{"id":703,"date":"2017-05-13T18:51:11","date_gmt":"2017-05-13T18:51:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/?p=703"},"modified":"2017-07-07T19:05:56","modified_gmt":"2017-07-07T19:05:56","slug":"comunicacao-animais-humanos-e-ets","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/05\/13\/comunicacao-animais-humanos-e-ets\/","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o: Animais, Humanos e ETs (Pint of Science)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Observa\u00e7\u00e3o:\u00a0Este post serviu de base para minha fala no\u00a0<a href=\"http:\/\/posbrazil.wixsite.com\/posbrazil\/copy-of-camp11\">Pint of Science Campinas 2017<\/a>, no dia 17 de Maio, no Alzir\u00e3o Emp\u00f3rio\u00a0Bar, Campinas-SP.<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea gosta de comunica\u00e7\u00e3o, de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de ler sobre a explora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pela humanidade, provavelmente tamb\u00e9m gostou bastante de \u201c<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2016\/11\/21\/chegada-dos-linguistas-na-telona\/\">A Chegada<\/a>\u201d. Caso n\u00e3o conhe\u00e7a, o filme de Dennis Villeneuve foi inspirado no conto \u201c<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Story_of_Your_Life\">Hist\u00f3ria da sua vida<\/a>\u201d de Ted Chiang e fez sucesso recentemente, ao ponto de ganhar\u00a0o <a href=\"http:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/agora-na-cultura\/post\/melhor-edicao-de-som-oscar-foi-para-chegada.html\">Oscar de melhor edi\u00e7\u00e3o de som<\/a>. O roteiro do filme gira em torno do trabalho de uma linguista, Louise Banks, convocada pelo ex\u00e9rcito americano para decifrar \u2018a linguagem\u2019 dos visitantes alien\u00edgenas. Se voc\u00ea \u00e9 entusiasta no tema, mesmo que n\u00e3o seja linguista ou n\u00e3o tenha gostado do filme, sugiro fortemente a leitura do conto. Ele \u00e9 muito mais p\u00e9 no ch\u00e3o, realizando a liga\u00e7\u00e3o entre a F\u00edsica alien\u00edgena e sua l\u00edngua (n\u00e3o, o F\u00edsico da hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um &#8220;vice\u00a0protagonista decorativo&#8221;), dando evid\u00eancias para cada descoberta das dezenas de equipes de linguistas e de f\u00edsicos ao redor do mundo.<\/p>\n<h3><strong>1) Sobre as formas de vida no universo<\/strong><\/h3>\n<p>Voltando ao tema da explora\u00e7\u00e3o espacial. Conforme nossa tecnologia nos permita o\u00a0acesso f\u00edsico ou de informa\u00e7\u00f5es sobre os locais mais long\u00ednquos do universo, em algum momento \u00a0encontremos vida al\u00e9m das que conhecemos hoje na Terra. Estas formas de vida podem ser parecidas com as existentes em nosso planeta, organizadas em c\u00e9lulas, baseadas em \u00e1gua e carbono e com instru\u00e7\u00f5es registradas em DNA. Por outro lado, nada impede que outros planetas tenham desenvolvido outros tipos de vida, com organiza\u00e7\u00e3o diferente do que conhecemos hoje, assim como\u00a0as pedras de V\u00eanus em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=3RqivuptFPY&amp;feature=youtu.be&amp;t=14m16s\">Chapolin<\/a>.\u00a0Podemos dizer o mesmo\u00a0em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma de comunica\u00e7\u00e3o entre estes seres.<\/p>\n<p>Hoje, o sentido de comunica\u00e7\u00e3o no p\u00fablico comum est\u00e1 muito ligado \u00e0s diversas faces da linguagem oral. Normalmente n\u00e3o falamos\u00a0das\u00a0outras formas de comunica\u00e7\u00e3o entre os seres vivos existentes no nosso planeta, cada uma mais fascinante do que a outra (voltarei a este ponto em breve).\u00a0Assim, a comunica\u00e7\u00e3o alien\u00edgena pode acontecer de forma semelhante ao que observamos na Terra, mas tamb\u00e9m pode ter caracter\u00edsticas completamente imprevis\u00edveis. E ser\u00e1 que os humanos seriam capazes de interceptar estas mensagens e compreend\u00ea-las?<\/p>\n<h3><strong>2) Comunica\u00e7\u00e3o, Linguagem e L\u00ednguas<\/strong><\/h3>\n<p>Em conversas do cotidiano, \u00e9 comum escutar opini\u00f5es sobre a \u201clinguagem de sinais\u201d encadeada de\u00a0falas sobre \u201ca linguagem da It\u00e1lia\u201d e \u201ca linguagem dos golfinhos\u201d. Infelizmente,\u00a0\u00e9 poss\u00edvel identificar este achatamento terminol\u00f3gico at\u00e9 mesmo em\u00a0ve\u00edculos de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como o <a href=\"http:\/\/www.deviante.com.br\/podcasts\/scicast\/scicast-181-live-oscar-chegada\/\">SciCast #181<\/a> e o <a href=\"https:\/\/jovemnerd.com.br\/nerdcast\/chegada-e-o-ciclo-linguistico\/\">NerdCast #561<\/a>. Entendo que a ideia da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9\u00a0passar informa\u00e7\u00e3o\u00a0de