{"id":350,"date":"2019-01-28T12:37:28","date_gmt":"2019-01-28T14:37:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=350"},"modified":"2019-01-28T13:11:08","modified_gmt":"2019-01-28T15:11:08","slug":"odeio-os-indiferentes-de-gramsci-traducao-de-claudia-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2019\/01\/28\/odeio-os-indiferentes-de-gramsci-traducao-de-claudia-alves\/","title":{"rendered":"Odeio os indiferentes, de Gramsci (tradu\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udia Alves)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Nos \u00faltimos tempos, o nome do intelectual italiano Antonio Gramsci tem sido citado, assim como o de Marx, com grande frequ\u00eancia no Brasil. A ascens\u00e3o de um governo de direita e de seus seguidores, de vi\u00e9s assumidamente conservador, parece sustentar como base para sua legitima\u00e7\u00e3o popular o m\u00e9todo de difama\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que n\u00e3o est\u00e1 de acordo com a sua perspectiva. Dessa forma, tratar como amea\u00e7as a pluralidade de pensamento e a exist\u00eancia de ideologias \u00e9 algo que tem feito parte de tal estrat\u00e9gia . Mas por que ser\u00e1 que intelectuais de esquerda, como Gramsci, incomodam tanto assim? A provoca\u00e7\u00e3o desse questionamento, essencial \u00e0 sobreviv\u00eancia da reflex\u00e3o de tipo humanista, me levou a esse texto-manifesto de Gramsci, &#8220;Odeio os indiferentes&#8221;, de 1917. Nele, o intelectual reage \u00e0 apatia pol\u00edtica existente em momentos de crise, convocando<\/em> <em>sutilmente<\/em> <em>a popula\u00e7\u00e3o a tomar partido e a assumir responsabilidade pelos acontecimentos hist\u00f3ricos. Essa leitura ressou para mim muitas rela\u00e7\u00f5es entre a It\u00e1lia de 1917 e o Brasil de 2019, sobretudo por concordar que, diante de retrocessos, n\u00e3o podemos ficar indiferentes. E se a leitura de Gramsci \u00e9 algo que incomoda, ent\u00e3o certamente \u00e9 Gramsci que irei ler, traduzir e compartilhar cada vez mais. <\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/01\/Gramsci.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-351\" width=\"522\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/01\/Gramsci.jpg 696w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/01\/Gramsci-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 522px) 100vw, 522px\" \/><figcaption>&#8220;Estudem, porque precisaremos de toda a intelig\u00eancia de voc\u00eas&#8221;<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Odeio os indiferentes<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Antonio Gramsci (1891-1937)<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udia Tavares Alves<\/p>\n\n\n\n<p>Odeio os indiferentes. Acredito, assim como Federico Hebbel, que \u201cviver quer dizer ser partid\u00e1rio<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>\u201d. N\u00e3o podem existir apenas<em> homens<\/em>, estranhos \u00e0 cidade. <strong>Quem vive de verdade n\u00e3o pode n\u00e3o ser cidad\u00e3o e n\u00e3o tomar partido. Indiferen\u00e7a \u00e9 abulia, \u00e9 parasitismo, \u00e9 covardia, n\u00e3o \u00e9 vida.<\/strong> Por isso odeio os indiferentes. <\/p>\n\n\n\n<p>A indiferen\u00e7a \u00e9 o peso morto da\nhist\u00f3ria. \u00c9 a bola de chumbo de um inovador, \u00e9 a mat\u00e9ria inerte em que os entusiasmos\nmais espl\u00eandidos frequentemente se afogam, \u00e9 o p\u00e2ntano que cerca a velha cidade\ne a defende melhor do que os muros mais s\u00f3lidos, melhor do que o peito de seus\nguerreiros, porque deglute os assaltantes em seus po\u00e7os limosos, e os dizima e\nos abate e por vezes os faz desistir do feito heroico. <\/p>\n\n\n\n<p>A indiferen\u00e7a age potentemente na hist\u00f3ria. Age passivamente, mas age. \u00c9 a fatalidade; \u00e9 aquilo com que n\u00e3o se pode contar; \u00e9 aquilo que estraga os programas, que inverte os planos mais bem constru\u00eddos; \u00e9 a mat\u00e9ria bruta que se rebela contra a intelig\u00eancia e a estrangula. O que acontece, o mal que recai sobre todos, o bem poss\u00edvel que um ato heroico (de valor universal) pode gerar n\u00e3o se deve tanto \u00e0 iniciativa dos poucos que agem, mas \u00e0 indiferen\u00e7a, ao absente\u00edsmo de muitos. <strong>O que acontece n\u00e3o acontece porque alguns querem que aconte\u00e7a, mas porque a massa dos homens abdica \u00e0 sua vontade<\/strong>, deixa que fa\u00e7am, deixa que se agrupem os n\u00f3s que depois s\u00f3 a espada poder\u00e1 cortar, deixa que promulguem leis que depois s\u00f3 a revolta poder\u00e1 revogar, <strong>deixa que cheguem ao poder homens que depois s\u00f3 um motim poder\u00e1 derrubar<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>A fatalidade que parece dominar a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 outra coisa que n\u00e3o a apar\u00eancia ilus\u00f3ria dessa indiferen\u00e7a, desse absente\u00edsmo. Alguns fatos amadurecem \u00e0 sombra; poucas m\u00e3os n\u00e3o supervisionadas por nenhum controle tecem a teia da vida coletiva, e a massa n\u00e3o sabe, porque n\u00e3o se preocupa com isso. <strong>Os destinos de uma \u00e9poca s\u00e3o manipulados por vis\u00f5es restritas, escopos imediatos, ambi\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens n\u00e3o sabe, porque n\u00e3o se preocupa com isso.