{"id":412,"date":"2019-07-10T10:32:34","date_gmt":"2019-07-10T13:32:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=412"},"modified":"2019-07-10T10:32:34","modified_gmt":"2019-07-10T13:32:34","slug":"votem-em-branco-e-vencera-a-cultura-por-pier-paolo-pasolini-traducao-claudia-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2019\/07\/10\/votem-em-branco-e-vencera-a-cultura-por-pier-paolo-pasolini-traducao-claudia-alves\/","title":{"rendered":"Votem em branco e vencer\u00e1 a cultura, por Pier Paolo Pasolini (tradu\u00e7\u00e3o Cl\u00e1udia Alves)"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: center\"><strong><span class=\"s1\">Votem em branco e vencer\u00e1 a cultura*<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Pier Paolo Pasolini<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udia Alves<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Caros amigos,<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Hoje voc\u00eas votam o Pr\u00eamio Strega. Admito que n\u00e3o \u00e9 algo de grande import\u00e2ncia, embora eu tamb\u00e9m n\u00e3o ache que tenha algo de \u201cc\u00f4mico\u201d, como diz incompreensivelmente certo jornal romano da tarde.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Se n\u00e3o \u00e9 importante, \u00e9 indicativo. Pelas seguintes raz\u00f5es:<\/span><\/p>\n<ol class=\"ol1\">\n<li class=\"li3\"><span class=\"s1\">Os literatos italianos t\u00eam, junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, uma p\u00e9ssima fama: s\u00e3o sempre vistos inevitavelmente em uma chave humor\u00edstica, como personagens sedent\u00e1rios, fofoqueiros, mundanos, pregui\u00e7osos, aquiescentes, vaidosos, esnobes, med\u00edocres e tamb\u00e9m mesquinhos. Em resumo, um tipo de peso morto na sociedade italiana, um tipo de setor do zool\u00f3gico ou do folclore, ainda que n\u00e3o sejam da pior esp\u00e9cie (por serem inofensivos).<\/span><\/li>\n<li class=\"li3\"><span class=\"s1\">Objetivamente, os literatos italianos tra\u00edram certas ilus\u00f5es, nascidas na d\u00e9cada passada, quando, em determinado momento, parece que substitu\u00edram os padres como guias espirituais. Com a queda da potencial hegemonia comunista &#8211; \u00e0 qual se devia at\u00e9 ent\u00e3o o sucesso liter\u00e1rio -, trata-se na realidade de um novo retorno \u00e0 ordem. E n\u00e3o se pode dizer que o esp\u00edrito de <i>humor<\/i>, pelo qual todo jornalista m\u00e9dio \u00e9 tomado ao falar dos literatos em geral, seja totalmente sem fundamento. <\/span><\/li>\n<li class=\"li3\"><span class=\"s1\">Sobre esse ambiente familiar (provinciano) da literatura italiana, come\u00e7a a se formar um novo momento hist\u00f3rico, relacionado \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre literatura e opini\u00e3o p\u00fablica, quando &#8211; ap\u00f3s um breve e confuso intervalo de tempo &#8211; vai se substituindo a tend\u00eancia cultural hegem\u00f4nica do PCI (ou seja, a pol\u00edtica do engajamento, j\u00e1 abandonada pelo pr\u00f3prio PCI) por uma nova hegemonia, a da ind\u00fastria cultural. Alguns <i>manager<\/i> tomaram o lugar de Togliatti ou de Alicata. Mas Togliatti e Alicata, mesmo que c\u00ednicos, diplom\u00e1ticos, pragm\u00e1ticos, eram ainda homens de cultura. Foram os \u00faltimos representantes daquele tipo de intelectual (ao qual, afinal, toda a minha gera\u00e7\u00e3o pertence) que fora descrito por Tchekhov e que Lenin conhecera e analisara. O intelectual humanista, de nascimento ou de origem provinciana e camponesa &#8211; pr\u00e9-industrial.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Em geral, os <i>manager<\/i> da ind\u00fastria cultural n\u00e3o s\u00e3o, por sua vez, homens de cultura. E justamente por isso &#8211; mesmo que n\u00e3o sejam mais jovens do que n\u00f3s &#8211; pertencem a uma nova esp\u00e9cie de intelectual: o intelectual que nem Tchekhov, nem Lenin conheceram. O intelectual n\u00e3o mais humanista, n\u00e3o mais humano, eu diria. T\u00edpico fen\u00f4meno de uma civiliza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, que est\u00e1 mercantilizando a cultura. Ou seja, a ind\u00fastria cultural s\u00f3 pode ser dirigida por quem est\u00e1 fora daquilo que historicamente ainda \u00e9, para n\u00f3s, a cultura.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Por tais raz\u00f5es, digo a voc\u00eas, caros colegas literatos, que chegou o momento de se fazer um exame de consci\u00eancia n\u00e3o novecentista. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> A hegemonia cultural de esquerda acabou, com seus mitos e seus valores? Pois bem. Est\u00e1 nascendo da\u00ed uma outra hegemonia, aquela da ind\u00fastria cultural, com seus mitos (totalmente c\u00ednicos e materiais) e seus valores (inevitavelmente falsos)? Pois bem. Isso quer dizer que devemos agir fora de qualquer forma hegem\u00f4nica. Aqui me vem espontaneamente uma palavra que odeio, porque se tornou <i>senhal<\/i>: autogest\u00e3o. O literato italiano deve finalmente se politizar por meio de sua pr\u00f3pria decis\u00e3o. Com isso n\u00e3o quero dizer que ele deva fazer pol\u00edtica, mas sim que deve se inventar e levar adiante uma pol\u00edtica cultural que reivindique sua autonomia e sua liberdade. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> O que hoje amea\u00e7a essa autonomia e essa liberdade das esquerdas, n\u00e3o de maneira indireta e no final das contas civil (a discuss\u00e3o e o debate aconteciam em um n\u00edvel human\u00edstico comum), \u00e9 a f\u00faria produtiva e consumista de uma cultura de outra natureza, que acabar\u00e1 por desfigurar completamente as caracter\u00edsticas liter\u00e1rias, mesmo que modestas, da nossa Na\u00e7\u00e3o provinciana, e distorcer todos os seus valores, determinando-lhes novas hierarquias.