{"id":357,"date":"2019-02-04T12:36:05","date_gmt":"2019-02-04T14:36:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=357"},"modified":"2019-02-08T10:43:53","modified_gmt":"2019-02-08T12:43:53","slug":"um-quase-relato-de-uma-viagem-uma-experiencia-um-livro-por-daisa-rossetto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2019\/02\/04\/um-quase-relato-de-uma-viagem-uma-experiencia-um-livro-por-daisa-rossetto\/","title":{"rendered":"Um quase relato de uma viagem, uma experi\u00eancia, um livro&#8230;, por Da\u00edsa Rossetto"},"content":{"rendered":"\n<p>A escrita de um livro pode ter muitos pontos de\npartida: um acontecimento pessoal, uma cria\u00e7\u00e3o ficcional, uma encomenda\neditorial, e por a\u00ed vai. Quando conheci a escritora Da\u00edsa Rossetto, essa foi a\npergunta que quis fazer a ela \u2013 afinal, qual foi o ponto de partida para voc\u00ea\nescrever seu livro <em>Quando o vento sopra\nem Israel<\/em> (2018)? E a resposta dela foi: uma viagem de 12 dias por Israel\npara, quem sabe, escrever um livro. Para contar essa hist\u00f3ria surpreendente,\nconvidei Da\u00edsa para compartilhar seu relato com o blog Marca P\u00e1ginas. Ela topou\ne eu s\u00f3 posso lhe agradecer por se dispor a contar sua experi\u00eancia de forma t\u00e3o\nsens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00edsa Rossetto \u00e9 mestra e graduada em Direito, pela\nUniversidade de Caxias do Sul, com a disserta\u00e7\u00e3o \u201cA rela\u00e7\u00e3o entre direito e\nliteratura \u00e0 conflitante quest\u00e3o animal: uma an\u00e1lise dos personagens Flush e\nBaleia\u201d (2016), que relaciona Direito, Literatura e Animais com as obras <em>Vidas Secas<\/em> e <em>Flush, Mem\u00f3rias de um c\u00e3o<\/em>. Atualmente, \u00e9 doutoranda em Literatura\nde L\u00edngua Portuguesa pela Universidade de Coimbra. Participou da colet\u00e2nea <em>Outono Liter\u00e1rio: Mulherio em prosa e verso<\/em>\n(2018), do Mulherio das Letras Europa, e em breve ser\u00e1 lan\u00e7ada, pela Editora\nDesd\u00eamona, a colet\u00e2nea <em>As coisas que as\nmulheres escrevem<\/em>, da qual tamb\u00e9m faz parte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um\nquase relato de uma viagem, uma experi\u00eancia, um livro&#8230;, por Da\u00edsa Rossetto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei quantas vezes sentei em\nfrente ao computador com o objetivo de escrever sobre a aventura que foi ir\npara Israel em busca do que ent\u00e3o se tornou o meu primeiro livro publicado.\nDigo publicado porque eu poderia nadar num mar de escrituras. Escrevo infinitas\ncoisas que repousam calmamente nos arquivos de um computador que, j\u00e1 cansado, ainda\nresiste na fun\u00e7\u00e3o de arquivista de uma crescente pilha de pastas com datas ( \/\n\/ ), de ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltando ao assunto, em linhas\ngerais foi assim: em meados de 2017, fui convidada para acompanhar um grupo de\nfil\u00f3sofos e fil\u00f3sofos cl\u00ednicos a uma viagem de estudos que se realiza todos os anos\nem algum lugar do mundo e que naquele ano foi em Israel. O objetivo era que a\nviagem pudesse tamb\u00e9m prosperar atrav\u00e9s de uma obra liter\u00e1ria, pessoal,\nautoral. Sendo assim, n\u00e3o me era exigida qualquer obriga\u00e7\u00e3o de escrita, apenas\nque eu pudesse me transpor livre para desenhar as palavras que quisesse e como\nquisesse. Fiquei honrada com o convite, mas, num primeiro momento, n\u00e3o achei\nque se concretizaria. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/capa-1-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-361\" width=\"342\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/capa-1-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/capa-1-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/capa-1-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/capa-1.jpg 827w\" sizes=\"(max-width: 342px) 100vw, 342px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>No entanto, conversa vai, conversa\nvem, ficou decidido: eu iria para Israel. A prepara\u00e7\u00e3o que fiz para a viagem foi\num tanto diferente do que se espera de um viajante que re\u00fane o m\u00e1ximo de\ninforma\u00e7\u00f5es poss\u00edveis sobre o futuro destino. O que fiz foi ler o livro de\n\u00c9rico Ver\u00edssimo, <em>Israel em abril<\/em> e,\npor garantia e quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, pesquisar op\u00e7\u00f5es de comida vegana l\u00e1. Comprei\num caderno e testei v\u00e1rias canetas que foram divididas entre bolsa, mochila e\nmala. Foi isso.