{"id":382,"date":"2019-04-02T05:14:54","date_gmt":"2019-04-02T08:14:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=382"},"modified":"2020-06-16T13:46:10","modified_gmt":"2020-06-16T16:46:10","slug":"a-viagem-de-pier-paolo-pasolini-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2019\/04\/02\/a-viagem-de-pier-paolo-pasolini-ao-brasil\/","title":{"rendered":"A viagem de Pier Paolo Pasolini ao Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Em mar\u00e7o de 1970, um avi\u00e3o vindo da It\u00e1lia, com destino a Argentina, fez um pouso de emerg\u00eancia na cidade de Recife, no litoral brasileiro. Nesse avi\u00e3o, viajavam Pier Paolo Pasolini e Maria Callas, ambos a caminho do Festival de Cinema de Mar del Plata, no qual apresentariam ao p\u00fablico o filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Medea <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1969). Pasolini havia escrito e dirigido o filme e Maria Callas, grande cantora l\u00edrica, havia atuado como a protagonista Medeia. Durante as poucas horas em que ficaram confinados ao aeroporto pernambucano, ambos tiveram as suas primeiras impress\u00f5es em territ\u00f3rio brasileiro. E dessa experi\u00eancia improv\u00e1vel, resultado de um pouso surpresa, veio a inspira\u00e7\u00e3o para que Pasolini, que al\u00e9m de cineasta era tamb\u00e9m poeta, escrevesse dois poemas sobre o pa\u00eds que ali conhecera: \u201cComunicato all\u2019Ansa (Recife)\u201d e \u201cIl piagnisteo di cui parlava Marx\u201d. E \u00e9<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0assim que o poeta descreve como se sentiu em sua chegada:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">no aeroporto em constru\u00e7\u00e3o, passando<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">diante de um grupo de oper\u00e1rios que trabalham, dos olhos<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">que se levantam aos passageiros<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u00c9 assim que o Brasil me sa\u00fada<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"font-weight: 400\">(<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Transumanar e organizzar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 1971; tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pasolini associa as suas primeiras experi\u00eancias no Brasil a essa esp\u00e9cie de porta-retrato do pa\u00eds. A imagem criada pelo poeta mostra que, dentre todas as primeiras observa\u00e7\u00f5es que ele teve ao aterrissar e adentrar o aeroporto, foi o olhar dos oper\u00e1rios, trabalhando na constru\u00e7\u00e3o enquanto observavam os passageiros rec\u00e9m chegados, que lhe saudou, em nome do pa\u00eds, pela primeira vez. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esses dois poemas que mencionam a estadia do cineasta em Recife est\u00e3o publicados no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Transumanar e organizzar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de 1971. E nesse mesmo livro, quase no final, encontramos ainda mais um longo poema, \u201cGerarchia&#8221;, em que o Brasil \u00e9 novamente referenciado. