{"id":1806,"date":"2019-07-14T00:30:32","date_gmt":"2019-07-14T00:30:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=1806"},"modified":"2020-05-09T04:29:27","modified_gmt":"2020-05-09T04:29:27","slug":"letras-de-musica-mal-compreendidas-por-que-fazemos-embromation","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2019\/07\/14\/letras-de-musica-mal-compreendidas-por-que-fazemos-embromation\/","title":{"rendered":"Letras de m\u00fasica mal compreendidas: por que fazemos embromation?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Texto de Ana Luiza Perez e Julia America<\/strong><\/p>\n<p>Quem nunca cantou uma m\u00fasica por muito tempo e, por acaso, quando checou a letra descobriu que n\u00e3o era exatamente aquilo que voc\u00ea tinha entendido? Em casos de m\u00fasicas em outro idioma, j\u00e1 aconteceu de voc\u00ea n\u00e3o saber falar aquela l\u00edngua e seguir cantando no cl\u00e1ssico <em>embromation<\/em> em portugu\u00eas mesmo? Por que existem m\u00fasicas que sempre cantamos errado?<br \/>\nO embromation \u00e9 quando n\u00e3o sabemos a letra da m\u00fasica e inventamos algo foneticamente similar ao que ouvimos ou mesmo cantamos o que esperamos ouvir. Quem nunca cantou \u201c um love, love, love com voc\u00ea\u201d ao inv\u00e9s de \u201cum lobby, hobby, love com voc\u00ea\u201d?<\/p>\n<h4>Processamento Ascendente e Descendente<\/h4>\n<p>Isso tudo tem a ver com o que a Psicologia Cognitiva chama de processamento ascendente (bottom-up) e descendente (top-down). Esses nomes se referem as formas de compreender os est\u00edmulos que chegam aos nossos sentidos (vis\u00e3o, audi\u00e7\u00e3o, tato etc).<\/p>\n<p>Bem grosso modo, o processamento ascendente (de baixo pra cima) \u00e9 respons\u00e1vel por juntar todas as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis e, com isso, chegar \u00e0 compreens\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo. Assim, podemos pensar que a compreens\u00e3o seria o resultado da opera\u00e7\u00e3o mental de uni\u00e3o entre todas as partes.<\/p>\n<p>J\u00e1 o processamento descendente (de cima para baixo) \u00e9 baseado no nosso conhecimento pr\u00e9vio que gera expectativas sobre o que est\u00e1 acontecendo a nossa volta. Assim, temos uma aten\u00e7\u00e3o direcionada ao est\u00edmulo e preenchemos as lacunas de informa\u00e7\u00f5es mais fracas ou perdidas. Um exemplo de processamento descendente \u00e9 o estranhamento causado pelo seguinte v\u00eddeo, do canal Castro Brothers:<\/p>\n<p><iframe title=\"\u266b RELATOS DE UM CANTOR DE MPB \u266b\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xVuH4GNFsKk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h4>Sobre o Slip of the Ear (erros de compreens\u00e3o)<\/h4>\n<p>O <em>embromation<\/em> pode ser considerado a contraparte falada de um fen\u00f4meno de processamento fonol\u00f3gico, chamado <strong>Slip of the ear<\/strong>, teorizado pela linguista norte-americana, <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/zinny-bond-a7b14528\/\">Zinny Bond<\/a>. Esses desvios de escuta s\u00e3o uma esp\u00e9cie de ilus\u00e3o auditiva e, a principal causa desse efeito \u00e9 uma confus\u00e3o ocorrida ao confundimos onde come\u00e7a e onde termina cada palavra (os word boundaries ou, literalmente, \u201climites das palavras\u201d).<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno \u00e9 bastante comum em conversas espont\u00e2neas. Os \u201cerros\u201d de compreens\u00e3o s\u00e3o facilitados pela diferen\u00e7a de l\u00ednguas, de sotaques ou at\u00e9 mesmo de dialetos. Os desvios tamb\u00e9m s\u00e3o influenciados por qualquer tipo de ru\u00eddo que possa atrapalhar a comunica\u00e7\u00e3o como ambiente barulhentos ou conex\u00e3o ruim no caso de liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas os video confer\u00eancias. Ao n\u00e3o ouvir uma palavra ser pronunciada de forma plenamente compreens\u00edvel, nossa mente busca encaix\u00e1-la em algo que fa\u00e7a mais sentido com o contexto de nossa conversa.<\/p>\n<p><iframe title=\"Chinesa no aeroporto - traduzido\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lO6gMQkobxk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h4>Mishearded Lyrics (letras mal compreendidas)<\/h4>\n<p>Al\u00e9m da fala espont\u00e2nea, \u00e9 esse tipo de fen\u00f4meno que nos faz ter a impress\u00e3o de escutar \u201c<em>in New York, concrete jungle wet dreams tomato<\/em>\u201d ao inv\u00e9s de \u201c<em>in New York, concrete jungle where dreams are made of<\/em>\u201d na m\u00fasica <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Eww7ahPd8r4\"><em>Empire State of Mind<\/em><\/a> da cantora Alicia Keys e do rapper Jay-Z. Ou at\u00e9 mesmo \u201c<em>you can dance, you can die having the time of your life<\/em>\u201d no lugar de \u201c<em>you can jive having the time of your life<\/em>\u201d na cl\u00e1ssica m\u00fasica <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xFrGuyw1V8s\">Dancing Queen<\/a><\/em> do grupo Abba. Ao &#8220;escutarmos errado&#8221;, acabamos por perpetuar essa m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o ao cantar (o<em> embromation<\/em>)\u00a0inclusive podendo induzir nossos colegas a duvidar da letra original.