{"id":2435,"date":"2022-10-11T02:46:52","date_gmt":"2022-10-11T02:46:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=2435"},"modified":"2022-10-12T21:21:43","modified_gmt":"2022-10-12T21:21:43","slug":"a-pedra-de-roseta-bicentenario-da-decodificacao-dos-hieroglifos-egipcios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2022\/10\/11\/a-pedra-de-roseta-bicentenario-da-decodificacao-dos-hieroglifos-egipcios\/","title":{"rendered":"Pedra de Roseta: Bicenten\u00e1rio da decodifica\u00e7\u00e3o dos hier\u00f3glifos eg\u00edpcios"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>N\u00f3s linguistas, costumamos dizer que as l\u00ednguas mudam no tempo e no espa\u00e7o.<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Nesse sentido, podemos dizer que quanto mais distante no espa\u00e7o-tempo estamos de uma popula\u00e7\u00e3o, mais diferente tende a ser a l\u00edngua.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Talvez voc\u00eas tenham gostado do filme <a href=\"https:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-226509\/\"><span class=\"s2\">A Chegada<\/span><\/a> que tem como protagonista uma linguista que tenta decifrar \u201cA<b>s<\/b> L\u00edngua<b>s<\/b>\u201d dos alien\u00edgenas que foram batizados de hept\u00e1podes. Reparem que coloquei no plural. Se voc\u00eas leram <a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=hist%C3%B3ria+da+sua+vida&amp;rlz=1C5CHFA_enBR969BR969&amp;oq=hist%C3%B3ria+da+sua+vida&amp;aqs=chrome.0.0i355i512j46i512j0i512l4.2361j0j7&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8\"><span class=\"s2\">o conto &#8220;Hist\u00f3ria da sua Vida&#8221; de Ted Chiang<\/span><\/a>, perceber\u00e1 a diferen\u00e7a. O conto est\u00e1 <b>muito<\/b> mais pr\u00f3ximo da descri\u00e7\u00e3o do trabalho de um linguista e me parece, realmente, genial. Nele, a personagem Louise Banks, protagonista da hist\u00f3ria, separa o <b>Hept\u00e1pode A<\/b>, os ru\u00eddos equivalentes a nossa fala e que, se n\u00e3o for gravado, apenas as pessoas pr\u00f3ximas poder\u00e3o perceber, do <b><a href=\"https:\/\/stephanhurtubise.tumblr.com\/post\/154076072369\/how-louise-solved-heptapod-b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hept\u00e1pode B<\/a>,<\/b> a impress\u00e3o com aquela esp\u00e9cie de tinta preta e equivalente a nossa escrita.<\/span><\/p>\n<p><iframe title=\"Sonoridades dos Heptapods (A Chegada, 2016)\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RKK1qamILZE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Ok, acho que precisamos conversar sobre dois pontos aqui antes de falarmos do nosso tema principal, e que far\u00e1 voc\u00ea compreender melhor o conto de Ted Chiang.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h2 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>1. A L\u00edngua muda no Espa\u00e7o e no Tempo<\/b><\/span><\/h2>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Bom, os hept\u00e1podes est\u00e3o\u2026. ou estavam antes de chegar \u00e0 Terra, buscando ajuda, a muitos anos luz de dist\u00e2ncia, o que justificaria uma diferen\u00e7a lingu\u00edstica. Por\u00e9m, a diferen\u00e7a aqui diz mais respeito a diferen\u00e7a de esp\u00e9cies (humanos x hept\u00e1podes). Um exemplo melhor de mudan\u00e7a no espa\u00e7o s\u00e3o os sotaques. No Brasil, todos falamos Portugu\u00eas. Mas quanto mais distantes o nosso territ\u00f3rio mais f\u00e1cil percebermos uma diferen\u00e7a de sotaques, de palavras, de pros\u00f3dia, etc.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Perfeito, agora falta explicar a mudan\u00e7a no tempo. Voc\u00ea j\u00e1 deve ter estudado, no Ensino M\u00e9dio, as <b>cantigas de amor e de amigo<\/b>. S\u00e3o cantigas trovadorescas da Idade M\u00e9dia da qual a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cantiga_da_Ribeirinha\"><span class=\"s2\"><b>Cantiga da Ribeirinha<\/b><\/span><\/a> (trecho abaixo) \u00e9 considerada uma esp\u00e9cie de &#8220;certid\u00e3o de nascimento&#8221; da l\u00edngua portuguesa. Clique no link e repare que existem duas vers\u00f5es: a vers\u00e3o original e a vers\u00e3o em portugu\u00eas atual. Voc\u00ea vai reparar que embora &#8220;seja a mesma l\u00edngua&#8221;, nem sempre \u00e9 simples compreender nossa l\u00edngua como era usada h\u00e1 s\u00e9culos atr\u00e1s.