{"id":1641,"date":"2020-01-10T02:32:46","date_gmt":"2020-01-10T02:32:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1641"},"modified":"2020-05-09T04:25:50","modified_gmt":"2020-05-09T04:25:50","slug":"entrevista-com-noam-chomsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2020\/01\/10\/entrevista-com-noam-chomsky\/","title":{"rendered":"Entrevista com Noam Chomsky"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/coloquiochomsky.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2003 alignright\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/coloquiochomsky.png\" alt=\"\" width=\"322\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/coloquiochomsky.png 1426w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/coloquiochomsky-213x300.png 213w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/coloquiochomsky-726x1024.png 726w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/coloquiochomsky-768x1083.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/coloquiochomsky-1090x1536.png 1090w\" sizes=\"(max-width: 322px) 100vw, 322px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Paulo \u00c2ngelo Ara\u00fajo-Adriano &amp; Williane Cor\u00f4a<\/strong><\/p>\n<p>O pai da lingu\u00edstica moderna proferiu &#8211; via videoconfer\u00eancia ocorrida em 04 de setembro de 2018 &#8211; o col\u00f3quio intitulado <em>The Galilean Challenge: Architecture and Evolution of Language<\/em>, t\u00edtulo do seu \u00faltimo<a href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.1088\/1742-6596\/880\/1\/012015\"> paper publicado na Journal of Physics (2017)<\/a>.<\/p>\n<p>Para saber mais sobre Chomsky e sua import\u00e2ncia para a Lingu\u00edstica, leia o post de introdu\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2020\/01\/10\/noam-chomsky-e-o-funcionamento-da-linguagem-menos-e-mais\/\"><strong>aqui<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>Para ler a entrevista original, em ingl\u00eas, clique <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2020\/01\/10\/qa-with-noam-chomsky\/\"><strong>aqui<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>Abaixo, trazemos a tradu\u00e7\u00e3o das perguntas e respostas que foram feitas durante o <a href=\"https:\/\/nucleoforma.wixsite.com\/forma-iel\/coloquios\">Col\u00f3quio de Chomsky no ForMA<\/a>, mas que n\u00e3o foram respondidas naquele espa\u00e7o, por falta de tempo. O que ainda surpreende em Chomsky, mesmo depois de ter modificado radicalmente o modo de se pensar sobre a linguagem, \u00e9 sua constante indaga\u00e7\u00e3o sobre o qu\u00e3o \u00f3ptimo est\u00e1 o seu modelo para a linguagem, marcado at\u00e9 mesmo pela sua \u00faltima \u2018fala\u2019 em <em>The Galilean Challenge: Architecture and Evolution of Language<\/em>: \u201cquanto mais n\u00f3s aprendemos, mais descobrimos o que n\u00e3o sabemos\u201d.<\/p>\n<p><em>* Agradecemos ao Antonio Codina pela revis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o das perguntas e respostas.<\/em><\/p>\n<h3>ForMA: O que voc\u00ea acha da atual fase da Gram\u00e1tica Gerativa como abordagem para o desafio de Galileu? Precisa-se de um salto qualitativo como aqueles indo da Gram\u00e1tica Transformacional para a GB e depois para o PM?<\/h3>\n<p>Chomsky: Os trabalhos contempor\u00e2neos abordam apenas uma parte do desafio: a tarefa de explicar a capacidade humana \u00fanica de criar um conjunto ilimitado de express\u00f5es estruturadas interpretadas como pensamentos, e os meios pelos quais elas s\u00e3o externalizadas (na verdade, muito raramente). Mas a outra parte do desafio tem a ver com o uso dessa capacidade: o que tem sido chamado de \u201caspecto criativo do uso da linguagem\u201d \u2013 repito: \u201cuso\u201d. Ou seja, a habilidade de usar a linguagem de uma maneira que possamos ser &#8220;incitados e inclinados&#8221; a fazer a depender das circunst\u00e2ncias, embora n\u00e3o sejamos &#8220;obrigados&#8221; e possamos fazer o contr\u00e1rio \u2013 a habilidade de usar a linguagem em maneiras que sejam apropriadas \u00e0s circunst\u00e2ncias, mas n\u00e3o causadas por elas, isso \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o fundamental. Essas estavam entre as principais preocupa\u00e7\u00f5es que levaram Descartes a postular uma segunda subst\u00e2ncia, <em>res cogitans<\/em>. \u00c0s vezes, os comentaristas agora citam o aforismo de Humboldt sobre a linguagem envolvendo o &#8220;uso infinito de meios finitos&#8221; \u2013 normalmente ignorando o fato de que ele estava se referindo ao uso. Essa lacuna na compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9, claro, espec\u00edfica ao estudo da linguagem. Praticamente nada \u00e9 compreendido como uma a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria mesmo em casos muito mais simples, como a decis\u00e3o de levantar o dedo, assuntos que, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o devidamente reconhecidos.