forma\u00a0simples para\u00a0o p\u00fablico leigo. Mas alguma\u00a0defini\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>Ambos os podcasts contaram com a participa\u00e7\u00e3o de linguistas que, em algum momento, se enrolaram com alguma pergunta exatamente por n\u00e3o se preocupar com esta distin\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, para facilitar a\u00a0compreens\u00e3o, vou\u00a0usar este espa\u00e7o para garantir que &#8220;estamos falando a mesma l\u00edngua&#8221;. Embora a defini\u00e7\u00e3o espec\u00edfica possa variar de acordo com a vertente lingu\u00edstica do pesquisador, acredito ser poss\u00edvel fazer uma r\u00e1pida defini\u00e7\u00e3o, de forma que seja comum entre boa parte dos\u00a0linguistas sem ser extremamente superficial.<\/p>\n<h4>a. Comunica\u00e7\u00e3o:<\/h4>\n<p>Termo mais geral que se refere a qualquer forma de troca de informa\u00e7\u00e3o, independente do emissor, do receptor, do c\u00f3digo e do meio utilizado para tal. \u00c9 comum encontrarmos, em lingu\u00edstica, o termo \u2018Comunica\u00e7\u00e3o Animal\u2019, se referindo a qualquer forma de comunica\u00e7\u00e3o animal n\u00e3o humana, ou a comunica\u00e7\u00e3o entre m\u00e1quinas como modelos ou met\u00e1foras da comunica\u00e7\u00e3o entre seres vivos.<\/p>\n<h4>b. Linguagem:<\/h4>\n<p>Em lingu\u00edstica, o termo linguagem \u00e9 reservado para a comunica\u00e7\u00e3o\u00a0humana. Alguns bi\u00f3logos acreditam (e acusam) que os linguistas colocam os humanos num pedestal, o que n\u00e3o \u00e9 verdade. <span style=\"text-decoration: underline\">N\u00e3o se trata de defender\u00a0que nossa comunica\u00e7\u00e3o seja especial em rela\u00e7\u00e3o a de outras esp\u00e9cies, mas sim de definir que a comunica\u00e7\u00e3o animal ou entre computadores n\u00e3o \u00e9 o objetivo final das pesquisas em Lingu\u00edstica.<\/span> O uso do termo linguagem neste sentido se trata de\u00a0uma delimita\u00e7\u00e3o do objeto de estudo da ci\u00eancia lingu\u00edstica.<\/p>\n<h4>c. L\u00ednguas:<\/h4>\n<p>Apesar de termos uma forma de comunica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica chamada <strong>linguagem<\/strong>, uma enorme capacidade de varia\u00e7\u00e3o faz com que a linguagem seja realizada atrav\u00e9s de in\u00fameras estruturas\u00a0diferentes, chamadas <strong>l\u00ednguas<\/strong>. As\u00a0l\u00ednguas s\u00e3o expressas normalmente na modalidade falada\/auditiva. Na aus\u00eancia da audi\u00e7\u00e3o, \u00e9 comum usarmos l\u00ednguas sinalizadas, na modalidade visual. As l\u00ednguas t\u00eam como uma de suas caracter\u00edsticas mais\u00a0marcantes a\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Grammaticalization\">modifica\u00e7\u00e3o no tempo<\/a>, o que garante a elas a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DQDRTl6UJ9o\">sua pr\u00f3pria Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o<\/a>, \u00e0 parte da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Origem_da_linguagem\">Evolu\u00e7\u00e3o da Linguagem<\/a> e da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Evolu\u00e7\u00e3o\">Evolu\u00e7\u00e3o das Esp\u00e9cies<\/a>.<\/p>\n<h4><strong>2.1 Comunica\u00e7\u00e3o dos\u00a0insetos<\/strong><\/h4>\n<p>Diversos seres, como as formigas, conseguem <a href=\"http:\/\/www.ebc.com.br\/infantil\/voce-sabia\/2016\/02\/como-formigas-se-comunicam\">transmitir informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de sinais qu\u00edmicos<\/a>. <a href=\"http:\/\/www.nhptv.org\/natureworks\/nwep3d.htm\">Mesmo entre os animais<\/a>, al\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o pela via auditiva, a comunica\u00e7\u00e3o de alguns aspectos da vida por via qu\u00edmica ainda \u00e9 bem marcante. J\u00e1 as abelhas possuem <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bFDGPgXtK-U\">uma dan\u00e7a milimetricamente calculada<\/a> capaz de informar a posi\u00e7\u00e3o do alimento para suas companheiras. Esta dan\u00e7a leva em considera\u00e7\u00e3o fatores ambientais como a dist\u00e2ncia e a posi\u00e7\u00e3o do sol. Se estudarmos\u00a0toda a biodiversidade e suas formas de comunica\u00e7\u00e3o, provavelmente encontraremos mecanismos cada vez mais impressionantes de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4>2.2 Comunica\u00e7\u00e3o de\u00a0primatas<\/h4>\n<p>Primatas n\u00e3o humanos possuem vocaliza\u00e7\u00f5es que geralmente se dividem no trip\u00e9 da vida: alimenta\u00e7\u00e3o, sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o. Dentre estas tr\u00eas categorias, \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma varia\u00e7\u00e3o nas vocaliza\u00e7\u00f5es referentes a subcategorias. Por exemplo, <a href=\"http:\/\/www.emory.edu\/LIVING_LINKS\/publications\/articles\/Clay_etal_2012.pdf\">se