{"id":474,"date":"2021-02-19T12:20:45","date_gmt":"2021-02-19T15:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=474"},"modified":"2021-02-19T12:20:45","modified_gmt":"2021-02-19T15:20:45","slug":"ler-por-cesare-pavese-traducao-claudia-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/02\/19\/ler-por-cesare-pavese-traducao-claudia-alves\/","title":{"rendered":"Ler, por Cesare Pavese (tradu\u00e7\u00e3o Cl\u00e1udia Alves)"},"content":{"rendered":"<p>O artigo &#8220;Ler&#8221; (no original, &#8220;Leggere&#8221;) foi escrito por Cesare Pavese e publicado pela primeira vez em 20 junho de 1945, no L&#8217;Unit\u00e0, jornal italiano\u00a0 comunista fundado por Antonio Gramsci, em 1924. Posteriormente, foi recolhido na colet\u00e2nea p\u00f3stuma <em>A literatura americana e outros ensaios<\/em>, de 1951.<\/p>\n<p>Vale lembrar, em brev\u00edssima contextualiza\u00e7\u00e3o, que ap\u00f3s o fim da segunda guerra mundial, assim como dos anos vividos sob o regime fascista, a reconstru\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia, em todos os sentidos, passar\u00e1 a ser um tema recorrente entre intelectuais e escritores . A reflex\u00e3o de Pavese localiza-se, portanto, nesse momento em que as rela\u00e7\u00f5es entre literatura e sociedade se encontram bastante afetadas pela perspectiva de um pa\u00eds que dever\u00e1 encontrar maneiras de se reerguer culturalmente (e ideologicamente).<\/p>\n<figure style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fondazionecesarepavese.it\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/prima_pagina_di_la_luna_e_i_falo.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"500\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Trecho de manuscrito de Pavese (fonte: https:\/\/fondazionecesarepavese.it\/)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Ler<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que n\u00e3o devemos nos cansar de conclamar os escritores \u00e0 clareza, \u00e0 simplicidade, \u00e0 solicitude para com as massas que n\u00e3o escrevem, mas \u00e0s vezes se instaura a d\u00favida de que nem todos saibam ler. Ler \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil, dizem aqueles cujo h\u00e1bito de ler acabou com qualquer respeito pela palavra escrita. Mas quem, pelo contr\u00e1rio, trata de homens ou de coisas mais do que de livros, e sai pela manh\u00e3 e volta \u00e0 noite, endurecido, quando por acaso ele se recolhe a uma p\u00e1gina, d\u00e1-se conta de ter sob os olhos algo dif\u00edcil e bizarro, esmorecido e ao mesmo tempo forte, que o agride e o encoraja. Seria in\u00fatil dizer que este \u00faltimo est\u00e1 mais perto da verdadeira leitura do que o outro.<\/p>\n<p>Acontece com os livros assim como com as pessoas. S\u00e3o levados a s\u00e9rio. Mas justamente por isso devemos nos precaver de torn\u00e1-los \u00eddolos, isto \u00e9, instrumentos de nossa pregui\u00e7a. O homem que n\u00e3o vive entre livros, e que deve fazer um esfor\u00e7o para abri-los, tem um capital de humildade, de for\u00e7a inconsciente \u2013 a \u00fanica que vale \u2013 que lhe permite se aproximar das palavras com o respeito e a ansiedade com que se aproxima de uma pessoa querida. E isso vale muito mais do que a &#8220;cultura&#8221;; isso \u00e9, na verdade, a verdadeira cultura. Necessidade de compreender os outros, caridade para com os outros, que \u00e9 afinal o \u00fanico modo de compreender e amar a n\u00f3s mesmos: a cultura come\u00e7a aqui. Os livros n\u00e3o s\u00e3o os homens, s\u00e3o meios para alcan\u00e7\u00e1-los; quem os ama e n\u00e3o ama os homens \u00e9 um presun\u00e7oso ou um condenado.<\/p>\n<p>Existe um obst\u00e1culo ao ler \u2013 e \u00e9 sempre o mesmo, em todos os campos da vida \u2013, a excessiva seguran\u00e7a de si, a falta de humildade, a recusa a acolher o outro, o diferente. Sempre nos fere a inaudita descoberta de que algu\u00e9m viu n\u00e3o mais longe do que n\u00f3s, mas diferentemente de n\u00f3s. Somos feitos de h\u00e1bitos mesquinhos. Amamos nos maravilhar, como crian\u00e7as, mas n\u00e3o tanto assim. Quando o estupor nos impele a sair de n\u00f3s mesmos, a perder o equil\u00edbrio para reencontrar talvez um outro mais destemido, ent\u00e3o enrugamos a boca, batemos o p\u00e9, voltamos realmente a ser crian\u00e7a. Mas das crian\u00e7as nos falta a virgindade, que \u00e9 a inoc\u00eancia. N\u00f3s temos ideias, temos gostos, j\u00e1 lemos livros: possu\u00edmos alguma coisa e, como todo possuidor, estremecemos por esta alguma coisa.