{"id":2672,"date":"2024-08-31T19:53:41","date_gmt":"2024-08-31T19:53:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=2672"},"modified":"2024-08-31T20:03:41","modified_gmt":"2024-08-31T20:03:41","slug":"quando-sua-lingua-deixa-de-fazer-sentido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2024\/08\/31\/quando-sua-lingua-deixa-de-fazer-sentido\/","title":{"rendered":"Quando sua l\u00edngua deixa de fazer sentido"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><i>O paciente afetado pela Agnosia Verbal deixa de compreender a fala em sua pr\u00f3pria l\u00edngua, apesar de suas capacidades de produ\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, leitura e identifica\u00e7\u00e3o de sons ambientes permanecerem intactas.<\/i><\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-alpha-channel-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Texto de:<\/strong><br><strong><em>Anna Carolina de Oliveira Almeida<br>Leo Vitor Navarro<\/em><\/strong><br>Alunos do curso de Lingu\u00edstica da Unicamp<\/p>\n\n\n\n<hr class=\" wp-block-separator has-alpha-channel-opacity eplus-wrapper\" \/>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Imagine a seguinte situa\u00e7\u00e3o: voc\u00ea entra em uma sala cheia de pessoas conversando, mas repara que n\u00e3o consegue entender absolutamente nada. Para qualquer lado que voc\u00ea se volta s\u00f3 escuta sons aleat\u00f3rios. Voc\u00ea sai da sala \u2014 e repara que, sim!, voc\u00ea consegue ler a placa na porta \u2014 e checa se n\u00e3o entrou por engano em alguma confer\u00eancia de f\u00e3s de Senhor dos An\u00e9is falando em \u00e9lfico ou ent\u00e3o se n\u00e3o foi teletransportado para Essos e n\u00e3o entende nada de <em>dothraki<\/em>. Sim, voc\u00ea est\u00e1 na sala certa, mas ent\u00e3o por que n\u00e3o faz a menor ideia do que est\u00e1 sendo dito?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 mais ou menos a forma como se sente uma pessoa com Agnosia Verbal (conhecida em ingl\u00eas como <i>Pure Word Deafness<\/i>, algo como <i>Surdez para Palavras<\/i>). Trata-se de um dist\u00farbio neurol\u00f3gico raro que faz com que uma pessoa n\u00e3o consiga dar sentido aos sons da l\u00edngua, que para ela n\u00e3o passam de ru\u00eddo. Al\u00e9m disso, ela n\u00e3o consegue repetir palavras nem escrever a partir de ditados. O mais intrigante \u00e9 que, apesar de tudo isso, ela ainda consegue falar, ler e reconhecer sons ambientes! A Agnosia Verbal \u00e9 observada na maioria das vezes ap\u00f3s a ocorr\u00eancia de um AVC, mas tamb\u00e9m pode ser ocasionada por les\u00f5es cerebrais, dem\u00eancia ou convuls\u00f5es.\u00b9<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\">Um estudo de caso<\/h1>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5882388\/#:~:text=Verbal%%2020auditory%20agnosia%20is%20the,ability%20to%20identify%20nonverbal%20sounds\">Um artigo\u00b2 de m\u00e9dicos do hospital coreano <i>Daegu Fatima<\/i> publicado em 2018<\/a> foi o primeiro a documentar o caso de um paciente adulto que adquiriu Agnosia Verbal ap\u00f3s ter sofrido traumatismo craniano. Um homem de 65 anos foi internado no departamento de neurocirurgia com o c\u00e9rebro lesionado em decorr\u00eancia de uma queda. Depois de passar por tomografia e resson\u00e2ncia magn\u00e9tica, ele foi diagnosticado com hemorragia em duas regi\u00f5es do c\u00e9rebro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ainda assim, o quadro do paciente era est\u00e1vel, o que possibilitou que fosse tratado sem precisar passar por nenhum procedimento cir\u00fargico. Tr\u00eas semanas depois, quando transferido para o departamento de reabilita\u00e7\u00e3o, ele ainda