{"id":1527,"date":"2018-12-13T17:05:30","date_gmt":"2018-12-13T17:05:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1527"},"modified":"2019-07-11T18:04:17","modified_gmt":"2019-07-11T18:04:17","slug":"o-povo-unido-jamais-sera-vencido-ou-por-que-falamos-em-conjunto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2018\/12\/13\/o-povo-unido-jamais-sera-vencido-ou-por-que-falamos-em-conjunto\/","title":{"rendered":"&#8220;O povo unido jamais ser\u00e1 vencido!&#8221; ou por que falamos em conjunto?"},"content":{"rendered":"\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"text-align: center\"><strong>Por que falamos em conjunto? E o que falar em conjunto diz sobre o comportamento humano?<\/strong><\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Texto de:<\/strong>\u00a0Ver\u00f4nica Penteado Siqueira e Beatriz Raposo de Medeiros<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p style=\"text-align: left\">Como voc\u00ea leu o t\u00edtulo deste texto? \u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea o tenha lido com um certo ritmo e uma certa melodia na sua cabe\u00e7a, quase como se voc\u00ea estivesse lendo a letra de uma m\u00fasica conhecida. Se foi esse o caso, ent\u00e3o voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido essa frase antes, o que n\u00e3o \u00e9 uma surpresa. Ela ganhou uma <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/El_pueblo_unido_jam%C3%A1s_ser%C3%A1_vencido\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Como voc\u00ea leu o t\u00edtulo deste texto? \u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea o tenha lido com um certo ritmo e uma certa melodia na sua cabe\u00e7a, quase como se voc\u00ea estivesse lendo a letra de uma m\u00fasica conhecida. Se foi esse o caso, ent\u00e3o voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido essa frase antes, o que n\u00e3o \u00e9 uma surpresa. Ela ganhou uma vers\u00e3o musical, composta por Sergio Ortega e o grupo Quilapay\u00fan para o movimento Nueva Cancion Chilena,um g\u00eanero musical e um movimento social de origem ibero-americana, que teve participa\u00e7\u00e3o importante em movimentos e manifesta\u00e7\u00f5es sociais. A can\u00e7\u00e3o foi originalmente composta como um hino em apoio \u00e0 campanha de Salvador Allende, no Chile de 1970. O governo eleito, infelizmente, foi deposto por um golpe que levou \u00e0 ditadura de Pinochet. A frase, no entanto, continuou a ser usada como s\u00edmbolo de uni\u00e3o e resist\u00eancia,traduzida para diversas l\u00ednguas e entoada por povos de v\u00e1rios pa\u00edses.  (opens in a new tab)\">vers\u00e3o musical<\/a>, composta por Sergio Ortega e o grupo Quilapay\u00fan para o movimento <em><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Nueva_canci%C3%B3n\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Como voc\u00ea leu o t\u00edtulo deste texto? \u00c9 prov\u00e1vel que voc\u00ea o tenha lido com um certo ritmo e uma certa melodia na sua cabe\u00e7a, quase como se voc\u00ea estivesse lendo a letra de uma m\u00fasica conhecida. Se foi esse o caso, ent\u00e3o voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido essa frase antes, o que n\u00e3o \u00e9 uma surpresa. Ela ganhou uma vers\u00e3o musical, composta por Sergio Ortega e o grupo Quilapay\u00fan para o movimento Nueva Cancion Chilena,um g\u00eanero musical e um movimento social de origem ibero-americana, que teve participa\u00e7\u00e3o importante em movimentos e manifesta\u00e7\u00f5es sociais. A can\u00e7\u00e3o foi originalmente composta como um hino em apoio \u00e0 campanha de Salvador Allende, no Chile de 1970. O governo eleito, infelizmente, foi deposto por um golpe que levou \u00e0 ditadura de Pinochet. A frase, no entanto, continuou a ser usada como s\u00edmbolo de uni\u00e3o e resist\u00eancia,traduzida para diversas l\u00ednguas e entoada por povos de v\u00e1rios pa\u00edses.  (opens in a new tab)\">Nueva Cancion Chilena<\/a>,<\/em>um g\u00eanero musical e um movimento social de origem ibero-americana, que teve participa\u00e7\u00e3o importante em movimentos e manifesta\u00e7\u00f5es sociais. A can\u00e7\u00e3o foi originalmente composta como um hino em apoio \u00e0 campanha de Salvador Allende, no Chile de 1970. O governo eleito, infelizmente, foi deposto por um golpe que levou \u00e0 ditadura de Pinochet. A frase, no entanto, continuou a ser usada como s\u00edmbolo de uni\u00e3o e resist\u00eancia, traduzida para diversas l\u00ednguas e entoada por povos de v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Vejamos, por exemplo, essa frase dita por venezuelanos, em abril de 2017, em uma manifesta\u00e7\u00e3o contra a Pol\u00edcia Nacional Bolivariana (a fala come\u00e7a por volta dos 23 segundos!):<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=O_NhMxMGrJY&amp;feature=youtu.be<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Aqui no Brasil, essa frase p\u00f4de ser ouvida durante as <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2017\/06\/17\/O-que-foram-afinal-as-Jornadas-de-Junho-de-2013.