{"id":217,"date":"2018-06-11T10:23:55","date_gmt":"2018-06-11T13:23:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=217"},"modified":"2018-06-11T21:19:14","modified_gmt":"2018-06-12T00:19:14","slug":"vai-ter-racionais-na-universidade-sim-entrevista-com-alan-osmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/06\/11\/vai-ter-racionais-na-universidade-sim-entrevista-com-alan-osmo\/","title":{"rendered":"Vai ter Racionais na universidade sim! Entrevista com Alan Osmo"},"content":{"rendered":"<p>Quem tem acompanhado a imprensa e as redes sociais nas \u00faltimas semanas certamente viu uma novidade que movimentou as discuss\u00f5es na \u00e1rea dos estudos liter\u00e1rios:\u00a0<strong>o \u00e1lbum\u00a0<em>Sobrevivendo no inferno\u00a0<\/em>(1997), do grupo de rap Racionais MC\u2019s, passou a fazer parte do vestibular da Unicamp.<\/strong>\u00a0A inclus\u00e3o desse \u00e1lbum na lista de leituras obrigat\u00f3rias mexe com muitos pressupostos, te\u00f3ricos e sociais, e traz tanto para as escolas, quanto para as universidades, quest\u00f5es que s\u00e3o important\u00edssimas de serem debatidas.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante pensar que o rap tamb\u00e9m vem sendo estudado na academia e, para falar sobre isso, convidei\u00a0<strong>Alan Osmo<\/strong>\u00a0para uma entrevista. Ele gentilmente aceitou o convite e se disp\u00f4s a partilhar conosco aqui no blog seu ponto de vista sobre o assunto. Alan \u00e9 graduado em Psicologia e em Letras pela USP e \u00e9 mestre em Psicologia, tamb\u00e9m pela USP. Atualmente, faz doutorado no programa de Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria do IEL-Unicamp, com a pesquisa\u00a0<strong>\u201cA literatura tomada de assalto: testemunho e resist\u00eancia em produ\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas de S\u00e3o Paulo\u201d<\/strong>, sob orienta\u00e7\u00e3o do Prof. M\u00e1rcio Seligmann-Silva.<\/p>\n<p><strong>Marca P\u00e1ginas:<\/strong>\u00a0A Comvest, comiss\u00e3o que organiza o vestibular da Unicamp, anunciou recentemente a inclus\u00e3o do \u00e1lbum\u00a0<em>Sobrevivendo no inferno<\/em>\u00a0na lista de leituras obrigat\u00f3rias do vestibular 2020. Essa atitude abre precedentes para uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as, como a ruptura de certas barreiras sociais que isolariam o rap nas periferias, o qual passa a ser acolhido em ambientes escolares e acad\u00eamicos historicamente ocupados pelas classes m\u00e9dia e alta. Que tipo de impacto voc\u00ea acredita que uma a\u00e7\u00e3o como essa pode ter na nossa sociedade?<\/p>\n<p><strong>Alan Osmo:<\/strong>\u00a0Acho importante destacar que o rap, assim como o funk, \u00e9 bastante ouvido em diversas classes sociais, n\u00e3o ficando, portanto, restrito apenas \u00e0s periferias. No caso especificamente do Racionais MC\u2019s, \u00e9 bastante curioso que, mesmo entre os \u201cplayboys\u201d (que s\u00e3o tematizados em diversas can\u00e7\u00f5es), h\u00e1 tamb\u00e9m muitos f\u00e3s do grupo.\u00a0<strong>Acredito que o rap e o Racionais n\u00e3o estejam isolados na periferia, pois j\u00e1 possuem uma grande circula\u00e7\u00e3o social.<\/strong>\u00a0Mas \u00e9 claro que, pelo fato de se tratar de produ\u00e7\u00f5es que v\u00eam das periferias e, mais importante, de vozes que afirmam uma identidade negra e perif\u00e9rica, elas s\u00e3o vistas por parcela da sociedade, principalmente das elites, com uma s\u00e9rie de preconceitos. Nesse sentido, cabe destacar que\u00a0<strong>os ambientes escolares e acad\u00eamicos no Brasil historicamente foram bastante fechados a produ\u00e7\u00f5es de cultura popular, principalmente \u00e0quelas de matrizes afro-brasileira e ind\u00edgena<\/strong>. Ao levarmos em conta que o Brasil era at\u00e9 poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s um pa\u00eds predominantemente analfabeto, aquilo que era considerado literatura nos ambientes escolares e acad\u00eamicos, com raras exce\u00e7\u00f5es, se restringia ao que era produzido por pessoas que tinham certa circula\u00e7\u00e3o dentro de uma elite branca das grandes cidades, que tinham contato com o que estava sendo produzido na Europa no campo das artes e da literatura. Desse modo, a vis\u00e3o da literatura tamb\u00e9m passou de alguma forma a ser marcada e valorizada pelos padr\u00f5es que eram definidos na Europa. Enquanto isso, no Brasil, toda uma tradi\u00e7\u00e3o riqu\u00edssima de cultura popular, que se manifestava sobretudo na m\u00fasica e na dan\u00e7a, era desvalorizada como n\u00e3o sendo um objeto digno de ser estudado nas escolas e universidades. Acredito que essa escolha do disco do Racionais \u00e9 uma iniciativa (ainda t\u00edmida, \u00e9 verdade) no sentido de\u00a0<strong>tornar aquilo que \u00e9 estudado nas escolas e universidades um pouco mais representativo da diversidade brasileira e da complexidade de nossa realidade social<\/strong>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_218\" aria-describedby=\"caption-attachment-218\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-218\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Mano-Brown--300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Mano-Brown--300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Mano-Brown--150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Mano-Brown--100x100.jpg 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Mano-Brown-.jpg 598w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-218\" class=\"wp-caption-text\">Mano Brown, compositor e cantor do Racionais MC&#8217;s. Fonte: Instagram.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Marca P\u00e1ginas:<\/strong>\u00a0Ainda sobre a decis\u00e3o da Comvest, vimos que muita gente questionou a credibilidade dessa inclus\u00e3o, seja pela tem\u00e1tica, que desagrada um p\u00fablico mais conservador, seja pela forma, j\u00e1 que m\u00fasica pode n\u00e3o ser vista como literatura de acordo com certa cr\u00edtica tradicional. Na sua opini\u00e3o, a presen\u00e7a desse \u00e1lbum na lista de leituras obrigat\u00f3rias abala as discuss\u00f5es dentro da academia? De que maneira o rap tem sido recebido e pesquisado nas universidades brasileiras?<\/p>\n<p><strong>Alan Osmo:\u00a0<\/strong>\u00c9 importante n\u00e3o deixarmos de ter um ponto de vista cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao vestibular \u2013 \u00e0 forma como ele determina aquilo que \u00e9 estudado nas escolas, e ao fato de ele funcionar como um filtro social de quem vai estudar nas universidades p\u00fablicas. Nesse sentido, a inclus\u00e3o de uma obra que traz uma voz que representa uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o costuma ser abarcada sob aquilo que se legitima como \u201cliteratura\u201d \u00e9 ainda uma mudan\u00e7a t\u00edmida. \u00c9 importante considerarmos tamb\u00e9m\u00a0<strong>o novo contexto das universidades p\u00fablicas, com as cotas sociais e raciais<\/strong>. Os alunos das universidades p\u00fablicas agora representam um pouco mais a diversidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Al\u00e9m disso, uma parcela de jovens que historicamente se viu privada de cursar o ensino superior passou a estudar em locais que antes eram quase que restritos a pessoas brancas de classe m\u00e9dia e alta.