{"id":303,"date":"2018-10-27T15:10:54","date_gmt":"2018-10-27T18:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=303"},"modified":"2018-10-27T18:08:43","modified_gmt":"2018-10-27T21:08:43","slug":"as-mulheres-dos-estudos-literarios-por-claudia-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/10\/27\/as-mulheres-dos-estudos-literarios-por-claudia-alves\/","title":{"rendered":"Literatura, Pol\u00edtica e Resist\u00eancia! As Mulheres dos Estudos Liter\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p><em>Ontem, dia 26 de outubro de 2018, tive a honra e a alegria de participar de um encontro do Mulherio das Letras. Esse grupo de mulheres, que se auto-organizou em 2016\/2017 para dar voz \u00e0 literatura lida e escrita por mulheres, \u00e9 um dos movimentos mais lindos que j\u00e1 vi acontecer no Brasil. E poder estar pessoalmente com essas tantas mulheres foi uma experi\u00eancia que iluminou minha jornada e renovou minha f\u00e9 na vida. Ent\u00e3o, eu gostaria de compartilhar aqui com voc\u00eas o que eu apresentei l\u00e1 ontem. Eu queria dizer para todas n\u00f3s, mulheres, que sabemos que nossa luta nunca foi f\u00e1cil, mas que nossa for\u00e7a renascer\u00e1 sempre que precisarmos ser resist\u00eancia. \u00c0s v\u00e9speras do segundo turno das elei\u00e7\u00f5es brasileiras, eu queria lembrar cada mulher que eu conhe\u00e7o, e cada mulher que voc\u00eas conhecem, de que floresceremos quantas vezes forem necess\u00e1rias! Meu amor por todas voc\u00eas &lt;3<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_304\" aria-describedby=\"caption-attachment-304\" style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-304 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/WhatsApp-Image-2018-10-27-at-00.46.35.jpeg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/WhatsApp-Image-2018-10-27-at-00.46.35.jpeg 720w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/WhatsApp-Image-2018-10-27-at-00.46.35-300x249.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-304\" class=\"wp-caption-text\">Flash mob pela democracia em Perugia<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>As Mulheres dos Estudos Liter\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Cl\u00e1udia Tavares Alves<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Outubro Liter\u00e1rio: Mulherio Europa em verso e prosa<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Universit\u00e0 degli Studi di Perugia &#8211; Italia<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">26\/10\/2018<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bom dia. Gostaria de agradecer ao cuidado da organiza\u00e7\u00e3o, sempre t\u00e3o prestativa, e \u00e0 escuta de voc\u00eas aqui hoje. Pensando em como eu poderia come\u00e7ar esta apresenta\u00e7\u00e3o, me dei conta de que seria poss\u00edvel partir de muitos pontos diferentes para abordar o tema das Mulheres nos Estudos Liter\u00e1rios. Eu poderia, por exemplo, come\u00e7ar me apresentando, dizendo que sou doutoranda na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, que estudo literatura h\u00e1 11 anos, e que atualmente estou na It\u00e1lia fazendo um est\u00e1gio de pesquisa sobre o escritor Pier Paolo Pasolini. Ou eu poderia come\u00e7ar dizendo que tenho um blog de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre Literatura, o Marca P\u00e1ginas, vinculado a um portal de blogs da Unicamp, e que nele mantenho uma s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es que se chama, justamente, as Mulheres dos Estudos Liter\u00e1rios. Eu poderia tamb\u00e9m citar alguma escritora mulher que se dedicou a pensar sobre seu pr\u00f3prio fazer liter\u00e1rio ou a teorizar a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria existente, e da\u00ed pegar um gancho para pensar a rela\u00e7\u00e3o das mulheres com a Literatura. Quem sabe eu poderia ainda come\u00e7ar pela situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica e horrenda que estamos vivendo em nosso pa\u00eds e como, enquanto mulheres brasileiras, temos visto nossos direitos mais b\u00e1sicos serem amea\u00e7ados por um candidato \u00e0 presid\u00eancia. E que pouco importa n\u00e3o estarmos fisicamente no Brasil nesse momento de instabilidade pol\u00edtica, continuamos sendo brasileiras onde quer que estejamos.