{"id":293,"date":"2018-10-16T13:32:51","date_gmt":"2018-10-16T16:32:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=293"},"modified":"2018-10-16T14:12:47","modified_gmt":"2018-10-16T17:12:47","slug":"a-quem-interessa-queimar-livros-por-danielle-chagas-de-lima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/10\/16\/a-quem-interessa-queimar-livros-por-danielle-chagas-de-lima\/","title":{"rendered":"Literatura, Pol\u00edtica e Resist\u00eancia! A quem interessa queimar livros?, por Danielle Chagas de Lima"},"content":{"rendered":"<p><strong>A quem interessa queimar livros?<\/strong><\/p>\n<p>O ano \u00e9 2018, s\u00e9culo 21. Apesar da imensa dist\u00e2ncia espa\u00e7o-temporal e tamb\u00e9m das diferen\u00e7as entre as sociedades, vira e mexe eu me pego pensando em uma obra datada do s\u00e9culo 2. S\u00e3o declara\u00e7\u00f5es como \u201cOs livros que n\u00e3o trazem <strong>a verdade<\/strong> sobre o regime de 1964 t\u00eam que ser <strong>eliminados<\/strong>\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e not\u00edcias como \u201cLivros de <strong>direitos humanos<\/strong> s\u00e3o rasgados na biblioteca da UnB\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> que me transportam \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da obra <em>Agr\u00edcola<\/em>, de P. Corn\u00e9lio T\u00e1cito, escrita por volta do ano 98 d.C.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_296\" aria-describedby=\"caption-attachment-296\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-296 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-1-300x244.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"244\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-1-300x244.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-1.png 750w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-296\" class=\"wp-caption-text\">Queima de livros. 30 ilustra\u00e7\u00f5es para &#8220;A Hist\u00f3ria de Dom Quixote&#8221; (Fonte: The British Museum)<\/figcaption><\/figure>\n<p>T\u00e1cito nasceu por volta do ano 56 e faleceu no ano 118 d. C. Ele foi um importante historiador de sua \u00e9poca e sua obra, que retrata o per\u00edodo do Imp\u00e9rio romano, nos chegou em grande parte conservada<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. A obra da qual sempre me lembro intitula-se <em>A vida de J\u00falio Agr\u00edcola<\/em> (<em>De uita Iulli Agricolae<\/em>) e narra, conforme o t\u00edtulo sugere, a biografia de seu sogro, J\u00falio Agr\u00edcola. Bem, tentando n\u00e3o me afastar demais do porqu\u00ea tal livro me vem \u00e0 mente, fa\u00e7o um breve resumo de seu contexto de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se do in\u00edcio do principado de Trajano, em Roma, quando T\u00e1cito finalmente sente-se livre e seguro para escrever sem correr perigo por causa do conte\u00fado da obra que pretende produzir. No texto, antes de apresentar a personagem principal, o autor faz uma reflex\u00e3o sobre a escrita da hist\u00f3ria, mais especificamente, de textos biogr\u00e1ficos e autobiogr\u00e1ficos. Segundo ele, desde tempos muito remotos, homenagear a vida daqueles considerados ilustres na sociedade era um costume bastante comum. Mas T\u00e1cito nos conta que, em seu of\u00edcio de historiador, durante muito tempo encontrou dificuldades para compor uma homenagem a Agr\u00edcola, um homem que julgava exemplar naquele contexto. Essa personagem central da obra viveu durante os principados de Nero e de Domiciano: dois imperadores que comumente s\u00e3o vistos como os mais cru\u00e9is da hist\u00f3ria do Imp\u00e9rio romano<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Ainda na abertura da obra, T\u00e1cito explica tamb\u00e9m sobre a impossibilidade de compor sua obra \u00e0 \u00e9poca de Domiciano e relembra o que houve com aqueles que se atreveram a escrever:<\/p>\n<figure id=\"attachment_294\" aria-describedby=\"caption-attachment-294\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-294 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-300x176.