a comida \u00e9 comum ou rara<\/a>, ou se o perigo vem pelo alto (ex. aves de rapina), por terra (ex. on\u00e7as) ou \u00e9 rasteiro (ex. cobras). A forma da vocaliza\u00e7\u00e3o muda completamente o comportamento do grupo, <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=4&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0ahUKEwiNtqrXqOTTAhVDkZAKHQpiBgUQFgg6MAM&amp;url=http%3A%2F%2Fling.auf.net%2Flingbuzz%2F002903%2Fcurrent.pdf&amp;usg=AFQjCNF2JJSEyWR97yYIM_fxcgKcuOzmQg&amp;sig2=C-NCFD88j5UEW2P-9w4HNQ\">que pode fugir subindo ou descendo das \u00e1rvores<\/a>. Isso indica que estas varia\u00e7\u00f5es na informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o relevantes para a comunica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, as\u00a0<a href=\"http:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s10988-014-9155-7\">varia\u00e7\u00f5es ou s\u00e3o razoavelmente bem compreendidas por outros grupos da mesma esp\u00e9cie, ou usam uma mesma forma para novas fun\u00e7\u00f5es<\/a>.<\/p>\n<h4>2.3 Comunica\u00e7\u00e3o de\u00a0humanos<\/h4>\n<p>Entre humanos como grupo social, podemos dizer que todos n\u00f3s compartilhamos a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de sons estruturados e composicionais. Estes sons se diferenciam uns dos outros atrav\u00e9s de pequenas varia\u00e7\u00f5es dotadas de sentido (compare a diferen\u00e7a entre: [b]ia, [d]ia, [p]ia, [t]ia, [ch]ia, [r]ia, [v]ia, [l]ia etc). Apesar disso, nem todos compartilham a mesma l\u00edngua, nem as mesmas formas com novos sentidos como parece acontecer em primatas.\u00a0A comunica\u00e7\u00e3o humana atrav\u00e9s de linguagem pode ser impratic\u00e1vel se um falante de\u00a0<a href=\"http:\/\/povosindigenasdobrasil.blogspot.com.br\/2014\/12\/os-karaja-etnia-de-aruana.html\">Karaj\u00e1<\/a> tentar se comunicar com um falante de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Maoris\">Maori<\/a> usando apenas suas l\u00ednguas maternas. Se a necessidade e insist\u00eancia\u00a0forem grandes, por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel que os indiv\u00edduos criem uma <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pidgin\">l\u00edngua de contato<\/a>.<\/p>\n<h3>3) Precisamos discutir o que \u00e9 Lingu\u00edstica<\/h3>\n<p>Agora que fizemos a distin\u00e7\u00e3o terminol\u00f3gica entre comunica\u00e7\u00e3o, linguagem e l\u00ednguas, vale a pergunta: o que, de fato, estuda a Lingu\u00edstica?<\/p>\n<h4><strong>a) Resposta r\u00e1pida e definitivamente imprecisa<\/strong><\/h4>\n<p>Lingu\u00edstica \u00e9 a \u00e1rea da ci\u00eancia que estuda a comunica\u00e7\u00e3o humana! Por\u00e9m, isso n\u00e3o explica como funcionam os estudos da linguagem. A\u00a0linguagem \u00e9 um objeto t\u00e3o fluido que n\u00e3o basta uma\u00a0ci\u00eancia apenas para ela. \u00c9\u00a0preciso estabelecer\u00a0interfaces com outras disciplinas pertencentes \u00e0s mais diversas \u00e1reas do saber.<\/p>\n<h4><strong>b) Resposta mais longa e um pouquinho mais precisa<\/strong><\/h4>\n<p>A linguagem \u00e9 algo que ultrapassa suas caracter\u00edsticas estruturais. Ela possui\u00a0caracter\u00edsticas sociais em suas entranhas e, ao mesmo tempo, depende de estruturas biol\u00f3gicas para ser utilizada. \u00c9 poss\u00edvel realizar estudos descritivos sobre\u00a0os n\u00edveis\u00a0Ac\u00fastico, Fonol\u00f3gico, Morfol\u00f3gico, Sint\u00e1tico, Sem\u00e2ntico e Pragm\u00e1tico, estritamente relacionados \u00e0 estrutura das l\u00ednguas. Por outro lado, podemos pesquisar <strong>Sociolingu\u00edstica<\/strong>, <strong>Lingu\u00edstica Hist\u00f3rica<\/strong>,\u00a0<strong>Psicolingu\u00edstica, Lingu\u00edstica Forense,<\/strong>\u00a0<strong>Lingu\u00edstica Computacional<\/strong>, <strong>An\u00e1lise do Discurso,\u00a0Neurolingu\u00edstica\u00a0<\/strong>relacionada ao <a href=\"http:\/\/www.acesin.letras.ufrj.br\">processamento lingu\u00edstico<\/a>\u00a0ou ao <a href=\"http:\/\/cogites.iel.unicamp.br\/p\/atividades-no-cca.html\">discurso<\/a><strong>\u00a0<\/strong>(Por favor!\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.universoracionalista.org\/programacao-neurolinguistica\/\">PNL<\/a>\u00a0n\u00e3o tem absolutamente NADA\u00a0de Lingu\u00edstica!<\/em>).<\/p>\n<p>Desta forma, a Lingu\u00edstica \u00e9 parte integrante e essencial para o conhecimento em outras disciplinas. Podemos dar o exemplo da Psicologia Cognitiva, das\u00a0Neuroci\u00eancias, da\u00a0Pol\u00edtica, da\u00a0Sociologia, da\u00a0Antropologia, da\u00a0Hist\u00f3ria, do Direito e outras. A lingu\u00edstica \u00e9 essencial\u00a0at\u00e9 mesmo para\u00a0as pesquisas\u00a0sobre Intelig\u00eancia Artificial,\u00a0nas tarefas de\u00a0tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica e nas tentativas de fazer um computador compreender e produzir &#8220;linguagem&#8221; como o <a href=\"http:\/\/www.cleverbot.com\">CleverBot<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_715\" aria-describedby=\"caption-attachment-715\" style=\"width: 437px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/linguisticfields.