{"id":425,"date":"2017-02-09T16:00:46","date_gmt":"2017-02-09T16:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=425"},"modified":"2018-08-07T02:59:27","modified_gmt":"2018-08-07T02:59:27","slug":"coercao-aspectual-uma-abordagem-linguistica-da-percepcao-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/02\/09\/coercao-aspectual-uma-abordagem-linguistica-da-percepcao-do-tempo\/","title":{"rendered":"Coer\u00e7\u00e3o Aspectual: Uma abordagem lingu\u00edstica da Percep\u00e7\u00e3o do Tempo"},"content":{"rendered":"<h4>Pr\u00eamio CAPES de Tese 2016<\/h4>\n<p>Escrevi este post para tentar explicar, de forma simplificada, o conte\u00fado de minha tese de doutorado defendida em 2015 na UFRJ e outorgada com men\u00e7\u00e3o honrosa no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/02\/07\/premio-capes-de-teses-2016\/\">Pr\u00eamio Capes de Tese<\/a>\u00a0em\u00a02016. Infelizmente ser\u00e1 dif\u00edcil escapar dos principais termos t\u00e9cnicos, mas todos eles est\u00e3o devidamente explicados no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/glossario\/\">Gloss\u00e1rio do #Lingu\u00edstica<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h4>Percep\u00e7\u00e3o do Tempo<\/h4>\n<p>As pesquisas sobre a percep\u00e7\u00e3o do tempo surgiram na psicologia com o objetivo de compreender os mecanismos envolvidos em tr\u00eas vertentes do controle temporal que conhecemos hoje:<\/p>\n<p>(1) A\u00a0<span style=\"color: #ff0000\"><b>Cronobiologia<\/b>\u00a0<\/span>(Tempo Circadiano) estuda os ciclos metab\u00f3licos e comportamentais das esp\u00e9cies;<br \/>\n(2) A\u00a0<b><span style=\"color: #ff0000\">estima\u00e7\u00e3o do tempo subjetivo<\/span><\/b><span style=\"color: #ff0000\">\u00a0<\/span>(Tempo dos Intervalos) que busca compreender como conseguimos monitorar subjetivamente o tempo e como acontecem ilus\u00f5es temporais como o fato de 1 minuto da comida esquentando no microondas demorar mais quando estamos com fome do que quando estamos realizando outras atividades;<br \/>\n(3) A\u00a0<b><span style=\"color: #ff0000\">coordena\u00e7\u00e3o motora<\/span><\/b><span style=\"color: #ff0000\">\u00a0<\/span>(Tempo autom\u00e1tico), como o ex\u00edmio controle dos m\u00fasculos da boca quando falamos, das pernas quando andamos, das m\u00e3os quando digitamos, etc.<\/p>\n<h4>Coer\u00e7\u00e3o Aspectual<\/h4>\n<p>A interface da linguagem com a percep\u00e7\u00e3o do tempo geralmente \u00e9 realizada nesta \u00faltima vertente (3), de ordem mais objetiva, atrav\u00e9s do campo da percep\u00e7\u00e3o da fala. Mas tamb\u00e9m existem alguns fen\u00f4menos mais subjetivos de ordem temporal que poderiam ser alternativamente explicados atrav\u00e9s dos modelos de Percep\u00e7\u00e3o do Tempo, como a chamada coer\u00e7\u00e3o\u00a0aspectual.<\/p>\n<p>Grosso modo, a coer\u00e7\u00e3o aspectual ocorre quando temos uma incompatibilidade no contorno temporal entre um evento e seu contexto temporal. Considere as senten\u00e7as (4) e (5) abaixo:<\/p>\n<p>(4) Jo\u00e3o correu por 10 minutos<br \/>\n(5) Jo\u00e3o pulou por 10 minutos<\/p>\n<p>As duas senten\u00e7as possuem a mesma constru\u00e7\u00e3o e as mesmas caracter\u00edsticas sint\u00e1ticas. Mas ao observarmos sua sem\u00e2ntica, veremos que em (4) se trata de um evento \u00fanico e em (5) de um evento iterativo (que se repete). A raz\u00e3o para tal diferen\u00e7a \u00e9 que um pulo n\u00e3o pode durar por dois minutos, logo, nossa mente realiza uma opera\u00e7\u00e3o extra na interpreta\u00e7\u00e3o, transformando [pular] em uma s\u00e9rie de eventos. Poder\u00edamos dizer que esta opera\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese subjetiva criada por te\u00f3ricos, mas psicolinguistas e neurocientistas da linguagem\u00a0evidenciaram que a leitura de (4) e de (5) s\u00e3o diferentes atrav\u00e9s de diversos testes de tempo de leitura, de rastreamento ocular, EEG e MEG.<\/p>\n<h4>A raz\u00e3o deste nome<\/h4>\n<p>E de onde vem o nome \u201ccoer\u00e7\u00e3o aspectual\u201d? No geral, vamos dizer que\u00a0<span style=\"color: #ff0000\"><b>aspecto<\/b><\/span>\u00a0\u00e9 um termo correspondente a diversas caracter\u00edsticas ligadas ao contorno temporal dos eventos como continuidade, exist\u00eancia de um ponto final inerente etc. Tradicionalmente, a Psicolingu\u00edstica explica o fen\u00f4meno atrav\u00e9s de caracter\u00edsticas aspectuais dos eventos, em especial o fato de [correr] ser um evento durativo e [pular] ser considerado um evento [pontual]. Desta forma, o evento em (4) \u00e9 compat\u00edvel com seu contexto, ao contr\u00e1rio de (5). Os testes realizados nos \u00faltimos 20 anos corroboram esta hip\u00f3tese. Por outro lado, nenhum destes testes buscou verificar a elasticidade dos eventos de acordo com diferentes contextos temporais. \u00c9 este ponto crucial que guiou minha tese.