{"id":1699,"date":"2019-04-21T22:59:11","date_gmt":"2019-04-21T22:59:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1699"},"modified":"2019-05-26T02:56:13","modified_gmt":"2019-05-26T02:56:13","slug":"a-lingua-alienigena-de-a-chegada-pode-nos-dar-o-superpoder-de-prever-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2019\/04\/21\/a-lingua-alienigena-de-a-chegada-pode-nos-dar-o-superpoder-de-prever-o-futuro\/","title":{"rendered":"A l\u00edngua alien\u00edgena de \u2018A Chegada\u2019 pode nos dar o superpoder de prever o futuro?"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de dois anos, vimos uma \u00e1rea da ci\u00eancia ainda um tanto discreta dividir espa\u00e7o com superprodu\u00e7\u00f5es hollywoodianas. Embora seja um filme, como dizem, \u201cmuito parad\u00e3o\u201d, A Chegada conseguiu chamar a aten\u00e7\u00e3o de muita gente e levantou a bola da Lingu\u00edstica para o p\u00fablico n\u00e3o acad\u00eamico. O sucesso da obra cinematogr\u00e1fica fez com que os estudos da linguagem ganhassem espa\u00e7o em podcasts, no youtube e em mesas de bar. Isso se refletiu na pr\u00f3pria divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como no <a href=\"https:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/scicast\/scicast-181-live-oscar-chegada\/\">Scicast #181<\/a>, em v\u00eddeos dos canais <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=V4GEKqI25EU\">Nerdologia<\/a>\u00a0e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XTtefb3Sd9k\">Enchendo Lingu\u00edstica<\/a>, e na mesa \u201cExplora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pela humanidade\u201d do <a href=\"http:\/\/posbrazil.wixsite.com\/posbrazil\/copy-of-camp11\">Pint of Science Campinas<\/a>\u00a02017 (<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/05\/13\/comunicacao-animais-humanos-e-ets\/\">roteiro da minha fala<\/a>) na qual participei junto com o astrobi\u00f3logo Lucas Fonseca e o astrof\u00edsico Douglas Galante, da <a href=\"https:\/\/www.garatea.space\/\">Miss\u00e3o Garat\u00e9a<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar do sucesso do filme, poucos tocaram num ponto bem curioso da hist\u00f3ria. A l\u00edngua alien\u00edgena, o hept\u00e1pode, fez com que a linguista e protagonista Louise Banks desenvolvesse uma percep\u00e7\u00e3o do tempo bastante diferente da que n\u00f3s, humanos, possu\u00edmos, permitindo que ela &#8220;relembrasse&#8221; o futuro. Mas ser\u00e1 que aprender uma l\u00edngua poderia realmente nos dar uma percep\u00e7\u00e3o diferente da passagem do tempo? Adianto que a resposta ainda \u00e9 bastante controversa. Mas na primeira metade do s\u00e9culo XX haviam dois pesquisadores que acreditavam que as nossas l\u00ednguas poderiam nos dar alguns &#8220;superpoderes&#8221; e nos prender em um mundo diferente dos falantes de outros idiomas. Eles tamb\u00e9m apontaram a primeira l\u00edngua que poderia ser vista dessa forma, a l\u00edngua Hopi.<\/p>\n<h3>Hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o Psicologia e Linguagem<\/h3>\n<p>Antes de falar sobre a l\u00edngua Hopi, \u00e9 interessante entendermos o contexto em que surgiu essa hip\u00f3tese. No s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, os linguistas europeus, de uma forma geral, trabalhavam na descri\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas de textos antigos e sua evolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 as l\u00ednguas atuais. J\u00e1 os linguistas americanos estavam mais interessados em descrever e documentar as ainda desconhecidas l\u00ednguas nativas do continente. Nessa \u00e9poca, diversos pensadores buscavam fomentar trabalhos conjuntos entre psic\u00f3logos e linguistas.<\/p>\n<p>O importante fil\u00f3sofo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Wilhelm_von_Humboldt\">Wilhelm von Humboldt<\/a> percebeu que os estudos da linguagem ainda se focavam no produto, o texto escrito e falado, e n\u00e3o na capacidade humana de usar essas l\u00ednguas. Em 1855, o fil\u00f3logo e psic\u00f3logo <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Heymann_Steinthal\">Heymann Steinhal<\/a> tamb\u00e9m indica que avan\u00e7os mais significativos nos estudos da linguagem s\u00f3 seriam poss\u00edveis com avan\u00e7os conjuntos na Psicologia.