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-715\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/linguisticfields.jpg\" alt=\"O que estuda a Lingu\u00edstica: Ta\u00ed a resposta!\" width=\"437\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/linguisticfields.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/linguisticfields-294x300.jpg 294w\" sizes=\"(max-width: 437px) 100vw, 437px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-715\" class=\"wp-caption-text\">O que estuda a Lingu\u00edstica? Ta\u00ed a(s) resposta(s)!<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m de todas estas especialidades, tamb\u00e9m existem os <strong>Linguistas de Campo<\/strong>. Estes pesquisadores\u00a0utilizam todo o conhecimento destas \u00e1reas para <a href=\"http:\/\/indiomas.iel.unicamp.br\">aprender\u00a0e documentar l\u00ednguas<\/a> que nunca passaram pelo processo de descri\u00e7\u00e3o. Assim como a biodiversidade est\u00e1 amea\u00e7ada,\u00a0<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/26\/cultura\/1482746256_157587.html\">as l\u00ednguas minorit\u00e1rias do mundo est\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0e precisam ser preservadas, o que demonstra a relev\u00e2ncia social e hist\u00f3rica dos linguistas de campo.<\/p>\n<h3>4) Sobre a diversidade\u00a0da comunica\u00e7\u00e3o no Planeta Terra<\/h3>\n<figure id=\"attachment_714\" aria-describedby=\"caption-attachment-714\" style=\"width: 295px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-714 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/Screen-Shot-2017-05-12-at-18.11.05.png\" alt=\"Nim Chimpsky\" width=\"295\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/Screen-Shot-2017-05-12-at-18.11.05.png 295w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/Screen-Shot-2017-05-12-at-18.11.05-199x300.png 199w\" sizes=\"(max-width: 295px) 100vw, 295px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-714\" class=\"wp-caption-text\">Projeto Nim<\/figcaption><\/figure>\n<p>Muitos bi\u00f3logos dizem que os humanos ainda n\u00e3o conseguiram compreender o que dizem as baleias por conta de sua anatomia. Afinal,\u00a0conseguimos entender razoavelmente bem as vocaliza\u00e7\u00f5es de boa parte dos primatas, que s\u00e3o mais pr\u00f3ximos na escala evolutiva.Por outro lado, todo o conhecimento sobre as vocaliza\u00e7\u00f5es levou anos e anos de estudos para ser formado e ainda temos um longo caminho se quisermos de fato entender a comunica\u00e7\u00e3o primata. Enquanto isso, <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Karl_von_Frisch\">Karl von Frisch ganhou o Nobel<\/a> por descrever minuciosamente o fascinante mecanismo da dan\u00e7a das abelhas, com anatomia muito diferente da nossa.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o \u00e9 que os Linguistas, que possuem melhores ferramentas para pesquisar comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam a descri\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o animal como fim, como discutimos anteriormente. Nenhum linguista dedicar\u00e1 sua vida a descrever a comunica\u00e7\u00e3o entre baleias. Este seria um objetivo muito mais fact\u00edvel para uma pesquisa em Biologia que, por sua vez, possui melhores ferramentas para, entre outros, descrever a fisiologia e a evolu\u00e7\u00e3o dos mam\u00edferos e de seus sistemas motores.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o da\u00a0comunica\u00e7\u00e3o entre baleias s\u00f3 seria poss\u00edvel com\u00a0um esfor\u00e7o conjunto entre linguistas e bi\u00f3logos.<\/p>\n<h4><strong>Agora pense no contr\u00e1rio! Ser\u00e1 que os animais\u00a0poderiam compreender a comunica\u00e7\u00e3o humana?