<\/p>\n<h4>Hip\u00f3tese<\/h4>\n<p>Se a coer\u00e7\u00e3o for um fen\u00f4meno aspectual, ser\u00e1 imposs\u00edvel causar coer\u00e7\u00e3o em eventos durativos, independente da elasticidade do contexto. Mas se a coer\u00e7\u00e3o for um fen\u00f4meno guiado pelo nosso conhecimento sobre a dura\u00e7\u00e3o subjetiva de um evento, cuja aquisi\u00e7\u00e3o \u00e9 explicada pela percep\u00e7\u00e3o do tempo, eventos que possuem uma determinada dura\u00e7\u00e3o ser\u00e3o mais dif\u00edceis de processar se os inserirmos em contextos maiores ou menores. E os m\u00e9todos e evid\u00eancias encontradas dever\u00e3o ser semelhantes aos encontrados nos testes realizados at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<h4>O experimento psicolingu\u00edstico<\/h4>\n<p>Para verificar estas hip\u00f3teses, alguns participantes da pesquisa classificaram diversos eventos conforme a primeira\u00a0 dura\u00e7\u00e3o que lhes viesse a mente entre [pontual], [segundos], [minutos] e [horas]). Para o teste principal, selecionamos aqueles eventos que duram por [minutos] e os inserimos em quatro contextos temporais distintos, como exemplificado abaixo.<\/p>\n<p>(6) Durante alguns segundos Beto cantou a m\u00fasica no palco do teatro (contexto menor que o evento)<br \/>\n(7) Durante alguns minutos Beto cantou a m\u00fasica no palco do teatro (contexto igual ao evento)<br \/>\n(8) Durante algumas horas Beto cantou a m\u00fasica no palco do teatro (contexto maior que o evento)<br \/>\n(9) Durante alguns dias Beto cantou a m\u00fasica no palco do teatro (contexto c\u00edclico)<\/p>\n<p>O m\u00e9todo utilizado foi o de leitura auto monitorada, na qual os participantes leem as frases parte por parte e pressionam uma tecla para seguir para a pr\u00f3xima. Enquanto isso, o computador monitora o tempo necess\u00e1rio para ler cada uma das partes da frase. Os resultados podem ser observados na imagem abaixo.<img \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/01\/Screen-Shot-2017-02-01-at-00.35.53.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-469\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/01\/Screen-Shot-2017-02-01-at-00.35.53.png\" alt=\"\" width=\"614\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/01\/Screen-Shot-2017-02-01-at-00.35.53.png 989w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/01\/Screen-Shot-2017-02-01-at-00.35.53-300x163.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/01\/Screen-Shot-2017-02-01-at-00.35.53-768x418.png 768w\" sizes=\"(max-width: 614px) 100vw, 614px\" \/><\/a><\/p>\n<h4>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/h4>\n<p>Podemos observar que, de fato, a leitura dos eventos com dura\u00e7\u00e3o de minutos em contextos diferentes (segundos, horas e dias) leva mais tempo que o necess\u00e1rio para ler a senten\u00e7a com contexto igual ao do evento, indicando que o efeito de coer\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de ordem aspectual, mas sim um fen\u00f4meno relacionado a Psicologia da Percep\u00e7\u00e3o do Tempo. Ainda assim, outros testes precisam ser realizados, incluindo testes com rastreamento ocular e neurofisiol\u00f3gicos de forma a coletar evid\u00eancias t\u00e3o robustas quanto as apresentadas at\u00e9 hoje na literatura sobre Coer\u00e7\u00e3o Aspectual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>SAMPAIO, Thiago; FRAN\u00c7A, Aniela; MAIA, Marcus. Does Time Perception Influence Language Processing? Self-Paced Reading Evidence of Aspectual Coercion in Durative Events. In: CHRUSZCZEWSKI, Piotr (Org.). Languages in Contact: Ways to Protolanguage 3. Wroclaw: Wy\u017csza Szko\u0142a Filologiczna we Wroc\u0142awiu &amp; Polska Akademia Nauk, 2014. p. 139-156.<\/p>\n<p>SAMPAIO, Thiago; FRAN\u00c7A, Aniela; MAIA, Marcus. Lingu\u00edstica, Psicologia e Neuroci\u00eancia: A uni\u00e3o inescap\u00e1vel destas tr\u00eas disciplinas, Revista Lingu\u00edstica (UFRJ), v. 11, n. 1, p. 230-251, 2015.<\/p>\n<p>SAMPAIO, Thiago. Coer\u00e7\u00e3o Aspectual: uma abordagem lingu\u00edstica da Percep\u00e7\u00e3o do Tempo. 2015. 398f. Tese (Doutorado em Lingu\u00edstica) \u2013 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Pr\u00eamio CAPES de Tese 2016 Escrevi este post para tentar explicar, de forma simplificada, o conte\u00fado de minha tese de doutorado defendida em 2015 na <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/02\/09\/coercao-aspectual-uma-abordagem-linguistica-da-percepcao-do-tempo\/\" title=\"Coer\u00e7\u00e3o Aspectual: Uma abordagem lingu\u00edstica da Percep\u00e7\u00e3o do Tempo\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":150,"featured_media":556,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[66,68,67,73],"class_list":["post-425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-linguagem-e-mente","tag-percepcao-do-tempo","tag-premio-capes-de-tese-2016","tag-psicolinguistica","tag-psicologia-cognitiva"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/ca.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/150"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=425"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1344,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425\/revisions\/1344"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/556"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}