{"id":290,"date":"2018-10-15T19:42:49","date_gmt":"2018-10-15T22:42:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=290"},"modified":"2018-12-03T15:13:42","modified_gmt":"2018-12-03T17:13:42","slug":"arvore-da-memoria-de-rosmarie-waldrop-introducao-e-traducao-de-marcelo-lotufo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/10\/15\/arvore-da-memoria-de-rosmarie-waldrop-introducao-e-traducao-de-marcelo-lotufo\/","title":{"rendered":"Literatura, Pol\u00edtica e Resist\u00eancia! \u00c1rvore da mem\u00f3ria, de Rosmarie Waldrop (introdu\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Lotufo)"},"content":{"rendered":"<p>Rosmarie Waldrop \u00e9 uma importante poeta norte americana. Nascida na Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial, <strong>passou sua primeira inf\u00e2ncia em meio a bombas e doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nazista<\/strong>. Pequena demais para concordar ou discordar, viu tudo com um certo distanciamento. Adulta, retornou ao tema buscando entender, assim como toda a sua gera\u00e7\u00e3o, o que se passara na Alemanha de seus pais; como <strong>a naturaliza\u00e7\u00e3o do horror nazista fez com que o Holocausto se escondesse atr\u00e1s da rotina e da burocracia<\/strong>.\u00a0 Waldrop mudou-se para os Estados Unidos durante o p\u00f3s-guerra, onde se casou com o tamb\u00e9m poeta Keith Waldrop. Na Am\u00e9rica, ela abandonou a l\u00edngua alem\u00e3 e passou a escrever em ingl\u00eas, refor\u00e7ando o distanciamento que precisava para <strong>revisitar o seu passado de forma cr\u00edtica e consciente<\/strong>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_291\" aria-describedby=\"caption-attachment-291\" style=\"width: 219px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-291 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Waldrop-by-Pierre-Mornet-219x300.jpg\" alt=\"\" width=\"219\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Waldrop-by-Pierre-Mornet-219x300.jpg 219w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Waldrop-by-Pierre-Mornet-768x1053.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Waldrop-by-Pierre-Mornet-747x1024.jpg 747w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/Waldrop-by-Pierre-Mornet.jpg 1023w\" sizes=\"(max-width: 219px) 100vw, 219px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-291\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o por Pierre Mornet<\/figcaption><\/figure>\n<p>Parte dos seus poemas versa sobre <strong>a necessidade de investigarmos as camadas hist\u00f3ricas da nossa sociedade<\/strong>, enfrentando mem\u00f3rias e acontecimentos que preferir\u00edamos ignorar. Em um momento no qual <strong>discursos de \u00f3dio parecem se normalizar no Brasil<\/strong>, al\u00e9m de um apoiador confesso da tortura e da ditadura militar (algo impens\u00e1vel h\u00e1 alguns anos) liderar as pesquisas para presid\u00eancia da rep\u00fablica, revisitar o passado parece um exerc\u00edcio mais do que necess\u00e1rio; parece um dos \u00fanicos caminhos para <strong>salvarmos a nossa democracia e repensarmos o pacto democr\u00e1tico<\/strong> que a sustentou desde o fim da ditadura.<\/p>\n<p><em>\u00c1rvore da mem\u00f3ria<\/em><\/p>\n<p>Rosmarie Waldrop, no livro\u00a0<em>Split Infinites<\/em><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Marcelo Lotufo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E EM SEGUNDO LUGAR, na Alemanha<\/p>\n<p>Meu primeiro dia na escola , setembro de 1941, dia show de bola. O tempo n\u00e3o passava, mas era conduzido ao c\u00e9rebro. Me ensinaram. A sauda\u00e7\u00e3o nazista, brincar de flautista. Qu\u00e3o firmemente entrincheiradas, as velhas teorias. J\u00e1 usando papel, caneta e tinta. Sim, eu disse, estou aqui.<\/p>\n<p>Eu tinha seis ou sete an\u00f5es, a branca era de neve, o pr\u00edncipe estava em guerra. Hitler no r\u00e1dio, seguido por L\u00e9har. Sentidos impingiam-se. Apag\u00f5es, sirenes, colch\u00f5es no ch\u00e3o, visitantes ou fantasmas furtivos.<\/p>\n<p>E mam\u00e3e furiosa. Sirenes. Silvos. O gato. Minha irm\u00e3 gritou como nunca. Sua amiga. Com medo de olhar. O que eu sabia sobre trabalho for\u00e7ado ou trabalho de parto? Dos interiores profundos do corpo? Eu tinha aprendido a \u00a0andar de bicicleta.<\/p>\n<p>O gato preto. A neve branca, a flor azul. Uma amea\u00e7a de uma cor diferente. Movimento uniforme em velocidade inultrapass\u00e1vel. Nada fastidioso. Nada necess\u00e1rio o preenchimento de subst\u00e2ncias no \u00e2mago profundo.<\/p>\n<p>M\u00e3e, eu gritei, extremamente. E o lobo. Passando pela neve eu estava dentro de casa em, l\u00e3 puxada sobre os meus olhos. O lobo. O menino que n\u00e3o gritou \u2018olha o lobo\u2019 tamb\u00e9m morreu. Aberturas crepusculares.<\/p>\n<p>Testa honesta. Cabelos negros. M\u00e3os parcimoniosamente sobre os joelhos. Uma menina polonesa. Na Alemanha? Na guerra? Movendo-se velozmente pelo ar entre n\u00f3s, uma imagem cont\u00ednua. Chega de medo de gato preto, sinos (assassinos, ferinos), de sirenes, silvos de bombas.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Uma longa vida aprendendo sobre o cap\u00edtulo anterior. Que minha alma est\u00e1 de cal\u00e7a jeans, minha m\u00e3e dando \u00e0 luz, meu banco de esperan\u00e7as na Alemanha, leste de expectativas, oeste de ainda esperando. Na cama com um ant\u00eddoto.<\/p>\n<p>Comendo da \u00e1rvore. Folhas caindo antes da queda. Por um buraco na mem\u00f3ria. A fruta enruga novos problemas, mas n\u00e3o extingue. O pomar h\u00e1 muito abandonado.<\/p>\n<p>(Publicado em\u00a0<a href=\"https:\/\/traducaoliteraria.wordpress.com\/2018\/10\/15\/arvore-da-memoria-de-rosmarie-waldrop-introducao-e-traducao-de-marcelo-lotufo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/traducaoliteraria.wordpress.com\/2018\/10\/15\/arvore-da-memoria-de-rosmarie-waldrop-introducao-e-traducao-de-marcelo-lotufo\/<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosmarie Waldrop \u00e9 uma importante poeta norte americana. Nascida na Alemanha pouco antes da Segunda Guerra Mundial, passou sua primeira inf\u00e2ncia em meio a bombas e doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nazista. Pequena demais para concordar ou discordar, viu tudo com um certo distanciamento. 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