{"id":285,"date":"2018-10-08T12:01:14","date_gmt":"2018-10-08T15:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=285"},"modified":"2018-10-16T14:15:09","modified_gmt":"2018-10-16T17:15:09","slug":"em-nome-da-cultura-me-retiro-do-premio-strega-por-pier-paolo-pasolini-traducao-claudia-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/10\/08\/em-nome-da-cultura-me-retiro-do-premio-strega-por-pier-paolo-pasolini-traducao-claudia-alves\/","title":{"rendered":"Literatura, Pol\u00edtica e Resist\u00eancia! Em nome da cultura me retiro do Pr\u00eamio Strega, por Pier Paolo Pasolini (tradu\u00e7\u00e3o Cl\u00e1udia Alves)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><em>A Guilherme Ivo, com quem tive a honra de compartilhar o of\u00edcio da tradu\u00e7\u00e3o, a alegria pelas leituras e o desajuste em nosso mundo. Se hoje ouso traduzir Pasolini, \u00e9 porque um dia ele me disse que eu poderia (e deveria) fazer isso.<\/em><\/p>\n<p>Em 1968, o escritor italiano Pier Paolo Pasolini decidiu se retirar de um dos maiores pr\u00eamios liter\u00e1rios da It\u00e1lia (sen\u00e3o o maior) por n\u00e3o concordar com a forma como a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria vinha sendo tratada em seu pa\u00eds. Sua maior cr\u00edtica estava relacionada \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do mercado editorial em mais uma engrenagem do complexo sistema de domina\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria cultural e do consumismo. Com essa atitude, o escritor mostrou estar disposto a colocar em pr\u00e1tica uma reflex\u00e3o que come\u00e7ava a ganhar consist\u00eancia em seus escritos jornal\u00edsticos. Seu gesto de protesto reflete, por sua vez, o compromisso com suas reflex\u00f5es cr\u00edticas e n\u00e3o com um mercado editorial sedento por enjaular escritores em um sistema de produ\u00e7\u00e3o comercial. Movido por seus \u201cinteresses culturais\u201d, isto \u00e9, pela cren\u00e7a de que a verdadeira literatura s\u00f3 poder ser criada com total liberdade de pensamento, Pasolini se retirou de uma cadeia de produ\u00e7\u00e3o que, infelizmente, est\u00e1 presente em nossa vida liter\u00e1ria hoje mais do que nunca. Coer\u00eancia de conduta: Pasolini foi um dos poucos em nossa hist\u00f3ria que teve coragem de viver sua vida com a mesma criticidade com que observava as mudan\u00e7as sociais e pol\u00edticas de sua \u00e9poca. E \u00e9 por isso que seu texto abre a nova s\u00e9rie sobre Literatura, Pol\u00edtica e Resist\u00eancia que se inicia hoje aqui no blog Marca P\u00e1ginas. Porque precisamos protestar e defender, sempre, aquilo em que acreditamos, em todas os espa\u00e7os da nossa exist\u00eancia. Boa leitura a todos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>Em nome da cultura me retiro do Pr\u00eamio Strega<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Pier Paolo Pasolini<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udia T. Alves<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o de um observador pragm\u00e1tico e um pouco indiferente quando descobre que, pouco antes da segunda vota\u00e7\u00e3o, um participante retira seu livro do Pr\u00eamio Strega \u00e9 que se trata de uma a\u00e7\u00e3o incorreta. Pois bem, e \u00e9 mesmo. Trata-se de um erro formal, e sabe-se que o acerto formal \u00e9 uma das bases da conviv\u00eancia democr\u00e1tica. Ainda que isso n\u00e3o tenha exigido muito esfor\u00e7o, precisei ent\u00e3o usar uma certa viol\u00eancia contra mim mesmo nessa decis\u00e3o de me retirar do pr\u00eamio (formalmente, de acordo com o regulamento, a minha sa\u00edda n\u00e3o existe na pr\u00e1tica: meus 62 eleitores est\u00e3o portanto livres para fazer o que quiserem \u2013 e sabemos que sou plenamente grato a eles por seus votos, inclusive porque 40 deles foram inesperados).<\/p>\n<p>Por que usei desta viol\u00eancia contra o meu legalismo e o meu respeito pelas formalidades democr\u00e1ticas? Porque eu estava diante de um dilema: <strong>ou sair incorretamente \u2013 e isso seria ruim \u2013 ou ficar \u2013 corretamente \u2013 e isso seria pior ainda<\/strong>. \u00c9 muito simples dizer o porqu\u00ea. Mas, primeiro, quero fazer um resumo do que aconteceu nesses dias.