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><em>Trecho da Cantiga da Ribeirinha:<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>E, mia senhor, des aquelha<br \/>me foi a m\u00ed mui mal di&#8217;ai!,<br \/>E v\u00f3s, filha de don Paai<br \/>Moniz, e ben vos semelha<br \/>d&#8217;haver eu por v\u00f3s guarvaia,<br \/>pois eu, mia senhor, d&#8217;alfaia<br \/>nunca de v\u00f3s houve nen hei<br \/>val\u00eda d\u0169a correa.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>\u00a0<\/h3>\n<h2 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>2. A fala \u00e9 natural, a escrita \u00e9 uma tecnologia, e seus usos s\u00e3o diferentes.<\/b><\/span><\/h2>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A fala e a escrita s\u00e3o diferentes formas de comunica\u00e7\u00e3o, e por isso a Louise Banks separou os Hept\u00e1podes A e B, bem como um linguista alien\u00edgena faria bem em separar a fala humana da escrita humana.<\/span><\/p>\n<h4 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>A fala consiste no fluxo da comunica\u00e7\u00e3o que acontece de maneira mais natural,<\/b><\/span><\/h4>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">considerando que basta sermos humanos, sabermos uma l\u00edngua e ter algu\u00e9m com quem queremos nos comunicar que tamb\u00e9m saiba. Normalmente usamos nossas bocas e ouvidos, mas por vezes usamos assobios e diferentes tipos de sinais manuais e n\u00e3o manuais para nos comunicarmos. Se essa for sua l\u00edngua nativa, provavelmente voc\u00ea nunca precisou estudar para come\u00e7ar a falar e compreender. Voc\u00ea come\u00e7ou a estudar o uso mais aceito dessa l\u00edngua ap\u00f3s come\u00e7ar a falar, sen\u00e3o n\u00e3o teria como voc\u00ea se comunicar com seu professor. A fala tamb\u00e9m acontece em tempo real, sem muito tempo para pensar e normalmente n\u00e3o tem registro, a n\u00e3o ser em situa\u00e7\u00f5es especiais como <a href=\"https:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-1793\/\"><span class=\"s2\">o podcast que originou esse post l\u00e1 no Portal Deviante.<\/span><\/a><\/span><\/p>\n<h4 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Por outro lado, a escrita \u00e9 uma tecnologia<\/b><\/span><\/h4>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">inventada por diferentes culturas ao redor do mundo (eg\u00edpcios, mesopot\u00e2mios, astecas e chineses) de modo que possibilitou a comunica\u00e7\u00e3o sem que a pessoa que escreveu esteja presente. O conte\u00fado provavelmente levou algum tempo para ser finalizado como esse post que foi iniciado no dia 08\/10\/2022, e voc\u00ea pode ler a qualquer momento posterior \u00e0 data de publica\u00e7\u00e3o [11\/10\/2022], desde que esse post ainda esteja online ou impresso.<\/span><\/p>\n<h4 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Assim,\u00a0a escrita \u00e9 uma ferramenta<\/b> <b>e n\u00e3o uma l\u00edngua.<\/b><\/span><\/h4>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Por exemplo, boa parte do mundo ocidental alfabetizado usa o alfabeto latino. Por\u00e9m, mesmo sabendo o alfabeto latino, eu n\u00e3o sei ler em alem\u00e3o ou polon\u00eas. Mais do que isso, existem l\u00ednguas que podem ser escritas em mais de um sistema de escrita como o Japon\u00eas que tem o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hiragana\"><span class=\"s2\">hiragana<\/span><\/a>, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Katakana\"><span class=\"s2\">katakana<\/span><\/a> e os <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Kanji\"><span class=\"s2\">kanjis<\/span><\/a>.