<\/p>\n<p>At\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o psic\u00f3logo que tinha chegado mais pr\u00f3ximo dessa rela\u00e7\u00e3o foi <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Wilhelm_Wundt\">Wilhelm Wundt<\/a>. Em dois dos dez volumes que comp\u00f5em sua obra Volkerpsychologie (Psicologia Cultural, numa tradu\u00e7\u00e3o livre), o psic\u00f3logo alem\u00e3o aborda as l\u00ednguas (orais e sinalizadas) buscando compreender os mecanismos mentais dos seus falantes. At\u00e9 aqui, a rela\u00e7\u00e3o entre psicologia e linguagem tratava da quest\u00e3o das origens das l\u00ednguas e dos processos de produ\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Sapir &amp; Whorf levam o assunto um passo al\u00e9m: Ser\u00e1 que existe uma rea\u00e7\u00e3o entre a percep\u00e7\u00e3o do mundo e a l\u00edngua que falamos?<\/p>\n<h3>Origem da Relatividade Lingu\u00edstica<\/h3>\n<figure id=\"attachment_1703\" aria-describedby=\"caption-attachment-1703\" style=\"width: 477px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/sapirwhorf.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1703\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/sapirwhorf.png\" alt=\"\" width=\"477\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/sapirwhorf.png 477w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/sapirwhorf-300x208.png 300w\" sizes=\"(max-width: 477px) 100vw, 477px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1703\" class=\"wp-caption-text\">Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por volta da d\u00e9cada de 1930, o antrop\u00f3logo e linguista <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Edward_Sapir\">Edward Sapir<\/a> come\u00e7ou a explorar a rela\u00e7\u00e3o linguagem e psicologia de uma forma bastante particular. Alguns psic\u00f3logos j\u00e1 rascunhavam as influ\u00eancias da cultura sobre as l\u00ednguas. Afinal, os objetos, os eventos e as cren\u00e7as se diferenciam entre os povos e, portanto, as l\u00ednguas possuem diferentes conjuntos de objetos ou fen\u00f4menos para nomear. Um exemplo \u00e9 o fato de que muitas l\u00ednguas antigas (ex. Turco pr\u00e9-isl\u00e2mico), africanas (ex. Tswana) ou ind\u00edgenas (ex. Lakota-Sioux) n\u00e3o diferenciam azul e verde.<\/p>\n<p>Um exemplo ainda mais curioso \u00e9 o de algumas l\u00ednguas abor\u00edgenes da Oceania, como o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Kuuk_Thaayorre_language\">Kuuk Thayorre<\/a>, que n\u00e3o t\u00eam palavras para dire\u00e7\u00f5es como direita e esquerda. Isso n\u00e3o quer dizer que seus falantes n\u00e3o sabem indicar onde fica a sua casa ao amigo que ir\u00e1 visita-lo. Os falantes dessas l\u00ednguas se localizam atrav\u00e9s dos pontos cardeais (Norte, Sul, Leste, Oeste e outros 12 nomes para dire\u00e7\u00f5es absolutas). Mas voc\u00ea sabe onde fica o Norte agora? Provavelmente n\u00e3o. Mas ainda assim parece ser f\u00e1cil explicar isso.<\/p>\n<p>A natureza est\u00e1 cheia de pistas que nos permitem localizar esses pontos. Por exemplo, os troncos das \u00e1rvores t\u00eam uma maior concentra\u00e7\u00e3o de musgo na parte que est\u00e1 virada para o sul (se estivermos no hemisf\u00e9rio norte, os musgos se concentram na parte que est\u00e1 virada para o norte). Uma outra hip\u00f3tese, por\u00e9m, \u00e9 que a l\u00edngua d\u00e1 aos seus falantes um \u201csuperpoder\u201d de ter consci\u00eancia constante dos pontos cardeais.<\/p>\n<p>Pensando em casos como esse, Sapir teve um questionamento bastante ousado: e se a l\u00edngua que a gente aprendeu quando crian\u00e7as nos prende no mundo em que os primeiros falantes da l\u00edngua viviam? Se a l\u00edngua que falamos nos faz compreender o mundo de forma diferente? E assim nasce a hip\u00f3tese da Relatividade Lingu\u00edstica.<\/p>\n<h3>Hopi: a l\u00edngua sem tempo (n\u00e3o por muito tempo!)