-E-no-que-elas-deram\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Aqui no Brasil, essa frase p\u00f4de ser ouvida durante as manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013, tanto nas ruas, quanto em est\u00e1dios de futebol:  (opens in a new tab)\">manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013<\/a>, tanto nas ruas, quanto em est\u00e1dios de futebol:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WXLUxcYdG_o&amp;feature=youtu.be<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HYOyeG1janE&amp;feature=youtu.be<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada incomum ao redor do mundo; pelo contr\u00e1rio, os mais diversos tipos de frases j\u00e1 foram enunciadas tanto em reivindica\u00e7\u00f5es populares quanto em gritos de guerra de torcidas organizadas (vamos voltar a falar dessa rela\u00e7\u00e3o aparentemente inusitada entre protestos pol\u00edticos e torcidas esportivas daqui a pouco). Por exemplo, na <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Primavera_%C3%81rabe\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada incomum ao redor do mundo; pelo contr\u00e1rio, os mais diversos tipos de frases j\u00e1 foram enunciadas tanto em reivindica\u00e7\u00f5es populares quanto em gritos de guerra de torcidas organizadas (vamos voltar a falar dessa rela\u00e7\u00e3o aparentemente inusitada entre protestos pol\u00edticos e torcidas esportivas daqui a pouco). Por exemplo, na Primavera \u00c1rabe, onda de protestos e revolu\u00e7\u00f5es populares contra os governos do mundo \u00e1rabe, que despontaram a partir de 2011, uma frase acabou se tornando um slogan da popula\u00e7\u00e3o revoltosa: \u201cAsh-sha\u02bbb yur\u012bd isq\u0101\u1e6d an-ni\u1e93\u0101m\u201d, que pode ser traduzido por \u201cO povo quer derrubar o regime\u201d: (opens in a new tab)\">Primavera \u00c1rabe<\/a>, onda de protestos e revolu\u00e7\u00f5es populares contra os governos do mundo \u00e1rabe, que despontaram a partir de 2011, uma frase acabou se tornando um slogan da popula\u00e7\u00e3o revoltosa: \u201c<em>Ash-sha\u02bbb yur\u012bd isq\u0101\u1e6d an-ni\u1e93\u0101m<\/em>\u201d, que pode ser traduzido por \u201cO povo quer derrubar o regime\u201d:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=u0GxfBXoyy8&amp;feature=youtu.be<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E o que protestos para a derrubada de governos ditatoriais t\u00eam em comum com <a href=\"https:\/\/youtu.be\/l7wY0hGnD_U\">manifesta\u00e7\u00f5es de estudantes irlandeses contra cortes na educa\u00e7\u00e3o<\/a>? E com <a href=\"https:\/\/youtu.be\/f_PmQrfO_8k\">os movimentos que eclodiram na Gr\u00e9cia em 2011<\/a>? E quanto aos <a href=\"https:\/\/youtu.be\/TopFt6mPGmo\">gritos raivosos (e nada bem educados) dos brasileiros em junho de 2013<\/a>? E o que dizer dos <a href=\"https:\/\/youtu.be\/fP9TyWN4QSg\">protestos dos brasileiros contra o presidente Michel Temer<\/a>, ou as <a href=\"https:\/\/youtu.be\/mF2KijdAF4M\">manifesta\u00e7\u00f5es a favor do candidato petista nas elei\u00e7\u00f5es de 2018<\/a>(veja o v\u00eddeo a partir de 1:06!)?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Deixando um pouco de lado as complexas quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais envolvidas nesses tipos de express\u00e3o popular, e olhando, ou melhor, ouvindo, somente o que est\u00e1 sendo dito, uma caracter\u00edstica inevitavelmente se destaca no meio de tantas vozes: o ritmo. Todas essas frases, apesar de terem sido enunciadas em l\u00ednguas diferentes, por pessoas diferentes, em momentos diferentes, e por motivos diferentes, parecem seguir um ritmo comum, semelhante tamb\u00e9m ao que aparece l\u00e1 na can\u00e7\u00e3o chilena dos anos 70.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O ritmo, em qualquer atividade humana, \u00e9 percebido como um movimento peri\u00f3dico recorrente, que produz uma expectativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 regularidade do movimento subsequente<sup>1<\/sup>. Na fala, esses movimentos se relacionam de modo mais saliente \u00e0 s\u00edlaba, que \u00e9 a unidade lingu\u00edstica que recebe o acento, tanto no n\u00edvel lexical, quanto no n\u00edvel frasal. No entanto, o ritmo da fala n\u00e3o \u00e9 peri\u00f3dico ou regular como o da m\u00fasica, mas mesmo assim somos capazes de perceber determinados padr\u00f5es, que s\u00e3o imitados pelos falantes da l\u00edngua.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No caso das falas de ordem exemplificadas nos v\u00eddeos<sup>2<\/sup>, acima, h\u00e1 uma estrutura r\u00edtmica comum a todas as realiza\u00e7\u00f5es. Tal estrutura pode ser explicada no senso mais comum como apresentando inicialmente duas batidas fortes alternadas, que recaem sobre as s\u00edlabas \/po\/ e \/ni\/ (portanto, da senten\u00e7a em portugu\u00eas \u201co povo unido\u201d). Em seguida, menos espa\u00e7adamente, mas tamb\u00e9m em altern\u00e2ncia, recaem acentos sobre \/mais\/, \/r\u00e1\/ e \/ci\/, da senten\u00e7a \u201cjamais ser\u00e1 vencido\u201d.