{"id":423,"date":"2017-01-05T23:00:43","date_gmt":"2017-01-05T23:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=423"},"modified":"2017-03-22T15:03:18","modified_gmt":"2017-03-22T15:03:18","slug":"o-ingles-de-joel-santana-muito-mais-que-um-sotaque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/01\/05\/o-ingles-de-joel-santana-muito-mais-que-um-sotaque\/","title":{"rendered":"O ingl\u00eas de Joel Santana: muito mais que um sotaque"},"content":{"rendered":"<h4>Ser\u00e1 que o sotaque \u00e9 realmente o problema de Joel Santana?<\/h4>\n<p>Sei que o assunto j\u00e1 morreu faz um tempo (meia d\u00e9cada), mas talvez seja bacana trazer este tema de volta. Em meados de 2009, Joel Santana, o folcl\u00f3rico\u00a0t\u00e9cnico e rei dos campeonatos estaduais, campe\u00e3o baiano pelo Bahia e pelo Vit\u00f3ria, campe\u00e3o por todos os times grandes do Rio de Janeiro e pelo o Fluminense, e ent\u00e3o treinador da sele\u00e7\u00e3o de futebol da \u00c1frica do Sul, ficou um pouquinho mais famoso. A raz\u00e3o foi a entrevista abaixo, concedida durante a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, torneio teste para a Copa do Mundo de 2010.<\/p>\n<p><iframe title=\"Entrevista de Joel Santana em Ingl\u00eas\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8A60mdQn1Rc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h4>E a\u00ed? Dif\u00edcil de entender? Ent\u00e3o tente ver novamente, agora com a seguinte transcri\u00e7\u00e3o:<\/h4>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>&#8220;My EQUIPE played very nice. In the first time (\u00c9\u2026) Iraq and South Africa play same, but in second time I have the control the match. We controlled the match, my EQUIPE played in the left, in the right, in the medium. I had one best opportunity for the score.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Iraq marked in the medium from behind. E after, in the second time, I make two changes. One player experienced, Katlego Mashedo, and another player <span style=\"text-decoration: underline\">QUE<\/span> have experience, <span style=\"text-decoration: underline\">QUE<\/span> play, play very good, Steven Piennar. But I(?) don&#8217;t made the goal(?).&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<h4>Como definir\u00a0&#8220;sotaque&#8221;?<\/h4>\n<p>Podemos continuar agora que voc\u00ea entendeu a entrevista. Ap\u00f3s ver este v\u00eddeo, jornalistas de todo Brasil come\u00e7aram a falar do forte sotaque do \u2018Papai Joel\u2019 (lembrando que seu nome \u00e9 Joel Natalino Santana e que seu anivers\u00e1rio \u00e9 no dia 25 de Dezembro). Ao meu ver, por\u00e9m, seu sotaque \u00e9 a menor das quest\u00f5es aqui. Vejamos a seguir a seguinte defini\u00e7\u00e3o do verbete \u201csotaque\u201d, retirado do Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio, <a href=\"https:\/\/contas.tcu.gov.br\/dicionario\/home.asp\" target=\"_blank\">dispon\u00edvel online no site do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center\"><b>\u201c2. <\/b>E. Ling. <b>Pron\u00fancia caracter\u00edstica de um indiv\u00edduo, de uma regi\u00e3o, etc.; acento.\u201d<\/b><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Repare que, segundo esta defini\u00e7\u00e3o, sotaque \u00e9 relacionado \u00e0 pron\u00fancia caracter\u00edstica de algu\u00e9m. Em termos mais t\u00e9cnicos, pode ser entendido como um termo relacionado \u00e0s caracter\u00edsticas do controle motor durante a fala de algu\u00e9m. Isso pode ser explicado em termos de <b>aquisi\u00e7\u00e3o de linguagem<\/b> e de <b>percep\u00e7\u00e3o da fala<\/b>.