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img decoding=\"async\" width=\"225\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/Da\u00edsa-225x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-358\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/Da\u00edsa-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/Da\u00edsa.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption>Da\u00edsa Rossetto. Foto por Michelle Csordas<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Havia algumas semanas at\u00e9 a viagem,\nmas nesta altura j\u00e1 estava eu em Israel, cheguei l\u00e1 antes dos meus p\u00e9s. Comecei\na vivenciar Israel ali, num pequeno peda\u00e7o de mundo onde se mora depois de onde\nos olhos alcan\u00e7am. Comecei a escrever antes de partir, escrevi sentada na mesa\nda cozinha enquanto minha m\u00e3e preparava o almo\u00e7o, escrevi num caf\u00e9 em Gramado,\nescrevi no aeroporto. Continuo escrevendo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o sei dizer quantas horas\nandei pelas ruas da pequena cidade de Nonoai (RS), olhando para o c\u00e9u azul e\nespreitando os filhotes de coruja, imaginando como era o c\u00e9u nas margens do\nmediterr\u00e2neo; as hist\u00f3rias dos olhos n\u00e3o estranhos dos estranhos; esperando\npelo vento para empurrar meus olhos para o topo de onde as t\u00e2maras doces mudam de\ncor. N\u00e3o tive medo algum de escrever nem receio de ser atingida pelo branco que\nacinzenta as m\u00e3os dos escritores que ficam sem saber o que dizer. Em\ncontrapartida, n\u00e3o sei quantas vezes senti as fisgadas da d\u00favida sobre escrever\nsobre Israel quando eu, desde antes, esperava conhecer o outro lado do muro \u2013 a\nPalestina (sim, desde o tempo em que eu imaginava seria a jornalista\ncorrespondente \u2013 mas abandonei o curso cedo demais).<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro, embarquei num avi\u00e3o com\nconex\u00e3o em Istambul e destino Tel Aviv. \u00c9 verdade, a aventura j\u00e1 tinha come\u00e7ado\nmuito tempo antes. No entanto, chegar e estar num lugar t\u00e3o diferente e ao\nmesmo tempo t\u00e3o igual foi uma oportunidade de abrir meus olhos mais um pouco\npara perceber que as respostas certas n\u00e3o existem. Existe sempre um \u00e2mago mais\nprofundo entrela\u00e7ado a outras coisas que podem ser chamadas de quest\u00f5es \u2013 mas\neu n\u00e3o gosto desse termo; diria outros reflexos da vida, talvez&#8230; (quem sabe\nseja isso o que se chama de complexidade).<\/p>\n\n\n\n<p>Na primeira noite no Hotel de Tel\nAviv, eu n\u00e3o conseguia dormir (\u201co que eu t\u00f4 fazendo aqui?\u201d, pensava) e ent\u00e3o no\nescuro peguei o celular e escrevi: \u201cSenti medo deste mundo por onde meus p\u00e9s se\naventuram carregando um peda\u00e7o de mim que \u00e9 toda de sonho&#8230; Quis chorar pelo\ndesconhecido que me abra\u00e7a e no meio da noite me rouba o sono desperto em\nansiedade&#8230; Penso nos primeiros p\u00e1ssaros que vi aqui e sinto outra vez a brisa\nquente da terra que me foi prometida, choro emocionada com tudo que \u00e9 mundo e\nque pode ser concreto em minha m\u00e3o&#8230; Acalmo no peito esse futuro insol\u00favel que\nnum recado alerta que existe uma miss\u00e3o&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada vez que escrevo me salvo, me\ncuro. Escrever ali n\u00e3o era obriga\u00e7\u00e3o nenhuma, era oportunidade de escrever se\nhouvesse algo a escrever. E eu descobri coisas que me levaram a isso, tais como\nsentir o vento e ter paz, ver o sol se pondo e sentir que se est\u00e1 em casa, que\nqualquer lugar pode ser casa&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei 12 dias em Israel, acompanhei\no curso na Universidade Hebraica, escutei sobre mentes incr\u00edveis, ouvi\npensadores lamentarem a tens\u00e3o e o conflito na regi\u00e3o. Reparei em quem ia e\nvinha nos corredores e nas ruas. Estive distraidamente atenta a tudo que estava\na minha volta, deixei-me viver e deixei que tudo fosse como quisesse ser. Israel\nfoi flor, mas como flor n\u00e3o escondeu os espinhos que machucam os olhos. Eu os\nsinto quando tomo a forma de um muro que vi desenhado no horizonte de um mesmo\nsolo. Talvez, n\u00e3o sei concluir, no solo sagrado a irriga\u00e7\u00e3o vem das \u00e1guas do\nmar, mas tamb\u00e9m vem do sangue. Ainda \u00e9 penit\u00eancia reconhecer o qu\u00e3o perto\nestavam as armas, t\u00e3o perto de quem \u00e9 julgado por ser diferente. Ainda \u00e9\npenit\u00eancia pedir paz com guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem religi\u00e3o ou devo\u00e7\u00e3o a algo, vivi\nemo\u00e7\u00f5es singulares ao sentir emo\u00e7\u00e3o a partir da emo\u00e7\u00e3o dos outros. Foi assim\nquando me deparei com a gente chorando comovida pelas margens do Mar