{"id":225,"date":"2018-06-26T18:29:12","date_gmt":"2018-06-26T21:29:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=225"},"modified":"2018-06-26T19:47:59","modified_gmt":"2018-06-26T22:47:59","slug":"resistir-e-preciso-as-literaturas-e-as-ditaduras-por-lua-gill","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/06\/26\/resistir-e-preciso-as-literaturas-e-as-ditaduras-por-lua-gill\/","title":{"rendered":"Resistir \u00e9 preciso: a(s) literatura(s) e a(s) ditadura(s), por Lua Gill"},"content":{"rendered":"<p><strong>Resistir \u00e9 preciso: a(s) literatura(s) e a(s) ditadura(s), por Lua Gill <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi a primeira vez que a Cl\u00e1udia, idealizadora\/editora\/cuidadora desse blog, t\u00e3o bonito, e entusiasta da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos estudos liter\u00e1rios, me convidou para escrever aqui. Devo come\u00e7ar dizendo que, a partir de certo momento da minha vida acad\u00eamica, passei a me sentir cada vez mais formatada para um tipo \u00fanico e padronizado de escrita e, com medo e me sentindo insegura, neguei tentar qualquer outra estrutura. \u00c9 nesse contexto que me desafio para essa tarefa \u2013 ainda que entenda as minhas limita\u00e7\u00f5es diante dela. Por outro lado, o convite da Cl\u00e1udia me pareceu dessa vez irrecus\u00e1vel: contar a minha participa\u00e7\u00e3o em um evento acad\u00eamico sobre literatura, a <em>III Jornada de Cr\u00edtica Liter\u00e1ria: Literatura e Ditaduras,<\/em> ocorrido na Universidade de Bras\u00edlia (UnB) nos dias 4 e 5 de junho de 2018.<\/p>\n<p>N\u00e3o teria como falar desse evento sem olhar rapidamente para o presente brasileiro, em que as resson\u00e2ncias e as consequ\u00eancias do recente passado autorit\u00e1rio parecem cada vez mais fortes. Nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, a Am\u00e9rica Latina foi tomada por diversos regimes militares. As estrutura\u00e7\u00f5es e as formas de atua\u00e7\u00e3o foram diferentes em cada pa\u00eds, bem como as respectivas transi\u00e7\u00f5es para a democracia. No caso do Brasil<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, que viveu sob uma ditadura militar de 1964 a 1985, pouco se discutiu e se acolheu das reivindica\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria e de justi\u00e7a desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Nunca levaram os torturadores \u00e0 Justi\u00e7a, por exemplo. N\u00e3o se desmilitarizou a pol\u00edcia. As fam\u00edlias n\u00e3o foram efetivamente reparadas pelos mortos, torturados e desaparecidos at\u00e9 hoje. N\u00e3o se debateu ampla e publicamente o que aconteceu nos 21 anos de ditadura \u2013 mesmo quando t\u00ednhamos uma presidenta que era ex-guerrilheira ou mesmo depois da abertura de uma Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> para averiguar o que havia acontecido naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>J\u00e1 hoje, o sentimento geral \u00e9 de ang\u00fastia e de paralisia diante da pol\u00edtica. H\u00e1 dois anos, a primeira presidenta mulher eleita do Brasil sofreu um <em>impeachment<\/em>. Durante este processo, vimos um pr\u00e9-candidato \u00e0 presid\u00eancia homenagear, em televis\u00e3o aberta, um reconhecido torturador da ditadura militar brasileira. Desde ent\u00e3o, nos sentimos atacados por todos os lados e vemos nossos direitos mais b\u00e1sicos serem amea\u00e7ados. Foi aprovada uma PEC que congelou os gastos p\u00fablicos (inclusive de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, por exemplo) por vinte anos e sofremos ataques complicad\u00edssimos \u00e0 cultura, aos direitos trabalhistas e das mulheres, de LGBTs, e de negros e negras. H\u00e1 alguns meses, na cidade do Rio de Janeiro, foi decretada uma nova interven\u00e7\u00e3o militar e foi nesta mesma cidade que a quinta vereadora mais votada do munic\u00edpio, Marielle Franco, defensora dos direitos humanos, foi brutalmente assassinada, junto de seu motorista, Anderson Gomes. Por fim, recentemente, durante uma das maiores greves dos \u00faltimos anos, vimos pedidos expl\u00edcitos e irrespons\u00e1veis de \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d, que come\u00e7aram a pipocar pelo Brasil todo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_226\" aria-describedby=\"caption-attachment-226\" style=\"width: 219px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-226\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Banner-Unb-219x300.jpg\" alt=\"\" width=\"219\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Banner-Unb-219x300.jpg 219w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Banner-Unb.