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s de se referir \u00e0s horas passadas dentro do aeroporto, nesse outro poema a refer\u00eancia \u00e9 a um momento posterior, quando do retorno do escritor \u00e0 It\u00e1lia ap\u00f3s o festival. A essa altura da viagem e j\u00e1 sozinho, Pasolini decide fazer uma breve parada de poucos dias nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro, e \u201cGerarchia\u201d \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o do que Pasolini viu e viveu em terras cariocas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse poema, reproduzido a seguir, o autor italiano descreve como foi ser guiado por um rapaz brasileiro (algo como Dante ao ser guiado por Virg\u00edlio) ao subir at\u00e9 uma favela, onde o autor teve a oportunidade de conhecer uma casa genuinamente brasileira, constru\u00edda nas periferias da cidade. Esse jovem que Pasolini conheceu nas areias de Copacabana, Joaquim, integraria o que o poeta chamaria de <em>h<\/em><\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ierarquia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">do pa\u00eds, composta em uma de suas extremidades por velhos intelectuais burgueses, semelhantes ao pr\u00f3prio poeta italiano (como ele mesmo declara) e, na outra, por jovens prolet\u00e1rios, como Joaquim. As diferen\u00e7as entre as duas classes originariam uma ambiguidade, o \u201cn\u00f3 inextric\u00e1vel\u201d, que comporia a sociedade brasileira, segundo a vis\u00e3o do escritor.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_383\" aria-describedby=\"caption-attachment-383\" style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-383\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/04\/Rocinha.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"492\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/04\/Rocinha.jpg 495w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/04\/Rocinha-219x300.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-383\" class=\"wp-caption-text\">Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em 1969 (Fonte: Acervo O Globo)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 interessante observar que o poeta, ao descrever suas impress\u00f5es sobre a sociedade brasileira, reconhece recorrentemente algo de sua pr\u00f3pria nacionalidade, a ponto de se dizer concidad\u00e3o brasileiro e de se referir ao Brasil como sua \u201cp\u00e1tria\u201d e \u201cterra natal\u201d. O que haveria de similar entre o Brasil e a It\u00e1lia para Pasolini? O que seria essa ambiguidade que o poeta percebe ao visitar uma favela no Brasil e que, de alguma forma, em sua opini\u00e3o, se aproxima de caracter\u00edsticas que ele t\u00e3o bem conhecia em seu pr\u00f3prio pa\u00eds? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma possibilidade \u00e9 pensar que, nos anos de 1970, isto \u00e9, contemporaneamente \u00e0 sua passagem pelo Brasil, Pasolini estava bastante atento \u00e0s mudan\u00e7as culturais que ocorriam na It\u00e1lia, sobretudo nas periferias (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">borgate<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) e no Sul do pa\u00eds, denominando o conjunto de transforma\u00e7\u00f5es em curso de \u201cmuta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica\u201d. Nas palavras do escritor, o processo de industrializa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica pelo qual o seu pa\u00eds passou ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial foi respons\u00e1vel por uma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social profunda na sociedade italiana, \u00e0 que ele d\u00e1 o nome de <em>muta\u00e7\u00e3o<\/em>. Entre as consequ\u00eancias desse processo estariam a padroniza\u00e7\u00e3o cultural dos jovens italianos (devido \u00e0 influ\u00eancia da televis\u00e3o e da escolariza\u00e7\u00e3o, por exemplo), e \u00e0 busca desenfreada por bens de consumo. O aburguesamento da popula\u00e7\u00e3o, fruto dessa padroniza\u00e7\u00e3o cultural, seria ainda o fim de uma \u00e9poca, pois diante da for\u00e7a do consumismo os comportamentos do passado, ligados a certas tradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poderiam mais resistir.