{"id":487,"date":"2021-03-30T16:28:54","date_gmt":"2021-03-30T19:28:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=487"},"modified":"2021-03-30T16:28:56","modified_gmt":"2021-03-30T19:28:56","slug":"sobre-benjamin-carlitos-e-brincadeiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/03\/30\/sobre-benjamin-carlitos-e-brincadeiras\/","title":{"rendered":"Sobre Benjamin, Carlitos e brincadeiras"},"content":{"rendered":"\n<blockquote>\n<p><i>Carlitos \u00e9 funcion\u00e1rio de uma loja de penhores. Em determinado momento, chega um cliente, levando um rel\u00f3gio para ser avaliado. Carlitos \u00e9 o avaliador. Inicialmente, ele pega um estetosc\u00f3pio e examina o objeto, como se esse fosse um paciente e o personagem, o doutor. A seguir, com uma broca, abre o rel\u00f3gio, como faria um carpinteiro. Tal como faria com uma lata de atum, ele abre o rel\u00f3gio, e o cheira para conferir se n\u00e3o est\u00e1 estragado. Retira o bocal de um telefone, objeto que \u00e9 usado como os \u00f3culos de um joalheiro, e, como se fosse esse profissional, Carlitos examina o objeto. Depois, joga \u00f3leo sobre o conte\u00fado do rel\u00f3gio, como faria com algum motor de carro, e extrai as suas partes com um alicate, como um dentista extraindo os dentes de algu\u00e9m. Tal como um alfaiate ou um decorador, que mede e corta peda\u00e7os de pano, Carlitos estica as bobinas do interior do rel\u00f3gio. Dispostas no balc\u00e3o, as pe\u00e7as extra\u00eddas ainda come\u00e7am a se mexer sozinhas, como se sob o efeito de algum feiti\u00e7o. Ao fim, o avaliador deposita o rel\u00f3gio e o seu \u201cconte\u00fado\u201d dentro do chap\u00e9u do cliente, que o recebe de volta um tanto quanto surpreso, ap\u00f3s ter a proposta negada por Carlitos.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essa \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o de uma cena do filme <i>Casa de Penhores<\/i> (<i>The Pawnshop<\/i>), de Charles Chaplin, lan\u00e7ado em 1916. Chaplin, ator, diretor, produtor, montador, compositor&#8230; \u00e9 um dos principais nomes da hist\u00f3ria do cinema, e a imagem do seu Carlitos \u00e9, ainda hoje, uma das mais associadas a esse meio. Ao longo de <i>Casa de Penhores<\/i>, mas principalmente dessa cena da avalia\u00e7\u00e3o do rel\u00f3gio, vemos um elemento fundamental do cinema de Chaplin, respons\u00e1vel por uma parcela substancial de seu humor: a rela\u00e7\u00e3o do personagem Carlitos com os objetos. Essa rela\u00e7\u00e3o envolve uma esp\u00e9cie de transforma\u00e7\u00e3o dos objetos &#8211; eles ganham outros usos e outras fun\u00e7\u00f5es, diferentes daquelas do cotidiano.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_494\" aria-describedby=\"caption-attachment-494\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-494\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Casa-de-penhores-300x223.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Casa-de-penhores-300x223.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Casa-de-penhores.jpg 512w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-494\" class=\"wp-caption-text\">Carlitos examina um rel\u00f3gio\u2026<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o bastante documentada e comentada ao longo da hist\u00f3ria. Talvez o primeiro autor a abordar teoricamente o assunto tenha sido o franc\u00eas Andr\u00e9 Bazin (1918-1958), um dos grandes te\u00f3ricos e cr\u00edticos do cinema e um dos mentores intelectuais da Nouvelle Vague, movimento do cinema franc\u00eas. Andr\u00e9 Bazin abordou esse assunto no seu texto \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o a uma simbologia de Carlitos\u201d. [1]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_488\" aria-describedby=\"caption-attachment-488\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-488\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Andre_Bazin-234x300.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Andre_Bazin-234x300.jpg 234w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Andre_Bazin-800x1024.