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"176\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-300x176.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-768x450.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image.png 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-294\" class=\"wp-caption-text\">Fyodor Bronnikov lendo a senten\u00e7a de morte de Tr\u00e1sea Peto (Fonte: http:\/\/www.art-catalog.ru\/picture.php?id_picture=11335)<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>N\u00f3s lemos que quando Tr\u00e1sea Peto e Helv\u00eddio Prisco foram louvados por Aruleno R\u00fastico e Her\u00eanio Seneci\u00e3o, respectivamente, isso se tornou motivo de pena capital. E n\u00e3o se enfureceram s\u00f3 contra os pr\u00f3prios autores, mas tamb\u00e9m contra seus livros. <strong>Delegou-se aos tri\u00fanviros a tarefa de queimar as mem\u00f3rias dos mais ilustres esp\u00edritos, no com\u00edcio do f\u00f3rum<\/strong>. <strong>Certamente, pensavam ter tamb\u00e9m coibido com aquele fogo a voz do povo romano, a liberdade do senado e a consci\u00eancia do ser humano<\/strong>. Sem contar os fil\u00f3sofos que foram expulsos e toda a nobre arte levada para o ex\u00edlio, para que nada se encontrasse de honesto em parte alguma. Fornecemos, sem d\u00favida, uma grande prova de paci\u00eancia, e tal como a gera\u00e7\u00e3o antiga viu o extremo da liberdade, do mesmo modo n\u00f3s vimos o extremo da escravid\u00e3o e at\u00e9 o acordo entre o falar e o ouvir foi suprimido por meio de inqu\u00e9ritos. Tamb\u00e9m ter\u00edamos perdido com a voz a pr\u00f3pria mem\u00f3ria, se em nosso poder estivesse tanto o esquecer quanto o calar<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Aruleno R\u00fastico e Her\u00eanio Seneci\u00e3o, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, escreveram obras em homenagem a duas personalidades conhecidas na hist\u00f3ria romana por sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade do imperador e \u00e0 falta de liberdade de express\u00e3o do senado<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Ambos foram punidos com a morte. Seus livros, e talvez outros mais, foram queimados em p\u00fablico. Tudo isso porque representavam condutas de personagens que em certa medida questionavam a autoridade \u00fanica do imperador e denunciavam a corrup\u00e7\u00e3o de seus pares. O fogo, como T\u00e1cito nos diz, tamb\u00e9m deveria silenciar a voz do povo, suas ideias, sua consci\u00eancia. A liberdade de pensamento tamb\u00e9m foi censurada, expulsando-se dali os fil\u00f3sofos. Ou seja, havia uma grande preocupa\u00e7\u00e3o em limitar os discursos circulantes. Pode-se dizer que a Literatura (e, consequentemente, o pensamento em circula\u00e7\u00e3o) s\u00f3 poderia representar aquilo que passasse pelo crivo do imperador<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Por um lado, quando eu vejo not\u00edcias como as que mencionei no in\u00edcio deste texto, n\u00e3o consigo deixar de pensar que, infelizmente, h\u00e1 mais de 2000 anos obras s\u00e3o lan\u00e7adas ao fogo, a fim de apagar a pluralidade de vis\u00f5es em determinados momentos hist\u00f3ricos. Nem era preciso ter ido t\u00e3o longe para encontrar testemunhos desse tipo, tantas outras vezes isso j\u00e1 aconteceu na hist\u00f3ria da humanidade<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Por outro lado, eu fico feliz e me fortale\u00e7o ao pensar em como a Literatura disp\u00f5e de for\u00e7a, valor pol\u00edtico e atua como resist\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os livros tornam-se v\u00edtimas concretas e simb\u00f3licas daqueles que pretendem contar uma hist\u00f3ria \u00fanica. T\u00e1cito passou quinze anos em sil\u00eancio