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Como uma esp\u00e9cie de <i>hack<\/i>, se voc\u00ea est\u00e1 aprendendo a l\u00edngua e n\u00e3o conhece muito bem a escrita japonesa mas quer cantar as m\u00fasicas de abertura de anime ou <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tokusatsu\"><span class=\"s2\">tokusatsu<\/span><\/a> [denuncia a idade], provavelmente voc\u00ea procura <a href=\"https:\/\/www.letras.mus.br\/jaspion\/286600\/\"><span class=\"s2\">a letra em Romaji<\/span><\/a>, que \u00e9 exatamente o alfabeto latino, a escrita de Roma, Roma-ji.<\/span><\/p>\n<p><iframe title=\"World Pop Festival 2018 - Akira Kushida: Daileon\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/efe6HCXoID8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h3>\u00a0<\/h3>\n<h2 class=\"p1\"><strong><span style=\"font-size: revert;color: initial;font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, Oxygen-Sans, Ubuntu, Cantarell, 'Helvetica Neue', sans-serif\">3. Mas afinal, como conseguimos ler os hier\u00f3glifos eg\u00edpcios, um dos sistemas de escrita mais antigos que conhecemos e que estimamos ter se iniciado h\u00e1 cerca de 5200 anos atr\u00e1s?<\/span><\/strong><\/h2>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Acho que voc\u00eas conseguem entender que o trabalho de um fil\u00f3logo\/linguista que trabalha com hist\u00f3ria ou com l\u00ednguas \u00e1grafas pode ser bem \u00e1rduo, tanto quanto o da Louise Banks no filme&#8230;. ou at\u00e9 mais considerando que a Louise tinha dois hept\u00e1podes para fazer perguntas depois de estabelecer o m\u00ednimo de comunica\u00e7\u00e3o. Exceto se uma m\u00famia levantar da tumba, dificilmente teremos algu\u00e9m para nos ensinar essa forma de escrita.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">E para come\u00e7armos e responder essa pergunta, vamos nos utilizar dos poderes que a l\u00edngua hept\u00e1pode nos deu e fazer nossa consci\u00eancia viajar no tempo, mais especificamente para o s\u00e9culo XVIII e XIX.<\/span><\/p>\n<h3>Nosso protagonista: <span class=\"s1\">Jean Fran\u00e7ois Champollion<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"> Vamos conhecer o nosso Champs, ou melhor, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jean-Fran%C3%A7ois_Champollion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jean Fran\u00e7ois Champollion<\/a>. Ele \u00e9 um franc\u00eas muito conhecido por seu trabalho na egiptologia, uma \u00e1rea da hist\u00f3ria e da filologia que estava ganhando muito destaque na \u00e9poca devido a diferentes achados arqueol\u00f3gicos das expedi\u00e7\u00f5es militares do Napole\u00e3o Bonaparte \u00e0 regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Nosso Champs vivia com seu Champoll<strong>irm\u00e3o<\/strong> mais velho, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jacques-Joseph_Champollion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jacques Joseph<\/a>, que j\u00e1 se destacava na \u00e1rea por trabalhar com outro <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jean_Baptiste_Joseph_Fourier\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Joseph, o Fourier,<\/a> esse mesmo, o matem\u00e1tico que tamb\u00e9m era egipt\u00f3logo e tinha participado de uma das expedi\u00e7\u00f5es do Napole\u00e3o ao Egito. Todo esse contexto provavelmente influenciou o <strong>Champollinho Colorado<\/strong> a se aventurar pelo mundo do Cavaleiro da Lua. Acontece que ele se tornou um prod\u00edgio, sendo muito mais conhecido que o pr\u00f3prio irm\u00e3o. Um de seus primeiros trabalhos foi a decodifica\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eg%C3%ADpcio_dem%C3%B3tico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escrita Dem\u00f3tica<\/a> quando ele tinha por volta dos 17 anos.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_2445\" aria-describedby=\"caption-attachment-2445\" style=\"width: 340px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion.jpeg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2445\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion-248x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion-248x300.jpeg 248w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion-845x1024.jpeg 845w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion-768x931.