<\/p>\n<h4>Aquisi\u00e7\u00e3o de Linguagem<\/h4>\n<p>Do lado da aquisi\u00e7\u00e3o, <strong>os linguistas sabem que beb\u00eas j\u00e1 conhecem\u00a0muito mais sobre sua l\u00edngua do que elas de fato conseguem produzir.<\/strong>\u00a0Isso fascina os linguistas e os motiva a desenvolverem diversos m\u00e9todos cada vez mais criativos para obter respostas sobre o conte\u00fado deste conhecimento ainda oculto. E assim \u00e9 poss\u00edvel mapear o momento em que as crian\u00e7as desenvolvem determinados conhecimentos. Uma das raz\u00f5es para que os beb\u00eas sejam incapazes de produzir tudo o que sabem \u00e9 que, junto com a l\u00edngua, ele tamb\u00e9m est\u00e1 desenvolvendo o seu controle motor, aprendendo a lidar com os movimentos dos m\u00fasculos de sua face, l\u00edngua e boca.<\/p>\n<h4>Percep\u00e7\u00e3o da Fala<\/h4>\n<p>As crian\u00e7as nascem como ouvintes universais, capazes de distinguir qualquer som existente ou que possa vir a existir nas l\u00ednguas naturais, por mais parecidos\u00a0que estes sons possam parecer. N\u00f3s, brasileiros, possu\u00edmos 14 vogais (as 7 que voc\u00ea aprende na escola e suas vers\u00f5es nasais). Por esta raz\u00e3o, temos uma enorme dificuldade perceber a diferen\u00e7a entre as mais de 20 vogais do franc\u00eas, muitas que nunca escutamos na vida. Por exemplo, precisamos de muita pr\u00e1tica para diferenciar\u00a0a pron\u00fancia das palavras <i>enfin<\/i> (enfim) e <i>enfant<\/i> (crian\u00e7a).<\/p>\n<p>Outra dificuldade comum \u00e9 perceber e realizar o famoso &#8220;biquinho do U&#8221; como em &#8220;<em>lune<\/em>&#8221; (lua), que compartilha algumas caracter\u00edsticas do <strong><em>I<\/em><\/strong> e do <em><strong>U<\/strong><\/em>.\u00a0<strong>Ser\u00e1 por isso que temos duas vers\u00f5es daquele prato que fazemos amassando batatas e adicionando leite e queijo (pur\u00ea ou pir\u00ea)? Ou tamb\u00e9m daquela forma de servir comida\u00a0em grande quantidade para um grande n\u00famero de pessoas (buf\u00ea ou bif\u00ea)?<\/strong>\u00a0Por outro lado, a crian\u00e7a falante nativa, no momento em que consegue controlar seus m\u00fasculos, j\u00e1 consegue tamb\u00e9m distinguir e reproduzir qualquer destes sons sem a menor dificuldade.<\/p>\n<h4>O sotaque do Joel \u00e9 o verdadeiro problema? Resposta: N\u00e3o!<\/h4>\n<p>O Joel tem sim\u00a0seu sotaque ao falar ingl\u00eas, o que \u00e9 perfeitamente normal e not\u00e1vel. Muitos de voc\u00eas\u00a0j\u00e1 se sentiram desconfort\u00e1veis ao\u00a0conversar em ingl\u00eas com\u00a0falantes nativos de outras l\u00ednguas como franc\u00eas ou japon\u00eas, e n\u00f3s tamb\u00e9m temos nosso sotaque\u00a0originado da forma como\u00a0os m\u00fasculos de nossa boca (al\u00e9m de outras quest\u00f5es perceptuais)\u00a0foram treinados para a nossa l\u00edngua. Mas a quest\u00e3o vai muito mais al\u00e9m: <strong>at\u00e9 que ponto\u00a0o Joel est\u00e1 falando ingl\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p>Vou come\u00e7ar a responder esta pergunta com outra pergunta: voc\u00ea tem dificuldade em\u00a0ler um texto em ingl\u00eas e traduzir na hora em voz alta para uma pessoa do seu lado?\u00a0Algumas pessoas conseguem\u00a0realizar esta tarefa com mais facilidade, outras n\u00e3o. Eu estou no segundo grupo. Mas agora tente fazer exatamente isso com a\u00a0transcri\u00e7\u00e3o da entrevista do Joel Santana.