{"id":2066,"date":"2020-09-25T22:11:11","date_gmt":"2020-09-25T22:11:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=2066"},"modified":"2020-09-25T22:11:12","modified_gmt":"2020-09-25T22:11:12","slug":"fala-de-crianca-extratos-de-um-diario-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2020\/09\/25\/fala-de-crianca-extratos-de-um-diario-iv\/","title":{"rendered":"Fala de Crian\u00e7a: Extratos de um di\u00e1rio IV"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos de volta com extratos de di\u00e1rios parentais, esta rica fonte de dados da linguagem na inf\u00e2ncia. Desta feita, com epis\u00f3dios de Al, e tamb\u00e9m de J, duas meninas que foram acompanhadas pelas m\u00e3es (linguistas) em seu percurso com a l\u00edngua materna, o portugu\u00eas<sup>1<\/sup>. Os dados que seguem \u00e0 frente compreendem o intervalo entre 2;3 e 2,6 de idade, no caso de Al<sup>2<\/sup> ; e 2;3 e 3;7 de idade, no caso de J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para come\u00e7ar reunimos duas pe\u00e7as, uma de cada crian\u00e7a, cujos di\u00e1logos com a m\u00e3e (= M), naquele contexto, encerram manifesta\u00e7\u00f5es claras de um desejo de autonomia da crian\u00e7a frente a uma iniciativa por ela assumida. Vejamos primeiramente as falas de J dirigidas \u00e0 sua m\u00e3e no epis\u00f3dio (1) abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O di\u00e1logo come\u00e7a com o gesto decidido da garota em aprender a ler horas num rel\u00f3gio educativo:&nbsp;<em>Eu vou ensinar eu<\/em>&nbsp;(ver turno a). Na sequ\u00eancia, dentro do mesmo epis\u00f3dio, \u00e9 outra a situa\u00e7\u00e3o, o que leva o observador a reconhecer, no turno b, uma solicita\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o conjunta.&nbsp;Em tela, os verbos <em>ensinar<\/em> e <em>aprender<\/em>, respectivamente: o primeiro surge numa constru\u00e7\u00e3o em que a menina projeta uma a\u00e7\u00e3o comandada por ela mesma; o segundo aparece num apelo \u00e0 interlocutora para que assuma o papel de ensin\u00e1-la. Neste turno, o verbo que aparece \u00e9 <em>aprender<\/em>, numa estrutura gramatical tal que pode ser glosado por <em>ensina eu<\/em><sup>3<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#fffac1\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(1) (J pega um rel\u00f3gio, brinquedo educativo usado pela m\u00e3e para, movendo os ponteiros, ensinar a filha mais velha a ler as horas; J quer imitar a m\u00e3e; decidida, declara)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp; &nbsp; &nbsp; J. Eu vou ensinar eu. (a)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(pouco depois, pedindo ajuda)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp; &nbsp; &nbsp; J. Aprende eu! (b) &nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; ( 3;6.14)<\/p>\n<\/div><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cena se passa aos 3;6.14 de idade de J. A menina muda de posi\u00e7\u00e3o: assume sua independ\u00eancia num ato mas desiste depois. J n\u00e3o est\u00e1 sozinha em registro desta natureza. O di\u00e1rio de Al exibe um epis\u00f3dio que ilustra movimento semelhante ao de J. Veja-se a descri\u00e7\u00e3o precisa do contexto, feita pela m\u00e3e de Al, ao registrar a cena em que interage com a filha (2;3.24 de idade), cena na qual a menina protagoniza inicialmente um lance de independ\u00eancia, para depois ceder \u00e0 ajuda de M. (na apresenta\u00e7\u00e3o de (2) abaixo conservamos as nota\u00e7\u00f5es convencionais originais, mantendo inclusive, depois do registro da idade da crian\u00e7a, o t\u00edtulo dado pela m\u00e3e \u00e0 pequena cena).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#fffac1\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(2) Alice, depois de brigar comigo porque queria colocar o t\u00eanis sozinha (e depois de brigar com o t\u00eanis para ele entrar no p\u00e9 dela), chega toda meiga perto de mim e diz:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al. Mam\u00e3e, p\u00f5e pa mim, pufav\u00f4? rsrsrs. (2;3.24)  \u201chumildade tamb\u00e9m se aprende!