{"id":447,"date":"2020-05-24T18:02:25","date_gmt":"2020-05-24T21:02:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=447"},"modified":"2020-05-24T18:05:44","modified_gmt":"2020-05-24T21:05:44","slug":"a-verdade-escorregadia-para-machado-de-assis-ciencia-literatura-e-jornalismo-por-lais-souza-toledo-pereira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2020\/05\/24\/a-verdade-escorregadia-para-machado-de-assis-ciencia-literatura-e-jornalismo-por-lais-souza-toledo-pereira\/","title":{"rendered":"A verdade escorregadia para Machado de Assis: ci\u00eancia, literatura e jornalismo, por La\u00eds Souza Toledo Pereira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1808, com a vinda da fam\u00edlia real portuguesa para o Brasil, houve uma in\u00e9dita e instant\u00e2nea transforma\u00e7\u00e3o no nosso pa\u00eds: ele passou de col\u00f4nia \u00e0 sede da Corte. Nesse contexto, algumas condi\u00e7\u00f5es foram criadas aqui, mesmo que de modo artificial, para servir \u00e0s necessidades da Corte portuguesa. Uma das primeiras transforma\u00e7\u00f5es ocasionadas por essa mudan\u00e7a foi o surgimento da imprensa no Brasil, j\u00e1 que o governo agora precisava imprimir aqui seus documentos oficiais. Al\u00e9m disso, qualquer atividade relacionada \u00e0 imprensa era proibida no nosso pa\u00eds at\u00e9 esse momento, como acontecia tamb\u00e9m em outras col\u00f4nias de Portugal. \u00c9 nesse contexto, evidentemente marcado por um enorme analfabetismo, que surgem os primeiros jornais brasileiros. [1]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro peri\u00f3dico impresso no Brasil, ainda em 1808, foi a <em>Gazeta do Rio de Janeiro<\/em>, que j\u00e1 realizava o papel de divulgar assuntos relacionados \u00e0 ci\u00eancia. Desse modo, a comunica\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia se inicia no Brasil no s\u00e9culo XIX, nos seus rec\u00e9m-criados jornais cotidianos, n\u00e3o especializados e voltados ao grande p\u00fablico. Ali\u00e1s, era assim que a comunica\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia ocorria na maioria dos pa\u00edses nessa \u00e9poca, quando os conhecimentos muito especializados n\u00e3o circulavam nos jornais, mas por meio de correspond\u00eancias entre os cientistas. Depois, foram essas cartas que deram origem ao que conhecemos hoje como peri\u00f3dicos cient\u00edficos, ou seja, publica\u00e7\u00f5es em assuntos de ci\u00eancia voltadas a especialistas. [2]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma caracter\u00edstica marcante desse in\u00edcio da comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil \u00e9 que ela era feita, na maior parte das vezes, por \u201chomens ligados \u00e0 ci\u00eancia\u201d, como m\u00e9dicos e engenheiros, e havia um grande interesse pelas aplica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas da ci\u00eancia, sobretudo no contexto espec\u00edfico do nosso pa\u00eds, como em temas relacionados \u00e0 agricultura e \u00e0 sa\u00fade, por exemplo. A ci\u00eancia, assim, era frequentemente relacionada nessas publica\u00e7\u00f5es a termos como \u201cprogresso\u201d, \u201cluzes\u201d, \u201cdesenvolvimento\u201d, \u201cinteresse do Brasil\u201d e \u201cfelicidade p\u00fablica\u201d. [3]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tom ao tratar de assuntos sobre ci\u00eancia continuou ao longo do s\u00e9culo XIX, per\u00edodo em que os cientistas ganharam autonomia, prest\u00edgio e poder [4]. As \u00faltimas d\u00e9cadas desse s\u00e9culo foram marcadas por uma grande euforia, que vinha da esperan\u00e7a na modernidade e na ci\u00eancia. As novas teorias cient\u00edficas \u2013 o maior exemplo talvez seja a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o de Charles Darwin, apresentada em 1859 \u2013 geravam um sentimento de que todos os mist\u00e9rios da natureza haviam sido desvendados. Nesse contexto, os \u201cm\u00e9todos cient\u00edficos\u201d passaram a fazer parte do cotidiano n\u00e3o s\u00f3 de m\u00e9dicos ou bi\u00f3logos, por