<\/h3>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, Sapir se encontrou com <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Benjamin_Whorf\">Benjamin Lee Whorf<\/a>, um ent\u00e3o inspetor de inc\u00eandio que, nas horas vagas, estudava as l\u00ednguas nativas de origem asteca na regi\u00e3o do Arizona. Agora disc\u00edpulo de Sapir, Whorf poderia estudar e analisar as l\u00ednguas astecas se baseando n\u00e3o apenas nas compara\u00e7\u00f5es gramaticais com as l\u00ednguas de origem europeia, mas tamb\u00e9m comparando as diferen\u00e7as culturais em busca de novos superpoderes. Uma das l\u00ednguas estudadas a partir dessa hip\u00f3tese foi a l\u00edngua do povo Hopi, e levantou um dos debates mais pol\u00eamicos da hist\u00f3ria da Lingu\u00edstica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1704\" aria-describedby=\"caption-attachment-1704\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/paleogrifos.png\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1704\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/paleogrifos.png\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/paleogrifos.png 577w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/paleogrifos-300x198.png 300w\" sizes=\"(max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1704\" class=\"wp-caption-text\">Paleogrifos Hopi (Wikimedia Commons)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Whorf, a descoberta dessa l\u00edngua era um marco pois seria a primeira l\u00edngua sem tempo descoberta pela ci\u00eancia. Mas como assim sem tempo? Vamos revisar algumas caracter\u00edsticas comuns das l\u00ednguas que conhecemos:<\/p>\n<h4>a. flex\u00f5es de tempo em seus verbos ou uso de auxiliares<\/h4>\n<p>Exemplos: &#8211; Flex\u00e3o: estudarei lingu\u00edstica [= estudar + futuro]<br \/>\n&#8211; Auxiliar: vou estudar lingu\u00edstica [futuro + estudar]<\/p>\n<h4>b. uso de met\u00e1foras espaciais para tempo<\/h4>\n<p>Exemplo: apontar para frente ao se referir ao futuro ou para tr\u00e1s ao se referir ao passado<\/p>\n<h4>c. contar tempo de forma num\u00e9rica<\/h4>\n<p>Exemplos: um ano, dois anos, tr\u00eas minutos, quatro meses<\/p>\n<h4>d. palavras para tempo<\/h4>\n<p>Exemplos: amanh\u00e3, ontem, hoje, daqui a duas horas<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas afirma\u00e7\u00f5es, Whorf indica que os falantes de Hopi possuem uma vis\u00e3o diferenciada da passagem do tempo, que indica uma compreens\u00e3o completamente diferente da vis\u00e3o linear presente nas culturas europeias. Os Hopi pareciam enxergar o tempo de forma c\u00edclica. Como se o tempo sempre se reiniciasse em algum momento.<\/p>\n<p>Agora temos duas hip\u00f3teses. (1) a l\u00edngua Hopi representa a vis\u00e3o da cultura, ou seja, a cultura influenciou a l\u00edngua e (2) a vis\u00e3o c\u00edclica de tempo dos Hopi \u00e9 reflexo de uma l\u00edngua sem tempo, ou seja, a l\u00edngua influecia a cultura. Whorf prefere acreditar na hip\u00f3tese 2 e usa o Hopi como a evid\u00eancia necess\u00e1ria para revolucionar tanto a Lingu\u00edstica quanto disciplinas relacionadas como a Psicologia e a Antropologia.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreendentemente essa ideia n\u00e3o durou muito. Diante da pol\u00eamica levantada, o linguista Ekkehart Malotki decidiu passar quatro anos em trabalho de campo com o povo Hopi, fazendo pesquisas semelhantes \u00e0quelas de Louise Banks em A Chegada. E ao contr\u00e1rio da protagonista do filme, a vis\u00e3o de tempo do linguista n\u00e3o mudou. O que mudou foi o conhecimento que a lingu\u00edstica tinha at\u00e9 ent\u00e3o sobre essa l\u00edngua.<\/p>\n<p>Em uma an\u00e1lise de mais de 600 p\u00e1ginas somente para descri\u00e7\u00e3o de formas relacionadas ao tempo, Malotki demonstra que a l\u00edngua Hopi tem todas as caracter\u00edsticas que Whorf afirmava serem inexistentes. O Hopi tem flex\u00f5es de tempo, usa met\u00e1foras espaciais para se referir ao tempo, conta tempo de forma num\u00e9rica e tamb\u00e9m tinha palavras para categorias temporais. E com isso vemos um momento de bastante descr\u00e9dito da hip\u00f3tese da Relatividade Lingu\u00edstica de Sapir &amp; Whorf.