\u201d<\/p>\n<\/div><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como abordar o epis\u00f3dio (1)? E o epis\u00f3dio (2)? As cenas, em cada caso, transcorrem em dois tempos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em (1), num primeiro tempo, a menina, que j\u00e1 presenciara M ensinar sua irm\u00e3 mais velha a ler as horas num rel\u00f3gio educativo, quer fazer o mesmo que a irm\u00e3, e toma a iniciativa de uma a\u00e7\u00e3o que prescinde da ajuda da m\u00e3e:&nbsp;<em>Eu vou ensinar eu<\/em>. Um pouco adiante, por\u00e9m, pede ajuda desta para usar o brinquedo:&nbsp;<em>Aprende eu<\/em>! Busca ent\u00e3o obter o resultado desejado atrav\u00e9s de uma a\u00e7\u00e3o que solicita um coadjuvante: aquele que a ensinar\u00e1 a usar o brinquedo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em (2), entre a tentativa de colocar o t\u00eanis sozinha, momento inicial, e a busca por ajuda, \u00e9 o insucesso no prop\u00f3sito inicial que faz a virada de posi\u00e7\u00e3o. Tal como se l\u00ea na transcri\u00e7\u00e3o, isto se reflete na mudan\u00e7a de tom de que se reveste a fala de Al no segundo tempo, que passa a meigo, no momento de convocar ajuda da m\u00e3e: <em>Mam\u00e3e, p\u00f5e p\u00e1 mim, pufav\u00f4?<\/em> Vale valorizar o cuidado na anota\u00e7\u00e3o deste elemento da cena, cuja relev\u00e2ncia para uma aprecia\u00e7\u00e3o completa do di\u00e1logo contribui para expor as rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas daquele di\u00e1logo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No quadro de uma abordagem geral sobre a gram\u00e1tica dos modos de causa\u00e7\u00e3o nas l\u00ednguas naturais (uso adulto), Shibatani e Pardeshi (2002) reconhecem entre os tipos de \u201csociative construction\u201d modalidades distribu\u00eddas em tr\u00eas tipos. &nbsp;Os autores as ilustram com constru\u00e7\u00f5es que representam relato de situa\u00e7\u00f5es entre m\u00e3e e filho, em exemplos do japon\u00eas, traduzidos para o ingl\u00eas. Numa delas, descrita como modalidade <em>assistiva<\/em> (ing. <em>assistive<\/em>), o evento concebido como assistencial envolve dois participantes (m\u00e3e e filho), ambos com potencial agentivo, o primeiro sendo o que presta ajuda. A senten\u00e7a que expressa esta modalidade \u00e9 exemplificada em japon\u00eas, recebendo a seguinte tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas: \u201cmother is making the child pee\u201d. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Movida pela contempla\u00e7\u00e3o do que acontece em nosso espa\u00e7o espec\u00edfico de observa\u00e7\u00e3o \u2013 a linguagem nas cenas do cotidiano infantil \u2013 e inspirada sobretudo nas particularidades de meu encontro com falas de J e de Al, de que (1) e (2) s\u00e3o exemplos de um desejo de autonomia, parece adequado considerar, na an\u00e1lise dos dados da intera\u00e7\u00e3o crian\u00e7a-adulto, a natureza da a\u00e7\u00e3o em pauta naqueles contextos. Ou seja, como esta \u00e9 considerada pela crian\u00e7a: pass\u00edvel de uma a\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria ou dependente de ajuda? Quero crer que estes aspectos entram, em cada situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, como parcialmente determinantes da op\u00e7\u00e3o por um <em>recorte<\/em> sob o qual o evento se deixa apresentar ou <em>representar<\/em> na fala da crian\u00e7a. Revelam, ali\u00e1s, a dose de confian\u00e7a que a crian\u00e7a deposita sobre o sucesso de sua pr\u00f3pria iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a perspectiva aberta para considerar tais aspectos, acreditamos que o quadro, assim considerado, permite avaliar de que modo o contexto enunciativo, incluindo idas e vindas, interfere na din\u00e2mica do di\u00e1logo, ao ponto de produzir enunciados que come\u00e7am com o sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o \u2013 a crian\u00e7a \u2013 no comando do processo (prescindindo de ajuda), e adiante, numa esp\u00e9cie de volta-atr\u00e1s, manifestando aceita\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o conjunta de seu alocut\u00e1rio.