{"id":196,"date":"2018-04-16T17:42:51","date_gmt":"2018-04-16T20:42:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=196"},"modified":"2019-02-08T10:44:13","modified_gmt":"2019-02-08T12:44:13","slug":"africa-em-debate-no-iel-unicamp-ressignificando-perspectivas-e-caminhos-literarios-por-natasha-magno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/04\/16\/africa-em-debate-no-iel-unicamp-ressignificando-perspectivas-e-caminhos-literarios-por-natasha-magno\/","title":{"rendered":"\u00c1frica em debate no IEL\/Unicamp: ressignificando perspectivas e caminhos liter\u00e1rios, por Natasha Magno"},"content":{"rendered":"<p>As manifesta\u00e7\u00f5es culturais dos pa\u00edses do continente africano ganharam espa\u00e7o e import\u00e2ncia nos estudos liter\u00e1rios ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Reconhecer esse movimento \u00e9 lidar com uma s\u00e9rie de quest\u00f5es hist\u00f3ricas que precisam ser encaradas de frente no mundo todo e, principalmente, no Brasil. No texto de hoje, a pesquisadora Natasha Magno conta como sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica acompanhou suas lutas pessoais, que envolvem entre outras coisas o reconhecimento das literaturas africanas como um campo de estudos. Natasha \u00e9 bacharel em Estudos Liter\u00e1rios pela Unicamp e, ainda pela mesma universidade, finaliza a licenciatura em Letras. Sob uma perspectiva p\u00f3s-colonial, sua pesquisa de mestrado investiga o livro <em>O \u00faltimo voo do flamingo<\/em>, do escritor mo\u00e7ambicano Mia Couto. Em 2010, fundou ainda o GELCA (Grupo de Estudos de Cultura e Literaturas Africanas), no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, dando um passo muito importante para os estudos liter\u00e1rios no Brasil.<\/p>\n<p><strong>\u00c1frica em debate no IEL\/Unicamp: ressignificando perspectivas e caminhos liter\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p><em>Natasha Magno<\/em><\/p>\n<p>Quando pensei de alguma forma poder contribuir para o blog <em>Marca P\u00e1ginas<\/em> e poder compartilhar minhas reflex\u00f5es ao lado de talentosas pesquisadoras, o primeiro sentimento que me tomou foi o desconforto de n\u00e3o saber sobre o que falar num espa\u00e7o como este. E essa lacuna n\u00e3o se sustenta atrav\u00e9s de uma ignor\u00e2ncia pessoal e sim de uma dificuldade de se desenhar uma reflex\u00e3o sem pensar no que me trouxe at\u00e9 aqui. E \u00e9 exatamente esse segundo desconforto que me guiar\u00e1 a expor o motivo pelo qual proponho refletirmos juntos sobre a \u00c1frica em debate no IEL\/Unicamp<em>. <\/em><\/p>\n<p>Imposs\u00edvel falar sobre a minha rela\u00e7\u00e3o com as Literaturas Africanas e a ressignifica\u00e7\u00e3o sobre as suas literaturas nos \u00faltimos 10 anos sem antes conseguir mencionar a minha trajet\u00f3ria pessoal e o motivo pelo qual eu continuo persistindo no ensino e na pesquisa que envolvem os estudos africanos. Em 2010, prestei Estudos Liter\u00e1rios na Unicamp, pois tinha lido um romance africano chamado <em>O ultimo voo do flamingo<\/em>, do escritor Mia Couto, e aquele livro mudou a maneira como eu poderia ver o mundo e a literatura.<\/p>\n<figure id=\"attachment_197\" aria-describedby=\"caption-attachment-197\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-197\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/O-\u00faltimo-voo-do-flamingo-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/O-\u00faltimo-voo-do-flamingo-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/O-\u00faltimo-voo-do-flamingo.jpg 434w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-197\" class=\"wp-caption-text\">Capa de O \u00faltimo voo do flamingo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Lembro-me de pela primeira vez ter percebido que a literatura poderia transformar a sociedade em que vivemos, e foi porque eu li um romance sobre di\u00e1logos entre um mundo nunca antes conhecido e o meu que eu decidi fazer esse curso. Mas o meu entusiasmo se transformou logo em decep\u00e7\u00e3o, ao perceber que nenhum professor do departamento de Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria estudava qualquer autor africano. E o mais triste foi perceber que n\u00e3o s\u00f3 nenhum professor pesquisava diretamente sobre esse assunto, mas que muitos n\u00e3o se interessavam sobre qualquer produ\u00e7\u00e3o que viesse do continente africano.