<\/p>\n<p>Para a tarefa espec\u00edfica e suficientemente impressionante e significante de explicar a capacidade de gerar pensamentos, o programa minimalista me parece formular os objetivos mais abrangentes que podemos esperar atingir, e, nos \u00faltimos tempos, eu acho, houve progresso substancial em estabelecer a plausibilidade da &#8220;tese minimalista forte&#8221;, uma ideia que parecia estranha n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s. H\u00e1 aproximadamente 20 anos, eu proferi algumas palestras sobre linguagem em Bras\u00edlia, organizadas pela Lucia Lobato, que eu acho que foram publicadas no Brasil na \u00e9poca. Nelas, eu especulei que poder\u00edamos descobrir algum dia que a linguagem \u00e9 como um floco de neve, ou seja, assumindo sua forma pelo que equivale \u00e0s leis da natureza no modo mais simples poss\u00edvel. Para colocar isso de forma pitoresca, podemos descobrir que a linguagem \u00e9 &#8220;projetada&#8221; para ser bela mas n\u00e3o aproveit\u00e1vel \u2013 mais prosaicamente, que favorece a efici\u00eancia computacional sobre a efici\u00eancia comunicativa. Eu acho que j\u00e1 temos condi\u00e7\u00f5es de fornecer evid\u00eancias interessantes para essas especula\u00e7\u00f5es. H\u00e1, claro, grandes desafios pela frente, entre eles mostrar que a aparente variedade e diversidade de l\u00ednguas \u00e9 apenas superficial, tendo principalmente mais a ver com quest\u00f5es de externaliza\u00e7\u00e3o, ou seja, com o esfor\u00e7o para interligar os dois sistemas n\u00e3o relacionados, a linguagem verdadeira (l\u00edngua-I) e o sistema sens\u00f3rio-motor (e claro, a escolha lexical arbitr\u00e1ria).<\/p>\n<h3>ForMA: Como a linguagem obteve sua contraparte fon\u00e9tica se ela evoluiu principalmente como uma ferramenta cognitiva?<\/h3>\n<p>Chomsky: H\u00e1 um trabalho muito interessante sobre isso escrito por Riny Huijbregts (&#8220;Clic Phonemes, the emergence of language, and the mapping asymetry&#8221;; https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/28161511). Sabe-se, a partir de estudos gen\u00f4micos, que o povo San se separou dos outros Homo Sapiens por volta de 125.000 anos atr\u00e1s, portanto n\u00e3o muito depois que a esp\u00e9cie apareceu (cerca de 200,000 anos atr\u00e1s). N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias para linguagem; na verdade comportamento simb\u00f3lico em geral, antes daquela \u00e9poca. Eles compartilham a capacidade geral humana da linguagem, mas seu sistema de externaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 interessantemente diferente. Huijbregts mostra convincentemente que suas linguagens s\u00e3o as \u00fanicas que usam cliques (com exce\u00e7\u00e3o que ele efetivamente rejeita). A conclus\u00e3o plaus\u00edvel do autor \u00e9 que a capacidade da linguagem \u2013 pensamentos gerando a l\u00edngua-I \u2013 emergiu praticamente junto com o Homo Sapiens, mas que a externaliza\u00e7\u00e3o ocorreu somente algum tempo mais tarde, depois da separa\u00e7\u00e3o, e de maneiras um pouco diferentes. Essas conclus\u00f5es corroboram argumentos independentes semelhantes que Robert Berwick e eu demos. Como a externaliza\u00e7\u00e3o se desenvolveu, n\u00e3o temos ideia, mas n\u00e3o \u00e9 surpreendente que se um n\u00famero suficiente de pessoas nos pequenos grupos de humanos que existiam na \u00e9poca compartilhassem a mesma capacidade da linguagem interna, essas pessoas teriam encontrado meios para relacion\u00e1-la, de alguma forma aos sistemas sens\u00f3rio-motores que existiam muito antes de modo que pudessem compartilhar seus pensamentos com outros.<\/p>\n<h3>ForMA: O que voc\u00ea pensa sobre descrever a FLN [Faculdade da linguagem no sentido estreito] \/FLB [Faculdade da linguagem no sentido amplo] em termos neurobiol\u00f3gicos? Isso \u00e9 fundamental para o Programa Minimalista? \u00c9 um desafio?