{"id":365,"date":"2019-03-25T19:14:55","date_gmt":"2019-03-25T22:14:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=365"},"modified":"2019-04-02T19:00:07","modified_gmt":"2019-04-02T22:00:07","slug":"um-passeio-pelas-sensacoes-do-inferno-na-divina-comedia-por-lais-pereira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2019\/03\/25\/um-passeio-pelas-sensacoes-do-inferno-na-divina-comedia-por-lais-pereira\/","title":{"rendered":"Um passeio pelas sensa\u00e7\u00f5es do Inferno n&#8217;A Divina Com\u00e9dia, por La\u00eds Pereira"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">O Marca P\u00e1ginas abre espa\u00e7o para receber a contribui\u00e7\u00e3o de La\u00eds Pereira, graduada em Letras e graduanda em Estudos Liter\u00e1rios pela Unicamp, sobre um campo de pesquisa conhecido como Materialidades da Comunica\u00e7\u00e3o. La\u00eds traz ainda um trecho do poema italiano <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Divina Com\u00e9dia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">para mostrar como essa teoria pode ser aplicada \u00e0 an\u00e1lise de uma obra liter\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse \u00e9 mais um exemplo do tipo de pesquisa que tem sido desenvolvida no Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, na \u00e1rea dos Estudos Liter\u00e1rios. Obrigada, La\u00eds, por sua contribui\u00e7\u00e3o e boa leitura a todas e todos! <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>Um passeio pelas sensa\u00e7\u00f5es do Inferno n&#8217;<\/b><b><i>A<\/i><\/b> <b><i>Divina Com\u00e9dia<\/i><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><i><span style=\"font-weight: 400\"> La\u00eds Souza Toledo Pereira<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Voc\u00ea j\u00e1 sentiu um arrepio escutando alguma m\u00fasica, mesmo sem entender muito bem o que estava sendo cantado ou apenas tocado? E ao ouvir algu\u00e9m recitar um poema ou ler algum romance, voc\u00ea j\u00e1 sentiu algo parecido? Existem textos que te deixam alegre ou triste sem voc\u00ea saber explicar exatamente o porqu\u00ea?<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_371\" aria-describedby=\"caption-attachment-371\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-371 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Dante.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"235\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-371\" class=\"wp-caption-text\">O escritor italiano Dante Alighieri (1265-1321)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando pensamos no estudo de um texto liter\u00e1rio, geralmente imaginamos que o pesquisador vai l\u00ea-lo e propor uma\u00a0 interpreta\u00e7\u00e3o a ele, ou seja, vai investigar e analisar um ou v\u00e1rios sentidos desse texto. Em muitos casos, talvez na maioria deles, \u00e9 isso que acontece mesmo. No entanto, um pesquisador alem\u00e3o chamado Hans Ulrich Gumbrecht prop\u00f4s, na d\u00e9cada de 1980, uma nova forma de olhar para esse m\u00e9todo interpretativo. Segundo Gumbrecht, pesquisadores de ci\u00eancias humanas poderiam, mais do que apenas interpretar textos liter\u00e1rios, m\u00fasicas, filmes, pinturas etc., tamb\u00e9m se preocupar com os efeitos que essas obras causariam no corpo de leitores e espectadores (como um arrepio), assim como com as sensa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conseguimos captar ou explicar apenas por meio da linguagem (por exemplo, n\u00e3o saber dizer o motivo de um texto nos deixar alegres ou tristes). \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foi com essa proposta que Gumbrecht fundou, no departamento de literatura comparada da Universidade de Stanford, o campo te\u00f3rico ou a linha de pesquisa das Materialidades da Comunica\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio termo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">materialidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 uma refer\u00eancia a esse universo do que \u00e9 material, concreto, f\u00edsico, distanciando-se do que seria considerado mais abstrato, como a busca pelos sentidos. Essa ideia indica quais s\u00e3o os interesses dessa outra forma de compreender as coisas do mundo, apontando para uma mudan\u00e7a de paradigma nos estudos culturais e liter\u00e1rios. Por\u00e9m, se a busca pelo sentido n\u00e3o \u00e9 o objetivo principal desse novo campo te\u00f3rico, como ent\u00e3o relacion\u00e1-lo \u00e0s obras de arte? \u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_368\" aria-describedby=\"caption-attachment-368\" style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-368 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Gumbrecht.