<\/p>\n<p>Apesar dessas tantas possibilidades, escolhi come\u00e7ar minha apresenta\u00e7\u00e3o dizendo que hoje estou aqui n\u00e3o s\u00f3 como Cl\u00e1udia Tavares Alves, mas tamb\u00e9m como algu\u00e9m que conversou e ouviu companheiras da \u00e1rea dos Estudos Liter\u00e1rios e que, por isso, acredita que tem algo a dizer sobre o assunto. Estou aqui como uma mulher que foi silenciada e que viu serem silenciadas diversas outras mulheres ao longo desses 11 anos de estudo e pesquisa. Estou aqui como algu\u00e9m que teve que lidar durante todo esse tempo com a sensa\u00e7\u00e3o de incapacidade, de inferioridade e de n\u00e3o merecimento por ocupar os lugares que ocupa e que sabe que, infelizmente, seu caso n\u00e3o \u00e9 \u00fanico nem isolado. Por isso, ainda que falando em nome de outras mulheres, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o conjugar esses verbos na primeira pessoa do singular: essas experi\u00eancias foram sentidas no meu corpo, na minha pele, na minha mente. E mesmo que elas n\u00e3o tenham acontecido exclusivamente comigo, como pude confirmar com os depoimentos que recolhi, \u00e9 sempre dif\u00edcil despir-se das pr\u00f3prias experi\u00eancias individuais para falar em nome de alguma coletividade.<\/p>\n<p>Mas talvez a primeira e mais importante coisa que preciso dizer antes de desdobrar esse ponto \u00e9 que, de todos os in\u00edcios que imaginei, nenhum deles poderia ser imparcial ou apol\u00edtico. Estar aqui hoje, ao lado de mulheres extremamente fortes e capacitadas, \u00e9 um gesto pol\u00edtico que n\u00e3o podemos perder de vista. Hoje, na It\u00e1lia e no Brasil, somos vozes pol\u00edticas que ressoam, que lutam, que resistem. Um encontro de mulheres para falar sobre Literatura em suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00f3 pode ser um gesto pol\u00edtico e, nesse sentido, precisamos nos lembrar de que estamos reunidas hoje por n\u00f3s mesmas, e tamb\u00e9m pelas outras tantas mulheres que n\u00e3o puderam estar aqui.<\/p>\n<p>E pensando nas Mulheres dos Estudos Liter\u00e1rios, n\u00e3o consigo evitar a ideia de que temos feito tantas coisas <em>apesar de<\/em>. Apesar do machismo, dos espa\u00e7os reduzidos, do silenciamento, da inseguran\u00e7a, do pouco incentivo e investimento, hoje temos uma rede de mulheres lendo, escrevendo, traduzindo, estudando, produzindo conhecimento de alta qualidade. Se historicamente precisamos lembrar que nosso lugar foi por muito tempo reservado a trabalhos dom\u00e9sticos, hoje, pelo contr\u00e1rio, somos maioria no Ensino Superior<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>: ocupamos 57,2% das vagas das universidades brasileiras. Esse n\u00famero, entretanto, n\u00e3o corresponde ao n\u00famero de professoras universit\u00e1rias: nesse caso, somos ainda 45,5% do total de docentes de Ensino Superior em nosso pa\u00eds. Um n\u00famero bastante baixo se pensarmos que, na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, 80% s\u00e3o de professoras do sexo feminino.<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros foram divulgados pelo INEP (Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa), em 2016, e, para al\u00e9m dos dados quantitativos, tive contato com uma s\u00e9rie de depoimentos que me fizeram perceber como n\u00e3o foram tantas as professoras mulheres que em geral tivemos na gradua\u00e7\u00e3o no que se refere a cr\u00edtica, teoria e hist\u00f3ria liter\u00e1ria. Mesmo sendo uma \u00e1rea ligada a Letras, na qual majoritariamente vemos mulheres se graduando, a Literatura, por algum tempo, foi um territ\u00f3rio tomado por homens. Por isso foi e ainda \u00e9 bastante comum que professoras sejam referenciadas, em geral, <em>apenas<\/em> como professoras, enquanto que os professores homens podem ser professores, escritores, intelectuais, renomados e reconhecidos por seus sobrenomes.