\u00a0 Como se trata de uma m\u00e9trica regular, pode-se atribuir a ela a periodicidade r\u00edtmica musical e extrair-lhe uma c\u00e9lula bin\u00e1ria. Para m\u00fasicos treinados n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil notar tal c\u00e9lula r\u00edtmica, que poderia ser transcrita da seguinte maneira:\u00a0 um compasso de dois tempos, atribuindo-se basicamente uma nota para cada tempo. Como temos mais do que duas notas por compasso, j\u00e1 que temos mais de uma s\u00edlaba<sup>3<\/sup> por compasso, al\u00e9m de algumas pausas entre as palavras, acabamos tendo s\u00edlabas que caem no tempo fraco do compasso. N\u00e3o vamos alongar essa descri\u00e7\u00e3o, mas ao realizar, ainda que em sil\u00eancio, o enunciado, voc\u00ea j\u00e1 estar\u00e1 aplicando este compasso bin\u00e1rio em sua cabe\u00e7a, alinhando algumas s\u00edlabas ao tempo forte e outras aos contratempos ou tempos fracos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>De qualquer maneira, o que sabemos \u00e9 que a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para a organiza\u00e7\u00e3o desse tipo de fala. A repeti\u00e7\u00e3o torna o ritmo da fala mais regular,\u00a0 e a pros\u00f3dia torna-se mais estilizada, pois o contorno da frequ\u00eancia fundamental da fala (o que caracteriza a entona\u00e7\u00e3o da fala) torna-se mais fixa ou j\u00e1 esperada. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que voc\u00ea leu o t\u00edtulo do texto como se lesse uma letra de m\u00fasica; a repeti\u00e7\u00e3o traz tons de musicalidade \u00e0 frase, e os limites entre a fala e a m\u00fasica se tornam menos claros no caso da fala conjunta.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A ideia de que a fala pode ser percebida como m\u00fasica por causa da repeti\u00e7\u00e3o foi explorada pela psic\u00f3loga cognitiva Diana Deutsch, no que ela chama de <em>speech to song illusion<\/em>. Ela notou que quando uma frase &#8211; falada &#8211; \u00e9 repetida v\u00e1rias vezes, ap\u00f3s um determinado n\u00famero de repeti\u00e7\u00f5es, ela passa a ser percebida como m\u00fasica. Os experimentos realizados pela pesquisadora sugerem que n\u00e3o existem propriedades exclusivas da fala ou da m\u00fasica; na verdade, o mesmo <em>input<\/em>&#8211; seja ele lingu\u00edstico ou musical &#8211; pode ser processado de diferentes maneiras, produzindo assim percep\u00e7\u00f5es diferentes. Repare, no v\u00eddeo abaixo, como as crian\u00e7as participando do experimento parecem estar cantando uma can\u00e7\u00e3o, e realmente se movem como se estivessem ouvindo m\u00fasica:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6Zr9BU0bJoc&amp;feature=youtu.be<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que isso tem a ver com linguagem?<\/strong><\/h4>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E o que essa hist\u00f3ria tem a ver com linguagem? At\u00e9 agora, falamos de manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais, e um pouco de ritmo e m\u00fasica. Mas, afinal, isso \u00e9 mat\u00e9ria da Lingu\u00edstica?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Bom, estamos falando de um fen\u00f4meno em que pessoas &#8211; unidas por um objetivo ou ideologia comum -, em um determinado contexto, dizem uma mesma frase, em un\u00edssono. Essa mensagem \u00e9 linguagem. Ela pode ser vista do ponto de vista das suas caracter\u00edsticas ac\u00fasticas e temporais &#8211; mat\u00e9ria da Fon\u00e9tica -, pode ser analisada como a enuncia\u00e7\u00e3o de uma frase em um contexto espec\u00edfico, isto \u00e9, um ato de fala<sup>4<\/sup> &#8211; mat\u00e9ria da Pragm\u00e1tica -, como tamb\u00e9m pode ser vista a partir das ci\u00eancias do movimento, das ci\u00eancias cognitivas, ou mesmo das neuroci\u00eancias.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O tipo de fala que ouvimos at\u00e9 agora \u00e9 chamada pelo pesquisador Fred Cummins<sup>5\u00a0<\/sup>de <em>joint speech<\/em>, ou fala conjunta, em portugu\u00eas. Em poucas palavras, ele a define como uma \u201cfala produzida por duas ou mais pessoas que enunciam a mesma coisa ao mesmo tempo<sup>6&#8243;<\/sup>.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O que protestos pol\u00edticos, torcidas esportivas e fi\u00e9is rezando t\u00eam em comum? Justamente a fala conjunta! Esses tr\u00eas s\u00e3o dom\u00ednios cujas caracter\u00edsticas e participantes s\u00e3o bem distintos, mas todos t\u00eam em comum a ades\u00e3o a um mesmo prop\u00f3sito. Al\u00e9m da repeti\u00e7\u00e3o e da musicalidade, esse tipo de fala se diferencia do tipo de conversa\u00e7\u00e3o normalmente estudado por n\u00e3o distinguir entre turnos de falantes e ouvintes; todos s\u00e3o, durante toda a enuncia\u00e7\u00e3o, falantes e ouvintes ao mesmo tempo. Esse tipo de fala \u00e9 tamb\u00e9m performativo, isto \u00e9, a a\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorre quando a senten\u00e7a \u00e9 enunciada, assim como um homem e uma mulher s\u00f3 se tornam casados a partir da afirma\u00e7\u00e3o \u201cEu vos declaro