<\/strong><\/h4>\n<p>Alguns estudos\u00a0feitos com grandes primatas conseguiram\u00a0estabelecer um determinado n\u00edvel de compreens\u00e3o em l\u00ednguas sinalizadas, como \u00e9 o caso do <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=4&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0ahUKEwjG6IDQoOvTAhVJGpAKHfjvAO8QtwIITTAD&amp;url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DyxQap9AAPOs&amp;usg=AFQjCNH-M46pyZvYDaejWS7EOyqV7EeOwg&amp;sig2=xPvpT0WOdi3ebfQTHxet3Q\">Projeto Nim<\/a>. Duas das grandes diferen\u00e7as da comunica\u00e7\u00e3o do chimpanz\u00e9 <strong>Nim Chimpsky<\/strong> (reconhece este nome?) com a linguagem \u00e9 que: (i) Nim conseguia produzir apenas senten\u00e7as demasiadamente simples, com at\u00e9 tr\u00eas ou quatro sinais correspondentes a sujeito, verbo e objeto e; (ii) embora alguns argumentem que sua produ\u00e7\u00e3o se assemelha a das crian\u00e7as, <a href=\"http:\/\/www.ling.upenn.edu\/~ycharles\/sign708.pdf\">a distribui\u00e7\u00e3o dos sinais usados por Nim<\/a> n\u00e3o obedeciam a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fCn8zs912OE\">Lei de Zipf<\/a>. Al\u00e9m destes, existiram projetos como o dos chimpanz\u00e9s\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Lana_(chimpanzee)\">Lana<\/a>\u00a0e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Washoe_(chimpanzee)\">Washoe<\/a>, da gorila\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Koko_(gorilla)\">Koko<\/a>\u00a0e da bonobo <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Kanzi\">Kanzi<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_753\" aria-describedby=\"caption-attachment-753\" style=\"width: 521px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/Screen-Shot-2017-05-14-at-14.21.22.png\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-753\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/Screen-Shot-2017-05-14-at-14.21.22.png\" alt=\"Distribui\u00e7\u00e3o de frequ\u00eancia pela Lei de Zipf (VSauce)\" width=\"521\" height=\"291\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/Screen-Shot-2017-05-14-at-14.21.22.png 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/Screen-Shot-2017-05-14-at-14.21.22-300x168.png 300w\" sizes=\"(max-width: 521px) 100vw, 521px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-753\" class=\"wp-caption-text\">Distribui\u00e7\u00e3o de frequ\u00eancia segundo a\u00a0Lei de Zipf (VSauce)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com os golfinhos,\u00a0as evid\u00eancias coletadas indicam que eles s\u00e3o capazes de compreender <a href=\"http:\/\/citeseerx.ist.psu.edu\/viewdoc\/download?doi=10.1.1.693.7805&amp;rep=rep1&amp;type=pdf\">uma gram\u00e1tica criada e ensinada a eles,<\/a>\u00a0mas n\u00e3o uma l\u00edngua humana. A Gram\u00e1tica DTR (Destino, Transportado, Rela\u00e7\u00e3o)\u00a0permite que, seguindo esta sequ\u00eancia, possamos pedir para os golfinhos realizarem levarem algum objeto at\u00e9 determinado local na piscina.\u00a0De qualquer forma, isso j\u00e1 demonstra uma capacidade\u00a0impressionante de comunica\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies.<\/p>\n<h3><strong>5) Biolingu\u00edstica<\/strong><\/h3>\n<p>O fato de n\u00e3o compreendermos a comunica\u00e7\u00e3o das diversas esp\u00e9cies no planeta, a meu ver, est\u00e1 muito mais na falta de comunica\u00e7\u00e3o entre bi\u00f3logos e linguistas do que na dificuldade de descri\u00e7\u00e3o. Ao menos, no que diz respeito a este objetivo em especial. A comunica\u00e7\u00e3o entre bi\u00f3logos, antrop\u00f3logos, psic\u00f3logos e linguistas tem se tornado um pouco \u00a0mais comum nos \u00faltimos anos, no que diz respeito \u00e0 origem e evolu\u00e7\u00e3o da linguagem. Esta comunica\u00e7\u00e3o deu origem a uma \u00e1rea interdisciplinar conhecida como <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Biolinguistics\">Biolingu\u00edstica<\/a>.<\/p>\n<p>Pelo contato, diversos termos lingu\u00edsticos, dentre eles o termo linguagem, acabam sendo usados com sentidos distintos e causam um certo \u201cborr\u00e3o terminol\u00f3gico\u201d. Enquanto uns preferem descrever o que \u00e9 inovador na comunica\u00e7\u00e3o humana, dando a isso o nome linguagem, outros preferem dizer que linguagem inclui tudo o que tamb\u00e9m \u00e9 compartilhado entre humanos e primatas. Em situa\u00e7\u00f5es em que os debatedores n\u00e3o especificam seus termos, n\u00e3o \u00e9 raro um criticar as ideias do outro e propor algo semelhante em seguida.<\/p>\n<p>De qualquer forma, a Biolingu\u00edstica \u00e9 uma \u00e1rea de in\u00fameras interfaces nas Ci\u00eancias Cognitivas e tem crescido bastante no mundo, apesar de ser virtualmente inexistente no Brasil. O grande impasse na \u00e1rea \u00e9 que n\u00e3o existem f\u00f3sseis lingu\u00edsticos, tornando todos os caminhos de pesquisa um tanto nebulosos. Um conjunto de evid\u00eancias paleontol\u00f3gicas ou de modelagem computacional consegue corroborar uma diversidade de hip\u00f3teses, muitas vezes contr\u00e1rias entre si. Como diz um grande amigo e estudioso da \u00e1rea em sua (em breve) tese de doutorado:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>No caso da \u00e1rea de estudos evolutivos sobre o Homo sapiens, a descoberta de um pequeno f\u00f3ssil pode corroborar um n\u00famero t\u00e3o grande de hip\u00f3teses sobre o surgimento da linguagem quanto as estrelas da Via L\u00e1ctea.