<\/p>\n<p>E o que dizer ainda das mulheres que foram e s\u00e3o sutilmente apagadas da hist\u00f3ria? Penso, por exemplo, em quantas de n\u00f3s chegamos a ler Gilda de Melo e Sousa ou Viviana Bosi, grandes pensadoras e professoras universit\u00e1rias de Literatura. Com certeza, n\u00e3o na mesma propor\u00e7\u00e3o com que lemos Antonio Candido e Alfredo Bosi. \u00c9 claro que n\u00e3o estou aqui diminuindo a import\u00e2ncia desses cr\u00edticos liter\u00e1rios devido ao seu g\u00eanero masculino, mas me pergunto h\u00e1 algum tempo por que ser\u00e1 que lemos t\u00e3o poucas mulheres em todas as etapas de nossa forma\u00e7\u00e3o escolar e universit\u00e1ria. Me pergunto, por exemplo, por que quando me formei, em 2006 no Ensino M\u00e9dio, minhas refer\u00eancias liter\u00e1rias de escritoras estavam reduzidas a Clarice Lispector, Cec\u00edlia Meirelles e Lygia Fagundes Telles. Isso porque sempre fui uma aluna que gostava de Literatura, tive boas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para adquirir livros e me interessava em ler para al\u00e9m das leituras obrigat\u00f3rias. Quantas das minhas colegas pararam em Machado de Assis e Graciliano Ramos, e nunca souberam dos livros incr\u00edveis que foram escritos tamb\u00e9m por escritoras mulheres?<\/p>\n<p>Atualmente, com as ondas do feminismo e os movimentos sociais que t\u00eam trazido para as esferas institucionais esse tipo de debate, podemos perceber um certo esfor\u00e7o em querer modificar esse cen\u00e1rio. Para pensarmos em exemplos concretos, trago a lista de leituras obrigat\u00f3rias proposta pelo vestibular da Unicamp. Ele \u00e9 historicamente considerado inovador e progressista no sentido de priorizar a capacidade de reflex\u00e3o cr\u00edtica dos candidatos. Al\u00e9m disso, tem sua pr\u00f3pria lista obrigat\u00f3ria de leituras, a qual \u00e9 uma das mais atentas \u00e0s discuss\u00f5es atuais e busca sempre inovar e dialogar com as quest\u00f5es contempor\u00e2neas. Pudemos ver, recentemente, a inser\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum Sobrevivendo no Inferno, do grupo de rap Racionais MC\u2019s, como leitura liter\u00e1ria obrigat\u00f3ria. Essa escolha, com certeza, representa uma quebra importante de paradigmas dentro do que pode ou n\u00e3o ser considerado Literatura.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, j\u00e1 se deram conta de que a primeira vez que uma obra liter\u00e1ria escrita por uma mulher esteve nessa lista foi em 2016, com o conto \u201cAmor\u201d, de Clarice Lispector? E por mais que exista um esfor\u00e7o em alterar essa situa\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o melhora tanto assim com o passar dos anos. Antes de 2016, a lista era composta por 9 livros escritos por homens e nenhum por mulheres. Depois de 2016, a lista passou a ser composta por 12 leituras e apenas um conto escrito por uma mulher foi incorporado a ela.<\/p>\n<p>Para as listas de 2019 e 2020, j\u00e1 anunciadas, a situa\u00e7\u00e3o apresenta uma melhora que deve ser considerada. Dentre as 12 leituras obrigat\u00f3rias, agora temos 3 escritas por mulheres. Em 2019, al\u00e9m do j\u00e1 mencionado conto de Clarice, temos o livro de poemas <em>A teus p\u00e9s<\/em>, de Ana Cristina C\u00e9sar, e os di\u00e1rios de <em>Quarto de despejo<\/em>, de Carolina Maria de Jesus. Para 2020, permanecem Ana Cristina C\u00e9sar e Carolina Maria de Jesus, sai Clarice Lispector, e acrescenta-se J\u00falia Lopes de Almeida, com o romance <em>A fal\u00eancia<\/em>.