<\/p>\n<p>Como o leitor talvez saiba, na primeira vota\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio os candidatos estavam restritos a 5 nomes: Bevilacqua (103 votos), eu (62 votos), Cattaneo (56 votos), Barolini (52 votos) e Zavattini (37 votos). Eu tinha decidido participar do pr\u00eamio como se fosse um jogo (ou uma loteria, como disse Zavattini): para ter a satisfa\u00e7\u00e3o infantil de ser premiado. Enfim, participei com leveza, com o gosto do risco, com curiosidade, com vaidade \u2013 talvez para agradar a minha m\u00e3e, como eu fazia quando voltava para casa, durante a primeira s\u00e9rie, e mostrava l\u00e1 da rua, ela olhando da janela, a fita verde da medalha de primeiro aluno da classe, conquistada semanalmente (ai, que h\u00e1bito maldoso). Bom, aos poucos a minha leveza se mostrou ingenuidade e essa ingenuidade, cumplicidade.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que outras vezes j\u00e1 participei do pr\u00eamio: com <em>Ragazzi di vita<\/em>, em 1955 ou 1956, e com <em>Una vita violenta<\/em>, em 1959. Os eleitores (escolhidos arbitrariamente, e por isso digo que quem decide participar do pr\u00eamio Strega decide participar de um jogo e n\u00e3o de uma \u201ccompeti\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d) decretaram minha derrota de forma exemplar. Mas aqueles eram outros tempos, eram os anos 50, com a It\u00e1lia ainda paleocapital\u00edstica, com o Sul, com seus subgovernos etc. etc. Hoje tudo mudou. Enquanto o Pr\u00eamio Strega era, como dizem, uma coisa de fam\u00edlia, participar dele parecia jogar bingo com os vizinhos \u2013 ou seja, <strong>todas as pequenas bagun\u00e7as, as m\u00edseras alian\u00e7as, as contrata\u00e7\u00f5es for\u00e7adas faziam parte de uma \u201cimoralidade\u201d, contra a qual nem valia a pena polemizar<\/strong>. Hoje, por outro lado, o Pr\u00eamio Strega se tornou parte integrante da chamada <strong>\u201cind\u00fastria cultural\u201d e se enquadra em um novo tipo de It\u00e1lia burguesa<\/strong>, sobre a qual n\u00e3o paira mais a amea\u00e7a rom\u00e2ntica e ultrapassada de uma revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, a qual no final das contas n\u00e3o aconteceu. <strong>A \u201cimoralidade\u201d portanto n\u00e3o \u00e9 mais um fen\u00f4meno parcial, no cerne de uma particularidade social (a vida liter\u00e1ria), mas \u00e9 um fen\u00f4meno total, relacionado ao conjunto da sociedade italiana.<\/strong><\/p>\n<p>A imoralidade que imperava no Pr\u00eamio Strega nos anos anteriores ao novo rumo da sociedade italiana n\u00e3o me ofendia mais do que parcialmente e eu me permitia um certo cinismo, mas hoje n\u00e3o mais. Quando aceitei concorrer ao pr\u00eamio esse ano, estava iludido \u2013 por culpa da minha natureza relutante em reconhecer o mal e a m\u00e1 f\u00e9 \u2013 de que as coisas n\u00e3o seriam t\u00e3o graves. A minha ingenuidade me fez cometer um erro; seria est\u00fapido se eu agora n\u00e3o reconhecesse publicamente esse erro e n\u00e3o tentasse repar\u00e1-lo talvez at\u00e9 erroneamente, isto \u00e9, cometendo uma nova ingenuidade.<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-286 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Pasolini.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Pasolini.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Pasolini-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Em resumo, tomei consci\u00eancia dos fatos (dos quais, infelizmente, n\u00e3o posso e, acho, nunca poderei ter provas) que me convenceram de que o Pr\u00eamio Strega est\u00e1 completa e irreparavelmente nas m\u00e3os do arb\u00edtrio neocapital\u00edstico; que aquilo que aconteceu em 1966 n\u00e3o foi um caso, mas um precedente: e que esse ano as coisas est\u00e3o se repetindo. <strong>Devo me tornar c\u00famplice?<\/strong> Um editor certamente tem o direito de exercer as press\u00f5es que deseja, os seus interesses s\u00e3o do tipo industrial e, diante da concorr\u00eancia, sabemos que <strong>os \u201cpatr\u00f5es\u201d, mesmo que adocicados pelo novo rumo, s\u00e3o capazes de qualquer coisa<\/strong>. Os meus interesses, pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o de tipo cultural e, para mim, ser capaz de qualquer coisa pode significar apenas uma atitude: protestar. Assim me retiro incorretamente da segunda vota\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio, em protesto: <strong>protesto contra a interfer\u00eancia do editor industrial em um campo que considero ainda, arcaicamente, n\u00e3o industrial, a qual se concretiza na cria\u00e7\u00e3o de valores falsos e na extin\u00e7\u00e3o de valores verdadeiros<\/strong>. Digo extin\u00e7\u00e3o porque o neocapitalismo n\u00e3o tem escr\u00fapulos: a Am\u00e9rica reacion\u00e1ria o educa. Circulam palavras de