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1705\" aria-describedby=\"caption-attachment-1705\" style=\"width: 2150px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/dancahopi.png\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1705\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/dancahopi.png\" alt=\"\" width=\"2150\" height=\"1030\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/dancahopi.png 2150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/dancahopi-300x144.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/dancahopi-768x368.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/dancahopi-1024x491.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 2150px) 100vw, 2150px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1705\" class=\"wp-caption-text\">Dan\u00e7a das mulheres Hopi e uma. Semelhan\u00e7a coincidental com os logogramas hept\u00e1podes<br \/>(foto de John Karl Hillers \u2013 Wikimedia Commons)<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Ent\u00e3o a Relatividade Lingu\u00edstica foi provada falsa? N\u00e3o exatamente!<\/h3>\n<p>A hip\u00f3tese de Sapir &amp; Whorf \u00e9 retomada de tempos em tempos, de forma c\u00edclica, em vers\u00f5es mais fracas. Se para os criadores da hip\u00f3tese a l\u00edngua determinava nossa vis\u00e3o de mundo, hoje podemos retomar a ideia mais conservadora e dizer que a l\u00edngua reflete a cultura e nos d\u00e1 pequenos poderes como, por exemplo, o de diferenciar mais facilmente o verde do azul se voc\u00ea fala portugu\u00eas, espanhol ou ingl\u00eas, do que se for falante de Tswana ou de Lakota-Sioux. Isso indica que falantes dessas l\u00ednguas n\u00e3o s\u00e3o capazes de reconhecer as mesmas diferen\u00e7as? N\u00e3o, mas eles as reconhecem como n\u00f3s reconhecemos a diferen\u00e7a entre azul e azul escuro, como tons da mesma cor &#8211; fato pelo qual os russos poderiam rir da gente (a l\u00edngua russa considera azul claro e escuro cores diferentes).<\/p>\n<p>No que diz respeito ao tempo, l\u00ednguas como o mandarim possuem met\u00e1foras de tempo verticais, categorizando o futuro para cima e o passado para baixo, bem diferente do que fazemos em portugu\u00eas em que o passado est\u00e1 atr\u00e1s e o futuro \u00e0 frente. Mais diferente ainda \u00e9 a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L%C3%ADngua_aimar%C3%A1\">l\u00edngua Aimar\u00e1<\/a>, l\u00edngua ind\u00edgena falada no Chile, Peru e Bol\u00edvia. Nessa l\u00edngua, o passado est\u00e1 \u00e0 frente considerando que podemos v\u00ea-lo. J\u00e1 o futuro \u00e9 metaforicamente localizado na parte de atr\u00e1s, onde n\u00e3o podemos enxerg\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a hip\u00f3tese da relatividade lingu\u00edstica n\u00e3o \u00e9 totalmente falsa, mas precisa ser levada com um certo cuidado para n\u00e3o retornarmos \u00e0 falsa vis\u00e3o de que as diferentes l\u00ednguas nos d\u00e3o <del>armas<\/del> ferramentas muito diferentes para enxergar o mundo.<\/p>\n<h4>Mas e a vis\u00e3o c\u00edclica do tempo?<\/h4>\n<p>Vamos deixar a lingu\u00edstica um pouco de lado e tentar entender melhor como os humanos come\u00e7am a entender a natureza.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro humano \u00e9 quase uma m\u00e1quina de aprendizagem estat\u00edstica, buscando padr\u00f5es no mundo para tentar entender o funcionamento da natureza. Para compreender o mundo em que viviam, nossos antepassados precisaram reconhecer e compreender alguns \u2018peda\u00e7os de tempo\u2019 como, por exemplo, o eterno embate entre a luz e a escurid\u00e3o, que dura em torno de 24 horas. Outro padr\u00e3o importante \u00e9 a sucess\u00e3o entre as esta\u00e7\u00f5es. A natureza varia entre per\u00edodos mais quentes com manh\u00e3s maiores que a noite, e per\u00edodos mais frios com a noite maior do que a manh\u00e3.