&nbsp;Al\u00e9m dos aspectos discursivos, cabe notar que os epis\u00f3dios deixam ver outras quest\u00f5es, que afetam o l\u00e9xico e a gram\u00e1tica, as quais importam na descri\u00e7\u00e3o do percurso da crian\u00e7a com sua l\u00edngua materna, nosso objeto de estudo. Sirva de exemplo o epis\u00f3dio (3) abaixo, extra\u00eddo do di\u00e1rio de J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos 2;9 de idade, o di\u00e1logo mantido com a m\u00e3e, pede aten\u00e7\u00e3o sobre a maneira com a menina relata uma conquista que \u00e9 dividida com outrem. Tal relato tem in\u00edcio quando, no seio da rotina familiar, surge uma novidade, esta recebida com admira\u00e7\u00e3o pela m\u00e3e e pela irm\u00e3 de J.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#fffac1\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3) (M e A, a irm\u00e3 de J, se surpreendem ao ver J cantar uma can\u00e7\u00e3o)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">     M. Quem te ensinou?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">     J. <em>A tia Licinha me aprendeu isso<\/em>. (= ensinou)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(a m\u00e3e se admira; interpretando a surpresa da m\u00e3e como referente ao conte\u00fado do que dissera, J. confirma)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">     J. <em>\u00c9 sim. A tia Licinha me aprendeu<\/em>.&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; (2;9.18)  &nbsp;[retomado de Figueira 2019: 122)<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisemos (3) em detalhe<sup>4<\/sup>. Ao entoar uma can\u00e7\u00e3o, J causa surpresa \u00e0 m\u00e3e e \u00e0 irm\u00e3. Em resposta a M, que indaga:&nbsp;<em>Quem te ensinou?<\/em>&nbsp; J declara:&nbsp;<em>A tia Licinha me aprendeu isso<\/em>. Desperta a aten\u00e7\u00e3o de M tanto o emprego causativo de&nbsp;<em>aprender<\/em>&nbsp;por&nbsp;<em>ensinar<\/em> (um fato relativo ao l\u00e9xico e \u00e0 sintaxe), quanto a novidade no repert\u00f3rio de can\u00e7\u00f5es conhecidas da filha. Quanto a J, esta reage \u00e0 surpresa estampada no rosto da m\u00e3e, afastando a d\u00favida que ela sup\u00f5e ter descoberto na express\u00e3o desta, uma d\u00favida relativamente \u00e0 verdade do <em>dictum<\/em>. Ao que parece, J presume que a m\u00e3e duvida do que ela acaba de dizer. &nbsp;Deste modo, seu turno de fala seguinte \u00e9 iniciado por express\u00e3o de confirma\u00e7\u00e3o:&nbsp;<em>\u00c9 sim<\/em>, seguido de:&nbsp;<em>A tia Licinha me aprendeu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos diante de uma formula\u00e7\u00e3o em que a crian\u00e7a concede m\u00e9rito pelo feito a Tia Licinha, que \u00e9 apresentada como iniciadora (principal autora?) de uma novidade \u2013 novidade que \u00e9 ali recebida, no contexto da fam\u00edlia (m\u00e3e e irm\u00e3 mais velha), com interesse e orgulho. Esta pessoa a quem J se refere atuou numa cadeia de acontecimentos em que n\u00e3o \u00e9 esquecida, ou melhor, n\u00e3o \u00e9 deixada fora de perspectiva, apagada do relato. Tia Licinha \u00e9 apresentada, neste evento, como participante ativa (fase <em>causadora<\/em>, adotando-se a terminologia de Shibatani) do resultado alcan\u00e7ado (a fase <em>causada<\/em>)<sup>5<\/sup>.&nbsp;No ato de fala de J fica evidente o que a menina quis declarar, ou seja, que ela aprendeu a cantar a can\u00e7\u00e3o pela a\u00e7\u00e3o de outra pessoa, que a ensinou. Um feito exitoso.&nbsp;Como se nota, a quest\u00e3o de mencionar o coautor de um feito admir\u00e1vel, n\u00e3o foi, neste caso, objeto de hesita\u00e7\u00e3o ou d\u00favida, e colocou em cena o papel desempenhado pelo agente iniciador.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisados lado a lado, os epis\u00f3dios (1), (2) e (3) p\u00f5em \u00e0 mostra as vicissitudes<sup>6<\/sup> de <strong>cada<\/strong> ato de fala em di\u00e1logos sobre um feito envolvendo a crian\u00e7a e um adulto. No caso de (1) e (2) est\u00e3o ambos presentes na cena enunciativa, a qual culmina com a\u00e7\u00e3o compartilhada. No caso de (3), um terceiro participante (ausente da cena), \u00e9 evocado como desempenhando um papel no resultado de uma conquista cuja autoria est\u00e1 em quest\u00e3o. Os modos de dar express\u00e3o a esses acontecimentos constroem-se no uso da linguagem, a partir das situa\u00e7\u00f5es interpessoais da crian\u00e7a, vivenciadas no que chamo de <em>nichos dom\u00e9sticos<\/em>, conforme se v\u00ea em (1) a (3). Elas