<\/strong> Mas os fatos amadurecidos d\u00e3o em algum lugar, a teia tecida \u00e0 sombra chega a um fim, e ent\u00e3o parece que a fatalidade est\u00e1 a abater tudo e todos, <strong>parece que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de um enorme fen\u00f4meno natural, uma erup\u00e7\u00e3o, um terremoto, do qual todos s\u00e3o v\u00edtimas, quem quis e quem n\u00e3o quis, quem sabia e quem n\u00e3o sabia, quem estava ativo e quem era indiferente<\/strong>. E esse \u00faltimo se irrita, querendo fugir das consequ\u00eancias, querendo deixar claro que ele n\u00e3o queria isso, que ele n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas ningu\u00e9m ou poucos se perguntam: <strong>se eu tamb\u00e9m tivesse cumprido com meu dever, se tivesse tentado fazer valer minha vontade, meu ponto de vista, teria acontecido o que aconteceu?<\/strong> Mas ningu\u00e9m ou poucos se culpam por sua indiferen\u00e7a, por seu ceticismo, por n\u00e3o ter estendido seu bra\u00e7o e suas atividades aos grupos de cidad\u00e3os que, justamente para evitar tal mal, combatiam, \u00e0 procura do bem a que se propunham.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre acontecimentos j\u00e1 conclu\u00eddos, a maioria dessas pessoas prefere falar em fracassos ideais, programas arruinados em definitivo e outras amenidades similares. Recome\u00e7am assim a se ausentar em rela\u00e7\u00e3o a qualquer responsabilidade. N\u00e3o que n\u00e3o vejam as coisas com clareza, que n\u00e3o sejam capazes de \u00e0s vezes apresentar boas solu\u00e7\u00f5es aos problemas mais urgentes ou \u00e0queles problemas que, por exigirem mais prepara\u00e7\u00e3o e tempo, s\u00e3o igualmente urgentes. Mas essas solu\u00e7\u00f5es permanecem amplamente infecundas, essa contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 vida coletiva n\u00e3o \u00e9 animada por alguma luz moral. Ela \u00e9 produto da curiosidade intelectual e n\u00e3o de um <strong>sentido pungente de responsabilidade hist\u00f3rica que quer todos ativos na vida, que n\u00e3o admite agnosticismos e indiferen\u00e7as de nenhum tipo<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>Odeio os indiferentes tamb\u00e9m por me entediarem com seu choramingo de eternos inocentes. Pe\u00e7o as contas a cada um deles sobre como cumpriram a miss\u00e3o que a vida lhes imp\u00f4s e lhes imp\u00f5e cotidianamente, sobre o que fizeram e especialmente sobre o que n\u00e3o fizeram. E sinto que posso ser inexor\u00e1vel, que n\u00e3o devo desperdi\u00e7ar minha piedade, que n\u00e3o devo dividir com eles as minhas l\u00e1grimas. Sou partid\u00e1rio, vivo, j\u00e1 <strong>sinto pulsar nas consci\u00eancias viris da causa que escolhi a cidade futura que essa causa est\u00e1 construindo<\/strong>. E nela a cadeia social n\u00e3o pesa sobre poucos, nela <strong>cada coisa que acontece n\u00e3o \u00e9 por acaso, por fatalidade, mas pela a\u00e7\u00e3o inteligente dos cidad\u00e3os<\/strong>. N\u00e3o h\u00e1 nela ningu\u00e9m que esteja na janela s\u00f3 olhando enquanto poucos se sacrificam, sangram em sacrif\u00edcio; e aquele que estiver na janela, em uma emboscada, querer\u00e1 usufruir do pouco bem que o trabalho de poucas pessoas tentou realizar e descontar\u00e1 a sua desilus\u00e3o insultando o sacrificado, o sangrado, porque n\u00e3o conseguiu cumprir seu objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivo, sou partid\u00e1rio. Por isso\nodeio quem n\u00e3o toma partido, odeio os indiferentes. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:right\">11 de fevereiro de\n1917. <br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o a partir da vers\u00e3o\npublicada no livro <em>Odio gli indifferenti<\/em>\n(Mil\u00e3o: Chiarelettere Editore, 2018 [2011]).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Uma curiosidade: na cita\u00e7\u00e3o utilizada por Gramsci, em italiano, a palavra que aparece \u00e9 <em>partigiano<\/em>. Historicamente, esse termo se tornou mais conhecido com a Resist\u00eancia Italiana ao fascismo. Durante as ocupa\u00e7\u00f5es ocorridas de 1939 a 1945, na Segunda Guerra Mundial, <em>partigiano<\/em> era aquele que combatia contra os ex\u00e9rcitos fascistas. Por\u00e9m, no contexto em que o texto de Gramsci foi escrito, em 1917, tal termo foi utilizado no sentido de tomar parte, tomar partido a favor de determinada causa, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de ser indiferente a algo [nota da tradutora]. <\/p>\n\n\n\n\n\n<p>.&nbsp;&nbsp; \n\n\n\n\n\n\n\n\n\n<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos, o nome do intelectual italiano Antonio Gramsci tem sido citado, assim como o de Marx, com grande frequ\u00eancia no Brasil. 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