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_384\" aria-describedby=\"caption-attachment-384\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-384 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/04\/pasolini-borgata-05-1.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"607\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/04\/pasolini-borgata-05-1.jpg 960w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/04\/pasolini-borgata-05-1-300x190.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/04\/pasolini-borgata-05-1-768x486.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-384\" class=\"wp-caption-text\">Pasolini em uma periferia de Roma, em 1969 (Foto de Carlo Bavagnoli)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse cen\u00e1rio devastador foi, sobretudo depois dos movimentos estudantis de 1968, a linha argumentativa preponderante nas obras de Pasolini. Ent\u00e3o quando o poeta reconhece algo de similar entre a sua cultura e aquela vivida no Brasil \u00e9 justamente nesse universo de refer\u00eancias que ele est\u00e1 interessado. Por isso, ao afirmar a ideia de um pa\u00eds latino criado \u201c\u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do mundo europeu\u201d, isto \u00e9, do seu pr\u00f3prio pa\u00eds, Pasolini nos leva a pensar que h\u00e1 algo na sociedade brasileira que se assemelha ao contexto consumista e padronizante que ele via impactar cada vez mais a sociedade italiana da mesma \u00e9poca. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda que resguardadas as devidas particularidades hist\u00f3ricas de cada pa\u00eds (as quais, sabemos, s\u00e3o muitas), haveria algo que nos aproximaria enquanto na\u00e7\u00f5es capitalistas, isto \u00e9, na\u00e7\u00f5es que fazem parte de um mesmo sistema econ\u00f4mico selvagem, baseado na produ\u00e7\u00e3o e no consumo de mercadorias. A cr\u00edtica de Pasolini \u00e9 justamente \u00e0s consequ\u00eancias culturais que esse regime econ\u00f4mico teria causado, padronizando todas as pessoas a partir do momento que todos consumiriam e se comportariam da mesma forma, pois n\u00e3o haveria outra alternativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hierarquia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">social, essa padroniza\u00e7\u00e3o poderia ser vista sobretudo no comportamento dos jovens. No caso da It\u00e1lia, Pasolini criticava a forma como os jovens que viviam nas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">borgate <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">romanas ou no Sul do pa\u00eds se tornavam cada vez mais iguais fisicamente aos jovens do Centro, j\u00e1 que as diferen\u00e7as culturais entre ambos haviam sido eliminadas pelo consumo e pela l\u00f3gica burguesa. Parece que h\u00e1 a mesma linha cr\u00edtica quando o poeta se refere ao Brasil, de forma que um jovem da Favela do Rio de Janeiro seria bastante semelhante a um jovem do Centro da cidade. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O di\u00e1logo entre as duas nacionalidades nos faz ent\u00e3o questionar como \u00e9 poss\u00edvel que n\u00edveis de desenvolvimento t\u00e3o distantes pudessem ser aproximados pelo escritor. Por\u00e9m, acredito ser ineg\u00e1vel que, com o passar dos anos e com cada vez mais intensidade, n\u00f3s, brasileiros ou italianos, continuamos a habitar esse mundo que Pasolini tanto criticava. Um mundo igualmente nocivo a todas as tradi\u00e7\u00f5es e as diferen\u00e7as, como o escritor denunciava, mas a que hoje n\u00e3o chamamos mais de padronizado e sim de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">globalizado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><strong>Hierarquia (Pier Paolo Pasolini)<\/strong><\/p>\n<p>Se chego a uma cidade<\/p>\n<p>de al\u00e9m-mar<\/p>\n<p>Muitas vezes chego a uma cidade nova, levado pela d\u00favida.