ordem e velinas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Sobre esse livro podem falar, sobre esse outro se calam; este livro ganha um pr\u00eamio, esse outro n\u00e3o. E ai de voc\u00ea, Editor de revista, se publicar boas resenhas sobre esse livro. E se voc\u00ea, Escritor, n\u00e3o fizer uma boa resenha sobre esse outro, voc\u00ea vai me pagar caro por isso: nenhum dos meus peri\u00f3dicos vai mais falar de voc\u00ea. Ah, e voc\u00ea, Literato, \u00e9 amigo de outro literato? Pois bem, traia-o, se n\u00e3o eu n\u00e3o renovo seu contrato com a minha editora. Voc\u00ea \u00e9 jurado de algum pr\u00eamio? \u00d3timo, me d\u00ea a c\u00e9dula de vota\u00e7\u00e3o ou entre na lista dos banidos. Vai, pegue esse dinheiro e me d\u00ea a c\u00e9dula. Ah, velhos tempos, quando uma delega\u00e7\u00e3o de jurados do Strega ia at\u00e9 algum escritor (bom) para pedir-lhe que se retirasse do pr\u00eamio porque a filha de algum outro escritor (bom) precisava se casar, e ent\u00e3o o dinheiro do pr\u00eamio ia para ela! <strong>Hoje, a ind\u00fastria do livro tende a transform\u00e1-lo em um produto como outro qualquer, para puro consumo, logo n\u00e3o h\u00e1 necessidade de bons escritores.<\/strong> E isso responde perfeitamente \u00e0 exig\u00eancia da nova burguesia, que parece completamente dona da situa\u00e7\u00e3o, das obras de entretenimento, de escape e de falsa intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Repito: <strong>n\u00e3o quero me tornar c\u00famplice desse estado das coisas de jeito nenhum. E assim como odeio a cumplicidade, odeio tamb\u00e9m o compromisso<\/strong>. Eu poderia continuar formalmente fingindo ser um concorrente democr\u00e1tico e, de acordo com Maria Bellonci, apoiando pela \u00faltima vez, fosse com uma vit\u00f3ria ou com uma derrota apertada, o Pr\u00eamio Strega assim como ele \u00e9: isto \u00e9, um campo de opera\u00e7\u00f5es do consumismo mais brutal. Na verdade, a senhora Bellonci me prometeu que para o pr\u00f3ximo ano o pr\u00eamio seria reformado, garantindo um n\u00edvel melhor das obras apresentadas etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o. N\u00e3o quero fazer parte de tal acordo. <strong>Acredito que somente um protesto completo, rigoroso e sem compromissos possa ser \u00fatil<\/strong> para que o pr\u00eamio, se precisar ser reformulado, seja reformulado por completo, recolocando-o integralmente em discuss\u00e3o. Estou convencido de que s\u00f3 assim poder\u00e1 existir um \u201coutro\u201d Pr\u00eamio Strega, que garanta de fato os interesses culturais \u201ccontra\u201d os interesses industriais. Se querem chegar a isso por meio de acordos, compromissos, sil\u00eancios, ent\u00e3o quer dizer que a boa vontade n\u00e3o existe de verdade.<\/p>\n<p>Para terminar, gostaria de dizer que sei que a essa altura algu\u00e9m poderia perguntar por que estou sozinho, ou com poucos amigos \u2013 outros concorrentes ao pr\u00eamio, por exemplo \u2013, a travar essa batalha, e se por acaso n\u00e3o existe um \u201csindicato dos escritores\u201d que intervenha, com for\u00e7a e autoridade (em dose dupla: sindical e liter\u00e1ria), para defender seus filiados da verdadeira \u201cescravid\u00e3o\u201d \u00e0 qual est\u00e3o come\u00e7ando a serem reduzidos pela ind\u00fastria cultural. Pois bem, essa \u00e9 uma pergunta que fa\u00e7o a mim mesmo sem saber respond\u00ea-la, mas \u00e0 qual se deve, agora ou depois, dar uma resposta.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Publicado originalmente no jornal <em>Il Giorno<\/em>, em 24 de junho de 1968. Integra a colet\u00e2nea <em>Saggi sulla politica e sulla societ\u00e0<\/em>, na cole\u00e7\u00e3o I Meridiani (Mil\u00e3o: Arnaldo Mondadori Editore, 1999), pp. 151-155. Os dire\u00e7\u00f5es autorais do texto pertencem portanto \u00e0 editora Mondadori e por isso a presente publica\u00e7\u00e3o da minha tradu\u00e7\u00e3o deve ser utilizada apenas com a finalidade de leitura e estudo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Velina <\/em>era uma esp\u00e9cie de nota emitida pelo governo fascista italiano (1922-1943) com o intuito de manipular e regular o que e como as not\u00edcias circulariam na imprensa da \u00e9poca. Foram proibidas em 1943, mas foram usadas at\u00e9 1945.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Guilherme Ivo, com quem tive a honra de compartilhar o of\u00edcio da tradu\u00e7\u00e3o, a alegria pelas leituras e o desajuste em nosso mundo. 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