exemplo, como tamb\u00e9m de artistas e literatos. Para alguns desses literatos, havia o desejo de que o trabalho liter\u00e1rio tivesse um engajamento social e reformador. E, assim, anunciando uma decad\u00eancia dos rom\u00e2nticos, surgiram os chamados Naturalistas, que defendiam uma objetividade, uma verdade impessoal na literatura, no lugar da imagina\u00e7\u00e3o ou do sentimento, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse cen\u00e1rio que Machado de Assis (1839-1908) se inseriu em uma pol\u00eamica. O escritor, que dispensa maiores apresenta\u00e7\u00f5es, tinha uma desconfian\u00e7a da ideia de que a literatura devesse se unir completamente \u00e0 ci\u00eancia e apenas \u201cfotografar\u201d a realidade, revelando uma \u201cverdade\u201d da sociedade. Mais do que isso, Machado sugeria que a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de que as ideias cient\u00edficas eram objetivas e imparciais n\u00e3o era indiscut\u00edvel. Para ele, o discurso cientificista, como qualquer outro, era constru\u00eddo de forma provis\u00f3ria, em meio a disputas e tens\u00f5es, e tinha suas lacunas, contradi\u00e7\u00f5es e, muitas vezes, at\u00e9 o intuito de atender a interesses particulares. Machado n\u00e3o afirmava que a realidade n\u00e3o existia, mas ele combatia a fragilidade de falas un\u00e2nimes da ci\u00eancia no s\u00e9culo XIX e tamb\u00e9m o modo como muitos intelectuais brasileiros aceitavam sem grandes questionamentos essas \u201cnovas ideias\u201d. Inclusive, tais ideias, normalmente importadas da Europa, muitas vezes se adaptavam mal ao contexto brasileiro ou at\u00e9 eram aplicadas de um modo que atendesse a certos prop\u00f3sitos das classes dominantes do nosso pa\u00eds, como para justificar desigualdades \u201cnaturais\u201d entre os seres humanos e, portanto, legitimar a manuten\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o por aqui.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2020\/05\/Machado.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-448\" width=\"307\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2020\/05\/Machado.jpg 409w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2020\/05\/Machado-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 307px) 100vw, 307px\" \/><figcaption>Machado de Assis. Divulga\u00e7\u00e3o da campanha \u201cMachado de Assis Real\u201d, feita pela Faculdade Zumbi dos Palmares<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Machado se envolveu nessa pol\u00eamica debatendo sobre o assunto com outros literatos de seu tempo (houve at\u00e9 quem o acusasse de n\u00e3o ter uma \u201ceduca\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, j\u00e1 que Machado, de origem humilde, n\u00e3o estudou na Europa, como era costume na \u00e9poca). E o seu conhecido romance <em>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em>, publicado em folhetim, ou seja, publicado nos jornais, ao longo do ano de 1881, seria fruto tamb\u00e9m de suas reflex\u00f5es sobre esse tema e uma forma de Machado, por meio da literatura, afirmar seu posicionamento. No entanto, al\u00e9m de abordar tais quest\u00f5es em seus textos mais puramente te\u00f3ricos ou liter\u00e1rios, o bruxo do Cosme Velho, como Machado \u00e9 conhecido, tamb\u00e9m tratou desse assunto em suas cr\u00f4nicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O significado original da palavra \u201ccr\u00f4nica\u201d vem do grego \u201ckronos\u201d, tempo, e se refere ao relato de acontecimentos em ordem cronol\u00f3gica. Por\u00e9m, hoje, no Brasil, quando falamos de cr\u00f4nica, n\u00e3o pensamos mais em cr\u00f4nica hist\u00f3rica, mas em um coment\u00e1rio despretensioso sobre um fato da atualidade presente no notici\u00e1rio dos jornais ou at\u00e9 um fato corriqueiro do dia-a-dia. Talvez voc\u00ea conhe\u00e7a alguma cr\u00f4nica de Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector ou Fernando Sabino, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo geral, a cr\u00f4nica \u00e9 um tipo