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 219px) 100vw, 219px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-226\" class=\"wp-caption-text\">Foto por Lua Gill.<\/figcaption><\/figure>\n<p>E o que tudo isso tem a ver com o evento que assisti em Bras\u00edlia? Ou como se relaciona com esse blog? A jornada da UnB teve como objetivo principal debater exatamente como a literatura tem pensado e refletido sobre as ditaduras, especialmente as da Am\u00e9rica Latina e, principalmente, a do Brasil. E por que \u201cvoltamos\u201d a debater isso, d\u00e9cadas depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses? Por tudo que tem acontecido atualmente, mas tamb\u00e9m porque, ao contr\u00e1rio do que alguns querem nos fazer acreditar, a literatura e a cr\u00edtica liter\u00e1ria n\u00e3o s\u00e3o isentas, imparciais, mas podem e devem nos fazer tomar partido, nos posicionar.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falamos das flores, a ascens\u00e3o do conservadorismo, antes e agora, n\u00e3o veio sem resist\u00eancia, inclusive no campo da cr\u00edtica liter\u00e1ria atual, sobre a qual quero discutir aqui. Desde que comecei a pesquisar sobre as rela\u00e7\u00f5es entre literatura e ditadura, em 2013, o tema vem crescendo, se expandindo, ainda mais nos \u00faltimos dois anos (o que, evidentemente, n\u00e3o se d\u00e1 por acaso): autores e cr\u00edticos liter\u00e1rios t\u00eam se debru\u00e7ado sobre esse assunto na medida em que tentam tamb\u00e9m entender e atuar no presente. As produ\u00e7\u00f5es e as cr\u00edticas art\u00edsticas t\u00eam debatido o apagamento hist\u00f3rico, apontando para a necessidade de uma pol\u00edtica de mem\u00f3ria e dando voz \u00e0queles que n\u00e3o tiveram o seu testemunho ouvido.<\/p>\n<p>O evento em Bras\u00edlia foi um exemplo grandioso dessa aten\u00e7\u00e3o. O local escolhido para a realiza\u00e7\u00e3o da jornada, isto \u00e9, a UnB, por si s\u00f3 j\u00e1 diz bastante. Nessa universidade, professores e alunos resistiram amplamente durante o regime militar. T\u00e3o perto da Esplanada dos Minist\u00e9rios e do Pal\u00e1cio do Planalto, hoje ela se abre novamente para novas formas de resist\u00eancia da cr\u00edtica liter\u00e1ria, especialmente gra\u00e7as ao Grupo de Estudos em Literatura Contempor\u00e2nea Brasileira \u2013 refer\u00eancia nessa tem\u00e1tica para o Brasil inteiro \u2013, da UnB, por meio dos professores Regina Dalcastagn\u00e8, Rejane Pivetta e Paulo C\u00e9sar Thomaz. N\u00e3o por acaso, o primeiro curso sobre o Golpe de 2016 foi proposto e houve tentativa de censura na mesma universidade. Por tudo isso, foi, para mim, um privil\u00e9gio ter a oportunidade de estar com pesquisadores, escritores e professores extremamente reconhecidos e competentes em seus trabalhos, ver e ouvir pessoas que li, dar rosto a quem sa\u00eda apenas das palavras impressas, al\u00e9m de ter a possibilidade de realizar uma troca efetiva sobre o meu tema de pesquisa (o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum para a maioria das pesquisas de estudos liter\u00e1rios feitas em nosso pa\u00eds).<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio evento, na sua organiza\u00e7\u00e3o, se estruturou de forma extremamente democr\u00e1tica, destacando-se de outros eventos dos quais j\u00e1 participei. Estiveram lado a lado, nas falas, nas mesas e na organiza\u00e7\u00e3o, pesquisadores e professores da \u00e1rea, estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e autores de romance e poesia, muitos deles testemunhas vivas do tempo da ditadura. Outra coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a presen\u00e7a massiva, nas mesas, de mulheres, as quais totalizaram mais de 70%, o que tamb\u00e9m n\u00e3o costuma ser comum em eventos desse tipo.