brotam de cada inst\u00e2ncia discursiva, e podem atestar ora uma conquista dividida em m\u00e9rito, ora uma meta ou conquista que pretende apresentar-se, tanto quanto poss\u00edvel, como autossuficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estes exemplos conferem import\u00e2ncia a um aspecto da <em>agentividade<\/em> implicada em modos ou matizes de causa\u00e7\u00e3o, aptos a relevar fatores&nbsp;<em>intersubjetivos<\/em> (Figueira 2019), os quais inseridos na an\u00e1lise, tornam poss\u00edvel apreender em que ponto de um discurso algo do contexto situacional torna-se determinante da op\u00e7\u00e3o por um recorte, na nossa terminologia, \u201ccompartilhado\u201d ou \u201cdividido\u201d<sup>7<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta breve exposi\u00e7\u00e3o poderia encerrar neste ponto. Mas h\u00e1 um epis\u00f3dio a ser considerado junto a (2). Revendo o epis\u00f3dio (2), l\u00e1 encontramos Al teimando em colocar o t\u00eanis sozinha, rendendo-se depois \u00e0 ajuda de M para faz\u00ea-lo: <em>p\u00f5e p\u00e1 mim, pufav\u00f4<\/em>? Segue-se agora outro lance do dia-a-dia da menina, o qual convida-nos a conhecer n\u00e3o s\u00f3 um feito do <em>discurso<\/em>, mas tamb\u00e9m de <em>l\u00edngua<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#fffac1\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(4) (Alice no colo, com sono, pede)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al. <em>Mam\u00e3e, do[r]me eu, pufav\u00f4?<\/em> (= faz eu dormir)&nbsp;&nbsp; &nbsp; (2;5.26)<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No uso corrente adulto, o verbo dormir ocorre numa estrutura em que o sujeito gramatical \u00e9 a sede do processo. No pedido de Al, <em>dormir<\/em> \u2013 um verbo de mudan\u00e7a de estado \u2013 \u00e9 promovido a valor causativo:<em> mam\u00e3e, do[r]me eu, pufav\u00f4?<\/em> Para dar conta da caracteriza\u00e7\u00e3o sint\u00e1tico-sem\u00e2ntica dessa instancia\u00e7\u00e3o de Al aos 2.5.26 de idade, pode-se recorrer a Benveniste (1976), trazendo alguns pontos levantados pelo autor sobre a convers\u00e3o da voz m\u00e9dia \u00e0 voz ativa, assunto do cap\u00edtulo \u201cAtivo e m\u00e9dio no verbo\u201d, no livro Problemas de Lingu\u00edstica Geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A explica\u00e7\u00e3o de Benveniste p\u00f5e em tela exemplos do grego, onde constata o autor a presen\u00e7a de um jogo de oposi\u00e7\u00f5es de \u201cextraordin\u00e1ria flexibilidade\u201d<sup>8<\/sup>. Ora, a documenta\u00e7\u00e3o em aquisi\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas nos p\u00f4s diante n\u00e3o s\u00f3 de (4), mas de grande n\u00famero de exemplos semelhantes, feitos marcantes do percurso da crian\u00e7a com a l\u00edngua, j\u00e1 discutidos em pesquisa precedente (Figueira 1984, entre outros) <sup>9<\/sup>. A instancia\u00e7\u00e3o (4) \u00e9 apenas mais um exemplo que ilustra o movimento pelo qual nos <em>corpora<\/em> infantis um verbo tipicamente m\u00e9dio como <em>dormir<\/em> vem a ser dotado de voz ativa, produzindo como resultado nova rela\u00e7\u00e3o gramatical via <em>transitividade<\/em>. No caso do pedido feito por Al, o \u201ceu\u201d que aparece no enunciado integra uma a\u00e7\u00e3o solicitada a um outro actante, e nesta formula\u00e7\u00e3o torna-se o objeto desta a\u00e7\u00e3o; ou se melhor, a entidade afetada por esta a\u00e7\u00e3o. Tal flexibiliza\u00e7\u00e3o \u2013 empresto o termo a Benveniste \u2013 altera a constru\u00e7\u00e3o do verbo dormir, normalmente de di\u00e1tese m\u00e9dia, o qual surge, na fala da crian\u00e7a, em di\u00e1tese ativa-causativa, num apelo que, em (4), come\u00e7a com o vocativo <em>mam\u00e3e<\/em>, sinalizando uma a\u00e7\u00e3o cujo papel, iniciador, \u00e9 conferido \u00e0 m\u00e3e pela parte interessada, a crian\u00e7a. Assim \u00e9 que, no nosso exemplo, <em>dormir<\/em> torna-se interpret\u00e1vel (parafrase\u00e1vel) por <em>fazer dormir<\/em> ou <em>fazer adormecer. <\/em>Quanto ao discurso, resta concluir, o pedido surge endere\u00e7ado \u00e0 sua alocut\u00e1ria, a m\u00e3e, aquela que, naquela intera\u00e7\u00e3o, det\u00e9m tal papel, no mais \u00edntimo (e aconchegante!) dos contextos do aqui-agora dom\u00e9stico, de que os apontamentos di\u00e1rios s\u00e3o a melhor express\u00e3o<sup>10<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#dbf9ff\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Benveniste, \u00c9mile. 1976. <em>Problemas de lingu\u00edstica geral<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia Editora Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">De Lemos, Claudia Thereza Guimar\u00e3es. 2002. Das vicissitudes da fala da crian\u00e7a e de sua investiga\u00e7\u00e3o, <em>Cadernos de Estudos Lingu\u00edsticos<\/em>, 43: 41-69.