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Andre_Bazin-768x983.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Andre_Bazin-1200x1536.jpg 1200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Andre_Bazin.jpg 1250w\" sizes=\"(max-width: 234px) 100vw, 234px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-488\" class=\"wp-caption-text\">O te\u00f3rico e cr\u00edtico Andr\u00e9 Bazin tratou da rela\u00e7\u00e3o do famoso personagem Carlitos com os objetos ao seu redor.<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Se alguns autores, como Bazin, trataram dessa quest\u00e3o diretamente, outras reflex\u00f5es, n\u00e3o necessariamente vinculadas a Carlitos, podem ser trazidas para a discuss\u00e3o, auxiliando a observar de novas maneiras essa rela\u00e7\u00e3o entre Carlitos e os objetos. Foi justamente isso que busquei fazer no meu artigo <a href=\"https:\/\/www.gewebe.com.br\/pdf\/cad19\/texto_10.pdf\">\u201cO car\u00e1ter l\u00fadico da rela\u00e7\u00e3o entre Carlitos e os objetos\u201d<\/a> [2].\u00a0<\/p>\n<p>Nesse artigo, abordei essa quest\u00e3o em di\u00e1logo principalmente com algumas discuss\u00f5es de Walter Benjamin (1892-1940). Benjamin \u00e9 um importante intelectual alem\u00e3o, que discutiu quest\u00f5es relacionadas \u00e0 literatura, \u00e0 hist\u00f3ria, \u00e0 filosofia e \u00e0s artes. No caso do artigo, busquei algumas reflex\u00f5es espec\u00edficas do autor, ideias um pouco diferentes, mais brincalhonas. Tais reflex\u00f5es, relacionadas \u00e0s crian\u00e7as, \u00e0s brincadeiras e aos brinquedos, aparecem em alguns de seus textos que podemos at\u00e9 considerar menos conhecidos pelo \u201cgrande (pequeno) p\u00fablico\u201d acad\u00eamico. Nesses textos, o autor comenta, justamente, o car\u00e1ter imaginativo, transformador, das brincadeiras infantis. Com elas, as crian\u00e7as criam novos objetos, criam um novo mundo e transformam o seu pr\u00f3prio mundo, o mundo \u201creal\u201d.<\/p>\n<p>Chaplin, de fato, \u00e9 um artista muito importante para Walter Benjamin: ele \u00e9 talvez o artista que recebe mais destaque no seu c\u00e9lebre ensaio \u201cA obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica\u201d [3], por exemplo. No entanto, nesses textos sobre as crian\u00e7as e os brinquedos, Chaplin n\u00e3o aparece. Mesmo assim, as contribui\u00e7\u00f5es de Benjamin, a meu ver, parecem dizer muito respeito \u00e0 atividade de Carlitos nos filmes.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_490\" aria-describedby=\"caption-attachment-490\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-490\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Bertolt-Brecht-e-Walter-Benjamin-1536x791-1-300x154.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"154\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Bertolt-Brecht-e-Walter-Benjamin-1536x791-1-300x154.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Bertolt-Brecht-e-Walter-Benjamin-1536x791-1-1024x527.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Bertolt-Brecht-e-Walter-Benjamin-1536x791-1-768x396.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Bertolt-Brecht-e-Walter-Benjamin-1536x791-1.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-490\" class=\"wp-caption-text\">Walter Benjamin, \u00e0 direita, jogando xadrez (brincando?) com outro importante intelectual alem\u00e3o, Bertolt Brecht (1898-1956).