<\/p>\n<p>Confesso que eu n\u00e3o conhecia a escritora J\u00falia Lopes de Almeida antes da lista do vestibular e, assim como eu, acredito que muitas outras pessoas tamb\u00e9m n\u00e3o a conhecessem. Conversando com algu\u00e9m que estudou justamente o romantismo brasileiro em sua pesquisa de Doutorado, percebi que nem mesmo ele conhecia a escritora desse per\u00edodo. Ent\u00e3o, de alguma forma, a presen\u00e7a desse livro na nova lista de leituras obrigat\u00f3rias o reinsere na hist\u00f3ria liter\u00e1ria brasileira, \u00e0 medida que reconhece a import\u00e2ncia de um livro esquecido por grande parte da nossa historiografia liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Acredito que esse movimento pode ser entendido de pelo menos duas maneiras distintas, mas complementares. A primeira a partir da ideia de que existe um movimento pol\u00edtico de inserir a leitura dessas mulheres nas listas dos vestibulares, de forma que as pr\u00f3prias universidades passem a pautar os conte\u00fados escolares e acabem gerando dessa forma uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia. Ao levar os livros dessas escritoras para as salas de aula do ensino fundamental e m\u00e9dio, ainda que pela obrigatoriedade do vestibular, mais gente estar\u00e1 lendo mulheres.<\/p>\n<p>A outra maneira seria entender que estamos, dentro das universidades, mais atentas a esse tipo de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, e que, por isso, conforme conhecemos mais Literatura produzida por mulheres, mais encontramos boa Literatura escrita por mulheres. Ent\u00e3o, a inser\u00e7\u00e3o dessas escritoras se deve \u00e0 qualidade est\u00e9tico-liter\u00e1ria dessas obras, que estavam at\u00e9 ent\u00e3o esquecidas pela cr\u00edtica e pelo p\u00fablico leitor, en\u00e3o ao g\u00eanero a que elas est\u00e3o vinculadas.<\/p>\n<p>A meu ver, essas duas interpreta\u00e7\u00f5es se complementariam e de maneira nenhuma a primeira anularia a pertin\u00eancia da qualidade da segunda. Vejam, \u00e9 consenso que n\u00e3o foram s\u00f3 os homens que escreveram e escrevem boa Literatura. Mas se n\u00e3o conhecermos a Literatura feita por mulheres, se n\u00e3o tivermos oportunidades para l\u00ea-las, n\u00e3o poder\u00edamos sequer julgar sua qualidade.<\/p>\n<p>A professora e pesquisadora Regina Dalcastagn\u00e8, em parceria com o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), tem levantado dados alarmantes, aos quais me deterei brevemente apenas para ilustrar o n\u00edvel de disparidade existente. Com a pesquisa <em>Personagens do romance brasileiro contempor\u00e2neo<\/em>, foi constatado que, entre o per\u00edodo de 1990 e 2004, nos quase 300 romances pesquisados, apenas 27,8% das obras foram escritas por mulheres. Os 72,2% dos escritores homens eram ainda, em sua grande maioria, brancos, de classe m\u00e9dia e habitantes do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Esse dado talvez nos ajude a entender por que, no mesmo per\u00edodo e baseando-se nos mesmos romances pesquisados, apenas 37,8% das personagens eram mulheres e por que cerca de 16% desses livros n\u00e3o apresentavam nenhuma personagem mulher significativa<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. \u00c9 ainda chocante que, em um segundo momento dessa mesma pesquisa, que compreende o per\u00edodo de 2005 a 2014, entre os quase 200 romances pesquisados, esses dados se alteram muito pouco: 29,4% de autoras mulheres e apenas 34,6% de personagens femininas<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Se as mulheres escritoras s\u00e3o minoria e, por isso, s\u00e3o pouco lidas, e ainda n\u00e3o s\u00e3o representadas nos livros que lemos, como ent\u00e3o nos sentirmos motivadas a ocupar esse lugar de escrita e de estudo? N\u00e3o nos vimos, por muito tempo, representadas nas leituras que nos foram impostas e tamb\u00e9m nas leituras que pudemos escolher. Al\u00e9m disso, quantas