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"173\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-368\" class=\"wp-caption-text\">Hans Ulrich Gumbrecht<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para responder a essa pergunta, o pesquisador desenvolveu a no\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">atmosfera<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, partindo da palavra alem\u00e3 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Stimmung<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. E, apesar de essa n\u00e3o ser uma palavra t\u00e3o assustadoramente grande quanto outras palavras do idioma, esse \u00e9 um termo complexo, j\u00e1 que, dentro dele, h\u00e1 dois sentidos que a simples tradu\u00e7\u00e3o para a palavra <em>atmosfera<\/em>, em portugu\u00eas, n\u00e3o consegue captar. Gumbrecht sugere, tendo em mente a tradu\u00e7\u00e3o do termo para o ingl\u00eas, que uma forma de entender o conceito de atmosfera seria juntar os significados das palavras <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mood<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">climate<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mood<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> se referiria a uma sensa\u00e7\u00e3o interior, um humor interno, um estado de esp\u00edrito individual e subjetivo de dif\u00edcil delimita\u00e7\u00e3o. J\u00e1 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">climate<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, por outro lado, indicaria um fen\u00f4meno externo, algo objetivo, que est\u00e1 ao redor das pessoas e exerce alguma influ\u00eancia coletiva e f\u00edsica sobre elas. Assim, o pesquisador delimita que o seu interesse de pesquisa \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a essas atmosferas absorvidas pelas obras de arte e aos efeitos que elas podem causar no nosso corpo (ideia a que ele dar\u00e1 o nome de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">efeitos de presen\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esses conceitos podem parecer complicados, mas \u00e9 interessante notar como a gente j\u00e1 acaba usando, \u00e0s vezes sem perceber, ideias parecidas com eles no nosso cotidiano. Acontece quando dizemos, por exemplo, que um conto ou um filme de terror tem uma <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">atmosfera sinistra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">um clima tenso<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 ali um elemento espec\u00edfico e isolado que explique o sentido dessa sensa\u00e7\u00e3o. Outra situa\u00e7\u00e3o similar acontece quando dizemos que um cantor ou uma atriz tem <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">presen\u00e7a de palco<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Novamente, com essa express\u00e3o queremos dizer que fomos tocados de alguma forma e, mesmo que n\u00e3o saibamos explicar muito bem o que aconteceu para sermos tocados, percebemos que o nosso corpo foi afetado por sensa\u00e7\u00f5es causadas pela obra e por sua execu\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vejamos ent\u00e3o um exemplo concreto para nos ajudar a entender melhor essa ideia no campo dos estudos liter\u00e1rios. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar do poema <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Divina Com\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">? Ele foi escrito por Dante Alighieri por volta do ano de 1300 e, segundo estudiosos e cr\u00edticos, teria sido um texto fundador da no\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">homem moderno<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, por deslocar o centro das discuss\u00f5es intelectuais de um universo de controle e certeza, ligado a Deus e \u00e0 religi\u00e3o, para um homem questionador, insubmisso, para quem o mundo \u00e9 inst\u00e1vel e repleto de d\u00favidas \u00e9ticas. Na obra, o escritor criou, de acordo com sua autoria, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">um<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Inferno, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">um<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Purgat\u00f3rio e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">um <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Para\u00edso, e distribuiu nesses espa\u00e7os pessoas famosas \u2013 como escritores e papas \u2013 e tamb\u00e9m pessoas que ele chegou a conhecer pessoalmente. No livro, essas esferas inventadas seriam visitadas pelo pr\u00f3prio Dante, ainda em vida, transformando o escritor no personagem protagonista de sua obra. No Inferno e no Purgat\u00f3rio, ele seria guiado pelo poeta cl\u00e1ssico Virg\u00edlio. Posteriormente, no Para\u00edso, estaria acompanhado de sua amada, Beatriz. Dessa forma, o livro \u00e9 dividido em 3 partes, que por sua vez est\u00e3o organizadas em 100 cantos no total.