\u00a0<strong>Com uma mudan\u00e7a do perfil dos alunos das universidades p\u00fablicas, acho compreens\u00edvel o questionamento daquilo que \u00e9 estudado e pesquisado nessas universidades<\/strong>. No caso de um curso de Letras ou Estudos Liter\u00e1rios: por que se estudam t\u00e3o poucos autores africanos, autores negros, autores ind\u00edgenas? Na minha opini\u00e3o, as cr\u00edticas que s\u00e3o feitas sobre a inclus\u00e3o da obra do Racionais na lista do vestibular, seja usando o argumento da tem\u00e1tica das can\u00e7\u00f5es, seja usando o argumento de que se trata de m\u00fasica e n\u00e3o de literatura, partem de um ponto de vista conservador. Ora,\u00a0<strong>a tem\u00e1tica do disco do Racionais \u00e9 sobretudo a viol\u00eancia da sociedade brasileira na d\u00e9cada de 1990, o cotidiano vivido na periferia de uma grande cidade no Brasil, as terr\u00edveis desigualdades que geram verdadeiros abismos entre parcelas da popula\u00e7\u00e3o, o racismo e a viol\u00eancia policial voltados principalmente a jovens negros da periferia<\/strong>. Se essa tem\u00e1tica choca, \u00e9 porque nossa realidade social \u00e9 chocante. Querer ignorar esses temas, estudando apenas autores que abordam outros assuntos, \u00e9 tamb\u00e9m querer ignorar algo que marca profundamente a realidade social em que vivemos. E \u00e9 importante destacar que\u00a0<strong>a obra do Racionais aborda esses temas partindo do ponto de vista do negro morador da periferia, um ponto de vista que costuma ser bastante ignorado e silenciado por aquilo que tradicionalmente se considera \u201cliteratura\u201d<\/strong>. Tamb\u00e9m considero conservador o ponto de vista que v\u00ea uma divis\u00e3o n\u00edtida entre m\u00fasica e literatura, de modo que uma can\u00e7\u00e3o n\u00e3o possa ser vista como uma poesia. Se pegarmos a distin\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros estabelecida na Gr\u00e9cia Antiga entre a poesia l\u00edrica, \u00e9pica e dram\u00e1tica, a poesia l\u00edrica era aquela que era cantada e acompanhada de instrumentos musicais (o nome l\u00edrica vem do fato de ela ser acompanhada pela lira). Mesmo se pegarmos do ponto de vista de uma hist\u00f3ria da literatura mais tradicional, diversos poemas foram inicialmente feitos para ser musicados, ou ent\u00e3o foram musicados em um per\u00edodo posterior.\u00a0<strong>Pelo fato de um poema ser acompanhado de m\u00fasica, ele deixa de ser literatura?<\/strong>\u00a0No Brasil, h\u00e1 toda uma tradi\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00e3o popular que \u00e9 riqu\u00edssima do ponto de vista po\u00e9tico e acredito ser uma grande perda para a \u00e1rea dos estudos liter\u00e1rios ignor\u00e1-la. No caso do rap, \u00e9 interessante destacar tamb\u00e9m que as letras que comp\u00f5em o nome rap s\u00e3o frequentemente associadas a\u00a0<em>rhythm and poetry<\/em>\u00a0\u2013 ritmo e poesia. \u00c9 caracter\u00edstico desse g\u00eanero o destaque para aquilo que \u00e9 falado, de modo a se enfatizar a parte po\u00e9tica da can\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o\u00a0rap j\u00e1 vem sendo objeto de diversas pesquisas acad\u00eamicas no Brasil (principalmente em mestrados e doutorados) em distintas \u00e1reas do conhecimento: ci\u00eancias sociais, geografia, educa\u00e7\u00e3o, can\u00e7\u00e3o brasileira, estudos liter\u00e1rios, lingu\u00edstica aplicada\u2026 Ainda assim,\u00a0<strong>\u00e9 bastante frequente uma certa resist\u00eancia para se estudar o rap na \u00e1rea de estudos liter\u00e1rios. Dificilmente \u00e9 um assunto que vai ser abordado num curso de literatura brasileira, por exemplo.<\/strong>\u00a0Tor\u00e7amos para que essa inclus\u00e3o da obra do Racionais na lista do vestibular da Unicamp contribua para mudar um pouco isso.<\/p>\n<p><strong>Marca P\u00e1ginas:<\/strong>\u00a0\u201cCap\u00edtulo 4 Vers\u00edculo 3\u201d escancara a realidade das periferias da cidade de S\u00e3o Paulo: \u201c60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais \/ J\u00e1 sofreram viol\u00eancia policial\u201d. Depois de mais de 20 anos do lan\u00e7amento do \u00e1lbum, de que maneira voc\u00ea acha poss\u00edvel falar sobre esse assunto? Em sua pesquisa de doutorado, como voc\u00ea aborda a quest\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o dessa realidade?