<\/p>\n<p>Em seguida, o meu desconforto se transformou em luta e ao longo desses 7 anos montei o GELCA (Grupo de Estudos de Culturas e Literaturas Africanas) e n\u00e3o abandonei a minha ambi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de pesquisar sobre a literatura africana, e foi atrav\u00e9s de outros ambientes universit\u00e1rios, como a USP e a Universidade do Porto, que pude buscar material suficiente para fortalecer a justificativa de come\u00e7ar a estudar as literaturas africanas dentro do IEL. Em 2016, ap\u00f3s uma luta estudantil \u00e1rdua, conseguimos reivindicar a contrata\u00e7\u00e3o de um docente na \u00e1rea de teoria liter\u00e1ria, que foi destinada \u00e0s literaturas africanas. Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel, pois tivemos docentes aliados que nos ajudaram muito no processo e alunos obstinados a mudarem os rumos dessa hist\u00f3ria. Tais di\u00e1logos e parcerias se fortaleceram ao longo desse tempo e, ap\u00f3s todas essas lutas, debates, ocupa\u00e7\u00f5es e trocas, pude constatar que a aus\u00eancia de pesquisa sobre a \u00c1frica, principalmente dentro de um ambiente universit\u00e1rio, \u00e9 uma postura pol\u00edtica e que reflete muito o modo como a representamos e a vemos.<img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-198 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/Gelca-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/Gelca-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/Gelca-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/Gelca-100x100.jpg 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/04\/Gelca.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>O Brasil, em decorr\u00eancia do processo de escraviza\u00e7\u00e3o de africanos, iniciado no per\u00edodo colonial, tem hoje uma das maiores popula\u00e7\u00f5es negras do mundo. Os elementos africanos est\u00e3o presentes n\u00e3o s\u00f3 na gen\u00e9tica de grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, mas tamb\u00e9m em express\u00f5es sociais, culturais e religiosas, que, ainda hoje, continuam \u00e0 margem do universo acad\u00eamico e, por consequ\u00eancia, s\u00e3o v\u00edtimas de preconceitos. Com o objetivo de reverter esse quadro de marginaliza\u00e7\u00e3o das express\u00f5es africanas e afro-brasileiras, o governo brasileiro aprovou, no dia 9 de janeiro de 2003, a Lei 10.639, que alterou o curr\u00edculo oficial dos Ensinos Fundamental e M\u00e9dio e tornou obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria da \u00c1frica e da hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira. Apesar da iniciativa do governo, nos deparamos com um cen\u00e1rio em que as escolas ainda n\u00e3o est\u00e3o aptas a colocarem essa lei em pr\u00e1tica, pois muitos docentes n\u00e3o tiveram contato com os estudos africanos em sua forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, e at\u00e9 hoje, existem poucas disciplinas que preparam os alunos de licenciatura de fato para trabalharem os conte\u00fados exigidos pela lei em quest\u00e3o. Como trabalhar um autor africano no ensino b\u00e1sico? Como pensar uma perspectiva amer\u00edndia dentro de sala de aula? Tais questionamentos ainda parecem sem resposta n\u00e3o s\u00f3 na Unicamp, mas em muitas universidades do pa\u00eds.\u00a0 Percebe-se que, no decorrer dos anos, somente alternativas paliativas foram criadas, como o oferecimento de disciplinas que dialoguem com as literaturas e culturas africanas, mas nunca algo que atribu\u00edsse uma unicidade e identidade ao conte\u00fado did\u00e1tico.<\/p>\n<p>Pensar e estudar \u00c1frica enquanto fonte de conhecimento hist\u00f3rico, social e liter\u00e1rio h\u00e1 menos de um s\u00e9culo seria impens\u00e1vel. Hoje \u00e9 mandat\u00f3rio. A proposta da minha reflex\u00e3o encontra-se justamente em explicitar as motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e acad\u00eamicas que contribuem para que cada vez mais pesquisadores dediquem-se ao grande campo de estudo das literaturas e culturas africanas e afro-brasileiras \u2013 pensando numa perspectiva educacional, de ensino. A descoberta do continente africano enquanto campo de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento \u00e9 um feito recente na hist\u00f3ria mundial; as