tinha um pouco de dificuldade para andar e se equilibrar, o que n\u00e3o parecia nada demais. Mas ainda havia algo errado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Acontece que o paciente n\u00e3o respondia a comandos orais e n\u00e3o conseguia repetir nem ditar palavras. A fala dele, por outro lado, permanecia intacta e ele continuava perfeitamente capaz de ler e interpretar senten\u00e7as escritas. Numa avalia\u00e7\u00e3o mais detalhada das fun\u00e7\u00f5es auditivas do paciente, os m\u00e9dicos descobriram que ele havia sofrido uma pequena perda, inferior a 50 decib\u00e9is, mas ainda distinguia sons verbais de n\u00e3o-verbais e identificava estes \u00faltimos com precis\u00e3o. Ele dizia que, quando algu\u00e9m falava, o que ele ouvia era como um zumbido, um ru\u00eddo inc\u00f4modo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Na tentativa de entender o que estava acontecendo, os m\u00e9dicos come\u00e7aram uma s\u00e9rie de exames de cogni\u00e7\u00e3o. Suas capacidades de produ\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica obtiveram resultados muito melhores que as capacidades de compreens\u00e3o, como j\u00e1 era de se esperar, e a diferen\u00e7a dos resultados dos mesmos testes realizados oralmente ou na modalidade escrita era gigantesca. Mas o diagn\u00f3stico de Agnosia Verbal n\u00e3o foi o primeiro que ele recebeu. Na verdade, os m\u00e9dicos pensavam que ele tinha a chamada <i>Afasia de Wernicke<\/i>, um dist\u00farbio neurol\u00f3gico que tamb\u00e9m afeta a fala; mas suas capacidades de nomea\u00e7\u00e3o, leitura, express\u00e3o e escrita n\u00e3o eram realmente as de algu\u00e9m com essa afasia. Mais alguns testes auditivos foram realizados, at\u00e9 a equipe m\u00e9dica ter certeza de que esse paciente n\u00e3o apresentava grandes preju\u00edzos cognitivos nem auditivos. Foi ent\u00e3o que ele foi diagnosticado com Agnosia Verbal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ao longo do tratamento, o paciente passou por terapia de fala e reabilita\u00e7\u00e3o cognitiva e treinava a compreens\u00e3o verbal atrav\u00e9s de exerc\u00edcios de escrita. Dois meses depois, suas capacidades de entendimento de fala apresentaram alguma melhora: ele j\u00e1 conseguia atribuir sentido a algumas palavras isoladas. Seis meses mais tarde, ele evoluiu para um est\u00e1gio em que j\u00e1 se podia dizer que havia compreens\u00e3o se algu\u00e9m falasse bem devagar na altura dos seus olhos \u2014 contudo, ainda no n\u00edvel das palavras, nunca de senten\u00e7as inteiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Os m\u00e9dicos do <i>Daegu<\/i> alertam sobre a import\u00e2ncia de se avaliar cuidadosamente as faculdades auditivas, cognitivas e especificamente lingu\u00edsticas do paciente, j\u00e1 que a Agnosia Verbal pode ser facilmente confundida com outros dist\u00farbios \u2014 defici\u00eancia auditiva, disfun\u00e7\u00e3o cognitiva e afasia sensorial s\u00e3o alguns deles \u2014, casos em que o paciente n\u00e3o receber\u00e1 o tratamento adequado.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><b>O<\/b> que acontece no c\u00e9rebro?