mulheres ao longo dos anos foram incentivadas a serem escritoras? Acredito que pouqu\u00edssimas. Em contrapartida, nunca tivemos tantas mulheres escrevendo e se movimentando no meio liter\u00e1rio como hoje \u2013 e a exist\u00eancia do Mulherio e desse evento nos \u00faltimos anos \u00e9 uma prova maravilhosa de que esse espa\u00e7o existe e pode ser diferente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_305\" aria-describedby=\"caption-attachment-305\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-305 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/WhatsApp-Image-2018-10-26-at-12.08.42-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/WhatsApp-Image-2018-10-26-at-12.08.42-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/WhatsApp-Image-2018-10-26-at-12.08.42-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2018\/10\/WhatsApp-Image-2018-10-26-at-12.08.42.jpeg 960w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-305\" class=\"wp-caption-text\">Registro da minha apresenta\u00e7\u00e3o por Ana J\u00falia Valezi<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 por todos esses motivos que posso dizer que estamos diante de um movimento que se complementa e faz a roda girar, possibilitando uma mudan\u00e7a dessa situa\u00e7\u00e3o. E \u00e0 medida que pol\u00edticas p\u00fablicas, como as das listas dos vestibulares, colocam em jogo mais escritoras mulheres, mais escritoras mulheres se sentem representadas e aptas a escreverem e publicarem suas obras. E assim, felizmente, a literatura produzida por mulheres ganha for\u00e7a no cen\u00e1rio liter\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 \u00e1rea dos Estudos Liter\u00e1rios, a situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 ainda hoje um campo de ressignifica\u00e7\u00e3o constante. Ouvi de mais de uma amiga, assim como ouvi de mim mesma por muito tempo, que a carreira acad\u00eamica na \u00e1rea de Literatura n\u00e3o foi sequer desejada por pensarmos que essa \u00e1rea <em>n\u00e3o seria para n\u00f3s<\/em>. O que significa, ent\u00e3o, quando mulheres nem sequer cogitam uma possibilidade profissional por acreditarem que n\u00e3o servem, que n\u00e3o se encaixam naquela posi\u00e7\u00e3o social? Com que frequ\u00eancia, ali\u00e1s, ocorre essa esp\u00e9cie de autossabotagem em que, antes mesmo de considerarmos que n\u00e3o teremos capacidade para alcan\u00e7ar algo, dizemos a n\u00f3s mesmas, em sil\u00eancio, que determinado lugar simplesmente n\u00e3o nos pertence? A constru\u00e7\u00e3o social \u00e9 t\u00e3o forte, e estamos t\u00e3o imersas nas escolhas que nos seriam \u00f3bvias, que n\u00e3o conseguimos mais conceber o que est\u00e3o nos dizendo que \u00e9 imposs\u00edvel de realizarmos.<\/p>\n<p>Mas afirmo mais uma vez que estamos aqui hoje reunidas para lembrarmos umas \u00e0s outras, cada qual com sua pr\u00f3pria caminhada, que somos sim uma rede de mulheres extremamente capacitadas para fazermos o que quisermos. Estamos ocupando espa\u00e7os que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s eram pouco imagin\u00e1veis porque estamos nos vendo espelhadas em outras mulheres que conseguiram, que s\u00e3o brilhantes, que merecem estar onde est\u00e3o porque t\u00eam capacidade de sobra para ocupar as posi\u00e7\u00f5es que ocupam. E quando vemos outras mulheres nessas posi\u00e7\u00f5es em que gostar\u00edamos de estar, o imposs\u00edvel se torna poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Hoje, depois de tantos anos formulando e lidando com essas inquieta\u00e7\u00f5es, fa\u00e7o quest\u00e3o de estar atenta \u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e cr\u00edtica feita por mulheres. Mas \u00e9 fato que grande parte desse acompanhamento se d\u00e1 de maneira n\u00e3o institucionalizada, para al\u00e9m do universo acad\u00eamico. O que quero dizer com isso \u00e9 que \u00e9 preciso que eu