nossa querida rede mundial de computadores. D\u00e1 um google a\u00ed.<\/p>\n<h4>Observa\u00e7\u00f5es importantes:<\/h4>\n<p>1. Ouvinte \u00e9 aquele que, em contraste com o surdo, pode ouvir. Dirigi este texto nesse momento a ouvintes, pois imaginei que a pergunta que lhe serve de mote \u00e9 uma curiosidade t\u00edpica desse grupo, uma vez que surdos, pela introspec\u00e7\u00e3o, talvez j\u00e1 imaginem uma resposta para a quest\u00e3o e n\u00e3o precisem formul\u00e1-la.<\/p>\n<p>2. H\u00e1 diferentes graus e situa\u00e7\u00f5es de surdez. A resposta ensaiada nesse post partiu da suposi\u00e7\u00e3o de que a pergunta se referia a um grupo de surdos espec\u00edfico: o dos surdos com surdez severa e ou cong\u00eanita ou adquirida logo na primeira inf\u00e2ncia. Uma pessoa que ficou surda depois de j\u00e1 ter adquirido uma l\u00edngua oral-auditiva, por exemplo, provavelmente ter\u00e1 sua voz interna nessa primeira l\u00edngua, que \u00e9 sua l\u00edngua materna, e n\u00e3o em uma l\u00edngua de sinais (mesmo que venha a aprender uma em algum momento).<\/p>\n<p>3. Al\u00e9m disso, dentro desse grupo de surdos (com surdez severa e cong\u00eanita\/adquirida na primeira inf\u00e2ncia) me refiro a surdos sinalizantes. Surdos sinalizantes s\u00e3o aqueles que adquiriram alguma l\u00edngua de sinais. Infelizmente h\u00e1 muitos surdos\u00a0(com surdez severa e cong\u00eanita\/adquirida na primeira inf\u00e2ncia) que n\u00e3o s\u00e3o expostos a essas l\u00ednguas e acabam por n\u00e3o adquirir l\u00edngua alguma por muito tempo, muitas vezes pela vida toda.<\/p>\n<p>4. Para que possamos aprender uma l\u00edngua da forma mais natural poss\u00edvel, a exposi\u00e7\u00e3o a essa l\u00edngua deve ocorrer em um per\u00edodo do desenvolvimento chamado de per\u00edodo cr\u00edtico da aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem, que vai mais ou menos dos 2 anos ao come\u00e7o da puberdade. Depois desse per\u00edodo dificilmente uma l\u00edngua ser\u00e1 adquirida plenamente.<\/p>\n<p>5. Sobre os estudos com surdos e leitura silenciosa: \u00c9 bom lembrar que surdos podem aprender a escrita de uma l\u00edngua oral, j\u00e1 que o meio visual em que a escrita se realiza lhes \u00e9 acess\u00edvel. Esse aprendizado, contudo, \u00e9 mais \u00e1rduo para os surdos do que para os ouvintes (talvez porque esses \u00faltimos normalmente j\u00e1 conhecem a l\u00edngua em quest\u00e3o antes de aprender sua escrita).<\/p>\n<p>6. Apenas para lembrar, a descri\u00e7\u00e3o da mente como um computador \u00e9 apenas uma met\u00e1fora que ajuda a entender alguns aspectos da rela\u00e7\u00e3o entre processos conscientes e inconscientes.<\/p>\n<h4>Refer\u00eancias:<\/h4>\n<p>Fodor, Jerry. The Language of Thought. Thomas Y. Crowell Company, 1975.<br \/>\nKeller, Helen. The World I Live In. London: Hodder and Stoughton, 1909<br \/>\nPinker, Steven. The Language Instinct. Penguin Books, 1995.<br \/>\nRayner, Keith et al. Psychology of reading. Taylor &amp; Francis, 2012.<br \/>\nSilby, Brent. Revealing the Language of Thought: An e-book. Department of Philosophy, University of Canterbury, New Zealand, 2000. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/philarchive.org\/archive\/SILRTL&gt;. Acesso em: 13 de nov. de 2018<\/p>\n<h4>Material extra:<\/h4>\n<p>&#8211; Um dos primeiros estudos sobre uma l\u00edngua de sinais que a considera uma l\u00edngua, revolucionando a lingu\u00edstica:<br \/>\nSTOKOE, W. (1960) Sign and Culture: A Reader for Students of American Sign Language. Listok Press, Silver Spring, MD.<\/p>\n<p>&#8211; Artigo que traz alguns crit\u00e9rios para definer \u201cl\u00edngua\u201d (em contraste a c\u00f3digos e sistemas de comunica\u00e7\u00e3o como os de alguns animais):<br \/>\nBENVENISTE, \u00c9mile. 2005. Comunicac\u0327a\u0303o animal e linguagem humana. In: ______. Problemas de lingui\u0301stica geral. Trad. Maria da Glo\u0301ria Novak e Maria Luisa Neri. 5. ed. Campinas: Pontes, v. 1, p. 60-67.<\/p>\n<p>&#8211; <a href=\"http:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-345\/\">Epis\u00f3dio do podcast Spin de Not\u00edcias sobre l\u00ednguas de sinais<\/a><\/p>\n<p>&#8211; Breve hist\u00f3ria de Helen Keller:<\/p>\n<p><iframe title=\"Conhe\u00e7a a Hist\u00f3ria de Helen Keller\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QzT9f9xz338?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Mais sobre l\u00ednguas da modalidade t\u00e1til; document\u00e1rio \u201cBoboletas de Zargorsk\u201d:<\/p>\n<p><iframe title=\"Borboletas de Zagorsk [BBC, 1992] - Document\u00e1rio completo\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KxEaHMxi7wE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por: Giovanna Rizzo Fonseca Mestranda em Lingu\u00edstica na Unicamp Voc\u00ea j\u00e1 se fez essa pergunta? \u00c9 uma indaga\u00e7\u00e3o comum e antiga que hoje se encontra <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/12\/02\/em-que-lingua-as-pessoas-surdas-pensam\/\" title=\"Em que l\u00edngua as pessoas surdas pensam?\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":383,"featured_media":1446,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[36,9],"tags":[15,245,67,248,246],"class_list":["post-1448","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-aquisicao-de-linguagem","category-linguagem-e-mente","tag-linguagem","tag-pensamento","tag-psicolinguistica","tag-subvocalizacao","tag-surdos"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/11\/Screen-Shot-2018-11-21-at-10.10.46-AM.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/383"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1448"}],"version-history":[{"count":25,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2173,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1448\/revisions\/2173"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}