<\/p>\n<p>\u00c9 muito recorrente ouvirmos pessoas justificarem a ditadura brasileira dizendo que a persegui\u00e7\u00e3o atingiu apenas um grupo de pessoas: uma certa classe m\u00e9dia, branca, intelectual, do sudeste do Brasil, \u201ccomunista e terrorista\u201d, como se isso o justificasse. Se, por um lado, o n\u00famero de mortos da CNV mant\u00e9m esse dado, tal defini\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante redutora e problem\u00e1tica. Devemos lembrar, como mostraram as falas no evento, que o regime militar afetou o Brasil como um todo e principalmente grupos minorit\u00e1rios, subjugados politicamente (h\u00e1 um c\u00e1lculo de algo como 8 mil ind\u00edgenas mortos durante a ditadura e mil camponeses, para al\u00e9m do n\u00famero de 434 mortos, apresentado e mantido pela CNV). Durante as falas, pude ouvir outras perspectivas e testemunhos desse tempo, a exemplo de Sonia Bischain, uma das fundadoras do Sarau da Brasa, a qual relatou o contexto de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e resist\u00eancia na periferia paulista durante o regime; a pesquisadora e poeta negra L\u00edvia Nathalia, que apresentou a produ\u00e7\u00e3o negra contempor\u00e2nea e denunciou o genoc\u00eddio da juventude negra de ontem e de hoje; a escritora ind\u00edgena Eliane Potiguara, que demonstrou o hist\u00f3rico de escraviza\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o das diversas etnias ind\u00edgenas e o esfor\u00e7o pela manuten\u00e7\u00e3o da cultura e da l\u00edngua; a apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cO fuzil e as flechas\u201d, no qual o jornalista Rubens Valente recupera mais um cap\u00edtulo apagado da hist\u00f3ria da ditadura civil-militar brasileira e analisa mais de 80 entrevistas de ind\u00edgenas, sertanistas, indigenistas e antrop\u00f3logos; ou ainda a apresenta\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-graduanda Leoc\u00e1dia Chaves, sobre<a href=\"http:\/\/gelbcunb.blogspot.com\/2018\/06\/autobiografias-trans-em-contexto-de.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> o testemunho do per\u00edodo ditatorial de uma transexual<\/a>, Ruddy Pinho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas novas e extremamente ricas perspectivas para o debate contempor\u00e2neo de recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, guardarei com carinho tr\u00eas outras falas: Maria Pilla, autora de <em>Volto semana que vem <\/em>(2015); Maria Jos\u00e9 Silveira, autora de <em>O fantasma de Luis Bu\u00f1uel <\/em>(2004) e <em>A m\u00e3e da m\u00e3e de sua m\u00e3e e suas filhas <\/em>(2002); e Pedro Tierra, autor de <em>Poemas do povo da noite <\/em>(1979). Todos eles s\u00e3o escritores e ex-guerrilheiros. Os seus testemunhos sobre as persegui\u00e7\u00f5es, a clandestinidade e as torturas que sofreram, e o processo posterior de elabora\u00e7\u00e3o e de testemunho, atrav\u00e9s da literatura, foram emocionantes e serviram de inspira\u00e7\u00e3o, principalmente para mim (e imagino que para grande parte do p\u00fablico presente) que n\u00e3o teve que lutar para ter seus direitos mais b\u00e1sicos garantidos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_227\" aria-describedby=\"caption-attachment-227\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-227\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Program\u00e7\u00e3o-Unb-1-300x202.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"202\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Program\u00e7\u00e3o-Unb-1-300x202.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Program\u00e7\u00e3o-Unb-1-768x518.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/06\/Program\u00e7\u00e3o-Unb-1.jpg 839w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-227\" class=\"wp-caption-text\">Programa\u00e7\u00e3o do evento Literatura e Ditaduras.