marido e mulher\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A Fon\u00e9tica, \u00e1rea da Lingu\u00edstica que tem a fala como objeto de estudo, investiga a fala conjunta trazendo-a para o laborat\u00f3rio, sob a forma do que se chama \u201cfala sincronizada\u201d. Nesse contexto, pede-se que duas pessoas leiam um mesmo texto ao mesmo tempo. Obviamente, n\u00e3o h\u00e1 a espontaneidade, muito menos o engajamento ideol\u00f3gico que existe na sua forma natural, mas ela nos permite observar caracter\u00edsticas espec\u00edficas desse tipo de fala. Sabe-se que os falantes &#8211; mesmo que n\u00e3o se conhe\u00e7am nem conhe\u00e7am o texto &#8211; sincronizam com tanta rapidez e facilidade quanto pessoas em uma multid\u00e3o que entoam uma frase de protesto.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por que estudar a fala conjunta?<\/strong><\/h4>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Voc\u00ea pode ter entendido como esse fen\u00f4meno pode ser estudado pela Lingu\u00edstica, ou mesmo por outras ci\u00eancias, mas deve estar se perguntando de que interessa investigar a fala conjunta. S\u00f3 o fato desse tipo de fala estar presente em v\u00e1rios tipos de manifesta\u00e7\u00e3o humana, em todas as culturas, ao longo de toda a hist\u00f3ria (j\u00e1 registrada, pelo menos), mas n\u00e3o ter sido objeto de estudo de uma ci\u00eancia at\u00e9 agora, deveria ser o suficiente para convenc\u00ea-lo da necessidade de pesquis\u00e1-la. Esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o popular, em especial a pol\u00edtica, parece ser cada vez mais frequente nas sociedades, e isso parece um reflexo de que algo est\u00e1 acontecendo no cen\u00e1rio pol\u00edtico e social dos mais diversos pa\u00edses.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Se o aspecto social desse fen\u00f4meno n\u00e3o foi o suficiente para te convencer da necessidade do seu estudo, olhemos ent\u00e3o para as consequ\u00eancias lingu\u00edsticas e cognitivas da sua investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa fala, que foge ao modelo da conversa\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica, nos leva a redefinir o conceito tradicional de comunica\u00e7\u00e3o. Em um ensaio<sup>7<\/sup>, Cummins chama tal modelo tradicional de \u201cmodelo do tubo\u201d, em que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 definida como a transmiss\u00e3o de mensagens de maneira justaposta. Em contrapartida, sugere outro modelo, o \u201cmodelo da dan\u00e7a\u201d, em que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado da intera\u00e7\u00e3o entre os sons da fala e os movimentos, comportamentos e experi\u00eancias do falante, coordenada como uma coreografia entre dan\u00e7arinos. (A ideia de dan\u00e7a parece bem adequada para explicar o que acontece aqui quando pensamos que falas como a de protestos, ora\u00e7\u00f5es ou hinos esportivos sempre v\u00eam acompanhadas de gestos coordenados). Tal distin\u00e7\u00e3o \u00e9 feita para apontar para a diferen\u00e7a entre o que \u00e9 interno e o que \u00e9 externo; enquanto o primeiro modelo assume um tipo de comunica\u00e7\u00e3o (e linguagem) que diz respeito a um dom\u00ednio abstrato e individual, o segundo modelo faz pensar em linguagem em termos concretos e em fun\u00e7\u00e3o da atividade dos outros.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa diferen\u00e7a entre individual e coletivo \u00e9 central quando se trata da fala conjunta. Situa\u00e7\u00f5es em que v\u00e1rias pessoas falam a mesma coisa ao mesmo tempo, como as exemplificadas at\u00e9 agora, representam uma arena de conflito entre o individual e o coletivo, ao mesmo tempo em que mostram como esse embate \u00e9 resolvido nesse tipo de a\u00e7\u00e3o. Cada participante de um protesto possui a sua individualidade e o seu posicionamento pessoal, que n\u00e3o precisa corresponder exatamente ao posicionamento de seus pares, mas no momento da a\u00e7\u00e3o conjunta, todos expressam uma mesma identidade.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A fala conjunta no Brasil<\/strong><\/h4>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A n\u00e3o ser que voc\u00ea esteja vivendo isolado da sociedade nos \u00faltimos anos, provavelmente tem acompanhado a onda de protestos e a movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que t\u00eam acontecido no Brasil, desde junho de 2013, com as chamadas<a href=\"https:\/\/youtu.be\/jDy8CfDb2NI\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"A n\u00e3o ser que voc\u00ea esteja vivendo isolado da sociedade nos \u00faltimos anos, provavelmente tem acompanhado a onda de protestos e a movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que t\u00eam acontecido no Brasil, desde junho de 2013, com as chamadas Jornadas de Junho. Bem, desde aqueles protestos contra o aumento da passagem do \u00f4nibus, passamos por uma como\u00e7\u00e3o p\u00fablica contra a corrup\u00e7\u00e3o, que desembocaram em protestos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff dois