da\nGalileia \u2013 (quem era aquele mar?). Entendi o que era sagrado quando, chegada a\nhora, as portas dos com\u00e9rcios da cidade murada se fechavam e atr\u00e1s delas o\ntapete se estendia e os joelhos se dobravam. Todas as hist\u00f3rias do imagin\u00e1rio\ninfantil plantadas na escola de repente viravam cen\u00e1rio para o gato que se\naquietava sentado \u00e0s margens de um leito corrente de pessoas, os corredores com\nsa\u00eddas marcadas em que s\u00f3 o bicho sabia onde estava. E as hist\u00f3rias em\ndesfechos de \u00e9pocas. Tempos sobrepostos em tempos. Nenhuma coisa nem outra, um\npouco de tudo. E o mar, os ares, a areia, as voltas em avenidas vestidas em\narte e as livrarias erguidas num idioma que n\u00e3o deduzo.&nbsp; E o fim do dia sagrado e o dia sem trabalho e\nos goles de vinho e as caminhadas noturnas. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img decoding=\"async\" width=\"225\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/Israel-225x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-359\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/Israel-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/02\/Israel-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption>Foto por Da\u00edsa Rossetto<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em cada chegada acalmei meus p\u00e9s e\ndescansei meus olhos, tentei respeitar cada canto para ent\u00e3o ouvir tudo aquilo que\nse lan\u00e7ava ao pr\u00f3prio gosto de ser invis\u00edvel. Cada relato que posso fazer desta\nexperi\u00eancia acaba por me levar a outros becos labir\u00ednticos. N\u00e3o se esgotam. Reavivam\ne descobre-se qualquer outra coisa outra vez, pela primeira vez.&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Depois de 12 dias voei para Portugal.\nEscrevi um livro a partir daquilo que tinha anotado em mim e usei as anota\u00e7\u00f5es\nque ainda faziam sentido do caderno verde \u2013 companheiro de viagem. Passado\nquase um ano depois de ter <em>terminado<\/em>\no livro, consigo quase perceber o qu\u00e3o natural foi desenha-lo. Alguns epis\u00f3dios,\nsem d\u00favida, hoje me deixam em ranhuras, entre eles o fato do meu primeiro livro\nter Israel no t\u00edtulo e como isso pode ser lido como uma insensibilidade. N\u00e3o\nsou indiferente a quem est\u00e1 sofrendo. N\u00e3o defendo estado de opress\u00e3o, nem fecho\nos olhos para quem \u00e9 roubado de suas terras, de suas cren\u00e7as, das pr\u00f3prias\nviv\u00eancias e da pr\u00f3pria vida. A verdade \u00e9 que chego a lamentar ter escrito esse\nlivro cada vez que me encontro com o que est\u00e3o fazendo com o povo da Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o livro que escrevi n\u00e3o \u00e9 sobre\num pa\u00eds, nem um arremesso de confetes a ele. \u00c9 um relato de quem se lan\u00e7ou ao\nmundo e descobriu um pouco de si. Hoje o livro n\u00e3o \u00e9 mais meu, tem vontade\npr\u00f3pria, \u00e9 o que quiser ser e de quem o quiser tomar para alguma coisa. A\npartir da experi\u00eancia de escrita descobri uma fra\u00e7\u00e3o da minha escrita, tive\nli\u00e7\u00f5es valiosas sobre a minha forma de ditar palavras. Fiz sem receio de quem\niria ler ou se quem o lesse iria gostar ou n\u00e3o. Esse livro me ensinou a\nescrever. Mas, claro, eu sei que ainda n\u00e3o o sei de todo e talvez nunca o saiba&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se fechei os olhos ou se abri\nolhos outros enquanto escrevi tais p\u00e1ginas. O que sei \u00e9 que para quem o\nescreveu s\u00f3 escrever importava. Ainda \u00e9 assim, escrever importa. Publicar, ser lida,\nser vista ou notada, vender exemplares, isso fica pra depois&#8230; O que espero\ncontinuar fazendo \u00e9 escrever. No tempo de escrever o que for preciso escrever, mesmo quando o computador n\u00e3o aguentar mais arquivar. <\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Para comprar <em>Quando o vento sopra em Israel<\/em>: <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre em uma nova aba)\" href=\"https:\/\/www.editoramikelis.com\/produto\/quando-o-vento-sopra-em-israel\/\" target=\"_blank\">https:\/\/www.editoramikelis.com\/produto\/quando-o-vento-sopra-em-israel\/<\/a><\/li><li>Para conhecer outros escritos de Da\u00edsa Rossetto: <a href=\"https:\/\/www.daisarossetto.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre em uma nova aba)\">https:\/\/www.daisarossetto.com.br\/<\/a> <\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escrita de um livro pode ter muitos pontos de partida: um acontecimento pessoal, uma cria\u00e7\u00e3o ficcional, uma encomenda editorial, e por a\u00ed vai. 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