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion-500x606.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion-800x970.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/champollion.jpeg 1128w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2445\" class=\"wp-caption-text\">Jean Fran\u00e7ois Champollion &#8211; Leon Cogniet, Dom\u00ednio P\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><strong>Dem\u00f3tico que d\u00e1 origem ao Demo..<\/strong> n\u00e3o, n\u00e3o o Demo que voc\u00ea est\u00e1 pensando, mas o Demo que significa povo, que passou pelos Gregos at\u00e9 chegar em palavras nossas como <strong>Democracia<\/strong>. Eu poderia dar mais detalhes sobre essa escrita mas, por ora e para efeitos desse post, vamos consider\u00e1-la uma simplifica\u00e7\u00e3o mais recente e mais popular da escrita eg\u00edpcia, que por ser mais do povo, mais democr\u00e1tica e popular, tamb\u00e9m poderia ser usada para escrever outras l\u00ednguas dessa popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o o eg\u00edpcio.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Bom, considerando que decodificamos a escrita dem\u00f3tica, talvez seja poss\u00edvel agora transcrever os hier\u00f3glifos, uma escrita ainda mais antiga dos eg\u00edpcios e que estava sendo um enorme desafio para os pesquisadores da \u00e9poca. Por exemplo, os hier\u00f3glifos eram escritos usando v\u00e1rios &#8220;desenhos&#8221;. Mas esses desenhos deveriam ser compreendidos como logogramas, mais ou menos como nos kanjis, ou deveriam ser compreendidos como uma representa\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica\/fonol\u00f3gica como no alfabeto latino?<\/span><\/p>\n<h3>\u00d3, e agora, quem poder\u00e1 nos salvar!?\u00a0<\/h3>\n<h5>Ainda n\u00e3o \u00e9 o Champollinho! Mas ser\u00e1 um outro garotinho.<\/h5>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Eis que numa dessas expedi\u00e7\u00f5es do napole\u00e3o, em 1799, Pierre Bouchard encontrou uma placa de pedra, fabricada, de 114 altura por 72 de largura, 720kg com algumas inscri\u00e7\u00f5es. A placa estava quebrada mas com uma boa parte dela ainda intacta. Como foi encontrada na cidade de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Roseta_(cidade)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Rashid<\/strong><\/a>, que passamos a chamar de <strong>Rosetta<\/strong>, no norte do Egito, ela foi batizada de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pedra_de_Roseta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pedra de Roseta<\/a>.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A particularidade da Pedra de Rosetta \u00e9 que <strong>ela foi escrita em tr\u00eas sistemas de escrita diferentes<\/strong>. E da\u00ed vamos voltar mais um pouquinho no tempo para explicar.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_2446\" aria-describedby=\"caption-attachment-2446\" style=\"width: 478px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone.jpeg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2446\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"478\" height=\"637\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone-1152x1536.jpeg 1152w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone-500x667.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone-800x1067.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone-1280x1707.jpeg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2022\/10\/Rosetta_Stone.