<\/h1>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Mas o que exatamente houve no sistema neurol\u00f3gico desse paciente para que ele desenvolvesse essa agnosia? Para tentar compreender como esse dist\u00farbio funciona, vamos partir do princ\u00edpio e entender como os sons chegam ao c\u00e9rebro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Afinal, o que s\u00e3o os sons? Nada mais que ondas que viajam pelo ar e chegam at\u00e9 nossos receptores auditivos. O caminho \u00e9 este: as vibra\u00e7\u00f5es sonoras no ar s\u00e3o captadas pelo ouvido e, em seguida, atingem o t\u00edmpano. Esses pequenos tremores fazem com que a membrana timp\u00e2nica vibre e um conjunto de tr\u00eas ossos pequenininhos atrelados a ela (chamados de martelo, bigorna e estribo) amplificam a vibra\u00e7\u00e3o por meio de um sistema similar a \u201croldanas\u201d e a transmitem para o canal da c\u00f3clea<sup>3<\/sup>, que tem o formato de um caracol e est\u00e1 cheio de um l\u00edquido \u00fanico em nosso organismo. Todo aquele processo de estremecimentos faz com que esse l\u00edquido se movimente dentro da c\u00f3clea, que, por sua vez, \u00e9 revestida de c\u00e9lulas ciliares (isto \u00e9, cheias de fiapinhos), as quais captam o movimento e o transformam em energia el\u00e9trica, que \u00e9, enfim, por meio dos nervos auditivos, transmitida ao c\u00e9rebro, onde ser\u00e1 \u201ctraduzida\u201d em sons.<sup>4<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-us.googleusercontent.com\/CYtP65vWdD4rfpH1tJApxaAPDYX6GXfSE12DaWGxJnTbFJcawAi_QuocugZpATqlOgSLS_ms7sFBBLcauJYS6CLGhcfDPf24aBeuJpSecKx5dVukEA2gOlOsk8SP1CJ1paqiqJvLp-0Jpd_TeWqblq8\" width=\"434\" height=\"303\"><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><sub><b>Sistema auditivo humano&nbsp;<\/b><br>(Fonte: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/Category:Auditory_system#\/media\/File:Ear-anatomy-text-portuguese.PNG\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/Category:Auditory_system#\/media\/File:Ear-anatomy-text-portuguese.PNG<\/a>)<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Visto que uma pessoa com Agnosia Verbal ainda consegue diferenciar sons ambientes dos sons de uma l\u00edngua, o problema deve estar depois do processo de detectar vibra\u00e7\u00f5es no ar e envi\u00e1-las para o c\u00e9rebro. Vamos, portanto, tentar analisar como esse som \u00e9 processado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s percorrer o sistema de nervos auditivos, os sons da l\u00edngua (agora \u201ctraduzidos\u201d para sinais neurais) atingem o c\u00f3rtex auditivo prim\u00e1rio, uma fra\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro respons\u00e1vel por interpret\u00e1-los. Cabe ressaltar que, por ainda conseguir identificar a diferen\u00e7a entre um ru\u00eddo qualquer e o som de uma voz, esse primeiro processamento auditivo deve estar ileso.<sup>5<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">O lado esquerdo do c\u00e9rebro humano, respons\u00e1vel por processar a linguagem, pode ser dividido em duas regi\u00f5es: uma posterior, respons\u00e1vel pela compreens\u00e3o dos est\u00edmulos lingu\u00edsticos (sejam eles orais, escritos ou sinalizados), e uma anterior, respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica (seja ela, tamb\u00e9m, oral, escrita ou sinalizada). O t\u00e1lamo<sup>6<\/sup> \u00e9 uma estrutura cerebral e uma de suas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 transmitir informa\u00e7\u00f5es sensoriais auditivas ao c\u00f3rtex cerebral. Nesse sentido, caso a rede de transmiss\u00f5es do t\u00e1lamo para a parte posterior esquerda do c\u00e9rebro \u2014 bem como os \u201ccabos neurais\u201d que transmitem informa\u00e7\u00e3o sensorial auditiva do lado direito para o esquerdo \u2014 seja danificada, essa regi\u00e3o da nossa massa cinzenta fica isolada e, por conseguinte, os sons s\u00e3o interpretados como ru\u00eddos sem sentido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Dado que o problema est\u00e1 na conex\u00e3o com a parte posterior (respons\u00e1vel, vale repetir, pela compreens\u00e3o), a produ\u00e7\u00e3o (isto \u00e9, a fala) permanece intacta. Contudo, ao longo do tempo, a habilidade