anos depois. Em 2016, com a consequente sa\u00edda da presidente, os brasileiros foram novamente \u00e0s ruas, desta vez para se posicionar contra seu sucessor, Michel Temer. Finalmente, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es de 2018, vimos manifesta\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, e as v\u00e1rias falas conjuntas que ouvimos nas ruas refletiram tanto a rejei\u00e7\u00e3o quanto o apoio aos candidatos \u00e0 presid\u00eancia. O jornalista Bruno Torturra captou essa intersec\u00e7\u00e3o entre o pol\u00edtico e o comunicacional ao comentar as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 e seus resultados: \u201cCada vez mais acho que foi um fen\u00f4meno comunicacional com implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mais do que um fen\u00f4meno pol\u00edtico com implica\u00e7\u00f5es comunicacionais8\u201d.  (opens in a new tab)\"> Jornadas de Junho<\/a>. Bem, desde aqueles protestos contra o aumento da passagem do \u00f4nibus, passamos por uma como\u00e7\u00e3o p\u00fablica contra a corrup\u00e7\u00e3o, que desembocaram em <a href=\"https:\/\/youtu.be\/8OWL0VSK7Ho\">protestos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff<\/a> dois anos depois. Em 2016, com a consequente sa\u00edda da presidente, os brasileiros foram novamente \u00e0s ruas, desta vez para se posicionar <a href=\"https:\/\/youtu.be\/cdb_kx-3K_8\">contra seu sucessor, Michel Temer<\/a>. Finalmente, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es de 2018, vimos manifesta\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, e as v\u00e1rias falas conjuntas que ouvimos nas ruas refletiram tanto a rejei\u00e7\u00e3o quanto o apoio aos candidatos \u00e0 presid\u00eancia. O jornalista Bruno Torturra captou essa intersec\u00e7\u00e3o entre o pol\u00edtico e o comunicacional ao comentar as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 e seus resultados: \u201cCada vez mais acho que foi um fen\u00f4meno comunicacional com implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mais do que um fen\u00f4meno pol\u00edtico com implica\u00e7\u00f5es comunicacionais<sup>8<\/sup>\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A fala conjunta, entretanto, n\u00e3o \u00e9 expressa somente pela entoa\u00e7\u00e3o em un\u00edssono e em loop de uma \u00fanica frase. Em 2011 nos Estados Unidos, vimos os manifestantes do <a href=\"https:\/\/youtu.be\/tvJqLo_o7AM\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"A fala conjunta, entretanto, n\u00e3o \u00e9 expressa somente pela entoa\u00e7\u00e3o em un\u00edssono e em loop de uma \u00fanica frase. Em 2011 nos Estados Unidos, vimos os manifestantes do movimento Occupy Wall Street fazerem uso da t\u00e9cnica do microfonehumano, em que um discurso \u00e9 propagado por todos os indiv\u00edduos como ondas, comsuas partes sendo dividas e repetidas por diferentes grupos de falantes, e ovolume aumentando a cada repeti\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, os nova iorquinospossibilitaram a comunica\u00e7\u00e3o entre grupos distantes, uma vez que qualquer tipode amplifica\u00e7\u00e3o tinha sido proibida pela pol\u00edcia. No 2013, essa mesma t\u00e9cnicapermitiu que os brasileiros transmitissem, em conjunto, uma mensagem ao Congresso Nacional.  (opens in a new tab)\">movimento Occupy Wall Street<\/a> fazerem uso da t\u00e9cnica do microfone humano, em que um discurso \u00e9 propagado por todos os indiv\u00edduos como ondas, com suas partes sendo dividas e repetidas por diferentes grupos de falantes, e o volume aumentando a cada repeti\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, os nova iorquinos possibilitaram a comunica\u00e7\u00e3o entre grupos distantes, uma vez que qualquer tipo de amplifica\u00e7\u00e3o tinha sido proibida pela pol\u00edcia. Em 2013, essa mesma t\u00e9cnica permitiu que os brasileiros transmitissem, em conjunto, uma mensagem ao <a href=\"https:\/\/youtu.be\/fz8wUs7VRZw\">Congresso Nacional. <\/a><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma outra maneira como a fala conjunta \u00e9 expressada \u00e9 por meio de chamadas e respostas (<em>call and response<\/em>), t\u00e9cnica muito comum em rituais religiosos, em que o discurso \u00e9 muito longo ou complexo para que todos possam acompanh\u00e1-lo. Sendo assim, uma \u00fanica pessoa conduz o discurso &#8211; nesse caso, um padre ou pastor, por exemplo -, direcionando a congrega\u00e7\u00e3o a responder com frases mais curtas. Essa altern\u00e2ncia de turnos entre um locutor principal e o grupo de pessoas p\u00f4de ser vista, por exemplo, em uma <a href=\"https:\/\/youtu.be\/vCaCkuJ8rV8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Uma outra maneira como a fala conjunta \u00e9 expressada \u00e9 por meio de chamadas e respostas (call and response), t\u00e9cnica muito comum em rituais religiosos, em que o discurso \u00e9 muito longo ou complexo para que todos possam acompanh\u00e1-lo. Sendo assim, uma \u00fanica pessoa conduz o discurso - nesse caso, um padre ou pastor, por exemplo -, direcionando a congrega\u00e7\u00e3o a responder com frases mais curtas. Essa altern\u00e2ncia de turnos entre um locutor principal e o grupo de pessoas p\u00f4de ser vista, por exemplo, em uma manifesta\u00e7\u00e3o\u00a0do movimento #EleN\u00e3o, em setembro de 2018, em que a multid\u00e3o responde \u201cPresente!