para preservar sua vida. Ao primeiro sinal de abertura, n\u00e3o deixou de relatar o autoritarismo existente outrora e as consequ\u00eancias daqueles que escreviam obras livres de uma adula\u00e7\u00e3o ao imperador. Fez de sua obra, portanto, mem\u00f3ria daqueles que perderam suas vidas e tamb\u00e9m resist\u00eancia, ao incluir na hist\u00f3ria os nomes daqueles que mereciam ser lembrados<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_295\" aria-describedby=\"caption-attachment-295\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-295 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-2-300x208.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"208\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-2-300x208.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/image-2.png 640w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-295\" class=\"wp-caption-text\">Lucio Massari (1569-1633)<\/figcaption><\/figure>\n<p>As manchetes que citei me fazem pensar nesse texto porque ali algumas palavras me chamam a aten\u00e7\u00e3o. Prop\u00f5e-se <strong>eliminar<\/strong> livros que n\u00e3o cont\u00eam a <strong>verdade<\/strong> sobre um momento hist\u00f3rico h\u00e1 muito estudado e documentado. Mas qual verdade, afinal? Livros sobre <strong>direitos humanos<\/strong> s\u00e3o rasgados&#8230; a quem isso interessa nesse momento? A que tipo de pol\u00edticas interessa suprimir obras, e mesmo seus autores, ao longo da Hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>O nosso mundo e a nossa hist\u00f3ria s\u00e3o feitos de narrativas. De pontos de vistas. S\u00e3o sempre tempos lament\u00e1veis aqueles em que vozes s\u00e3o silenciadas, concreta e simbolicamente. Mas a literatura resiste e, por meio dela, podemos tamb\u00e9m n\u00f3s sempre resistir e buscar a liberdade de pensamento e de express\u00e3o. Afinal, a \u201carte conversa com a liberdade que resiste dentro de n\u00f3s\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Em tempo: este texto \u00e9 sobre livros, mas n\u00e3o pode deixar de lembrar e lamentar a perda de tantos registros culturais, de obras de artes e de documentos que se perderam com o inc\u00eandio de museus importantes em nosso pa\u00eds. Museus que, negligenciados e abandonados pelo investimento p\u00fablico, foram consumidos pelo fogo junto com mem\u00f3rias do passado. Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o Memorial da Am\u00e9rica Latina, o Museu da L\u00edngua Portuguesa e o Museu Nacional tornaram-se v\u00edtimas desse fogo institucionalizado.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Fonte: <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/eleicoes\/2018\/noticias\/2018\/09\/28\/general-ligado-a-bolsonaro-fala-em-banir-livros-sem-a-verdade-sobre-1964.htm?cmpid=copiaecola&amp;cmpid=copiaecola\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/eleicoes\/2018\/noticias\/2018\/09\/28\/general-ligado-a-bolsonaro-fala-em-banir-livros-sem-a-verdade-sobre-1964.htm?cmpid=copiaecola&amp;cmpid=copiaecola<\/a>. Acesso em 09\/10\/18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/df\/distrito-federal\/noticia\/2018\/10\/04\/livros-de-direitos-humanos-sao-rasgados-na-biblioteca-da-unb.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/df\/distrito-federal\/noticia\/2018\/10\/04\/livros-de-direitos-humanos-sao-rasgados-na-biblioteca-da-unb.ghtml<\/a>. Acesso em 09\/10\/18.