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>&#8220;Minha EQUIPE jogou\u00a0muito\u00a0bem. No\u00a0primeiro tempo (\u00c9\u2026) Iraque e\u00a0\u00c1frica do Sul jogaram igual, mas no segundo tempo\u00a0eu tive o controle da partida. N\u00f3s controlamos a partida, minha\u00a0EQUIPE jogou pela esquerda, pela direita, pelo meio. Tivemos a melhor\u00a0oportunidade para marcar (o gol).<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Iraque marcou (marca\u00e7\u00e3o) do meio vindo de tr\u00e1s. E depois, no segundo tempo, eu fiz duas mudan\u00e7as. Um jogador experiente, Katlego Mashedo, e\u00a0um outro jogador QUE tem experi\u00eancia, QUE joga, joga muito bem, Steven Piennar. Mas\u00a0eu(?) n\u00e3o fiz o gol(?).&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Muito provavelmente voc\u00ea conseguiu traduzir com facilidade. Caso acompanhe futebol, neste processo voc\u00ea\u00a0provavelmente lembrou das entrevistas cl\u00e1ssicas\u00a0do Joel ao dirigir suas equipes no Brasil.\u00a0E \u00e9 este o meu ponto: Para traduzir a\u00a0entrevista do Joel, voc\u00ea n\u00e3o precisou &#8220;pensar em ingl\u00eas&#8221;, realizar altera\u00e7\u00f5es sint\u00e1ticas pontuais ou procurar palavras no dicion\u00e1rio. De uma forma geral, basta substituir as palavras do Ingl\u00eas por palavras do\u00a0Portugu\u00eas. Joel Santana demonstra um dom\u00ednio razo\u00e1vel das palavras do ingl\u00eas. Sua sintaxe, por outro lado, n\u00e3o mudou e segue sendo a do Portugu\u00eas. Algumas palavras utilizadas sofrem influ\u00eancia deste <strong><em>Portenglish<\/em><\/strong>, como &#8220;<em>my\u00a0<strong>equip(e)<\/strong><\/em>&#8220;, &#8220;<em><strong>one<\/strong> player<\/em>&#8220;, &#8220;<em>in the <strong>medium<\/strong><\/em>&#8220;. Se ainda tem d\u00favidas, observe os &#8220;<em>QUE<\/em>&#8221; usados para\u00a0ligar as senten\u00e7as.<\/p>\n<h4>O que\u00a0podemos tirar de toda esta hist\u00f3ria?<\/h4>\n<p>Repito: o Joel tem sim o seu sotaque forte ao falar ingl\u00eas, mas ser\u00e1 que o sotaque \u00e9 realmente aquilo que\u00a0nos faz ter tanta dificuldade em compreender suas entrevistas? Ou a quebra de expectativa ao aportuguesar sua sintaxe?<\/p>\n<p>De qualquer forma, Joel Santana fez seu papel e conseguiu se comunicar com os jogadores e comiss\u00e3o t\u00e9cnica sulafricanos. Compreendia as perguntas dos jornalistas e as respondia. Quando as cr\u00edticas ao seu sotaque vieram, tamb\u00e9m soube tirar de letra e transformou seu ponto fraco em ponto forte e comercial, nas propagandas de Shampoo.<\/p>\n<p><strong>E acho que esta \u00e9 a li\u00e7\u00e3o que tiramos desta hist\u00f3ria toda.\u00a0Se foque nos seus pontos fracos, n\u00e3o para se martirizar, mas para saber usa-los a seu favor.<\/strong><\/p>\n<h4><strong>MATERIAL\u00a0EXTRA:<\/strong><\/h4>\n<ul>\n<li>Para n\u00e3o acharem que estou falando\u00a0mal de brasileiros, fiquem\u00a0com <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OP8F1RD5y78\" target=\"_blank\">o mestre\u00a0<em>Sir Bobby Robson<\/em>, treinador do Porto em 1993, nesta bela entrevista em Portugu\u00eas (aos 1m35s)<\/a>.<\/li>\n<\/ul>\n<p><iframe title=\"Bobby Robson speaking Portuguese\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OP8F1RD5y78?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Ser\u00e1 que o sotaque \u00e9 realmente o problema de Joel Santana? 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