de texto simples (mas dif\u00edcil de definir) que nasceu quando o jornal se tornou cotidiano e, al\u00e9m de ter um p\u00e9 no jornalismo e outro na literatura, ela tem uma rela\u00e7\u00e3o ainda com outro tipo de texto, os ensaios, por tamb\u00e9m encarar a escrita de forma leve e livre, como uma tentativa (um ensaio) que n\u00e3o tem o compromisso de chegar a uma conclus\u00e3o. Mas n\u00e3o se engane. Ainda que tratando os temas de modo despretensioso e, muitas vezes, com gra\u00e7a, n\u00e3o s\u00e3o poucas as cr\u00f4nicas que abordam assuntos s\u00e9rios e tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o poucos os cronistas que as enxergam como uma forma de comentar e ordenar eventos hist\u00f3ricos, intervindo, assim, na realidade de seu tempo. Nesse sentido, podemos dizer que Machado de Assis foi um desses cronistas. [5]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"line-height:1.5\">A rela\u00e7\u00e3o do bruxo do Cosme Velho com as cr\u00f4nicas come\u00e7ou em 1860, quando ele tinha cerca de 20 anos, e durou, passando por diversos jornais, quase at\u00e9 o fim de sua vida, dando um saldo de algumas centenas de cr\u00f4nicas [6]. Essa rela\u00e7\u00e3o entre Machado de Assis e as cr\u00f4nicas foi mudando ao longo da trajet\u00f3ria do escritor, assim como ele foi definindo as caracter\u00edsticas desse tipo de texto no Brasil, aproximando-o de uma elabora\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e de um tom mais humor\u00edstico. Machado, como ele mesmo dizia em suas cr\u00f4nicas, foi unindo o \u00fatil e o f\u00fatil, o s\u00e9rio e o fr\u00edvolo, foi metendo o nariz onde ningu\u00e9m mais metia e apertando os olhos para ver as coisas mi\u00fadas que tamb\u00e9m importavam [7]. Desse modo, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar que Machado tenha comentado em suas cr\u00f4nicas a quest\u00e3o pol\u00eamica da rela\u00e7\u00e3o entre literatura e ci\u00eancia e dos limites de uma \u201cverdade\u201d objetiva e isenta nos discursos cient\u00edficos de sua \u00e9poca. Machado escreveu cr\u00f4nicas abordando esse tema, por exemplo, na s\u00e9rie coletiva \u201cBalas de Estalo\u201d, publicada na <em>Gazeta de Not\u00edcias<\/em>. De julho de 1883 a mar\u00e7o de 1886, Machado publicou 125 textos nessa s\u00e9rie, assinando com o pseud\u00f4nimo de L\u00e9lio. Al\u00e9m dele, outros jornalistas e \u201chomens de letras\u201d, todos usando pseud\u00f4nimos, se revezavam para escrever os mais de 900 textos que comp\u00f5em as \u201cBalas de Estalo\u201d. Um desses autores foi Ferreira de Ara\u00fajo, que era tamb\u00e9m m\u00e9dico e um dos donos da <em>Gazeta<\/em>. Resultado de um processo de moderniza\u00e7\u00e3o pelo qual a imprensa brasileira passou no final do s\u00e9culo XIX, esse jornal foi fundado em 1875 com os objetivos de ser popular, barato e atingir os mais variados p\u00fablicos. A <em>Gazeta de Not\u00edcias<\/em> defendia um compromisso com a leveza e com o humor e foi um dos primeiros jornais a ser vendido de forma avulsa nas ruas da cidade, ou seja, sem a necessidade de assinatura. Assim, j\u00e1 no fim da d\u00e9cada de 1880, a <em>Gazeta <\/em>era um dos 3 maiores jornais do Rio de Janeiro. Alinhada aos princ\u00edpios do jornal, a s\u00e9rie \u201cBala de Estalos\u201d tamb\u00e9m tinha um programa geral, uma ideia de unidade, que era zombar dos fatos inusitados do cotidiano e da pol\u00edtica imperial, \u201cferindo docemente\u201d, unindo a \u201cartilharia e os confeitos\u201d (lembrando aqui que \u201cbala de estalo\u201d \u00e9 um tipo de doce). E, como Machado, j\u00e1 aos 44 anos e consagrado por <em>Br\u00e1s Cubas<\/em>, entrou na s\u00e9rie 3 meses ap\u00f3s sua cria\u00e7\u00e3o, ele teve que se adaptar ao que seus colegas j\u00e1 vinham desenvolvendo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2020\/05\/Gazeta-de-Noti\u0301cias.