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Antes de continuarmos, \u00e9 importante ressaltar que a leitura de obras antigas requer aten\u00e7\u00e3o a diversos conceitos e ao funcionamento pr\u00f3prio daquela sociedade para que n\u00e3o sejamos anacr\u00f4nicos. Al\u00e9m disso, mesmo a ideia de Hist\u00f3ria, como disciplina, \u00e9 muito diferente daquela que temos hoje, bem como os procedimentos de sua escrita, quest\u00f5es que escapam ao espa\u00e7o deste post. Para mais informa\u00e7\u00f5es a esse respeito, indicamos a tradu\u00e7\u00e3o completa e anotada dessa obra, dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/repositorio.unicamp.br\/bitstream\/REPOSIP\/271127\/1\/Lima_DanielleChagasde_M.pdf\">http:\/\/repositorio.unicamp.br\/bitstream\/REPOSIP\/271127\/1\/Lima_DanielleChagasde_M.pdf<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Mais sobre o autor e outros historiadores romanos em FUNARI, P. P.; GARRAFONNI, R. S. <em>Historiografia:<\/em> <em>Sal\u00fastio, Tito L\u00edvio e T\u00e1cito<\/em>. Cole\u00e7\u00e3o Bibliotheca Latina. Campinas: Editora Unicamp, 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> T\u00e1cito escreveu sobre o principado de Nero na obra <em>Anais<\/em> (<em>Annales<\/em>), nos livros 13 a 16.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> T\u00e1cito, <em>A vida de J\u00falio Agr\u00edcola<\/em>, 2. Tradu\u00e7\u00e3o do latim de minha autoria. Temos outro testemunho antigo sobre este fato: Suet\u00f4nio, que escreveu a obra <em>A<\/em> <em>Vida dos doze c\u00e9sares<\/em>, tamb\u00e9m menciona esse ocorrido na biografia de <em>Domiciano<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Tr\u00e1sea Peto foi um senador romano cujo comportamento \u00e9 lembrado como s\u00edmbolo da oposi\u00e7\u00e3o a Nero. Lutou por seus ideais at\u00e9 a morte. Helv\u00eddio Prisco foi exilado pelo imperador na mesma \u00e9poca. Para saber mais, indicamos os <em>Anais<\/em> e as <em>Hist\u00f3rias<\/em>, de T\u00e1cito.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Domiciano n\u00e3o foi o \u00fanico imperador a agir desta forma. O imperador Tib\u00e9rio tamb\u00e9m condenara o historiador Crem\u00facio Cordo, cujos escritos n\u00e3o lhe agradaram; sua obra foi queimada, conforme relatam T\u00e1cito (<em>Anais<\/em>, 4.34-5) e Suet\u00f4nio (<em>Vida de Tib\u00e9rio<\/em>, 61.3).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Em diversos momentos e sociedades, livros com discursos diferentes daquele dos regimes vigentes foram incinerados. O caso da biblioteca de Alexandria \u00e9 bastante conhecido. Durante a Inquisi\u00e7\u00e3o isso tamb\u00e9m ocorreu. Em 1933, livros foram queimados durante o Nazismo, na Alemanha. Mais recentemente, em 1973, Pinochet tamb\u00e9m ordenara queimar livros. Para mais eventos do tipo: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Queima_de_livros\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Queima_de_livros<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Assim T\u00e1cito nos conta: <em>Pois, se por quinze anos, um grande espa\u00e7o de tempo da vida humana, muitos foram mortos por circunst\u00e2ncias fortuitas e os mais diligentes pela crueldade do pr\u00edncipe, poucos, por assim dizer, somos n\u00e3o s\u00f3 sobreviventes a outros, mas tamb\u00e9m a n\u00f3s mesmos. Fomos arrebatados do meio da vida tantos anos, durante os quais viemos em sil\u00eancio, jovens at\u00e9 a velhice, velhos at\u00e9 quase o pr\u00f3prio fim de sua gera\u00e7\u00e3o. Mas eu n\u00e3o lamentarei ter composto, mesmo com tom grosseiro e rude, a mem\u00f3ria da servid\u00e3o passada e o testemunho dos \u00eaxitos do presente<\/em> (T\u00e1cito, <em>A vida de J\u00falio Agr\u00edcola<\/em>, 3.2).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> De Eliane Brum, <em>Como resistir em tempos brutos<\/em>, aqui: <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/08\/opinion\/1539019640_653931.html\">https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/08\/opinion\/1539019640_653931.html<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A quem interessa queimar livros? O ano \u00e9 2018, s\u00e9culo 21. Apesar da imensa dist\u00e2ncia espa\u00e7o-temporal e tamb\u00e9m das diferen\u00e7as entre as sociedades, vira e mexe eu me pego pensando em uma obra datada do s\u00e9culo 2. 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