<\/p>\n<p><strong>Alan Osmo:\u00a0<\/strong>A forma como esses e os outros dados s\u00e3o apresentados no in\u00edcio da can\u00e7\u00e3o \u201cCap\u00edtulo 4 Vers\u00edculo 3\u201d \u00e9 muito interessante. S\u00e3o dados reais, objetivos, que poderiam estar sendo apresentados em um jornal ou na televis\u00e3o. Al\u00e9m disso, s\u00e3o dados escandalosos que escancaram a viol\u00eancia e o racismo que caracterizam nossa sociedade. Mas o curioso \u00e9 que\u00a0<strong>esses dados n\u00e3o t\u00eam repercuss\u00e3o, ou n\u00e3o repercutem da forma como deveriam, isto \u00e9, na grande m\u00eddia e na elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas pelo governo<\/strong>. O racismo continua sendo negado por parcela da sociedade que acredita no mito da \u201cdemocracia racial\u201d e a viol\u00eancia segue sendo vista de forma simplista, como se fosse um problema de bandidos versus mocinhos. \u00c9 impressionante tamb\u00e9m que esses dados apresentados na can\u00e7\u00e3o desse disco de 1998 seguem extremamente atuais, mesmo 20 anos depois:\u00a0<strong>essas estat\u00edsticas mudaram muito pouco, ou inclusive pioraram<\/strong>. Seguimos com uma taxa elevad\u00edssima de homic\u00eddios, principalmente de jovens negros. Seguimos com abordagens policiais violentas nas periferias, tendo como alvo sobretudo jovens negros, de modo que ao ouvirmos isso na can\u00e7\u00e3o, hoje, somos lembrados de que essa realidade pouco mudou.\u00a0<strong>\u00c9 como se o Racionais, na can\u00e7\u00e3o, jogasse na cara como nossa sociedade \u00e9 hip\u00f3crita e segue ignorando esse problema, ou ao menos segue n\u00e3o sendo efetiva para mudar essa realidade de injusti\u00e7a<\/strong>. Nesse sentido, cabe destacar que a can\u00e7\u00e3o do Racionais se insere em um contexto de luta pol\u00edtica, sendo\u00a0<strong>a m\u00fasica tamb\u00e9m vista como um instrumento de transforma\u00e7\u00e3o social<\/strong>. Por meio do rap, s\u00e3o denunciadas injusti\u00e7as e s\u00e3o reivindicadas mudan\u00e7as. Por isso eu me interessei pelo Racionais, para\u00a0<strong>pensar a viol\u00eancia no Brasil no per\u00edodo que se inicia na democratiza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-ditadura militar e segue at\u00e9 hoje<\/strong>. As d\u00e9cadas de 1980 e 1990, sobretudo, podem ser caracterizadas por um contexto de crescimento das desigualdades sociais; crescimento desordenado das grandes cidades, com condi\u00e7\u00f5es de moradia prec\u00e1rias, falta de saneamento e uma quase aus\u00eancia de servi\u00e7os p\u00fablicos; a consolida\u00e7\u00e3o de um mercado ilegal altamente lucrativo das drogas; e uma pol\u00edtica sem sentido por parte do Estado de guerra \u00e0s drogas. Nesse contexto, houve um grande crescimento dos \u00edndices de homic\u00eddio. \u00c9 poss\u00edvel pensar tamb\u00e9m que, apesar de a ditadura militar oficialmente ter acabado em 1985, o aparato repressor continuou muito forte e presente, agindo sobretudo na popula\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica. Acredito que o Racionais, em suas can\u00e7\u00f5es, fala de forma eloquente sobre esse contexto. O primeiro disco do grupo, lan\u00e7ado em 1990, chama-se <em>Holocausto urbano<\/em>. Ou seja, logo de in\u00edcio eles se propuseram a falar sobre um verdadeiro exterm\u00ednio que atinge parcela da popula\u00e7\u00e3o nas grandes cidades. \u00c9 importante destacar que essa viol\u00eancia atinge de forma extremamente desigual a sociedade. Na cidade de S\u00e3o Paulo da d\u00e9cada de 1990, por exemplo, enquanto havia bairros com \u00edndices de homic\u00eddio compar\u00e1veis aos dos pa\u00edses da Escandin\u00e1via, ou seja, baix\u00edssimos, em outros bairros os \u00edndices eram compar\u00e1veis \u00e0s regi\u00f5es mais violentas do mundo.