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois dessa experi\u00eancia, convido os leitores a acompanharem as produ\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o desses pesquisadores e autores citados, inclusive por meio das <a href=\"http:\/\/plataforma9.com\/congressos\/iii-jornada-de-critica-literaria-literatura-e-ditaduras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">falas desse evento<\/a>, que devem ser publicadas em breve. Hoje, mais do que nunca, precisamos refor\u00e7ar a defesa da Universidade p\u00fablica, do investimento \u00e0 pesquisa (tamb\u00e9m de cr\u00edtica liter\u00e1ria), da autonomia universit\u00e1ria e da liberdade de express\u00e3o. Os atos de debater com nossos amigos, colegas, irmos a eventos, fazermos as nossas pesquisas s\u00e3o essenciais nesse contexto. Hoje, nosso trabalho tamb\u00e9m se d\u00e1 como uma forma de resistirmos. Isso n\u00e3o \u00e9 pouco. N\u00e3o \u00e9 hora de omiss\u00f5es. Como no passado, as futuras gera\u00e7\u00f5es dependem disso e do nosso compromisso com a mem\u00f3ria e com a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Da minha parte, fica o agradecimento \u00e0 UnB e aos professores organizadores, pela acolhida, pela aten\u00e7\u00e3o ao tema e pela organiza\u00e7\u00e3o de um evento t\u00e3o importante para o debate atual, pol\u00edtico e liter\u00e1rio. Senti, ao fim dos dois dias, um sopro de esperan\u00e7a diante das ang\u00fastias sentidas. Resistimos juntos. Assim como Maria Jos\u00e9 Silveira apontou, a resist\u00eancia partia, e ainda parte, de uma profunda cren\u00e7a de que o afeto, a solidariedade e a felicidade, enfim, devem ser coletivos e de todos.<\/p>\n<p>Deixo por fim uma breve lista de romances que tematizam a quest\u00e3o e que, entre outros, valem a pena serem lidos:<\/p>\n<p><em>Em c\u00e2mara lenta <\/em>(1979), de Renato Tapaj\u00f3s<\/p>\n<p><em>Mem\u00f3rias do esquecimento<\/em> (1999), de Fl\u00e1vio Tavares<\/p>\n<p><em>N\u00e3o falei<\/em> (2004), de Beatriz Bracher<\/p>\n<p><em>Soledad no Recife<\/em> (2009), de Uraniano Mota<\/p>\n<p><em>Azul-corvo<\/em> (2010), de Adriana Lisboa<\/p>\n<p><em>Nem tudo \u00e9 sil\u00eancio<\/em> (2010), de S\u00f4nia Bischain<\/p>\n<p><em style=\"font-size: 1rem\">K. \u2013 relato de uma busca<\/em><span style=\"font-size: 1rem\"> (2011), de Bernardo Kucinski<\/span><\/p>\n<p><em>Volto semana que vem<\/em> (2015), de Maria Pilla<\/p>\n<p><em>Antes do passado<\/em> (2015), de Liniane Haag Brum<\/p>\n<p><em>Ainda estou aqui<\/em> (2015), de Marcelo Rubens Paiva<\/p>\n<p><em>A resist\u00eancia<\/em> (2015), de Juli\u00e1n Fuks<\/p>\n<p><em>Outros cantos<\/em> (2016), de Maria Val\u00e9ria Rezende<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Um breve hist\u00f3rico sobre a ditadura civil-militar brasileira: iniciou-se em 1964, quando as For\u00e7as Armadas, apoiadas por parte da sociedade civil, perpetraram o golpe contra o governo eleito do presidente Jo\u00e3o Goulart. O Regime Militar chegou ao seu \u00e1pice em 1968, quando entrou em vig\u00eancia o Ato Institucional n\u00ba 5, conhecido como AI-5, que intensificou o poder dado aos governantes para punir arbitrariamente toda e qualquer pessoa que fosse considerada \u201cinimiga do regime\u201d. Nesse momento, o estado de exce\u00e7\u00e3o passou a controlar efetivamente n\u00e3o s\u00f3 as institui\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m as pessoas, em seus cotidianos privados e em suas rela\u00e7\u00f5es sociais e p\u00fablicas. O n\u00famero de mortos, desaparecidos e torturados \u00e9 enorme.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) foi institu\u00edda em 2012 pela ent\u00e3o presidenta Dilma Rousseff e teve como objetivo investigar os graves desrespeitos dos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988. Em 2014, a Comiss\u00e3o entregou seu relat\u00f3rio final depois de entrevistar agentes envolvidos, organizar audi\u00eancias p\u00fablicas e pesquisar, em diferentes contextos e lugares, as persegui\u00e7\u00f5es do per\u00edodo militar. Entre as conclus\u00f5es, est\u00e1 o fato de que as deten\u00e7\u00f5es ilegais e arbitr\u00e1rias, como tortura, viol\u00eancia sexual, execu\u00e7\u00f5es, desaparecimentos for\u00e7ados e oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres, foram uma pr\u00e1tica generalizada e de pol\u00edtica estatal, caracterizando-se como crimes contra a humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resistir \u00e9 preciso: a(s) literatura(s) e a(s) ditadura(s), por Lua Gill N\u00e3o foi a primeira vez que a Cl\u00e1udia, idealizadora\/editora\/cuidadora desse blog, t\u00e3o bonito, e entusiasta da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos estudos liter\u00e1rios, me convidou para escrever aqui. 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