<\/p>\n<p>Transformado da noite para o dia em peregrino<\/p>\n<p>de uma f\u00e9 em que n\u00e3o creio;<\/p>\n<p>representante de uma mercadoria depreciada h\u00e1 tempos,<\/p>\n<p>mas \u00e9 grande, sempre, uma estranha esperan\u00e7a \u2013<\/p>\n<p>Des\u00e7o do avi\u00e3o com o passo do culpado,<\/p>\n<p>o rabo entre as pernas, e uma eterna vontade de mijar,<\/p>\n<p>que me faz andar meio dobrado com um sorriso incerto \u2013<\/p>\n<p>\u00c9 preciso livrar-se da alf\u00e2ndega e, muitas vezes, dos fot\u00f3grafos:<\/p>\n<p>pr\u00e1tica ordin\u00e1ria que cada qual cuida como uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois o desconhecido.<\/p>\n<p>Quem passeia \u00e0s quatro da tarde<\/p>\n<p>por canteiros cheios de \u00e1rvores<\/p>\n<p>e alamedas de uma desesperada cidade aonde europeus pobres<\/p>\n<p>vieram para recriar um mundo \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do seu,<\/p>\n<p>impelidos pela pobreza a fazer do ex\u00edlio uma vida?<\/p>\n<p>Com um olho em minhas coisas, em minhas obriga\u00e7\u00f5es \u2013<\/p>\n<p>Depois, nas horas vagas,<\/p>\n<p>come\u00e7a minha busca, como se tamb\u00e9m ela fosse uma culpa \u2013<\/p>\n<p>Mas a hierarquia est\u00e1 bem clara em minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 Oceano que resista.<\/p>\n<p>Nessa hierarquia os \u00faltimos s\u00e3o os velhos.<\/p>\n<p>Sim, os velhos, a cuja categoria come\u00e7o a pertencer<\/p>\n<p>(n\u00e3o falo do fot\u00f3grafo Sardeman que com a mulher<\/p>\n<p>j\u00e1 \u00edntima da morte me acolhe sorrindo<\/p>\n<p>no estudiozinho de sua vida inteira)<\/p>\n<p>Sim, h\u00e1 uns velhos intelectuais<\/p>\n<p>que na Hierarquia<\/p>\n<p>se p\u00f5em \u00e0 altura dos mais belos mich\u00eas<\/p>\n<p>os primeiros a ocupar os pontos mais cobi\u00e7ados<\/p>\n<p>e que como Virg\u00edlios conduzem com popular delicadeza<\/p>\n<p>alguns velhos s\u00e3o dignos do Emp\u00edreo,<\/p>\n<p>dignos de estar ao lado do primeiro garoto do povo<\/p>\n<p>que se d\u00e1 por mil cruzeiros em Copacabana<\/p>\n<p>ambos s\u00e3o o meu guia<\/p>\n<p>que me levando pela m\u00e3o com delicadeza,<\/p>\n<p>a delicadeza do intelectual e a do oper\u00e1rio<\/p>\n<p>(quase sempre desempregado)<\/p>\n<p>a descoberta da invariabilidade da vida<\/p>\n<p>necessita de intelig\u00eancia e de amor<\/p>\n<p>Vista do hotel da Rua do Rezende Rio \u2013<\/p>\n<p>a ascese precisa do sexo, do pau \u2013<\/p>\n<p>aquela estreita janela do hotel em que se paga o quartinho \u2013<\/p>\n<p>se olha por dentro o Rio, num aspecto de eternidade,<\/p>\n<p>a noite de chuva que n\u00e3o traz frescor,<\/p>\n<p>e molha as ruas miser\u00e1veis e os destro\u00e7os,<\/p>\n<p>e as \u00faltimas cornijas art nouveau dos portugueses pobres<\/p>\n<p>milagre sublime!<\/p>\n<p>E assim Josv\u00e9 Carrea \u00e9 o Primeiro na Hierarquia,<\/p>\n<p>e com ele Harudo, vindo menino da Bahia, e Joaquim.