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-449\" width=\"216\" height=\"270\" \/><figcaption>P\u00e1gina da&nbsp;<em>Gazeta de Not\u00edcias<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa s\u00e9rie, ent\u00e3o, foi um espa\u00e7o onde Machado teceu seus coment\u00e1rios sobre a verdade, tanto na literatura, quanto na ci\u00eancia ou ainda no pr\u00f3prio jornalismo, que, no momento tamb\u00e9m tentava afirmar um ideal de \u201cmodernidade\u201d, pautando-se por uma neutralidade e ligando-se mais \u00e0 not\u00edcia que \u00e0 opini\u00e3o. Esse espa\u00e7o do jornal era oportuno, pois a \u201cmentira\u201d da cr\u00f4nica era publicada ao lado do fato \u201cverdadeiro\u201d da not\u00edcia, o que permitia ao leitor conhecer ao menos duas maneiras de se contar o mesmo acontecimento. Essa compara\u00e7\u00e3o evidenciava que quem narrava o fato fazia toda a diferen\u00e7a, ou seja, que a realidade n\u00e3o \u00e9 objetiva e pode ser contada de diversas formas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e9lio, o pseud\u00f4nimo escolhido por Machado, mais do que proteger a identidade de seu autor (que, na \u00e9poca, era funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Agricultura), constitu\u00eda uma voz ficcional muitas vezes distinta dos pensamentos de Machado e at\u00e9 pouco confi\u00e1vel, o que tornava os textos mais complexos. O \u201cbaleiro-fil\u00f3sofo\u201d, como ficou conhecido L\u00e9lio entre os outros \u201cbaleiros\u201d, via as ideias como nozes e as ia quebrando para desvendar seus conte\u00fados. Em v\u00e1rias de suas \u201cBalas\u201d, ele testava at\u00e9 os limites os argumentos das teorias cient\u00edficas que se difundiam no Brasil daquele momento, procurando, assim, combater a atitude de aceita\u00e7\u00e3o sem cr\u00edtica que a intelectualidade brasileira adotava. Ele tamb\u00e9m tentava mostrar que essas teorias tinham mais significado do que apenas explicar os fen\u00f4menos naturais que regem o mundo. Ao longo das \u201cBalas de Estalo\u201d, L\u00e9lio consultou um padre defunto sobre quest\u00f5es de latim, passeou pelo Rio de Janeiro com um grego do s\u00e9culo VII a. C., reproduziu uma conversa de Deus com S\u00e3o Pedro sobre a sucess\u00e3o de \u201crem\u00e9dios milagrosos\u201d, conversou com os vermes de um cemit\u00e9rio e at\u00e9 tirou d\u00favidas cient\u00edficas com o esp\u00edrito de Newton. Esses poucos exemplos j\u00e1 d\u00e3o pistas da inventividade de Machado e de como o absurdo pode revelar \u201cverdades\u201d, \u00e0s vezes de modo mais eficaz que um discurso objetivamente sisudo, que pode deixar a \u201cverdade\u201d (com ou sem inten\u00e7\u00e3o) acabar escorregando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-white-background-color has-text-color has-background wp-block-paragraph\"><strong>Para dar um gostinho&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um trecho da cr\u00f4nica de L\u00e9lio publicada em 25 de novembro de 1884:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O Sr. Dr. Castro Lopes escreveu um trabalho para provar que a atra\u00e7\u00e3o n\u00e3o governa os astros, e o Sr. conselheiro \u00c2ngelo Amaral refutou-o com uma carta inserida, hoje, no jornal <\/em>Pa\u00eds<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tratando-se de uma teoria de Newton, e n\u00e3o entendendo eu nada de astronomia, pareceu-me que o melhor de tudo era consultar o pr\u00f3prio Newton, por meio do espiritismo. Acabo de faz\u00ea-lo; e eis aqui o que me respondeu a alma do grande s\u00e1bio:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Estou acabrunhado. Imaginava ter deixado a minha ideia t\u00e3o solidamente estabelecida, que n\u00e3o admitisse refuta\u00e7\u00f5es do Castro Lopes, nem precisasse a defesa do \u00c2ngelo Amaral; enganei-me. Homem morto, \u00e9 o diabo. [&#8230;] A mim refutam-me: e (o que \u00e9 pior) defendem-me. Palavra; isto tira toda a vontade de ser g\u00eanio&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[1]<\/strong> Em entrevista de 2011, M\u00e1rcia Abreu, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), falou sobre esse assunto ao apresentar o livro <em>Impresso no Brasil: dois s\u00e9culos de livros brasileiros<\/em>, que ela ajudou a organizar (e com o qual ganhou o pr\u00eamio Jabuti) a respeito da hist\u00f3ria da imprensa no Brasil. Entrevista est\u00e1 dispon\u00edvel em:&nbsp; <a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/unicamp_hoje\/ju\/novembro2011\/ju514_pag67.php\">https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/unicamp_hoje\/ju\/novembro2011\/ju514_pag67.php<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[2]<\/strong> Mais informa\u00e7\u00f5es sobre essa quest\u00e3o podem ser conferidas no artigo de Maria Helena de Almeida Freitas, \u201cConsidera\u00e7\u00f5es acerca dos primeiros peri\u00f3dicos cient\u00edficos brasileiros\u201d. O artigo foi publicado na revista <em>Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o<\/em>, em 2006. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/revista.ibict.br\/ciinf\/article\/view\/1113\/1244\">http:\/\/revista.ibict.br\/ciinf\/article\/view\/1113\/1244<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[3]<\/strong> Ildeu de Castro Moreira e Luisa Massarani, no artigo \u201cAspectos hist\u00f3ricos da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil\u201d, abordam esse assunto. O texto foi publicado no livro <em>Ci\u00eancia e p\u00fablico: caminhos da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil<\/em>, em 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[4]<\/strong> A partir desse momento, exceto quando indico outras refer\u00eancias nas 3 notas seguintes, este texto de divulga\u00e7\u00e3o se baseia nas ideias discutidas por Ana Fl\u00e1via Cernic Ramos, em seu livro <em>As m\u00e1scaras de L\u00e9lio: pol\u00edtica e humor nas cr\u00f4nicas de Machado de Assis (1883-1886)<\/em>, publicado em 2016. Esse livro \u00e9 resultado da pesquisa de doutorado em Hist\u00f3ria Social da Ana Fl\u00e1via, realizada na Unicamp.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[5]<\/strong> Para apresentar brevemente a cr\u00f4nica, utilizei alguns textos como base. Para quem quiser se aprofundar no assunto, aqui v\u00e3o as refer\u00eancias: \u201cFragmentos sobre a cr\u00f4nica\u201d de Davi Arrigucci J\u00fanior, publicado em 1987 no livro <em>Enigma e coment\u00e1rio: ensaios sobre literatura e experi\u00eancia<\/em>; \u201cA vida ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o\u201d, de Antonio Candido, publicado em 1992 no livro <em>A cr\u00f4nica: o g\u00eanero, sua fixa\u00e7\u00e3o e suas transforma\u00e7\u00f5es no Brasil<\/em>, e \u201cEnsaio e cr\u00f4nica\u201d de Afr\u00e2nio Coutinho, publicado em 1986 no livro <em>A Literatura no Brasil<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[6]<\/strong> Recentemente, foram descobertas cr\u00f4nicas ainda in\u00e9ditas de Machado. A fascinante descoberta \u00e9 fruto de anos de pesquisa de S\u00edlvia Maria Azevedo, que conseguiu atribuir a autoria desses textos, de fato, a Machado e acabou de public\u00e1-los no livro <em>Badaladas do Dr. Semana, de Machado de Assis<\/em>, de 2019. Para quem se interessar, h\u00e1 este texto apresentando o livro de S\u00edlvia Maria: <a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/novas-badaladas-de-machado\/\">https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/novas-badaladas-de-machado\/<\/a> .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[7]<\/strong> Trecho baseado em \u201cO folhetinista\u201d, uma das primeiras cr\u00f4nicas de Machado, de 1859, e em outra cr\u00f4nica sua, \u201cO nascimento da cr\u00f4nica\u201d, de 1877.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1808, com a vinda da fam\u00edlia real portuguesa para o Brasil, houve uma in\u00e9dita e instant\u00e2nea transforma\u00e7\u00e3o no nosso pa\u00eds: ele passou de col\u00f4nia \u00e0 sede da Corte. Nesse contexto, algumas condi\u00e7\u00f5es foram criadas aqui, mesmo que de modo artificial, para servir \u00e0s necessidades da Corte portuguesa. 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