<\/p>\n<p>Vimos que diferen\u00e7a de l\u00ednguas ajuda na m\u00e1 compreens\u00e3o das letras das m\u00fasicas que ouvimos. Por\u00e9m, por mais que seja mais comum fazermos o famoso <em>embromation<\/em> quando cantamos m\u00fasicas em ingl\u00eas, o fen\u00f4meno tamb\u00e9m ocorre quando cantamos m\u00fasicas em portugu\u00eas! M\u00fasicas conhecidas, como <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bFRBQjBuQmo\">Malandragem<\/a> da cantora C\u00e1ssia Eller, podem ser alvo do embromation e, de repente, o pr\u00edncipe \u00e9 um sapo ao inv\u00e9s de chato, muito provavelmente influenciado pelos contos de sapos que viram pr\u00edncipes, adicionando uma pitada de processamento descendente.\u00a0Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ouvir \u201c<em>Mas deixo voc\u00ea ir, sem l\u00e1grimas no olhar, s\u00f3 Deus me <\/em><em>machuca<\/em>\u201d, da dupla Leandro e Leonardo, no lugar de \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HQ3JyCBpGdY\"><em>Mas deixo voc\u00ea ir, sem l\u00e1grimas no olhar, se o adeus me machucar<\/em><\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Mais curioso \u00e9 que esse fen\u00f4meno j\u00e1 at\u00e9 gerou discuss\u00e3o na internet, como no caso da m\u00fasica <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lJE60-Au4Hc\">Pacato Cidad\u00e3o<\/a> da banda Skank em que um internauta entendeu a letra como \u201cmacaco cidad\u00e3o\u201d e usou disso para fazer um coment\u00e1rio criticando o politicamente correto, sendo corrigido, depois, pelo pr\u00f3prio autor da m\u00fasica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/07\/twitterpacato-1-1.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1833\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/07\/twitterpacato-1-1.png\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"510\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/07\/twitterpacato-1-1.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2019\/07\/twitterpacato-1-1-300x199.png 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O embromation parece andar lado a lado com a cultura pop. Um bom exemplo \u00e9 a s\u00e9rie Stranger Things. Ambientada nos anos 70, a s\u00e9rie conta com diversos cl\u00e1ssicos da d\u00e9cada como trilha sonora. Um desses cl\u00e1ssicos \u00e9 da banda The Clash, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BN1WwnEDWAM\">Should I stay or should I go<\/a>, que n\u00e3o demorou muito para virar meme nas m\u00e3os \u30fc ou devo dizer mouses e teclados? \u30fcdos internautas brasileiros.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos nos esquecer do caso cl\u00e1ssico do fen\u00f4meno: a m\u00fasica Ragatanga. Qualquer brasileiro que viveu nos anos 2000 j\u00e1 dan\u00e7ou a fat\u00eddica coreografia e dan\u00e7ou nos embalos da narrativa de Diego se esbanjando no baile. Nesse caso, o embration faz parte da letra da m\u00fasica, no refr\u00e3o \u201cAserehe ra de re \/ De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi \/ An de bugui an de buididipi\u201d. Por muito tempo, esse trecho era s\u00f3 uma sequ\u00eancia de sons que n\u00e3o fazia sentido. At\u00e9 que um internauta publicou no site <a href=\"https:\/\/www.buzzfeed.com\/br\/thiagones\/aaserehe-ra-de-rea-descubra-o-significado-r-x6am\">Buzzfeed a sua teoria<\/a> sobre o que significaria o tal refr\u00e3o. Thiagones, o autor do texto, ap\u00f3s uma longa investiga\u00e7\u00e3o, descobre que o trecho faz refer\u00eancia \u00e0 uma m\u00fasica do trio Sugarhill Gang, chamada <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=q5-ASsIa37w\">Rappers Delight<\/a>. Segundo o internauta, a m\u00fasica foi escrita justamente para criar essa confus\u00e3o na cabe\u00e7a do ouvinte. Ao pensarmos em Diego, podemos dizer que deu certo.<\/p>\n<p>Por fim, da pr\u00f3xima vez que tiver d\u00favidas sobre a letra de uma m\u00fasica que voc\u00ea gosta, vale a pena conferir nos materiais oficiais&#8230; ou n\u00e3o, pois essas falhas de interpreta\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma \u00f3tima fonte de memes =)<\/p>\n<h4>Para saber mais:<\/h4>\n<p>FERN\u00c1NDEZ, Eva. The Hearer: Speech Perception and Lexical Access. In: FERN\u00c1NDEZ &amp; CAIRNS (Org.). Fundamentals of Psycholinguistics. Wiley-Blackwell: 2010.<\/p>\n<p>UCL. Misheard lyrics introduction: ABBA&#8217;s &#8216;Super Trouper&#8217; &#8211; Professor Andrew Nevins. 2013.<\/p>\n<p><iframe title=\"Misheard lyrics introduction: ABBA&#039;s &#039;Super Trouper&#039; - Professor Andrew Nevins\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dBnhkwRmYuQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Texto de Ana Luiza Perez e Julia America Quem nunca cantou uma m\u00fasica por muito tempo e, por acaso, quando checou a letra descobriu que <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2019\/07\/14\/letras-de-musica-mal-compreendidas-por-que-fazemos-embromation\/\" title=\"Letras de m\u00fasica mal compreendidas: por que fazemos embromation?\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":150,"featured_media":1809,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9,102],"tags":[295,298,297,296,299,300,301,294],"class_list":["post-1806","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem-e-mente","category-linguagem-e-midia","tag-embromation","tag-letras-de-musica","tag-letras-mal-entendidas","tag-mishearded-lyrics","tag-mondegreen","tag-processamento-ascendente","tag-processamento-descendente","tag-slips-of-the-ear"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/150"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1806"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2053,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806\/revisions\/2053"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1809"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}