lingu\u00edstica de uma pessoa com Agnosia Verbal decai, uma vez que, por n\u00e3o compreender sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o, ela se torna cada vez menos fluente. \u00c9 interessante notar como seu c\u00e9rebro, sendo incapaz de mandar informa\u00e7\u00e3o sensorial auditiva para a regi\u00e3o onde a linguagem \u00e9 processada, faz com que o paciente n\u00e3o entenda a fala; a transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o visual, entretanto, continua em perfeito estado, possibilitando que ele ainda seja capaz de ler.<sup>7<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><img decoding=\"async\" width=\"612\" height=\"332\" src=\"https:\/\/lh7-us.googleusercontent.com\/kAjYFU-sVoXbeRU5_b7xoAdzZoy-KaO26NHCL4YeKu80IawmwvpgzVzeQrtnjXsO0YBx6627pqUzfoJNup-iI7NWcKB70RKKHWG9B251QtD2CEcJLqFn7ernKM0tMH_6bbXWQZZctOzy8ml45LWQjPU\"><\/strong><br><sub><b>Fun\u00e7\u00f5es associadas a cada hemisf\u00e9rio do c\u00e9rebro&nbsp;<\/b>(Fonte: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Brain_Lateralization.svg\">https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Brain_Lateralization.svg<\/a>)<\/sub><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><b>Mas o que \u00e9 Agnosia, afinal?<\/b><\/h1>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em linhas gerais, a maneira como percebemos o mundo ao nosso redor decorre de dois processos que trabalham juntos: a sensa\u00e7\u00e3o e a percep\u00e7\u00e3o. Sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 toda informa\u00e7\u00e3o externa, tal como imagens, sons, gostos, texturas e cheiros, que chega at\u00e9 n\u00f3s por meio de nossos \u00f3rg\u00e3os sensoriais. Percep\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo interpretativo dessas sensa\u00e7\u00f5es, \u00e9 o que o c\u00e9rebro compreende a partir do est\u00edmulo que recebeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A agnosia \u00e9 caracterizada pela interrup\u00e7\u00e3o de algum desses processos de percep\u00e7\u00e3o. Como s\u00e3o muitos os tipos de percep\u00e7\u00f5es desencadeados por diferentes sensa\u00e7\u00f5es, existem diferentes tipos de agnosia. Por exemplo, ao passo que temos a Agnosia Verbal, que impede o reconhecimento da l\u00edngua falada, temos tamb\u00e9m a Prosopagnosia, que interfere na capacidade de identificar rostos familiares, como os de membros da fam\u00edlia ou amigos, e a Simultanagnosia, caracterizada pela incapacidade de perceber mais de um objeto (ou mais de um de seus componentes) simultaneamente.8 \u00c9 interessante mencionar ainda a Amusia9, um tipo de agnosia auditiva que impede o paciente de perceber e reproduzir m\u00fasica \u2014 em <i>Alucina\u00e7\u00f5es Musicais<\/i> (t\u00edtulo em portugu\u00eas do livro <i>Musicophilia<\/i>10), o neurologista Oliver Sacks relata casos de pacientes que ouviam ru\u00eddos inc\u00f4modos ao serem expostos a Mozart, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><b>Existe cura?<\/b><\/h1>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Vimos que os tratamentos aplicados ao paciente que foi v\u00edtima de traumatismo craniano n\u00e3o o curaram de fato. O m\u00e1ximo que os m\u00e9dicos conseguiram com a terapia de fala, a reabilita\u00e7\u00e3o cognitiva e os treinos escritos de compreens\u00e3o foi fazer com que o paciente gradativamente passasse a compreender mais e mais palavras isoladas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Entender o funcionamento do c\u00e9rebro e como suas diversas regi\u00f5es se relacionam \u00e9 um passo essencial para desenvolver um m\u00e9todo efetivo na cura desse dist\u00farbio. Em 2013, por exemplo, uma mulher que o