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Figueira, Rosa Atti\u00e9. 1984. On the development of the expression of causativity: a syntactic hypothesis, <em>Journal of Child Language<\/em>, 11, Cambridge, Cambridge University Press, 109-127.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">_________, Rosa Atti\u00e9. (in\u00e9dito). Causatividade: um estudo longitudinal de suas principais manifesta\u00e7\u00f5es no processo de aquisi\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas por uma crian\u00e7a, tese de doutorado, Universidade Estadual de Campinas, acess\u00edvel <em>online<\/em> (teses IEL\/UNICAMP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">_________, Rosa Atti\u00e9. (2019). Inova\u00e7\u00f5es na express\u00e3o de agentividade: epis\u00f3dios marcantes da trajet\u00f3ria lingu\u00edstica da crian\u00e7a,<em> Ling\u00fc\u00edstica<\/em>, vol. 35-2, 105-127. ISSN 2079-312X <em>en l\u00ednea<\/em> 90020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Saussure, Ferdinand de. ([1916] 1971). <em>Curso de lingu\u00edstica geral<\/em>, S\u00e3o Paulo, Cultrix.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Shibatani, Masayoshi. 1976. <em>Syntax and semantics, <\/em>vol IV<em>: The Grammar of causative constructions<\/em>, New York, Academic Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">_____, Masayoshi e Prashant Pardeshi. 2002. The causative continuum, em <em>The Grammar of causation and interpersonal manipulation<\/em>, Amsterdan\/Philadelphia, John Benjamin.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#dbf9ff\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">1 <em>Extratos de um di\u00e1rio IV<\/em> foi escrito na vig\u00eancia da bolsa de produtividade em pesquisa\/CNPq (pr. 307008\/2017-7), no interior do projeto intitulado &#8220;Empiria e teoria na Aquisi\u00e7\u00e3o de Linguagem: alguns dom\u00ednios em perspectiva&#8221;. Endere\u00e7amos nossos agradecimentos ao CNPq pelo apoio \u00e0 pesquisa. A autora \u00e9 vice-l\u00edder do Grupo de Pesquisa em Aquisi\u00e7\u00e3o de Linguagem\/GPAL, grupo cadastrado no CNPq.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">2 Nossos agradecimentos a Daniela Marini-Iwamoto por ter cedido o material do di\u00e1rio de Al. Agradecimentos extensivos a Al.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">3 Documentamos em mais de um <em>corpus<\/em> o verbo <em>aprender<\/em> empregado por <em>ensinar<\/em>, registrando-se tamb\u00e9m o inverso: <em>ensinar<\/em> por <em>aprender<\/em> (ver Figueira, tese in\u00e9dita, e tamb\u00e9m outros escritos). Um exemplo deste \u00faltimo emprego pode ser encontrado no di\u00e1rio de J, tr\u00eas dias ap\u00f3s o registro do epis\u00f3dio (1). Veja-se abaixo:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#fffac1\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(J censura o pai que fala um palavr\u00e3o)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">J. N\u00e3o fala XX X XX que o rei n\u00e3o gosta. &nbsp;(turno a). &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">M (interessando-se). Quem te ensinou isto?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">J. <em>Eu que ensinei sozinha <\/em>(turno b).