\u00a0<strong>Acredito que as can\u00e7\u00f5es do Racionais testemunham sobre essa realidade de viol\u00eancia, fazendo isso a partir de um ponto de vista do jovem negro da periferia<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Marca P\u00e1ginas:<\/strong>\u00a0Por \u00faltimo, podemos dizer que a lista de leituras para vestibulares \u00e9 uma grande influenciadora do que os jovens brasileiros leem. Em geral, o movimento \u00e9 que uma obra seja cobrada pelos vestibulares e que, a partir disso, passe a integrar os materiais did\u00e1ticos e a terem sua leitura cobrada em sala de aula. No caso do \u00e1lbum do Racionais MC\u2019s, por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel que presenciemos, pela primeira vez, o caminho inverso; isto \u00e9, muitos jovens possivelmente j\u00e1 escutam e gostam da obra, independentemente da obrigatoriedade escolar. De que maneira voc\u00ea acredita que esse movimento inverso pode desempenhar um papel diferencial na forma\u00e7\u00e3o desses jovens? Se pensarmos na representatividade que o rap carrega consigo, voc\u00ea acha que os jovens podem sentir sua realidade contemplada pelos conte\u00fados escolares e, consequentemente, pelo pr\u00f3prio vestibular?<\/p>\n<figure id=\"attachment_219\" aria-describedby=\"caption-attachment-219\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-219\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Capa-do-\u00e1lbum-Sobrevivendo-no-Inferno-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Capa-do-\u00e1lbum-Sobrevivendo-no-Inferno-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Capa-do-\u00e1lbum-Sobrevivendo-no-Inferno-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Capa-do-\u00e1lbum-Sobrevivendo-no-Inferno-100x100.jpg 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Capa-do-\u00e1lbum-Sobrevivendo-no-Inferno.jpg 441w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-219\" class=\"wp-caption-text\">Capa do \u00e1lbum Sobrevivendo no Inferno<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Alan Osmo:\u00a0<\/strong>Eu concordo bastante com sua coloca\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>\u00c9 muito frequente que a \u201cliteratura\u201d ensinada nas escolas seja vista pelos jovens como algo distante e descolado de sua realidade<\/strong>. Desse modo, pode ser dif\u00edcil se interessar por algo que diga pouco a respeito da realidade em que voc\u00ea vive, que fale de personagens com os quais voc\u00ea n\u00e3o se identifica, enfim, que fale de um contexto que se distancie muito, seja temporalmente, seja espacialmente daquele em que voc\u00ea se insere. Como consequ\u00eancia,\u00a0<strong>a \u201cliteratura\u201d pode acabar sendo vista como uma coisa chata e dif\u00edcil<\/strong>. Pelo fato de muitos jovens j\u00e1 conhecerem e se interessarem pelo Racionais MC\u2019s, \u00e9 poss\u00edvel que seja um assunto mais f\u00e1cil de ser abordado em sala de aula. Al\u00e9m disso,\u00a0<strong>esses jovens podem se surpreender com o fato de que aquilo que \u00e9 falado nas can\u00e7\u00f5es que eles gostam tamb\u00e9m pode ser considerado \u201cliteratura\u201d e que, portanto, a \u201cliteratura\u201d pode ser interessante e dizer respeito a algo pr\u00f3ximo da realidade em que vivem<\/strong>. Al\u00e9m disso, h\u00e1, nas can\u00e7\u00f5es, o ponto de vista do negro morador da periferia que dificilmente aparece em obras que se costumam estudar nas salas de aula. Isso pode propiciar\u00a0<strong>que os jovens se identifiquem com os personagens de que falam as