desenvolveu ap\u00f3s lesionar uma \u00e1rea do c\u00e9rebro denominada \u00c1rea de Wernicke teve sua capacidade de compreender linguagem restaurada ap\u00f3s a cura de sua les\u00e3o.5 H\u00e1 fortes ind\u00edcios de que essa \u00e1rea, ou seus arredores, esteja envolvida com a Agnosia Verbal, pois a maioria dos indiv\u00edduos portadores do dist\u00farbio sofreu danos nessa regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Tentativas de recobrar a habilidade de compreens\u00e3o lingu\u00edstica dos pacientes, em geral, t\u00eam sido quase infrut\u00edferas. A terapia de discrimina\u00e7\u00e3o fon\u00eamica, que consiste em ajudar o paciente a discriminar fonemas (isto \u00e9, sons semelhantes cuja pequena diferen\u00e7a sonora resulta na distin\u00e7\u00e3o de significado entre palavras, como \u201cp\u201d e \u201cb\u201d em \u201cpato\u201d e \u201cbato\u201d), obteve alguns resultados, mas os falantes apresentaram enorme dificuldade em distinguir as sequ\u00eancias sonoras \/ba\/, \/da\/ e \/la\/, dado que as consoantes [b], [d] e [l] se diferenciam em apenas milisegundos de informa\u00e7\u00e3o ac\u00fastica. Mesmo que os pacientes fossem capazes de distinguir segmentos sonoros, a informa\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica continuava comprometida (isto \u00e9, eles seguiam incapazes de atribuir sentido aos sons). A forma mais eficaz at\u00e9 o momento de se lidar com o problema \u00e9 unindo produ\u00e7\u00f5es orais a representa\u00e7\u00f5es visuais de movimentos labiais.5&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>PARA FINALIZAR<\/b><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">De volta \u00e0 experi\u00eancia inusitada com que iniciamos o texto: n\u00e3o, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 as pessoas estarem falando em \u00e9lfico ou dothraki e voc\u00ea n\u00e3o as entender, mas sim que certas regi\u00f5es do seu c\u00e9rebro est\u00e3o falando em \u00e9lfico enquanto outras est\u00e3o falando em dothraki e elas n\u00e3o conseguem se comunicar. Podemos compreender o funcionamento das diversas regi\u00f5es do c\u00e9rebro como um quebra-cabe\u00e7as: qualquer pecinha que n\u00e3o se encaixe perfeitamente ao longo do processamento auditivo pode resultar em um caos sem sentido algum para o falante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>REFER\u00caNCIAS:<\/b><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[1] <\/b>KRIVAL, K. Pure Word Deafness. In: Kreutzer J.S., DeLuca J., Caplan B. (eds). <i>Encyclopedia of Clinical Neuropsychology<\/i>. Springer, New York, 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/referenceworkentry\/10.1007\/978-0-387-79948-3_918\">https:\/\/link.springer.com\/referenceworkentry\/10.1007\/978-0-387-79948-3_918<\/a>&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[2] <\/b>KIM J.M.; WOO S.B.; LEE Z.; HEO S.J., PARK D. Verbal auditory agnosia in a patient with traumatic brain injury: A case report. <i>Medicine<\/i>, Baltimore, vol. 97, n. 11, mar. 2018. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5882388\/#:~:text=Verbal%20auditory%20agnosia%20is%20the,ability%20to%20identify%20nonverbal%20sounds\">https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5882388\/#:~:text=Verbal%<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5882388\/#:~:text=Verbal%20auditory%20agnosia%20is%20the,ability%20to%20identify%20nonverbal%20sounds\">20auditory%20agnosia%20is%20the,ability%20to%20identify%20nonverbal%20sounds<\/a>&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[3]<\/b> ANATOMIA da c\u00f3clea. <i>eauriz, Guia da Audi\u00e7\u00e3o de A a Z<\/i>, [s.d.]