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 478px) 100vw, 478px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2446\" class=\"wp-caption-text\">Rosetta Stone: a granodiorite stele with a decree written in Ancient Egyptian hieroglyphs, in Demotic and in Ancient Greek &#8211; Autor: Tulumnes https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Rosetta_Stone_with_Ancient_Egyptian_bilingual_text.jpg<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h4>Viajamos no tempo, agora para o s\u00e9culo II<\/h4>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">No s\u00e9culo 2, depois da conquista de Alexandre o Grande, o Egito foi governado pela <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Dinastia_ptolemaica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dinastia Ptolomaica<\/a> durante uns 3 s\u00e9culos antes da chegada dos Romanos. O quarto fara\u00f3, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ptolemeu_IV_Fil%C3%B3pator\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ptolomeu IV<\/a> e sua esposa morreram em uma situa\u00e7\u00e3o aparentemente suspeita e, seu sucessor, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ptolemeu_V_Epif%C3%A2nio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ptolomeu V<\/a>, foi empossado com cerca de 5 anos de idade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O garoto tinha o apoio da classe sacerdotal, que era a \u00fanica parte da popula\u00e7\u00e3o que ainda sabia ler e escrever em hier\u00f3glifos. Por outro lado, ele tinha ainda muita resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o de origem grega que eram alfabetizados em grego antigo, al\u00e9m de tamb\u00e9m escrever a l\u00edngua grega atrav\u00e9s da&#8230;. escrita do povo, a escrita dem\u00f3tica!<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">De maneira a tentar acalmar os \u00e2nimos, o pequeno fara\u00f3 escreveu (ou provavelmente pediu para um escriba ou sacerdote fazer isso), um decreto nas tr\u00eas formas de escrita: Grego, Dem\u00f3tico e Hier\u00f3glifo.<\/span><\/p>\n<h3>Estamos fechando nossas viagens no tempo. Voltamos pro s\u0107ulo XIX.<\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Os europeus do s\u00e9culo XIX j\u00e1 sabiam ler em grego antigo. Somado ao crescimento da egiptologia e o trabalho do Champollinho, os europeus da \u00e9poca j\u00e1 sabiam ler em dem\u00f3tico. Curiosamente a pedra de Rosetta tinha esses dois sistemas e escrita MAIS os hier\u00f3glifos que era o grande objetivo dos pesquisadores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Eis que ainda n\u00e3o temos algu\u00e9m para perguntar, mas temos uma pedra com as respostas. A Pedra de Roseta continua uma vers\u00e3o do mesmo texto em hier\u00f3glifo nas escritas que j\u00e1 conhecemos em assim, mesmo com as partes que se perderam por danos f\u00edsicos na pedra, nosso Jean Champollion, junto com Thomas Young do Reino Unido, conseguiu relacionar os s\u00edmbolos hier\u00f3glifos \u00e0s letras do nosso alfabeto. Essa rela\u00e7\u00e3o foi a grande chave para que pud\u00e9ssemos finalmente decifrar a escrita eg\u00edpcia antiga. Mais do que isso, foi poss\u00edvel perceber que, por vezes, os s\u00edmbolos eram usados tamb\u00e9m como logogramas, bastando tentar identificar a situa\u00e7\u00e3o em que elas est\u00e3o sendo usadas.<\/span><\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">Resumindo a nossa linha do tempo:<\/span><\/h3>\n<ul>\n<li class=\"p1\"><span class=\"s1\">Em 1799 a Pedra de Roseta foi descoberta.<\/span><\/li>\n<li class=\"p1\"><span class=\"s1\">Em 27 de setembro de 1822 conseguimos decodificar<\/span><\/li>\n<li class=\"p1\"><span class=\"s1\">Mas apenas em 1828 os egipt\u00f3logos conseguiam ler um texto inteiro em hier\u00f3glifos.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<h6>\u00a0<\/h6>\n<h2><strong>Voltando ao s\u00e9culo XXI<\/strong><\/h2>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">N\u00e3o fosse a Pedra de Rosetta, provavelmente n\u00e3o saber\u00edamos metade do que sabemos hoje sobre o Egito Antigo, que \u00e9 uma parte bastante importante da hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, da hist\u00f3ria da escrita.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Tamb\u00e9m, acho que n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil adivinhar que a Pedra de Rosetta est\u00e1 em Londres, no <em>British Museum<\/em>. Ent\u00e3o, quem porventura estiver pr\u00f3ximo e poder\u00e1 ver de perto esse \u00edcone da nossa hist\u00f3ria que s\u00f3 conseguimos decodificar h\u00e1 200 anos atr\u00e1s.