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vamos ent\u00e3o conhecer um trecho do Inferno visitado por Dante e pensar como a ideia de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">atmosfera <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">pode nos ajudar a propor uma poss\u00edvel leitura para a obra italiana. De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, o Inferno foi criado pela queda de L\u00facifer, um anjo rebelde que foi expulso do Para\u00edso por querer construir seu trono acima de Deus. A queda desse anjo teria dado ao Inferno um formato de funil e o pr\u00f3prio L\u00facifer ficaria, a partir de ent\u00e3o, no centro da Terra. Dante seguiu essa tradi\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o ao compor o seu Inferno e dividiu a imagem do funil em c\u00edrculos, somando nove no total. Seguindo uma hierarquia conforme a gravidade dos pecados, o poeta colocou em cada c\u00edrculo um tipo de pecador, sendo que os piores pecadores s\u00e3o aqueles localizados mais pr\u00f3ximos ao 9\u00ba c\u00edrculo.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_369\" aria-describedby=\"caption-attachment-369\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-369\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Inferno-Gustave-Dore-300x210.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Inferno-Gustave-Dore-300x210.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Inferno-Gustave-Dore-768x537.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Inferno-Gustave-Dore.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-369\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o do Inferno por Gustave Dor\u00e9<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pensando nessa classifica\u00e7\u00e3o, acredito que seja poss\u00edvel dizer que Dante atribuiu a cada c\u00edrculo uma <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">atmosfera<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> diferente e, mais do que isso, a atmosfera (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">climate<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) de cada um desses lugares \u00e9 de alguma forma parecida com o estado de esp\u00edrito (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mood<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) dos pecadores que se encontram ali. Para tornar isso mais claro, vejamos, por exemplo, o que acontece no segundo c\u00edrculo do Inferno, apresentado no Canto V do livro. Nesse c\u00edrculo, est\u00e3o os pecadores luxuriosos e pode-se dizer que \u00e9 nele que come\u00e7a realmente o Inferno[1].<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> Os versos desse canto, que v\u00e3o do 25 ao 45, s\u00e3o comumente conhecidos como \u201cos da tempestade e os luxuriosos\u201d ou da \u201cventania\u201d. No trecho a seguir, podemos visualizar melhor essa ideia:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os tristes sons come\u00e7o a perceber<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Do lugar aonde eu vim, onde queixume<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E muito pranto v\u00eam me acometer<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vim a um lugar mudo de todo lume<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Que muge como mar que, em gr\u00e3 tormenta,<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De opostos ventos o conflito assume. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A procela infernal, que nunca assenta, <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essas almas arrasta em sua rapina, <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Volteando e percutindo as atormenta. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando chegam em face \u00e0 ru\u00edna,<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A\u00ed pranto e lamento e dor clamante,<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A\u00ed blasf\u00eamias contra a lei divina.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entendi que essa \u00e9 a pena resultante<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Da transgress\u00e3o carnal, que desafia<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A raz\u00e3o, e a submete a seu talante. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como estorninhos que, na esta\u00e7\u00e3o fria, <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Suas asas v\u00e3o levando, em chusma plena,<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aqui as almas carregam a ventania,<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E a revolver pra c\u00e1 e pra l\u00e1 as condena;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nem a esperan\u00e7a lhes concede alento,<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o j\u00e1 de pouso, mas de menor pena.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A <em>atmosfera<\/em> desse trecho tem justamente a ver com essas formas pelas quais ele ficou conhecido, isto \u00e9, uma atmosfera de tempestade, de agita\u00e7\u00e3o, de perturba\u00e7\u00e3o. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">climate<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> em que os pecadores est\u00e3o envolvidos corresponde por sua vez ao <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mood<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> deles, e as almas nesse local s\u00e3o arrastadas para c\u00e1 e para l\u00e1 por uma tempestade, uma ventania. S\u00e3o levadas por uma for\u00e7a que elas n\u00e3o conseguem controlar, da mesma forma como o nosso esp\u00edrito \u00e9 arrastado quando arrebatado por uma paix\u00e3o e a raz\u00e3o se submete aos desejos. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa atmosfera de perturba\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m refor\u00e7a a d\u00favida que Dante apresenta, no Canto V, ao conversar com Paolo e Francesca, um casal de amantes impossibilitados de viver esse relacionamento em vida devido \u00e0s suas rela\u00e7\u00f5es familiares. S\u00e3o, por causa desse amor proibido e do pecado do adult\u00e9rio, condenados como luxuriosos e passam a viver na ventania do Inferno. \u00c9 poss\u00edvel perceber que Dante, por sua vez, n\u00e3o condena facilmente os luxuriosos diante dessa narrativa, diferentemente do que faz com os indiferentes[2].<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> Por isso n\u00f3s, leitoras e leitores, nos vemos diante de alguns questionamentos suscitados por sua descri\u00e7\u00e3o: as pessoas que cometem trai\u00e7\u00f5es merecem mesmo uma penit\u00eancia t\u00e3o dura? O pecado delas poderia ter sido simplesmente amar? E esse amor, n\u00e3o poderia ser entendido ent\u00e3o como uma virtude, inclusive criadora da vida? Mesmo na concep\u00e7\u00e3o crist\u00e3, para que os indiv\u00edduos deem vida a outros indiv\u00edduos, isto \u00e9, para procriarem, \u00e9 a for\u00e7a do amor de Deus que deve entrar em seus corpos e estimular uma a\u00e7\u00e3o. Por que ent\u00e3o n\u00e3o entender o amor que motiva essas trai\u00e7\u00f5es amb\u00edguas como um amor ao mesmo tempo humano e sublime?<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_370\" aria-describedby=\"caption-attachment-370\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-370\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Francesca-e-Paolo-Gustave-Dore\u0301-814x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"503\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Francesca-e-Paolo-Gustave-Dore\u0301-814x1024.jpeg 814w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Francesca-e-Paolo-Gustave-Dore\u0301-238x300.jpeg 238w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Francesca-e-Paolo-Gustave-Dore\u0301-768x966.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/03\/Francesca-e-Paolo-Gustave-Dore\u0301.jpeg 1936w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-370\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Francesca e Paolo por Gustave Dor\u00e9<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dante coloca as quest\u00f5es, mas n\u00e3o d\u00e1 as respostas. Entretanto, foi suscitando d\u00favidas como essas e criando atmosferas e sensa\u00e7\u00f5es (talvez mais do que delimitando significados n\u00edtidos para os sentimentos e os ambientes descritos) que, com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">Divina Com\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, n\u00e3o apresentou um texto moralista (no mau sentido da palavra), mas sim contribuiu para alterar a forma como a humanidade era entendida. Mais do que isso, foi um dos fundadores, na literatura, da ideia do homem moderno; esse homem em crise, questionador do mundo e de si, inst\u00e1vel e cheio de d\u00favidas \u00e9ticas, pois n\u00e3o estaria mais submisso \u00e0 rigidez da l\u00f3gica divina. A humanidade, enfim, como a entendemos hoje. E \u00e9 gra\u00e7as a novos m\u00e9todos de an\u00e1lise, como o das Materialidades da Comunica\u00e7\u00e3o, e \u00e0 grandeza de uma obra como essa que ainda hoje temos muito o que pensar e dizer sobre literatura.