<\/p>\n<p>Em uma sociedade de agricultores, por exemplo, conhecer esses per\u00edodos \u00e9 essencial para a sobreviv\u00eancia. Com base nesses peda\u00e7os de tempo, \u00e9 poss\u00edvel observar alguns padr\u00f5es e compreender a n\u00e3o viabilidade da colheita no inverno. Conhecer a sucess\u00e3o destes \u2018peda\u00e7os de tempo\u2019 nos d\u00e1 a habilidade de \u2018prever o futuro\u2019 e nos preparar para o inverno estocando comida e confeccionando roupas de frio. E como sempre, cada fase do dia ou do ano vem e passa, de forma c\u00edclica.<\/p>\n<p>Ciclos lunares e dos astros nos c\u00e9us tamb\u00e9m entraram na equa\u00e7\u00e3o e come\u00e7amos a criar os primeiros calend\u00e1rios para organizar esses ciclos e \u2018prever o futuro\u2019. Tamb\u00e9m inventamos mecanismos para facilitar a medi\u00e7\u00e3o desses ciclos. Ainda assim, a precis\u00e3o desses mecanismos ainda dependia da natureza. Os rel\u00f3gios solares, por exemplo, dependem da luz do sol e o hor\u00e1rio marcado varia de acordo com a esta\u00e7\u00e3o do ano e s\u00f3 funciona corretamente no local de constru\u00e7\u00e3o. Mais do que isso, sua utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 invi\u00e1vel em dias nublados.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1706\" aria-describedby=\"caption-attachment-1706\" style=\"width: 763px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/wakefieldclock.png\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1706\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/wakefieldclock.png\" alt=\"\" width=\"763\" height=\"507\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/wakefieldclock.png 556w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/wakefieldclock-300x200.png 300w\" sizes=\"(max-width: 763px) 100vw, 763px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1706\" class=\"wp-caption-text\">Rel\u00f3gio solar localizado no Wakefield Garden, em Londres (foto do autor)<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_1707\" aria-describedby=\"caption-attachment-1707\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/Geneva.png\" data-rel=\"lightbox-image-4\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1707\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/Geneva.png\" alt=\"\" width=\"760\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/Geneva.png 760w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/Geneva-300x184.png 300w\" sizes=\"(max-width: 760px) 100vw, 760px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1707\" class=\"wp-caption-text\">Rel\u00f3gio solar localizado no Lac Leman, em Genebra, Su\u00ed\u00e7a (foto do autor)<br \/>Repare que h\u00e1 linhas curvas que indicam a localiza\u00e7\u00e3o do sol por constela\u00e7\u00e3o, bem como corrige o hor\u00e1rio conforme a varia\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia da luz em diferentes \u00e9pocas do ano.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o do rel\u00f3gio mec\u00e2nico parece ter sido um marco que permitiu \u00e0 humanidade iniciar uma independ\u00eancia dos ciclos naturais e ter um maior controle de pequenos peda\u00e7os invari\u00e1veis de tempo. Luiz Alberto de Oliveira, f\u00edsico do <a href=\"https:\/\/portal.cbpf.br\/pt-br\/\">Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas<\/a> e curador geral do <a href=\"https:\/\/museudoamanha.org.br\/\">Museu do Amanh\u00e3<\/a> no Rio de Janeiro, acredita que esse marco influenciou as jornadas de trabalho que deixaram de ser vari\u00e1veis conforme a dura\u00e7\u00e3o do dia e a \u00e9poca do ano, passando a ser fixas a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Esse controle do tempo parece ter contribu\u00eddo para uma mudan\u00e7a da vis\u00e3o c\u00edclica, em que tudo na vida \u00e9 baseado nos ciclos da natureza, para uma vis\u00e3o linear do tempo, em que vivemos em um presente que se move eternamente em dire\u00e7\u00e3o a um intermin\u00e1vel futuro, sem ciclos, sem volta.