. Dispon\u00edvel em:&nbsp; &lt;<a href=\"https:\/\/www.eauriz.com.br\/anatomia-da-coclea\/\">https:\/\/www.eauriz.com.br\/anatomia-da-coclea\/<\/a>&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[4] <\/b>COMO escutamos. <i>Surdez<\/i>, [s.d.]. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/surdez.org.br\/como_escutamos.asp\">http:\/\/surdez.org.br\/como_escutamos.asp<\/a>&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[5]<\/b> CAO, C. For those with pure word deafness, actions always speak louder than words. <i>Wu Tsai. Neurosciences Institute. Stanford University<\/i>, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/neuroscience.stanford.edu\/news\/those-pure-word-deafness-actions-always-speak-louder-words\">https:\/\/neuroscience.stanford.edu\/news\/those-pure-word-deafness-actions-always-<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/neuroscience.stanford.edu\/news\/those-pure-word-deafness-actions-always-speak-louder-words\">speak-louder-words<\/a>&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[6]<\/b> PEREA-BARTOLOM\u00c9, M.V., LADERA-FERN\u00c1NDEZ, V. El t\u00e1lamo: aspectos neurofuncionales [Neurofunctional aspects of the thalamus]. <i>Rev Neurol<\/i>, [S.I.], vol. 38, n. 7, pp. 687-693, abr. 2004. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/15098193\/&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[7]<\/b> GRIESAR, B. <i>Pure word deafness<\/i>. YouTube, jan. 2022. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YTHSV0VEW6Q&amp;t=10s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YTHSV0VEW6Q&amp;t=10s<\/a>&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[8] <\/b>HUANG, J. Agnosia. <i>Manual MSD<\/i>. Vers\u00e3o para profissionais de sa\u00fade, 2021. Dispon\u00edvel em: <b>&lt;<\/b><a href=\"https:\/\/www.msdmanuals.com\/pt-br\/profissional\/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos\/fun%C3%A7%C3%A3o-e-disfun%C3%A7%C3%A3o-dos-lobos-cerebrais\/agnosia\">https:\/\/www.msdmanuals.com\/pt-br\/profissional\/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3g<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.msdmanuals.com\/pt-br\/profissional\/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos\/fun%C3%A7%C3%A3o-e-disfun%C3%A7%C3%A3o-dos-lobos-cerebrais\/agnosia\">icos\/fun%C3%A7%C3%A3o-e-disfun%C3%A7%C3%A3o-dos-lobos-cerebrais\/agnosia<\/a>&gt;. Acesso em: 27 mar. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[9]<\/b> LANA, A. M. A. Amusia como dist\u00farbio auditivo central na esclerose m\u00faltipla: projeto de investiga\u00e7\u00e3o sobre a sua ocorr\u00eancia em pacientes com transtornos cognitivos. 2011. 47 p. Monografia de Especializa\u00e7\u00e3o (Especializa\u00e7\u00e3o em Neuroci\u00eancias e suas Fronteiras) &#8211; Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>[10] <\/b>SACKS, O. <i>Musicophilia<\/i>: Tales of Music and the Brain. New York: Alfred A. Knopf, 2007.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>Saiba mais:<\/b><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><b>Agnosia (em ingl\u00eas)<\/b><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Agnosia\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xtkRN3Ku54w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\" wp-block-heading eplus-wrapper\"><b>Prof Gabriele Miceli &#8211; <\/b><b>Anatomofunctional mechanisms underlying pure word deafness<\/b><\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Prof Gabriele Miceli - Anatomofunctional mechanisms underlying pure word deafness\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UWu_rE3y7Kw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; 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