<\/em>\u201d<br \/>\nFabio Mesquita (2017).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por fim, assim como na hist\u00f3ria do universo,\u00a0<span style=\"text-decoration: underline\">sabemos razoavelmente bem o que acontece com a linguagem e com as l\u00ednguas assim que elas\u00a0passaram a existir, mas\u00a0muito pouco sobre como elas de fato surgiram.<\/span><\/p>\n<h3>6) Seria poss\u00edvel uma linguagem alien\u00edgena?<\/h3>\n<p>Neste ponto precisamos voltar as nossas defini\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o, linguagem e l\u00edngua. Uma vez que \u2018linguagem\u2019 \u00e9 utilizado para se referir \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o humana, seria contradit\u00f3rio falar em uma \u2018linguagem alien\u00edgena\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><span style=\"text-decoration: underline\">OBS.: A partir deste ponto, (quase) tudo o que eu disser n\u00e3o passa de pura especula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Ao encontrarmos vida extraterrestre, inicialmente, apenas os bi\u00f3logos teriam interesse na descri\u00e7\u00e3o de suas poss\u00edveis formas de comunica\u00e7\u00e3o, assim como vimos\u00a0com a comunica\u00e7\u00e3o animal. Os linguistas s\u00f3 despertariam interesse no caso se os ETs\u00a0demonstrem algum n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o social que possa ser relacionado ao nosso. A raz\u00e3o para este interesse seria simples: j\u00e1 \u00e9 relativamente dif\u00edcil descrever a pr\u00f3pria ferramenta que usamos para realizar esta descri\u00e7\u00e3o. Estamos sempre limitados a pr\u00f3pria linguagem sem poder observ\u00e1-la de fora. Uma vez que existe um outro sistema de comunica\u00e7\u00e3o entre seres vivos que se organizam socialmente de forma semelhante \u00e0 nossa, este sistema servir\u00e1, no m\u00ednimo, como um excelente ponto de compara\u00e7\u00e3o. Esta compara\u00e7\u00e3o pode nos dar uma no\u00e7\u00e3o mais clara dos limites da comunica\u00e7\u00e3o humana, de mecanismos cognitivos que talvez n\u00e3o saibamos que usamos para usar linguagem, dentre outras vantagens comparativas.<\/p>\n<h3><strong>7) AstroBioLingu\u00edstica (ou a AstroLingu\u00edstica?)?<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s toda a discuss\u00e3o sobre o que \u00e9 Lingu\u00edstica, suas sub\u00e1reas e a comunica\u00e7\u00e3o animal, fiquei imaginando como seria o trabalho de um\u00a0linguista do futuro. Este novo linguista poder\u00e1 explorar\u00a0o universo descrevendo\u00a0a linguagem de cada esp\u00e9cie alien\u00edgena.\u00a0Algu\u00e9m que inaugure esta sub\u00e1rea n\u00e3o seria um biolinguista. Ele seria muito mais pr\u00f3ximo do linguista de campo, que\u00a0busca descrever as\u00a0l\u00ednguas ind\u00edgenas, africanas e abor\u00edgenes. Por outro lado, ao contr\u00e1rio\u00a0do linguista de campo, este linguista precisaria tamb\u00e9m ter boas no\u00e7\u00f5es de\u00a0biof\u00edsica para saber o que procurar nas l\u00ednguas extraterrestes.<\/p>\n<p>A esta jun\u00e7\u00e3o entre um biolinguista e um linguista de campo, eu daria\u00a0este nome pomposo, juntando tr\u00eas \u00e1reas da ci\u00eancia: AstroBioLinguista.<\/p>\n<p>Vale notar que existe, hoje, uma\u00a0\u00e1rea semelhante, chamada\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Astrolinguistics\">Astrolingu\u00edstica<\/a>. Esta \u00e1rea, por\u00e9m, \u00e9\u00a0ligada \u00e0 busca por intelig\u00eancia extraterrestre. O Astrolinguista auxilia o desenvolvimento de mensagens que s\u00e3o enviadas ao espa\u00e7o, como no <a href=\"https:\/\/www.seti.org\">SETI Institute<\/a>. Particularmente,\u00a0ainda acredito que eles est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da matem\u00e1tica do que da Lingu\u00edstica, exatamente pela nossa distin\u00e7\u00e3o de objetivos. O objetivo do astrolinguista n\u00e3o \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o humana. J\u00e1 o AstroBioLinguista, al\u00e9m de documentar aliel\u00ednguas, o fariam na inten\u00e7\u00e3o de fomentar compara\u00e7\u00f5es com nossas l\u00ednguas. Sendo assim, prefiro manter\u00a0o termo que inventei e seguiremos falando da AstroBioLingu\u00edstica.<\/p>\n<h4>AstroBioLingu\u00edstica da Fala<\/h4>\n<p>A primeira coisa que\u00a0o astrobiolinguista precisar\u00e1 entender \u00e9 a anatomia do sistema de comunica\u00e7\u00e3o das\u00a0esp\u00e9cies observadas. Os ETs\u00a0usariam fala? Ou talvez algum\u00a0outro meio auditivo? Vale lembrar que a fala humana usa frequ\u00eancias que variam entre 50 e 3400Hz. Caso o extraterrestre use outras frequ\u00eancias, provavelmente n\u00e3o ter\u00edamos f\u00e1cil acesso a sua produ\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica ou, no m\u00ednimo, precisar\u00edamos de instrumentos para captar e decodificar estes sons.