<\/p>\n<p>A Favela era como Cafarnaum sob o sol \u2013<\/p>\n<p>Percorrida por c\u00f3rregos de esgoto<\/p>\n<p>os barracos amontoados<\/p>\n<p>vinte mil fam\u00edlias<\/p>\n<p>(ele na praia me pedindo cigarro como um prostituto)<\/p>\n<p>N\u00e3o sab\u00edamos que aos poucos revelar\u00edamos uns aos outros,<\/p>\n<p>prudentemente, uma palavra ap\u00f3s a outra<\/p>\n<p>dita quase distraidamente:<\/p>\n<p>eu sou comunista, e: eu sou subversivo;<\/p>\n<p>sou soldado num destacamento especialmente treinado<\/p>\n<p>para combater subversivos e tortur\u00e1-los;<\/p>\n<p>mas eles n\u00e3o sabem;<\/p>\n<p>as pessoas n\u00e3o se d\u00e3o conta de nada;<\/p>\n<p>s\u00f3 pensam em viver<\/p>\n<p>(me fala do subproletariado)<\/p>\n<p>A Favela fatalmente nos esperava,<\/p>\n<p>eu grande conhecedor, ele guia \u2013<\/p>\n<p>seus pais nos acolheram, e o irm\u00e3ozinho pelado<\/p>\n<p>rec\u00e9m-sa\u00eddo de tr\u00e1s do oleado \u2013<\/p>\n<p>ah, sim, invariabilidade da vida, a m\u00e3e<\/p>\n<p>me falou como Maria L\u00ecmardi, preparando a sagrada<\/p>\n<p>limonada para o h\u00f3spede; a m\u00e3e branca mas ainda de carnes jovens;<\/p>\n<p>envelhecida como envelhecem as pobres, e no entanto menina;<\/p>\n<p>sua gentileza, e a de seu companheiro,<\/p>\n<p>fraternal com o filho que s\u00f3 por sua vontade<\/p>\n<p>era agora uma esp\u00e9cie de mensageiro da Cidade \u2013<\/p>\n<p>Ah, subversivos, procuro o amor e encontro voc\u00eas.<\/p>\n<p>Procuro a perdi\u00e7\u00e3o e encontro a sede de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Brasil, minha terra,<\/p>\n<p>terra de meus verdadeiros amigos,<\/p>\n<p>que n\u00e3o se ocupam de nada<\/p>\n<p>ou se tornam subversivos e como santos s\u00e3o cegados.<\/p>\n<p>No c\u00edrculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade<\/p>\n<p>imagem do mundo que de velho se faz jovem,<\/p>\n<p>ponho os velhos, os velhos burgueses<\/p>\n<p>pois um velho popular da cidade permanece jovem<\/p>\n<p>n\u00e3o tem nada a defender \u2013<\/p>\n<p>anda vestido de regata e cal\u00e7as aos trapos como Joaquim, o filho.<\/p>\n<p>Os velhos, minha categoria,<\/p>\n<p>quer queiram ou n\u00e3o \u2013<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode escapar ao destino de possuir o Poder,<\/p>\n<p>ele se p\u00f5e por si<\/p>\n<p>lenta e fatalmente na m\u00e3o dos velhos,<\/p>\n<p>ainda que tenham as m\u00e3os furadas<\/p>\n<p>e sorriam humildemente como m\u00e1rtires s\u00e1tiros \u2013<\/p>\n<p>Acuso os velhos de terem de todo modo vivido,<\/p>\n<p>acuso os velhos de terem aceitado a vida<\/p>\n<p>(e n\u00e3o podiam n\u00e3o aceit\u00e1-la, mas n\u00e3o h\u00e1<\/p>\n<p>v\u00edtimas inocentes)1<\/p>\n<p>a vida, acumulando-se, produziu o que ela queria \u2013<\/p>\n<p>acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 Favela<\/p>\n<p>onde ou n\u00e3o se pensa em nada<\/p>\n<p>ou se quer ser mensageiro da Cidade<\/p>\n<p>l\u00e1 onde os velhos s\u00e3o pr\u00f3-americanos \u2013<\/p>\n<p>Entre os jovens que jogam bola mal<\/p>\n<p>diante de eleva\u00e7\u00f5es encantadas sobre o frio Oceano,<\/p>\n<p>quem quer alguma coisa e o sabe foi escolhido ao acaso \u2013<\/p>\n<p>ignorantes de imperialismo cl\u00e1ssico<\/p>\n<p>de qualquer delicadeza quanto ao velho Imp\u00e9rio a explorar<\/p>\n<p>os Americanos dividem entre si os irm\u00e3os supersticiosos<\/p>\n<p>sempre acesos por seu sexo como bandidos por uma fogueira de gravetos \u2013<\/p>\n<p>\u00c9 assim por puro acaso que um brasileiro \u00e9 fascista e outro subversivo;<\/p>\n<p>aquele que arranca os olhos<\/p>\n<p>pode ser confundido com aquele cujos olhos s\u00e3o arrancados.<\/p>\n<p>Joaquim nunca poderia ser diferente de um sic\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por que ent\u00e3o n\u00e3o am\u00e1-lo se o tivesse sido?