&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;(3;6.17)<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">A flutua\u00e7\u00e3o no emprego de tais verbos \u00e9 um espa\u00e7o de observa\u00e7\u00e3o adequado para trazer Saussure \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos afeitos ao l\u00e9xico em vias de organiza\u00e7\u00e3o na fala da crian\u00e7a. <em>Aprender<\/em> e <em>ensinar<\/em> guardam entre si um elo semanticamente pertinente, e sua maneira de aparecer nos di\u00e1logos fica evidente em contextos de enuncia\u00e7\u00e3o intimamente relacionados \u00e0 marcha do discurso em que se inscrevem: aquele que vem a saber algo geralmente \u00e9 interpelado acerca de quem o fez saber ou ensinou \u2013 como se l\u00ea no di\u00e1logo acima (e tamb\u00e9m em (3) supra). A relev\u00e2ncia para uma abordagem do l\u00e9xico da crian\u00e7a, via rela\u00e7\u00f5es associativas, ainda nos faz atentar para outra rela\u00e7\u00e3o, impl\u00edcita no turno (a) acima: o <em>rei<\/em> de quem fala J n\u00e3o seria <em>Deus <\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">4 Retomado de publica\u00e7\u00e3o recente (Figueira 2019), este di\u00e1logo, aqui inclu\u00eddo, tem sua an\u00e1lise ampliada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">5 Usamos a terminologia de Shibatani (1976). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">6 Empresto de De Lemos (2002) a palavra vicissitudes, por caber bem para o material em exame.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">7 Esta e outras quest\u00f5es desse pequeno escrito ser\u00e3o retomadas, numa amplia\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise (trabalho em andamento).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">8 Uso a express\u00e3o aplicada ao grego pelo autor (1976: 189), transpondo-a livremente para o dado que tomo em considera\u00e7\u00e3o, ao exemplificar um fato que comparece no percurso da crian\u00e7a com a l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">9 Ver, para tal, Figueira, tese de doutorado (in\u00e9dita) e\/ou Figueira (1984).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">10 Do <em>corpus<\/em> de J, veja-se o epis\u00f3dio documentado no di\u00e1rio da menina, por volta dos 2;4 de idade.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-background\" style=\"background-color:#fffac1\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(a m\u00e3e se encaminha com a crian\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao quarto)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>A. C\u00ea vai nan\u00e1 eu? &nbsp; ( 2;3.22)<\/em><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Afora o uso causativo do verbo nanar (um fato gramatical), a pergunta da menina <em>c\u00ea vai nan\u00e1 eu?<\/em> reflete o papel desempenhado rotineiramente por quem a <em>p\u00f5e para dormir<\/em> ou por quem <em>a faz dormir<\/em>. N\u00e3o muito diferente do que se v\u00ea no epis\u00f3dio (4) de Al, a cena exp\u00f5e a l\u00edngua(gem), enquanto sede de rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas.<\/p>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Estamos de volta com extratos de di\u00e1rios parentais, esta rica fonte de dados da linguagem na inf\u00e2ncia. Desta feita, com epis\u00f3dios de Al, e tamb\u00e9m de J, duas meninas que foram acompanhadas pelas m\u00e3es (linguistas) em seu percurso com a l\u00edngua materna, o portugu\u00eas. Os dados que seguem \u00e0 frente compreendem o intervalo entre 2;3 e 2,6 de idade, no caso de Al[1] ; e 2;3 e 3;7 de idade, no caso de J.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":187,"featured_media":2080,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[36,7],"tags":[334,182,336,103,159,333,332,335,337],"class_list":["post-2066","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-aquisicao-de-linguagem","category-linguagem-e-sociedade","tag-agentividade","tag-aquisicao-de-linguagem","tag-diatese","tag-discurso","tag-enunciacao","tag-intersubjetividade","tag-lingua","tag-matizes-de-causacao","tag-nichos-domesticos"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2020\/09\/4-capa-pexel-cottonbro-scaled.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/187"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2066"}],"version-history":[{"count":30,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2066\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2122,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2066\/revisions\/2122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2080"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}