<\/span><\/p>\n<p>[1] <span style=\"font-weight: 400\">Antes, Dante havia passado por uma esp\u00e9cie de antessala do Inferno \u2013 um lugar especialmente horr\u00edvel onde est\u00e3o os indiferentes \u2013 \u00a0e pelo Limbo \u2013 um lugar mais bacana, onde est\u00e3o pessoas virtuosas que n\u00e3o s\u00e3o punidas, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o podem entrar no Para\u00edso por n\u00e3o terem sido batizadas. Virg\u00edlio, por exemplo, habita um castelo que fica dentro desse c\u00edrculo, junto de outros grandes pensadores.<\/span><\/p>\n<p>[2] <span style=\"font-weight: 400\">O filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As Pontes de Madison<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, dirigido por Clint Eastwood e protagonizado por ele e por Meryl Streep, \u00e9 inspirado nessa cena de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Divina Com\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e, na minha opini\u00e3o, capta bem essa atmosfera tempestuosa, mais de d\u00favida do que de condena\u00e7\u00e3o, que envolve a rela\u00e7\u00e3o entre os amantes. Vale a pena assistir, mas n\u00e3o se esque\u00e7a de separar um lencinho. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Sugest\u00f5es de aprofundamento <\/b><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">A Divina Com\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Dante Alighieri [Tradu\u00e7\u00e3o, coment\u00e1rios e notas de Italo Eugenio Mauro; pref\u00e1cio de Otto Maria Carpeaux. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2016]. <\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Atmosfera, ambi\u00eancia, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Stimmung<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">: sobre um potencial oculto da literatura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Hans Ulrich Gumbrecht [Tradu\u00e7\u00e3o de Ana Isabel Soares. Rio de Janeiro: Contraponto\/Editora PUC Rio, 2014]. <\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Em 2018, foi publicada uma entrevista da Dra. Luciana Molina Queiroz com o Prof. Hans Ulrich Gumbrecht na Revista Remate de Males do IEL (Unicamp): <\/span><a href=\"https:\/\/periodicos.sbu.unicamp.br\/ojs\/index.php\/remate\/article\/view\/8652568\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/periodicos.sbu.unicamp.br\/ojs\/index.php\/remate\/article\/view\/8652568<\/span><\/a><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><span style=\"font-weight: 400\">Em 2017, o Dr. Matheus de Brito deu uma entrevista ao Prof. F\u00e1bio Dur\u00e3o no programa Pesquisa em Pauta, pela TV Unicamp, na qual ele fala sobre sua tese de doutorado acerca das Materialidades da Literatura: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dPntdvQmjCM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dPntdvQmjCM<\/a>\u00a0<\/span><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Marca P\u00e1ginas abre espa\u00e7o para receber a contribui\u00e7\u00e3o de La\u00eds Pereira, graduada em Letras e graduanda em Estudos Liter\u00e1rios pela Unicamp, sobre um campo de pesquisa conhecido como Materialidades da Comunica\u00e7\u00e3o. La\u00eds traz ainda um trecho do poema italiano A Divina Com\u00e9dia para mostrar como essa teoria pode ser aplicada \u00e0 an\u00e1lise de uma &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2019\/03\/25\/um-passeio-pelas-sensacoes-do-inferno-na-divina-comedia-por-lais-pereira\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Um passeio pelas sensa\u00e7\u00f5es do Inferno n&#8217;A Divina Com\u00e9dia, por La\u00eds Pereira&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":397,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[27,22,25,26,53,20,23,21,4,19],"tags":[97,101,102,103,104,5,34,98,99,100],"class_list":["post-365","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artes","category-critica-literaria","category-humanidades","category-linguagem","category-literatura","category-mulheres-na-literatura","category-pesquisas-de-graduacao","category-pesquisas-de-pos-graduacao","category-sugestao-de-leitura","category-teoria-literaria","tag-a-divina-comedia","tag-analise-literaria","tag-atmosfera","tag-dante-alighieri","tag-gumbrecht","tag-literatura","tag-literatura-italiana","tag-materialidades-da-comunicacao","tag-materialidades-da-literatura","tag-teoria-literaria"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/397"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=365"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":376,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365\/revisions\/376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}