primeiras universidades a adotarem a \u00c1frica enquanto disciplina acad\u00eamica o fizeram principalmente ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial \u2013 n\u00e3o por acaso, quando o continente come\u00e7ou a se emancipar de sua \u00faltima coloniza\u00e7\u00e3o, realizada no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Curiosamente, o Brasil n\u00e3o seguiu o fluxo das universidades estadunidenses, europeias e africanas; enquanto a \u00c1frica atingia sua maioridade nos meios intelectuais e universit\u00e1rios externos, as pesquisas brasileiras centravam-se sobre a escravid\u00e3o e seus descendentes em territ\u00f3rio nacional e seu papel na funda\u00e7\u00e3o do <em>brasileiro<\/em>, esquecendo-se da matriz, a \u00c1frica. Se, ap\u00f3s 1500, n\u00e3o conseguimos estudar o Brasil sem dialogar com a Europa, \u00e9 incab\u00edvel que ap\u00f3s quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o negra-africana consigamos ser indiferentes aos acontecimentos africanos: a hist\u00f3ria da \u00c1frica \u00e9 importante para n\u00f3s, brasileiros, porque ajuda a nos explicar. Mas \u00e9 importante tamb\u00e9m por seu valor pr\u00f3prio e porque nos faz melhor compreender o grande continente que fica em nossa fronteira leste e de onde proveio quase a metade de nossos antepassados. N\u00e3o pode continuar o seu estudo afastado de nossos curr\u00edculos, como se fosse mat\u00e9ria ex\u00f3tica ou s\u00f3 campo para a pr\u00f3pria teoria liter\u00e1ria. Ainda que disto n\u00e3o tenhamos consci\u00eancia, o imperador Ngungunhane est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s do que os antigos reis da Fran\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa: dentre as caracter\u00edsticas comuns aos did\u00e1ticos quanto \u00e0 inser\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados sobre a \u00c1frica est\u00e1 a aparente maior preocupa\u00e7\u00e3o em cumprir as exig\u00eancias legais do que uma verdadeira reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da inclus\u00e3o desses temas. Os motivos dessa impress\u00e3o aparecem, pois os cap\u00edtulos ou as se\u00e7\u00f5es relativas a esse conte\u00fado surgem muitas vezes nos livros did\u00e1ticos sem alterarem a l\u00f3gica dos demais processos nele desenvolvidos. No limite, \u00e9 poss\u00edvel supor que diante de um cronograma puxado o docente poderia fazer a op\u00e7\u00e3o de pular os cap\u00edtulos destinados \u00e0 \u00c1frica sem sofrer grandes preju\u00edzos na compreens\u00e3o dos professores dos demais processos tratados. A mesma op\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser feita diante de diversos outros temas, pois s\u00e3o narrados de forma a estarem intrinsecamente relacionados a uma s\u00e9rie de processos transcontinentais.<\/p>\n<p>Diante de tal cen\u00e1rio, sob um ponto de vista pol\u00edtico e educacional, estudar e pensar \u00c1frica na universidade \u00e9 urgente. Contudo, a quest\u00e3o n\u00e3o se encerra a\u00ed. Estudar \u00c1frica, territ\u00f3rio marginal, \u00e9 tamb\u00e9m propor novos meios de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, \u00e9 acreditar que h\u00e1 formas diversas de manifesta\u00e7\u00e3o intelectual e cultural e na inexist\u00eancia de uma hierarquia entre elas. Assim, temos configurada uma segunda raz\u00e3o para estudar-se \u00c1frica no Brasil, t\u00e3o iminente quanto a primeira: precisamos dos Estudos Africanos e P\u00f3s-coloniais para nos descolonizarmos.<\/p>\n<ul>\n<li>Para acompanhar o GELCA no Facebook: @gelcaiel<\/li>\n<li>Blog destinado a divulgar a III Jornada de Teoria Liter\u00e1ria e Estudos Africanos, organizada pelo GELCA e pelo Departamento de Teoria Liter\u00e1ria\/IEL, que acontecer\u00e1 nos dias 25, 26 e 27 de abril: <a href=\"https:\/\/jornadagelca.wordpress.com\">https:\/\/jornadagelca.wordpress.com<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As manifesta\u00e7\u00f5es culturais dos pa\u00edses do continente africano ganharam espa\u00e7o e import\u00e2ncia nos estudos liter\u00e1rios ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Reconhecer esse movimento \u00e9 lidar com uma s\u00e9rie de quest\u00f5es hist\u00f3ricas que precisam ser encaradas de frente no mundo todo e, principalmente, no Brasil. 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