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o sic\u00e1rio est\u00e1 no v\u00e9rtice da Hierarquia,<\/p>\n<p>com seus tra\u00e7os simples apenas esbo\u00e7ados<\/p>\n<p>com seu simples olho<\/p>\n<p>sem outra luz que aquela da carne<\/p>\n<p>Assim no topo da Hierarquia<\/p>\n<p>encontro a ambiguidade, o n\u00f3 inextric\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00d3 Brasil, minha p\u00e1tria desgra\u00e7ada,<\/p>\n<p>destinada sem escolha \u00e0 felicidade<\/p>\n<p>(de tudo s\u00e3o donos o dinheiro e a carne,<\/p>\n<p>ao passo que voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o po\u00e9tico)<\/p>\n<p>dentro de cada habitante seu, meu concidad\u00e3o,<\/p>\n<p>h\u00e1 um anjo que n\u00e3o sabe nada,<\/p>\n<p>sempre dobrado sobre seu sexo,<\/p>\n<p>que se move, velho ou jovem,<\/p>\n<p>para pegar em armas e lutar<\/p>\n<p>indiferentemente pelo fascismo ou pela liberdade \u2013<\/p>\n<p>Oh, Brasil, minha terra natal, onde<\/p>\n<p>as velhas lutas \u2013 bem ou mal j\u00e1 vencidas \u2013<\/p>\n<p>para n\u00f3s, velhos, readquirem sentido \u2013<\/p>\n<p>respondendo \u00e0 gra\u00e7a de delinquentes ou de soldados<\/p>\n<p>\u00e0 gra\u00e7a brutal.<\/p>\n<ol>\n<li>Sartre.<\/li>\n<\/ol>\n<p>(<em>Poesia de Pier Paolo Pasolini<\/em>, 2015; tradu\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Santana Dias)<\/p>\n<ul>\n<li>&#8220;Il viaggio di Pasolini in Brasile&#8221; foi escrito a convite de Simone Apollo para o blog Dentro Rio de Janeiro, onde o texto est\u00e1 publicado em italiano: <a href=\"http:\/\/www.dentroriodejaneiro.it\/storie\/approfondimenti\/pasolini-brasile-viaggio.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.dentroriodejaneiro.it\/storie\/approfondimenti\/pasolini-brasile-viaggio.html\u00a0<\/a><\/li>\n<li>Os professores-pesquisadores Maria Bet\u00e2nia Amoroso (Unicamp), Mariarosaria Fabris (USP) e Michel Lahud (Unicamp) tamb\u00e9m escreveram sobre as rela\u00e7\u00f5es entre Pasolini e o Brasil.<\/li>\n<li>&#8220;A viagem de Pasolini ao Brasil&#8221; faz parte de uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es que comp\u00f5em a minha pesquisa de doutorado, &#8220;A import\u00e2ncia de Pasolini no jornalismo italiano dos anos 1970&#8221;, desenvolvida na Unicamp e financiada pela FAPESP.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mar\u00e7o de 1970, um avi\u00e3o vindo da It\u00e1lia, com destino a Argentina, fez um pouso de emerg\u00eancia na cidade de Recife, no litoral brasileiro. Nesse avi\u00e3o, viajavam Pier Paolo Pasolini e Maria Callas, ambos a caminho do Festival de Cinema de Mar del Plata, no qual apresentariam ao p\u00fablico o filme Medea (1969). Pasolini &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2019\/04\/02\/a-viagem-de-pier-paolo-pasolini-ao-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;A viagem de Pier Paolo Pasolini ao Brasil&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":133,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[22,25,26,53,20,21,1,4,18],"tags":[73,106,107,109,95,34,111,108,105,33,110,112,28],"class_list":["post-382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-literaria","category-humanidades","category-linguagem","category-literatura","category-mulheres-na-literatura","category-pesquisas-de-pos-graduacao","category-sem-categoria","category-sugestao-de-leitura","category-traducao","tag-brasil","tag-favela","tag-hierarquia","tag-juventude","tag-literatura-de-viagem","tag-literatura-italiana","tag-maria-callas","tag-mutacao-antropologica","tag-pier-paolo-pasolini","tag-poesia","tag-rio-de-janeiro","tag-roma","tag-traducao"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/133"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=382"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":456,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/382\/revisions\/456"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}