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar\u00a0a exist\u00eancia de uma s\u00edndrome rara e adquirida chamada <a href=\"http:\/\/link.springer.com\/referenceworkentry\/10.1007%2F978-0-387-79948-3_918\">Surdez para Palavras (Pure Word Deafness)<\/a>\u00a0que nos faz perder a capacidade de\u00a0processamento de\u00a0l\u00edngua falada, mesmo\u00a0que o indiv\u00edduo continue escutando normalmente e ainda consiga usar\u00a0l\u00edngua escrita. Isso indica a exist\u00eancia de algum sistema cognitivo de compreens\u00e3o de linguagem oral que est\u00e1 danificado. Ser\u00e1 que, no caso da linguagem alien\u00edgena, n\u00f3s ter\u00edamos\u00a0um sistema cognitivo capaz de\u00a0tal compreens\u00e3o?<\/p>\n<h4>AstroBioLingu\u00edstica e Mem\u00f3ria Cultural<\/h4>\n<p>Os ETs poderiam ter escrita como n\u00f3s, humanos. Mas n\u00e3o podemos esquecer que, ao contr\u00e1rio da fala que surgiu de forma natural, a escrita \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o cultural que mapeia os sons de sua l\u00edngua em um registro f\u00edsico. Isso \u00e9 essencial para a dissemina\u00e7\u00e3o cultural. N\u00e3o precisamos mais de um orador como Homero que lembre de toda a hist\u00f3ria do seu povo e a repasse aos mais jovens. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/03\/28\/quantos-amigos-voce-tem-nas-redes-sociais\/\">Podemos registrar nossas mem\u00f3rias culturais em um ve\u00edculo externo aos pr\u00f3prios indiv\u00edduos<\/a>. Os hept\u00e1podes do filme tinham uma escrita, mas seria ela natural ou um mapeamento para fins de registro?<\/p>\n<h4>Varia\u00e7\u00e3o SocioAstroBioLingu\u00edstica<\/h4>\n<p>Outra quest\u00e3o que certamente seria trazida pelo astrobiolinguista: a comunica\u00e7\u00e3o alien\u00edgena seria vari\u00e1vel como a nossa? Por exemplo, os hept\u00e1podes de A Chegada teriam <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/01\/05\/o-ingles-de-joel-santana-muito-mais-que-um-sotaque\/\">sotaques<\/a>? Teriam dialetos? Teriam l\u00ednguas? Estas l\u00ednguas teriam uma hist\u00f3ria ou seria algo invari\u00e1vel desde que surgiu na esp\u00e9cie? Teriam registros formais para trabalho e informais para falar com sua fam\u00edlia? Nada no filme ou no conto indicam a exist\u00eancia de varia\u00e7\u00e3o, caracter\u00edstica intr\u00ednseca da comunica\u00e7\u00e3o humana. Caso exista varia\u00e7\u00e3o, seria v\u00e1lido dizer que se trata de linguagem?<\/p>\n<p>Al\u00e9m destas quest\u00f5es lingu\u00edsticas, fatores biol\u00f3gicos tamb\u00e9m seriam essenciais para compreendermos a comunica\u00e7\u00e3o alien\u00edgena. N\u00f3s sabemos as caracter\u00edsticas e limita\u00e7\u00f5es do sistema fonador humano, mas quais as caracter\u00edsticas e limita\u00e7\u00f5es dos grunhidos produzidos pelos hept\u00e1podes, mostrados \u00e0 Louise Banks no in\u00edcio do filme?<\/p>\n<h4>Uma [[Gram\u00e1tica Universal] Universal]<\/h4>\n<p>Se pensarmos na evolu\u00e7\u00e3o do sistema nervoso, Suzana Herculano em &#8220;<a href=\"http:\/\/brainsciencepodcast.com\/bsp\/2017\/133-herculano-houzel\">The Human Advantage<\/a>&#8221;\u00a0explica que o mais interessante de estudar c\u00e9rebros \u00e9 observar a\u00a0enorme varia\u00e7\u00e3o. Os c\u00e9rebros das diversas esp\u00e9cies podem variar em tamanho, tamanho do c\u00f3rtex,\u00a0propor\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica, n\u00famero e tamanho dos neur\u00f4nios etc. Ainda mais impressionante \u00e9 que, em meio a tamanha varia\u00e7\u00e3o, sempre existe algo em comum. No caso do c\u00e9rebro \u00e9 o n\u00famero de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Neur\u00f3glia\">c\u00e9lulas gliais<\/a>. Parece existir alguma limita\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou biol\u00f3gica em que, independente do\u00a0n\u00famero e do tamanho do c\u00e9rebro e de seus neur\u00f4nios, o n\u00famero de c\u00e9lulas gliais deve permanecer constante. Provavelmente existiu (e ainda existe) varia\u00e7\u00e3o neste n\u00famero, mas os\u00a0indiv\u00edduos n\u00e3o sobrevivem muito tempo para contar hist\u00f3ria. Como diz a Suzana: &#8220;<em>You don&#8217;t mess with the Glia!<\/em>&#8221;<\/p>\n<p>Num caminho semelhante, uma\u00a0das propostas mais conhecidas na lingu\u00edstica hoje \u00e9 a chamada Gram\u00e1tica Universal, de Noam Chomsky, de certa forma retratada no livro de Louise Banks ao final de A Chegada. Uma vez que\u00a0somos uma mesma esp\u00e9cie e partilhamos tanto\u00a0os sistemas motores da fala quanto os\u00a0sistemas cognitivos, \u00e9 muito prov\u00e1vel que, apesar da enorme varia\u00e7\u00e3o entre as\u00a0l\u00ednguas do mundo, existam caracter\u00edsticas das quais as l\u00ednguas n\u00e3o consigam escapar. A princ\u00edpio e sem ser muito t\u00e9cnico, \u00e9 poss\u00edvel\u00a0falar de estruturas simples como as\u00a0senten\u00e7as de qualquer\u00a0l\u00edngua mapearem os eventos do mundo na forma verbo, sujeito, objeto, apesar da varia\u00e7\u00e3o de ordem. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel falar sobre as limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do sistema fonador humano, apesar de cada\u00a0l\u00edngua do mundo usar um conjunto dos sons poss\u00edveis. Por exemplo, o Portugu\u00eas possui 14 vogais enquanto o franc\u00eas tem mais de 20.<\/p>\n<p>Caso\u00a0seja\u00a0tenhamos contato com uma forma de comunica\u00e7\u00e3o extraterrestre, ela compartilharia\u00a0alguma caracter\u00edstica com a linguagem ou com a comunica\u00e7\u00e3o animal? Ou ser\u00e1 que seria completamente diferente de tudo o que conhecemos?<\/p>\n<h3>8) Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/h3>\n<p>Embora seja especula\u00e7\u00e3o, acredito que no futuro\u00a0a AstroBioLingu\u00edstica ser\u00e1 uma realidade, mesmo que porventura\u00a0seja batizada de outra forma, como a atual\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Astrolinguistics\">Astrolingu\u00edstica<\/a>, que\u00a0estuda formas de enviar mensagens para o espa\u00e7o, na busca por vida inteligente e capaz de decodific\u00e1-las.<\/p>\n<p>O contato com\u00a0esp\u00e9cies alien\u00edgenas \u00e9 quest\u00e3o de tempo e, muito provavelmente, outras formas impressionantes de comunica\u00e7\u00e3o ser\u00e3o encontradas e descritas. Infelizmente eu n\u00e3o estarei aqui para ver este\u00a0importante passo da humanidade. Infelizmente tamb\u00e9m, independente das formas mais incr\u00edveis poss\u00edveis de comunica\u00e7\u00e3o existentes no universo, o Hept\u00e1pode B \u00e9 muito mais exagerado do que a minhas especula\u00e7\u00f5es. Ser\u00e1 ent\u00e3o imposs\u00edvel estudar HBLE (Hept\u00e1pode B L\u00edngua Estrangeira) para poder enxergar o futuro.<\/p>\n<p>Espero que, ao final deste texto, os leitores entendam um pouco mais sobre o que \u00e9 Lingu\u00edstica e, quem sabe, se animem a estudar a ci\u00eancia mais incr\u00edvel e interdisciplinar do planeta Terra. S\u00f3 n\u00e3o me arrisco a dizer que \u00e9 a mais incr\u00edvel do universo pois ainda faltam alguns anos para a AstroBioLingu\u00edstica se tornar realidade.<\/p>\n<p>OBS.:\u00a0<em>Agrade\u00e7o a Josie Siman, Daniel Negrea, Fernando Sabatini e Niasche Moraes e pela ajuda\u00a0e pelos coment\u00e1rios sobre o roteiro.<\/em><\/p>\n<p><iframe title=\"Pint of Science 2017 #Lingu\u00edstica\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KA2To8sUzSE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>v\u00eddeo gravado por Rafael Bento Soares: www.instagram.com\/rafael_rnam<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Observa\u00e7\u00e3o:\u00a0Este post serviu de base para minha fala no\u00a0Pint of Science Campinas 2017, no dia 17 de Maio, no Alzir\u00e3o Emp\u00f3rio\u00a0Bar, Campinas-SP. Se voc\u00ea gosta <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/2017\/05\/13\/comunicacao-animais-humanos-e-ets\/\" title=\"Comunica\u00e7\u00e3o: Animais, Humanos e ETs (Pint of Science)\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":150,"featured_media":710,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[6,20,9,13],"tags":[51,114,50,117,105,120,107,123,109,116,106,113,115,118,15,14,110,121,104,67,125,111,119,124,112,108,122],"class_list":["post-703","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-debates","category-diversidade-linguistica","category-linguagem-e-mente","category-profissao-linguista","tag-a-chegada","tag-animais","tag-arrival","tag-astrobiolinguistica","tag-biolinguistica","tag-computacional","tag-comunicacao","tag-danca-das-abelhas","tag-divulgacao-cientifica","tag-ets","tag-heptapod","tag-historia-da-sua-vida","tag-humanos","tag-insetos","tag-linguagem","tag-linguas","tag-nerdcast","tag-nim-chimpsky","tag-pint-of-science","tag-psicolinguistica","tag-pure-word-deafness","tag-scicast","tag-sociolinguistica","tag-surdez-para-palavras","tag-ted-chiang","tag-variacao","tag-zipf-law"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/05\/502283logograms.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/150"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=703"}],"version-history":[{"count":42,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":801,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/703\/revisions\/801"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media\/710"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/linguistica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}