<\/p>\n<p>Considerando esses apontamentos, seria natural imaginar que civiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o industrializadas tenham uma vis\u00e3o de tempo diferente das civiliza\u00e7\u00f5es industrializadas (o que, at\u00e9 onde eu sei, ainda n\u00e3o foi testado). A diferen\u00e7a entre nossa vis\u00e3o do tempo e a vis\u00e3o do povo Hopi poderia ter origem, na verdade, na diferente vis\u00e3o sobre o que \u00e9 o futuro.<\/p>\n<p>N\u00f3s ainda conseguimos prever quando ser\u00e1 o pr\u00f3ximo ver\u00e3o e quando teremos que tirar nossos casacos l\u00e1 do fundo do arm\u00e1rio. Mas nossa no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma previs\u00e3o sobre o futuro, hoje, vai al\u00e9m dos ciclos naturais. Normalmente queremos saber se nosso time de futebol vai vencer a final do campeonato, ou quando o Brasil vai sair dessa crise pol\u00edtica. E assim n\u00f3s sequer percebemos que, mesmo antes de aprender hept\u00e1pode, j\u00e1 conseguimos fazer pequenas previs\u00f5es certeiras sobre o futuro, a ponto de j\u00e1 ter comprado as passagens para as pr\u00f3ximas f\u00e9rias de inverno.<\/p>\n<p>Enfim, n\u00e3o \u00e9 uma l\u00edngua alien\u00edgena (e nem o Hopi) que nos far\u00e1 prever o futuro, mas sim o conjunto de conhecimentos que conseguimos adquirir do mundo atrav\u00e9s da cultura e da ci\u00eancia. Seja num futuro c\u00edclico, seja num futuro linear.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>REFER\u00caNCIAS<\/h4>\n<p>&#8211; Malotki, Ekkehart. Hopi time: A linguistic analysis of the temporal concepts in the Hopi language. Trends in linguistics: Studies and monographs. n.20, Mouton De Gruyter, 1983<br \/>\n&#8211; Oliveira, Luiz Alberto. Imagens do Tempo, In: Doctors, Marcio (org.), Tempo dos Tempos, Jorge Zahar Editors, Rio de Janeiro, 2003<br \/>\n&#8211; Whorf, B. Lee, The relation of habitual thought and behavior to language, ETC: review of general semantics, v.1, n.4, 1944<br \/>\n&#8211; Whorf, B. Lee, An American Indian model of the universe, ETC: review of general semantics, v.8, n.1, 1950<\/p>\n<h4>FICHA T\u00c9CNICA: IMDB<\/h4>\n<p>T\u00edtulo original: Arrival (no Brasil, A Chegada)<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o: Denis Villeneuve<br \/>\nElenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker<br \/>\nDistribui\u00e7\u00e3o: Sony<br \/>\nData de estreia: 24\/11\/16<br \/>\nPa\u00eds: Estados Unidos<br \/>\nG\u00eanero: fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<br \/>\nAno de produ\u00e7\u00e3o: 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>H\u00e1 pouco mais de dois anos, vimos uma \u00e1rea da ci\u00eancia ainda um tanto discreta dividir espa\u00e7o com superprodu\u00e7\u00f5es hollywoodianas. Embora seja um filme, como <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2019\/04\/21\/a-lingua-alienigena-de-a-chegada-pode-nos-dar-o-superpoder-de-prever-o-futuro\/\" title=\"A l\u00edngua alien\u00edgena de \u2018A Chegada\u2019 pode nos dar o superpoder de prever o futuro?\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":150,"featured_media":1701,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9,1],"tags":[51,50,49,29,277,278,272,281,15,279,273,67,276,270,280,274,271,275],"class_list":["post-1699","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem-e-mente","category-sem-categoria","tag-a-chegada","tag-arrival","tag-cinema","tag-cultura","tag-cultura-pop","tag-filmes","tag-hopi","tag-imagens-do-tempo","tag-linguagem","tag-logograma","tag-malotki","tag-psicolinguistica","tag-psicologia","tag-relativismo-linguistico","tag-relogio-solar","tag-sapir","tag-tempo","tag-whorf"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/04\/Arrival-GIF-01-1.gif","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/150"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1699"}],"version-history":[{"count":31,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1699\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1743,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1699\/revisions\/1743"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1701"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}