<\/h3>\n<p>Chomsky: Descobrir a base neural para a linguagem pressup\u00f5e desafios enormes . Isso \u00e9 verdade, de fato, mesmo para casos muito mais simples: por exemplo, encontrar a base neural para as extraordin\u00e1rias capacidades de navega\u00e7\u00e3o dos insetos (que v\u00e3o muito al\u00e9m das nossas). E o estudo da linguagem coloca problemas \u00fanicos porque \u00e9 biologicamente isolada. N\u00f3s n\u00e3o aprendemos quase nada sobre a FLN a partir de trabalhos comparativos. Sabemos muito sobre a base neural para o sistema visual, com experimentos invasivos com gatos e macacos, que t\u00eam sistemas visuais muito parecidos com os nossos, mas n\u00e3o h\u00e1 outros organismos com alguma coisa parecida com a faculdade da linguagem, logo n\u00e3o h\u00e1 trabalhos comparativos dessa natureza.<\/p>\n<h3>ForMA: Se a linguagem \u00e9 um sistema do pensamento, n\u00e3o relacionado com a comunica\u00e7\u00e3o, a comunica\u00e7\u00e3o seria apenas uma fun\u00e7\u00e3o corporal desse sistema particular?<\/h3>\n<p>Chomsky: Eu acho que a frase &#8220;n\u00e3o relacionada com a comunica\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 forte demais. Certamente, a linguagem \u00e9 usada para comunica\u00e7\u00e3o, na verdade \u00e9 de longe o sistema mais rico que temos para a comunica\u00e7\u00e3o. A conclus\u00e3o significante que eu acho que est\u00e1 ficando cada vez mais estabelecida empiricamente \u00e9 que a externaliza\u00e7\u00e3o, relacionando linguagem (-I) interna a algum sistema sens\u00f3rio-motor \u00e9 um processo auxiliar, e que as exig\u00eancias da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o parecem fazer parte da evolu\u00e7\u00e3o ou da natureza b\u00e1sica da l\u00edngua-I, de modo que usos espec\u00edficos da linguagem externalizada, como a comunica\u00e7\u00e3o, seriam tamb\u00e9m propriedades secund\u00e1rias da linguagem. Eu n\u00e3o tenho certeza qual foi a inten\u00e7\u00e3o da express\u00e3o &#8220;fun\u00e7\u00e3o corporal&#8221;. Eu n\u00e3o vejo nenhum motivo para questionar a tese de John Locke, segundo a qual processos mentais s\u00e3o aspectos de alguma forma de mat\u00e9ria organizada, em particular o c\u00e9rebro, portanto &#8220;corporal&#8221; no sentido amplo do termo.<\/p>\n<h3>ForMA: Devemos considerar literalmente que o aparelho lingu\u00edstico da mente gera senten\u00e7as sem limites ao inv\u00e9s de ser ativado apenas quando queremos dizer alguma coisa?<\/h3>\n<p>Chomsky: Essas coisas n\u00e3o devem ser consideradas como alternativas, se o termo &#8220;gerar&#8221; for devidamente compreendido. Considere o caso mais simples da aritm\u00e9tica. Algum componente finito da nossa mente\/c\u00e9rebro \u2013 chamemo-la de compet\u00eancia aritm\u00e9tica CA \u2013 determina as propriedades dos n\u00fameros naturais, digamos os triplos (x, y, z), tal que z \u00e9 o produto de x e y, para inteiros arbitr\u00e1rios x e y. Em termos t\u00e9cnicos, CA gera esse conjunto infinito (e muitos outros). Mas o ato de gerar \u00e9 diferente do processo de multiplicar x e y (que pode produzir uma resposta errada, na pr\u00e1tica). O mesmo ocorre com a linguagem. A l\u00edngua-I gera um conjunto infinito de express\u00f5es internas, interpretadas como pensamentos, e \u00e0s vezes externalizados como enunciados. E quando a l\u00edngua-I \u00e9 ativada ela pode produzir enunciados (e interpretar o que n\u00f3s compreendemos).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Paulo \u00c2ngelo Ara\u00fajo-Adriano &amp; Williane Cor\u00f4a O pai da lingu\u00edstica moderna proferiu &#8211; via videoconfer\u00eancia ocorrida em 04 de setembro de 2018 &#8211; o col\u00f3quio <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2020\/01\/10\/entrevista-com-noam-chomsky\/\" title=\"Entrevista com Noam Chomsky\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":392,"featured_media":1969,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[35,9],"tags":[265,267,266,269,268],"class_list":["post-1641","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-linguagem-e-mente","tag-gramatica-gerativa","tag-gramatica-universal","tag-noam-chomsky","tag-problema-da-pobreza-de-estimulo","tag-problema-de-platao"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-20-at-9.43.18-PM.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/392"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1641"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1641\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2050,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1641\/revisions\/2050"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1969"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}