fa\u00e7a um esfor\u00e7o para chegar \u00e0 Literatura e \u00e0 cr\u00edtica liter\u00e1ria produzida por mulheres, pois n\u00f3s ainda ocupamos um espa\u00e7o reduzido na academia. Uma s\u00e9rie de iniciativas, como o pr\u00f3prio Mulherio, nos ajudam a acessar esse tipo de conte\u00fado produzido por mulheres. Al\u00e9m disso, a pesquisa formal, nas bibliotecas, e a informal, em passeios despretensiosos por livrarias, n\u00e3o me deixam perder de vista que a cada homem que tenho a chance de ler, pois seu livro est\u00e1 exposto na vitrine, existe provavelmente uma mulher contempor\u00e2nea a ele que n\u00e3o teve oportunidades igualit\u00e1rias de ter seu trabalho divulgado.<\/p>\n<p>E com isso retorno aos nossos dias presentes e penso que, quando o trabalho das mulheres em geral \u00e9 diminu\u00eddo at\u00e9 mesmo por um candidato \u00e0 presid\u00eancia do Brasil \u2013 e, infelizmente, isso provavelmente n\u00e3o o far\u00e1 perder uma elei\u00e7\u00e3o \u2013, estamos diante de um cen\u00e1rio pouco animador. Pesquisas realizadas recentemente, em 2017 e 2018, pela ag\u00eancia de empregos CATHO, mostram que ainda somos pior remuneradas em todas as \u00e1reas profissionais. Mulheres com ensino superior ganham ainda hoje um sal\u00e1rio 43,5% menor do que homens ocupando exatamente os mesmos cargos. Al\u00e9m disso, somos minoria em cargos importantes e de gest\u00e3o, e apenas aproximadamente 25% dos cargos de presid\u00eancia s\u00e3o ocupados por mulheres. Nem mesmo na \u00e1rea da Educa\u00e7\u00e3o, onde, como j\u00e1 vimos, somos maioria no ensino b\u00e1sico, essa disparidade salarial deixa de existir: as mulheres ainda recebem 9% a menos do que os homens<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>E obviamente nada disso est\u00e1 relacionado \u00e0 nossa menor capacidade de atua\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, as experi\u00eancias de trabalho tendem a ser melhores com mulheres ocupando cargos importantes, justamente porque precisamos nos preparar muito mais para fazer o que precisamos fazer, j\u00e1 que sabemos que seremos mais cobradas e mais questionadas por qualquer deslize cometido. E precisamos ainda demonstrar mais seriedade e compromisso com o trabalho, pois estamos sujeitas ao ass\u00e9dio moral e sexual recorrentes em ambientes de trabalho, inclusive dentro das universidades.<\/p>\n<p>\u00c9 diante desse cen\u00e1rio alarmante, entretanto, que nos refazemos. Somos mulheres, conhecemos desde sempre a for\u00e7a que nos habita e nos encoraja. Nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia \u00e9 um ato constante de resist\u00eancia e, por isso, os percal\u00e7os de um mundo dif\u00edcil de mudar n\u00e3o nos assusta. Estamos cercadas de boas companhias: boas companheiras de luta, boa literatura feita por mulheres, boas professoras, pesquisadoras e estudantes que hoje configuram uma gera\u00e7\u00e3o que se questiona sobre as reflex\u00f5es que tentei apresentar aqui hoje. A gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes meninas que vem por a\u00ed, por sua vez, est\u00e1 chegando ainda mais consciente de que ningu\u00e9m poder\u00e1 limitar sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Eu gostaria ent\u00e3o de terminar minha apresenta\u00e7\u00e3o com a leitura de um poema escrito pela poeta italiana Piera Oppezzo, falecida em 2009, que est\u00e1 recolhido no livro <em>Donne in<\/em> <em>poesia<\/em>, de 1976. Fiz essa tradu\u00e7\u00e3o h\u00e1 alguns meses quando a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o foi aprovada pelo Senado, na Argentina. Eu queria dizer para nossas hermanas, assim como eu gostaria de dizer aqui para todas n\u00f3s hoje, que nossa exist\u00eancia como mulheres \u00e9 a nossa maior for\u00e7a e que \u00e9 com os nossos medos, com os nossos fracassos e os nossos erros, que reconstru\u00edmos essa nossa for\u00e7a. Com ela, nos