<\/span><\/p>\n<h3>Olimp\u00edada de Lingu\u00edstica<\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Se algum de voc\u00eas quiser ter uma palhinha da experi\u00eancia de tentar decodificar uma l\u00edngua ou tipo de escrita <\/b>de forma semelhante ao que o Jean <em>Champollion<\/em> e o Thomas Young fizeram a partir da pedra de roseta, a Olimp\u00edada Brasileira de Lingu\u00edstica tem os problemas do tipo Roseta. A ideia \u00e9 ter parte da informa\u00e7\u00e3o em diferentes tipos de escrita e, a partir de l\u00f3gica, a gente decifrar as informa\u00e7\u00f5es. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que, de antem\u00e3o, a gente tem certeza de que todas as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para resolver o problema est\u00e3o na quest\u00e3o. Da\u00ed voc\u00eas podem procurar pelas provas anteriores ou visitar a aba &#8220;problemas&#8221; do site <a href=\"http:\/\/obling.org\/\"><span class=\"s2\">obling.org<\/span><\/a>, em que voc\u00eas v\u00e3o encontrar alguns exemplos como o dos nomes dos pa\u00edses em georgiano.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h2 class=\"p1\"><span class=\"s1\">Para saber mais:\u00a0<\/span><\/h2>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><strong>British Museum: Everything you ever wanted to know about the Rosetta Stone<br \/><\/strong> <a href=\"https:\/\/www.britishmuseum.org\/blog\/everything-you-ever-wanted-know-about-rosetta-stone#:~:text=The%20Rosetta%20Stone%20is%20thus,in%20the%203rd%20century%20BC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.britishmuseum.org\/blog\/everything-you-ever-wanted-know-about-rosetta-stone#:~:text=The%20Rosetta%20Stone%20is%20thus,in%20the%203rd%20century%20BC<\/a><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><strong>Archive.org: Rosetta Stone transcription and translation<\/strong><br \/><\/span><a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/RosettaStone-Boshevski-Tentov\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span class=\"s1\"> https:\/\/archive.org\/details\/RosettaStone-Boshevski-Tentov<\/span><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><strong>France24: France marks bicentenary of deciphering of Rosetta Stone hieroglyphics<br \/><\/strong> <a href=\"https:\/\/www.france24.com\/en\/tv-shows\/france-in-focus\/20220902-france-marks-bicentenary-of-deciphering-of-egyptian-hieroglyphics-by-champollion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.france24.com\/en\/tv-shows\/france-in-focus\/20220902-france-marks-bicentenary-of-deciphering-of-egyptian-hieroglyphics-by-champollion<\/a><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><strong>Olimp\u00edada Brasileira de Lingu\u00edstica:<\/strong><br \/><a href=\"https:\/\/obling.org\/problemas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/obling.org\/problemas.html<\/a><\/span><\/p>\n<p><span class=\"s1\"><strong>Spin de Not\u00edcias #984: Bicenten\u00e1rio da decodifica\u00e7\u00e3o dos hier\u00f3glifos eg\u00edpcios<br \/><\/strong><a href=\"https:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-1793\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-1793\/<\/a><strong><br \/><\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><strong>Spin de Not\u00edcias #984: Como a escrita evoluiu?<\/strong><br \/><a href=\"https:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-984\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/spin\/spin-de-noticias-984\/<\/a><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><strong>Contrafactual #69: E se todos fal\u00e1ssemos a mesma l\u00edngua?<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.deviante.com.br\/destaque\/contrafactual-69\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.deviante.com.br\/destaque\/contrafactual-69\/<\/a><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div 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