\u201d e \u201cE sempre!\u201d, aos gritos de \u201cMarielle!\u201d e \u201cHoje!\u201d (o fen\u00f4meno fica mais claro por volta de 2:27!).  (opens in a new tab)\">manifesta\u00e7\u00e3o\u00a0<\/a>do movimento <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-45700013\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Uma outra maneira como a fala conjunta \u00e9 expressada \u00e9 por meio de chamadas e respostas (call and response), t\u00e9cnica muito comum em rituais religiosos, em que o discurso \u00e9 muito longo ou complexo para que todos possam acompanh\u00e1-lo. Sendo assim, uma \u00fanica pessoa conduz o discurso - nesse caso, um padre ou pastor, por exemplo -, direcionando a congrega\u00e7\u00e3o a responder com frases mais curtas. Essa altern\u00e2ncia de turnos entre um locutor principal e o grupo de pessoas p\u00f4de ser vista, por exemplo, em uma manifesta\u00e7\u00e3o\u00a0do movimento #EleN\u00e3o, em setembro de 2018, em que a multid\u00e3o responde \u201cPresente!\u201d e \u201cE sempre!\u201d, aos gritos de \u201cMarielle!\u201d e \u201cHoje!\u201d (o fen\u00f4meno fica mais claro por volta de 2:27!).  (opens in a new tab)\">#EleN\u00e3o<\/a>, em setembro de 2018, em que a multid\u00e3o responde \u201cPresente!\u201d e \u201cE sempre!\u201d, aos gritos de \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2018\/03\/vereadora-do-psol-e-morta-a-tiros-no-centro-do-rio.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Uma outra maneira como a fala conjunta \u00e9 expressada \u00e9 por meio de chamadas e respostas (call and response),t\u00e9cnica muito comum em rituais religiosos, em que o discurso \u00e9 muito longo ou complexo para que todos possam acompanh\u00e1-lo. Sendo assim, uma \u00fanica pessoa conduz o discurso - nesse caso, um padre ou pastor, por exemplo -, direcionando a congrega\u00e7\u00e3o a responder com frases mais curtas. Essa altern\u00e2ncia de turnos entre um locutor principal e o grupo de pessoas pode ser vista em uma manifesta\u00e7\u00e3odo movimento #EleN\u00e3o, em setembro de 2018, em que a multid\u00e3o responde \u201cPresente!\u201d e \u201cE sempre!\u201d, aos gritos de \u201cMarielle!\u201d e \u201cHoje!\u201d (o fen\u00f4meno fica maisclaro por volta de 2:27!).  (opens in a new tab)\">Marielle<\/a>!\u201d e \u201cHoje!\u201d (o fen\u00f4meno fica mais claro por volta de 2:27!).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que a fala conjunta tem a dizer sobre o comportamento humano?<\/strong><\/h4>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A fala conjunta \u00e9 a express\u00e3o de uma coletividade. Por meio dela, podemos discutir a linguagem como uma capacidade emergente do funcionamento cognitivo geral e da intera\u00e7\u00e3o social, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia tradicional da linguagem vinda de um m\u00f3dulo mental. A ideia de\u201cemerg\u00eancia\u201d, conceito central dentro da proposta enacionista na qual Cummins se apoia, \u00e9 exemplificada neste v\u00eddeo, de uma manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-Bolsonaro durante as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Uxs2hIpG9LQ&amp;feature=youtu.be<\/div>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Aqui, ouvimos tr\u00eas \u201ccantos\u201d<sup>9<\/sup> diferentes serem entoados consecutivamente (e simultaneamente, em um determinado momento do v\u00eddeo), em um per\u00edodo de tempo bem curto. (N\u00e3o estranhe se o primeiro canto parecer <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=57nHY06dLcA\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Aqui, ouvimos tr\u00eas \u201ccantos\u201d9 diferentes serem entoados consecutivamente (e simultaneamente, em um determinado momento do v\u00eddeo), em um per\u00edodo de tempo bem curto. (N\u00e3o estranhe se o primeiro canto parecer familiar. \u00c9 bem comum que protestos pol\u00edticos se apropriem de cantos esportivos). A abordagem enacionista10 (ou enativa, dependendo da tradu\u00e7\u00e3o) v\u00ea esse comportamento como algo que emerge a partir da intera\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o mundo. Deixando de lado a ideia de representa\u00e7\u00e3o, essa perspectiva defende que percebemos o mundo a partir de conting\u00eancias sens\u00f3rio-motoras. Portanto, a experi\u00eancia que temos do mundo \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da nossa intera\u00e7\u00e3o como sujeitos nele, e da constru\u00e7\u00e3o de significado a partir dessa intera\u00e7\u00e3o.  (opens in a new tab)\">familiar<\/a>. \u00c9 bem comum que protestos pol\u00edticos se apropriem de cantos esportivos). A abordagem enacionista<sup>10<\/sup> (ou enativa, dependendo da tradu\u00e7\u00e3o) v\u00ea esse comportamento como algo que emerge a partir da intera\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o mundo. Deixando de lado a ideia de representa\u00e7\u00e3o, essa perspectiva defende que percebemos o mundo a partir de conting\u00eancias sens\u00f3rio-motoras. Portanto, a experi\u00eancia que temos do mundo \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da nossa intera\u00e7\u00e3o como sujeitos nele, e da constru\u00e7\u00e3o de significado a partir dessa intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Pensemos em outros exemplos. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar do rel\u00f3gio de Christian Huygens? Foi ele o inventor do rel\u00f3gio de p\u00eandulo e tamb\u00e9m foi ele quem percebeu que os movimentos dos p\u00eandulos de dois rel\u00f3gios, quando pr\u00f3ximos um ao outro, tendem a sincronizar. E a esse ponto, j\u00e1 vimos diversos exemplos de pessoas falando em sincronia. Todos esses s\u00e3o exemplos de sistemas oscilat\u00f3rios, isto \u00e9, sistemas que se movimentam. Em um fen\u00f4meno chamado de <em>coupling <\/em>(acoplamento) ou <em>entrainment<\/em>, sistemas oscilat\u00f3rios influenciam o comportamento um do outro.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Todas essas no\u00e7\u00f5es de \u201cemerg\u00eancia\u201d, \u201csincroniza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cacoplamento\u201d s\u00e3o trabalhadas dentro do guarda-chuva te\u00f3rico do paradigma din\u00e2mico da cogni\u00e7\u00e3o. Uma abordagem te\u00f3rica que surgiu nas ci\u00eancias duras, mas que tem sido aplicada em diversas outras ci\u00eancias, como a Lingu\u00edstica<sup>11<\/sup> e as Ci\u00eancias Sociais, tem como centrais duas ideias, que foram deixadas de lado pela Lingu\u00edstica tradicional: tempo e movimento. Um sistema din\u00e2mico \u00e9 aquele que descreve a varia\u00e7\u00e3o de algo no tempo. Nesse sentido, podemos dizer que a fala<sup>12<\/sup>, ou mesmo a linguagem em geral, \u00e9 um sistema din\u00e2mico. Isso \u00e9 dizer que a linguagem \u00e9 um sistema aberto que est\u00e1 em constante mudan\u00e7a, uma vez que tudo muda com o tempo, e que as mudan\u00e7as de estado pelas quais a linguagem passa s\u00e3o constru\u00eddas com base na experi\u00eancia que emerge da intera\u00e7\u00e3o entre o falante e o ambiente.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa discuss\u00e3o vai muito mais longe do que podemos expor aqui. Mas o que fica \u00e9 o questionamento: afinal, o que esses fen\u00f4menos comunicativos dizem sobre o momento pol\u00edtico e social pelo qual estamos passando? Como nossas identidades -individuais e coletivas &#8211; s\u00e3o expressas na linguagem? N\u00e3o por acaso, falamos em\u201condas de protestos\u201d: as manifesta\u00e7\u00f5es v\u00eam de fato como ondas em um lago, o movimento anterior influencia o movimento subsequente, at\u00e9 que todo o lago sofra altera\u00e7\u00f5es causadas pelo que, antes, fora uma pequena pedrinha rompendo a calmaria inicial. Mas a tend\u00eancia \u00e9 que essa calmaria volte, para que ela logo seja alterada&#8230; e assim o ciclo continua. Independente do momento, podemos contar com a uni\u00e3o e a resist\u00eancia dos seres humanos &#8211; sejam elas pol\u00edticas ou lingu\u00edsticas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h4 class=\"wp-block-heading\">NOTAS<\/h4>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>1. ABERCOMBRIE,D. <em>Elements of General Phonetics<\/em>. Edinburgh University Press:Edinburgh, 1967.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>2. Cummins comenta a respeito de alguns desses exemplos eesse ritmo em particular no seu blog, dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/fredcummins.wordpress.com\/2013\/12\/12\/the-mother-of-all-chants\/#more-128\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"2. Cummins comenta a respeito de alguns desses exemplos eesse ritmo em particular no seu blog, dispon\u00edvel em:\u00a0https:\/\/fredcummins.wordpress.com\/2013\/12\/12\/the-mother-of-all-chants\/#more-128. (opens in a new tab)\">https:\/\/fredcummins.wordpress.com\/2013\/12\/12\/the-mother-of-all-chants\/#more-128.<\/a><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>3. Em geral, nos v\u00e1rios cantos e can\u00e7\u00f5es e cantos populares, uma s\u00edlaba corresponde a uma nota musical.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>4. A fala conjunta pode ser analisada como um ato de fala performativo, dentro da Teoria dos Atos de Fala (Austin, 1962).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>5. O pesquisador mant\u00e9m um site dedicado \u00e0 fala conjunta, onde ele re\u00fane uma material muito interessante, como v\u00eddeos e artigos que falam do tema, dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/jointspeech.ucd.ie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"5. O pesquisador mant\u00e9m um site dedicado \u00e0 fala conjunta, onde ele re\u00fane uma material muito interessante, como v\u00eddeos e artigos que falam do tema, dispon\u00edvel em: http:\/\/jointspeech.ucd.ie\/. Recomendo tamb\u00e9m sua apresenta\u00e7\u00e3o no TED Talks, dispon\u00edvelem: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=srtNn2OsGeI&amp;t=1s.  (opens in a new tab)\">http:\/\/jointspeech.ucd.ie\/<\/a>. Recomendo tamb\u00e9m sua apresenta\u00e7\u00e3o no TED Talks, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=srtNn2OsGeI&amp;t=1s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=srtNn2OsGeI&amp;t=1s<\/a>.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>6. CUMMINS,F. <em>The Ground From Which We Speak: <\/em>Joint speech and the collective subject. Cambridge Scholars Publishing: 2018, p. 16.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>7. CUMMINS,F. Joint speech: The missing link between speech and music? <em>Percepta<\/em>, n. 1, v. 1, p. 17-32, 2013. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.abcogmus.org\/journals\/index.php\/percepta\/article\/view\/16\/30\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"7. CUMMINS,F. Joint speech: The missing link between speech and music? Percepta, n. 1, v. 1, p. 17-32, 2013. Dispon\u00edvel em:\u00a0http:\/\/www.abcogmus.org\/journals\/index.php\/percepta\/article\/view\/16\/30. (opens in a new tab)\">http:\/\/www.abcogmus.org\/journals\/index.php\/percepta\/article\/view\/16\/30<\/a>.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>8.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2017\/06\/17\/O-que-foram-afinal-as-Jornadas-de-Junho-de-2013.-E-no-que-elas-deram\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"8.\u00a0https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2017\/06\/17\/O-que-foram-afinal-as-Jornadas-de-Junho-de-2013.-E-no-que-elas-deram (opens in a new tab)\">https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2017\/06\/17\/O-que-foram-afinal-as-Jornadas-de-Junho-de-2013.-E-no-que-elas-deram<\/a><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>9. O termo \u201ccanto\u201d, em portugu\u00eas,n\u00e3o mant\u00e9m a ambiguidade da palavra inglesa <em>chant<\/em>, que traduz t\u00e3o bem a intersec\u00e7\u00e3o entre fala e m\u00fasica que a fala conjunta expressa. Na falta de uma tradu\u00e7\u00e3o melhor, usamos o termo entre aspas, com a ressalva de que esse \u201ccanto\u201d \u00e9 diferente da \u201ccan\u00e7\u00e3o\u201d que ouvimos de cantores e m\u00fasicos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>10. VARELA,F. J., THOMPSON, E. T., ROSCH, E. <em>The Embodied Mind: Cognitive Sciences and Human Experience.<\/em> Cambridge, MA: MIT Press, 1991.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>11. Uma boa refer\u00eancia para o estudo da Lingu\u00edstica na perspectiva dos sistemas adaptativos complexos \u00e9 o livro <em>Complex Systems and Applied Linguistics<\/em>, de Diane Larsen-Freeman e Lynne Cameron.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>12. Dentro do estudo da fala e dos sons, a abordagem din\u00e2mica \u00e9 desenvolvida pela Fonologia Articulat\u00f3ria (Browman e Goldstein, 1989, 1992). Para uma introdu\u00e7\u00e3o a essa perspectiva te\u00f3rica nos estudos fonol\u00f3gicos, recomendo o texto de Albano (2012), dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.5380\/rabl.v11i1.32462\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"12. Dentro do estudo da fala e dos sons, a abordagem din\u00e2mica \u00e9 desenvolvida pela Fonologia Articulat\u00f3ria (Browman e Goldstein, 1989, 1992). Para uma introdu\u00e7\u00e3o a essa perspectiva te\u00f3rica nos estudos fonol\u00f3gicos, recomendo o texto de Albano (2012), dispon\u00edvel em: http:\/\/dx.doi.org\/10.5380\/rabl.v11i1.32462. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0  (opens in a new tab)\">http:\/\/dx.doi.org\/10.5380\/rabl.v11i1.32462<\/a>. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>O que protestos pol\u00edticos, torcidas esportivas e fi\u00e9is rezando t\u00eam em comum? Justamente a fala conjunta! Esses tr\u00eas s\u00e3o dom\u00ednios cujas caracter\u00edsticas e participantes s\u00e3o bem distintos, mas todos t\u00eam em comum a ades\u00e3o a um mesmo prop\u00f3sito. <\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":387,"featured_media":1539,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9,7],"tags":[183,250,252,255,256,253],"class_list":["post-1527","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem-e-mente","category-linguagem-e-sociedade","tag-fonetica","tag-joint-speech","tag-manifestacoes-sociais","tag-ritmo","tag-sincronizacao-da-fala","tag-sistemas-dinamicos"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2018\/12\/Voto-feminino2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/387"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1527"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1527\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1800,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1527\/revisions\/1800"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1539"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}