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s, infelizmente, j\u00e1 lemos. E como acontece frequentemente de os pequenos burgueses se importarem mais com o falso decoro e os preconceitos de classe do que os \u00e1geis aventureiros do grande mundo, assim o ignorante que leu alguma coisa se prende cegamente ao gosto, \u00e0 banalidade, ao preconceito que o tomou, e a partir de ent\u00e3o, se ocorre de ele ainda ler, ele julga e condena tudo de acordo com tal medida. \u00c9 muito f\u00e1cil aceitar a perspectiva mais banal e se apegar a ela, seguros do consenso da maioria. \u00c9 muito c\u00f4modo supor que todo esfor\u00e7o j\u00e1 acabou e que se conhece a beleza, a verdade, a justi\u00e7a. \u00c9 c\u00f4modo e vil. \u00c9 como acreditar que se est\u00e1 absolvido do eterno e temente dever de ter caridade com os homens simplesmente porque de vez em quando d\u00e1 uma moeda ao pedinte. Nada faremos, nem mesmo aqui, sem o respeito e a humildade: a humildade que entreabre frestas em n\u00f3s atrav\u00e9s da nossa subst\u00e2ncia de orgulho e pregui\u00e7a, o respeito que nos persuade \u00e0 dignidade dos outros, do diferente, do pr\u00f3ximo enquanto tal.<\/p>\n<p>Fala-se sobre livros. E sabe-se que livros, quanto mais ing\u00eanua e plana \u00e9 a sua voz, mais dor e tens\u00e3o eles custaram a quem os escreveu. \u00c9 in\u00fatil, portanto, ter esperan\u00e7a de tate\u00e1-los sem pagar um pre\u00e7o pessoal por isso. Ler n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. E acontece, como se costuma dizer, que quem estudou, quem se move agilmente no mundo do conhecimento e do gosto, quem tem o tempo e os meios para ler, muito frequentemente acaba sem alma, sem amor pelo homem, acaba encrostado e endurecido pelo ego\u00edsmo de casta. Enquanto quem aspiraria, como aspira \u00e0 vida, a este mundo da fantasia e do pensamento, quase sempre se encontra ainda privado dos elementos iniciais: lhes falta o alfabeto de alguma linguagem, n\u00e3o lhes sobram nem tempo, nem for\u00e7as, ou, pior, est\u00e3o corrompidos por uma falsa prepara\u00e7\u00e3o, quase uma propaganda, que lhes barra e deturpa os valores. Quem encara um tratado de f\u00edsica, um texto de contabilidade, a gram\u00e1tica de uma l\u00edngua, sabe que existe uma prepara\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, um conjunto m\u00ednimo de no\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para tirar algum proveito da nova leitura. Quantos se d\u00e3o conta de que uma bagagem t\u00e9cnica an\u00e1loga \u00e9 necess\u00e1ria para se aproximar de um romance, um poema, um ensaio, uma reflex\u00e3o? E, ainda, que essas no\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas s\u00e3o incomensuravelmente mais complexas, sutis e fugidias do que as outras, e n\u00e3o podem ser encontradas em nenhum manual, em nenhuma b\u00edblia? Todos acham que um conto, um poema, ser\u00e1 naturalmente acess\u00edvel \u00e0 aten\u00e7\u00e3o humana comum, por falar n\u00e3o ao f\u00edsico, ao contabilista ou ao especialista, mas sim ao homem que existe em todos eles. E \u00e9 este o erro. Outro \u00e9 o homem, outro, os homens. No final das contas, \u00e9 tola a lenda de que poetas, narradores e fil\u00f3sofos se referem ao homem em absoluto, ao homem abstrato, ao Homem. Eles falam ao indiv\u00edduo de uma determinada \u00e9poca e situa\u00e7\u00e3o, ao indiv\u00edduo que tem determinados problemas e procura resolv\u00ea-los \u00e0 sua maneira, inclusive e sobretudo quando l\u00ea romances. Ser\u00e1 preciso ent\u00e3o, para entender os romances, situar-se em sua \u00e9poca e propor-se os seus problemas; o que quer dizer, nesse campo, aprender antes de mais nada as linguagens, a necessidade das linguagens. Convencer-se de que, se um escritor escolhe certas palavras, certos tons e ares ins\u00f3litos, ele tem pelo menos o direito de n\u00e3o ser subitamente condenado em nome de uma leitura precedente, na qual os ares e as palavras estavam mais organizados, eram mais f\u00e1ceis ou apenas diferentes. Esse feito da linguagem \u00e9 o mais vistoso, mas n\u00e3o o mais urgente. Claro, tudo \u00e9 linguagem em um escritor, mas basta ter compreendido isso para se ver em um mundo mais vivo e complexo, onde a quest\u00e3o de uma palavra, de uma inflex\u00e3o, de uma cad\u00eancia, torna-se de repente um problema de costume, de moralidade. Ou at\u00e9 mesmo de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Isso basta ent\u00e3o. A arte, como dizem, \u00e9 uma coisa s\u00e9ria. \u00c9 t\u00e3o s\u00e9ria quanto a moral e a pol\u00edtica. Mas se temos o dever de nos aproximar dessas duas \u00faltimas com uma mod\u00e9stia que mira a clareza \u2013 caridade com os outros e dureza conosco \u2013, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender com que direito, diante de uma p\u00e1gina escrita, nos esquecemos de sermos homens e de que com um homem estamos falando.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica<\/strong><\/p>\n<p>PAVESE, Cesare. <strong>La letteratura americana e altri saggi<\/strong>. Livro digital. Turim: Einaudi, 2014, s\/p.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo &#8220;Ler&#8221; (no original, &#8220;Leggere&#8221;) foi escrito por Cesare Pavese e publicado pela primeira vez em 20 junho de 1945, no L&#8217;Unit\u00e0, jornal italiano\u00a0 comunista fundado por Antonio Gramsci, em 1924. 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