can\u00e7\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Marca P\u00e1ginas:<\/strong>\u00a0Antes de terminar, voc\u00ea gostaria de acrescentar mais alguma informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Alan Osmo:\u00a0<\/strong>Eu gostaria apenas de destacar\u00a0<strong>a import\u00e2ncia da can\u00e7\u00e3o \u201cDi\u00e1rio de um detento\u201d,<\/strong>\u00a0presente no disco <em>Sobrevivendo no inferno<\/em>, ainda mais em nosso contexto de hoje. De 1998 para c\u00e1, a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no Brasil aumentou de forma significativa, de modo que hoje o Brasil possui uma das maiores popula\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias do mundo. A can\u00e7\u00e3o \u201cDi\u00e1rio de um detento\u201d tem muita import\u00e2ncia por falar da realidade de um pres\u00eddio a partir do ponto de vista de um detento. Al\u00e9m disso, a can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das mais importantes produ\u00e7\u00f5es feitas sobre o Massacre do Carandiru, de 1992, em que pelo menos 111 presos foram brutalmente assassinados pela pol\u00edcia militar. J\u00e1 se passaram mais de 25 anos desse fato, mas ele segue sendo uma ferida aberta em nossa sociedade. No in\u00edcio de 2017, vimos novos massacres em diversos pres\u00eddios no Brasil, em que pelo menos 133 pessoas foram mortas em 15 dias. Recentemente, no final de 2016, o julgamento que havia condenado os policiais militares envolvidos no Massacre do Carandiru foi anulado. Depois dessa decis\u00e3o, o caso vai voltar para o tribunal do j\u00fari, para ser julgado novamente desde o in\u00edcio.\u00a0<strong>Caso crimes como o do Massacre do Carandiru n\u00e3o sejam julgados, tendo seus fatos esclarecidos e punindo os respons\u00e1veis, podemos sempre recear que crimes parecidos voltem a acontecer<\/strong>. A pergunta feita no final da can\u00e7\u00e3o do Racionais \u2013 \u201cMas quem vai acreditar no meu depoimento?\u201d \u2013 continua em aberto, lembrando que os sobreviventes e familiares das v\u00edtimas do Massacre do Carandiru ainda n\u00e3o tiveram o devido reconhecimento e repara\u00e7\u00e3o pelo crime que ocorreu.<\/p>\n<ul>\n<li>Para ouvir o \u00e1lbum\u00a0<em>Sobrevivendo no inferno<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/WZcFdjPZw18\">https:\/\/youtu.be\/WZcFdjPZw18<\/a><\/li>\n<li>Para acessar a lista de leituras obrigat\u00f3rias do Vestibular Unicamp 2020:\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.comvest.unicamp.br\/comvest-divulga-lista-de-leituras-obrigatorias-para-o-vestibular-2020\/\">https:\/\/www.comvest.unicamp.br\/comvest-divulga-lista-de-leituras-obrigatorias-para-o-vestibular-2020\/<\/a><\/li>\n<li>Para saber mais sobre vestibular e representatividade social:\u00a0<a style=\"font-size: 1rem\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/diversidade\/muito-alem-de-racionais-importancia-da-diversidade-no-vestibular\">https:\/\/www.cartacapital.com.br\/diversidade\/muito-alem-de-racionais-importancia-da-diversidade-no-vestibular<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem tem acompanhado a imprensa e as redes sociais nas \u00faltimas semanas certamente viu uma novidade que movimentou as discuss\u00f5es na \u00e1rea dos estudos liter\u00e1rios:\u00a0o \u00e1lbum\u00a0Sobrevivendo no inferno\u00a0(1997), do grupo de rap Racionais MC\u2019s, passou a fazer parte do vestibular da Unicamp.\u00a0A inclus\u00e3o desse \u00e1lbum na lista de leituras obrigat\u00f3rias mexe com muitos pressupostos, te\u00f3ricos &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/06\/11\/vai-ter-racionais-na-universidade-sim-entrevista-com-alan-osmo\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Vai ter Racionais na universidade sim! 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