reinventamos e reinventamos, inclusive, nossa pr\u00f3pria esperan\u00e7a de que, um dia, um mundo menos desigual flores\u00e7a. Obrigada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">O grande medo, de Piera Oppezzo<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">A hist\u00f3ria da minha pessoa<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00e9 a hist\u00f3ria de um grande medo<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">de ser eu mesma,<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">contraposto ao medo de me perder de mim mesma,<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">contraposto ao medo do medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">N\u00e3o poderia ser diferente:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">na apreens\u00e3o se perde a mem\u00f3ria,<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">na submiss\u00e3o, tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">N\u00e3o poderia<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">a minha inf\u00e2ncia,<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">saqueada pela fam\u00edlia,<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">me permitir uma maturidade est\u00e1vel, concreta.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Nem a minha vida isolada<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">me permitir algo menos fr\u00e1gil<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">do que este debater-me entre \u00e2nsias e incertezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00c0 inf\u00e2ncia, eu sobrevivi,<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00c0 idade adulta, eu sobrevivi.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Quase nada em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Eu sobrevivi, no entanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">E agora, entre as ru\u00ednas do meu ser,<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Alguma coisa, uma utopia im\u00f3vel, est\u00e1 para florescer.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"http:\/\/portal.inep.gov.br\/artigo\/-\/asset_publisher\/B4AQV9zFY7Bv\/content\/mulheres-sao-maioria-na-educacao-superior-brasileira\/21206\">http:\/\/portal.inep.gov.br\/artigo\/-\/asset_publisher\/B4AQV9zFY7Bv\/content\/mulheres-sao-maioria-na-educacao-superior-brasileira\/21206<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/03\/19\/as-mulheres-dos-estudos-literarios-regina-dalcastagne\/\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/03\/19\/as-mulheres-dos-estudos-literarios-regina-dalcastagne\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autor-brasileiro\/\">https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autor-brasileiro\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/concursos-e-emprego\/noticia\/mulheres-ganham-menos-que-os-homens-em-todos-os-cargos-e-areas-diz-pesquisa.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/economia\/concursos-e-emprego\/noticia\/mulheres-ganham-menos-que-os-homens-em-todos-os-cargos-e-areas-diz-pesquisa.ghtml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <a href=\"https:\/\/internopoesia.com\/2014\/09\/09\/piera-oppezzo\/\">https:\/\/internopoesia.com\/2014\/09\/09\/piera-oppezzo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, dia 26 de outubro de 2018, tive a honra e a alegria de participar de um encontro do Mulherio das Letras. Esse grupo de mulheres, que se auto-organizou em 2016\/2017 para dar voz \u00e0 literatura lida e escrita por mulheres, \u00e9 um dos movimentos mais lindos que j\u00e1 vi acontecer no Brasil. E poder &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/10\/27\/as-mulheres-dos-estudos-literarios-por-claudia-alves\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Literatura, Pol\u00edtica e Resist\u00eancia! 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