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Como tal amea\u00e7a \u00e9 grave e iminente &#8211; e n\u00e3o distante, a ponto de observ\u00e1-la com o mesmo ceticismo de costume, considerado t\u00e3o c\u00f4mico pela opini\u00e3o p\u00fablica -, basta observar alguns dos casos liter\u00e1rios-humanos criados recentemente durante a campanha eleitoral do Pr\u00eamio Strega, feita justamente sob a brutal sede de sucesso de uma editora. (Penso de maneira expl\u00edcita em alguns cr\u00edticos de revistas, amigos meus, que ainda assim quero amar.)\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Em resumo, a brutalidade da ind\u00fastria cultural n\u00e3o deforma apenas os valores liter\u00e1rios, mas chega a deformar tamb\u00e9m as consci\u00eancias e a degenerar a humanidade. Nada al\u00e9m de guias espirituais. Fomos reduzidos, mais uma vez, a bobos: n\u00e3o a bobos da corte (onde pelo menos existia a alternativa do <i>outro<\/i>, quer dizer, da pobreza e da realidade), mas a bobos do neocapitalismo (onde o <i>outro<\/i> \u00e9 formado pelo consumidor e pela irrealidade).<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_413\" aria-describedby=\"caption-attachment-413\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-413 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/07\/Strega-1968.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"582\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/07\/Strega-1968.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/07\/Strega-1968-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2019\/07\/Strega-1968-768x559.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-413\" class=\"wp-caption-text\">Vota\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Strega, em 1968. <strong>L\u2019occhio del gatto<\/strong>, de Alberto Bevilacqua, foi o livro vencedor.\u00a0\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Tudo isso me faz pensar, em conclus\u00e3o, que o Pr\u00eamio Strega n\u00e3o \u00e9 aquela besteira sem import\u00e2ncia &#8211; assembleia de pura vaidade &#8211; que a indiferen\u00e7a pol\u00edtica (franja podre do humanismo) quer nos fazer acreditar atrav\u00e9s da imprensa conservadora. N\u00e3o: o caso do Pr\u00eamio Strega \u00e9 um caso de consci\u00eancia e diz respeito n\u00e3o apenas ao futuro pessoal de um \u00fanico literato enquanto literato, mas tamb\u00e9m ao seu futuro enquanto homem e \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica de cidad\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> A batalha perdida com o Pr\u00eamio Strega (e n\u00e3o posso ser otimista aqui) ser\u00e1 uma batalha perdida n\u00e3o digo pela literatura italiana, mas pela cultura italiana. Significa que de agora em diante os livros ser\u00e3o escritos por certos editores; significa que tudo aquilo que uma cultura liter\u00e1ria poderia oferecer a uma na\u00e7\u00e3o ser\u00e1 totalmente negativo, pois ir\u00e1 se constituir de produtos medianos de consumo. Tudo aquilo que faz parte da real fun\u00e7\u00e3o de um poeta, mesmo que menor (protesto, contesta\u00e7\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o reconhecimento, problem\u00e1tica, esc\u00e2ndalo, religiosidade, d\u00favida, maldi\u00e7\u00e3o, vitalidade), ir\u00e1 desaparecer. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Portanto, caros amigos jurados, deixem que as pessoas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com literatura, com cultura e com qualquer moral inclinada \u00e0 verdade votem a favor do livro que o editor e os organizadores do pr\u00eamio, j\u00e1 evidentemente do seu lado, querem que ven\u00e7a. Mas voc\u00eas, homens de cultura, votem em branco. Este seria o primeiro protesto coletivo da sociedade liter\u00e1ria italiana, seria o seu primeiro t\u00edtulo de m\u00e9rito coletivo. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"> Na verdade, seriam suficientes os 50% mais 1 dos votos brancos para que a literatura italiana &#8211; representada, infelizmente, em parte e arbitrariamente pelo j\u00fari do Strega &#8211; conseguisse sua primeira vit\u00f3ria, manifestasse pela primeira vez a sua decis\u00e3o de ser dona de si mesma e a sua escolha de lutar por uma causa que \u00e9 evidentemente, ainda, a causa correta. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\"><span class=\"Apple-converted-space\">* Publicado no jornal <em>Il Giorno<\/em>, em 4 de julho de 1968. Integra tamb\u00e9m a colet\u00e2nea <em>Saggi sulla politica e sulla societ\u00e0<\/em>, na cole\u00e7\u00e3o I Meridiani (Mil\u00e3o: Arnaldo Mondadori Editore, 1999), pp. 159-162. Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a participa\u00e7\u00e3o de Pasolini no Pr\u00eamio Strega de 1968, confira o post: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/10\/08\/em-nome-da-cultura-me-retiro-do-premio-strega-por-pier-paolo-pasolini-traducao-claudia-alves\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2018\/10\/08\/em-nome-da-cultura-me-retiro-do-premio-strega-por-pier-paolo-pasolini-traducao-claudia-alves\/\u00a0<\/a> \u00a0 \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s1\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Votem em branco e vencer\u00e1 a cultura* Pier Paolo Pasolini Tradu\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udia Alves Caros amigos, Hoje voc\u00eas votam o Pr\u00eamio Strega. 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