<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Benjamin, por\u00e9m, n\u00e3o foi o primeiro a comentar esse car\u00e1ter transformador das brincadeiras das crian\u00e7as. Sigmund Freud, o conhecido psicanalista austr\u00edaco, por exemplo, j\u00e1 havia abordado o assunto, e de maneira razoavelmente semelhante \u00e0 de Benjamin:<\/p>\n<blockquote>\n<p>N\u00e3o dever\u00edamos procurar os primeiros ind\u00edcios da atividade po\u00e9tica j\u00e1 nas crian\u00e7as? A atividade que mais agrada e a mais intensa das crian\u00e7as \u00e9 o brincar. Talvez dev\u00eassemos dizer: toda crian\u00e7a brincando se comporta como um poeta, na medida em que ela cria seu pr\u00f3prio mundo, melhor dizendo, transp\u00f5e as coisas do seu mundo para uma nova ordem, que lhe agrada. Seria ent\u00e3o injusto pensar que a crian\u00e7a n\u00e3o leva a s\u00e9rio esse mundo, ao contr\u00e1rio, ela leva muito a s\u00e9rio suas brincadeiras, mobilizando para isso grande quantidade de afeto. O oposto da brincadeira n\u00e3o \u00e9 a seriedade, mas a realidade [Wirklichkeit]. A crian\u00e7a diferencia enfaticamente seu mundo de brincadeira da realidade, apesar de toda a distribui\u00e7\u00e3o de afeto, e empresta, com prazer, seus objetos imagin\u00e1rios e relacionamentos \u00e0s coisas concretas e vis\u00edveis do mundo real. N\u00e3o \u00e9 outra coisa do que este empr\u00e9stimo que ainda diferencia o \u201cbrincar\u201d da crian\u00e7a do \u201cfantasiar\u201d. [4]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Como vemos, a atividade do brincar envolve uma transforma\u00e7\u00e3o. No entanto, curiosamente, essa transforma\u00e7\u00e3o envolveria uma grande dose de seriedade. Benjamin, por outro lado, aborda essa quest\u00e3o n\u00e3o em um, mas em alguns textos. O autor comenta o modo curioso com o qual as crian\u00e7as se relacionariam com os objetos. A rela\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com alguns res\u00edduos, com \u201crestos\u201d, \u00e9 a da transforma\u00e7\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A Terra est\u00e1 repleta dos mais puros e infalsific\u00e1veis objetos da aten\u00e7\u00e3o infantil. E objetos dos mais espec\u00edficos. \u00c9 que crian\u00e7as s\u00e3o especialmente inclinadas a buscarem todo local de trabalho onde a atua\u00e7\u00e3o sobre as coisas se processa de maneira vis\u00edvel. Sentem-se irresistivelmente atra\u00eddas pelos detritos que se originam da constru\u00e7\u00e3o, do trabalho no jardim ou na marcenaria, da atividade do alfaiate ou onde quer que seja. Nesses produtos residuais elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas volta exatamente para elas, e somente para elas. Neles, est\u00e3o menos empenhadas em reproduzir as obras dos adultos do que em estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o nova e incoerente entre esses restos e materiais residuais. Com isso as crian\u00e7as formam o seu pr\u00f3prio mundo das coisas, um pequeno mundo inserido no grande. [5]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Haveria uma comunica\u00e7\u00e3o bem espec\u00edfica entre os objetos e as crian\u00e7as. Atrav\u00e9s desse contato, as crian\u00e7as criariam um mundo pr\u00f3prio, que se inseriria no universo mais amplo compartilhado por crian\u00e7as e adultos. Quando nos aproximamos do tema dos brinquedos, essa rela\u00e7\u00e3o m\u00e1gica da crian\u00e7a com os objetos torna-se mais clara. O autor comenta a rela\u00e7\u00e3o complexa das crian\u00e7as com seus brinquedos, marcada, ao mesmo tempo, pelo respeito e pela inova\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Se [&#8230;] fizermos uma reflex\u00e3o sobre a crian\u00e7a que brinca, poderemos falar ent\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o antin\u00f4mica. De um lado, o fato apresenta-se da seguinte forma: nada \u00e9 mais adequado \u00e0 crian\u00e7a do que irmanar em suas constru\u00e7\u00f5es os materiais mais heterog\u00eaneos \u2013 pedras, plastilina, madeira, papel. Por outro lado, ningu\u00e9m \u00e9 mais casto em rela\u00e7\u00e3o aos materiais do que crian\u00e7as: um simples pedacinho de madeira, uma pinha ou uma pedrinha re\u00fanem na solidez, no monolitismo de sua mat\u00e9ria, uma exuber\u00e2ncia das mais diferentes figuras. [6]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na vis\u00e3o do autor, qualquer objeto pode se tornar brinquedo para as crian\u00e7as. Al\u00e9m disso, a rela\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com os brinquedos \u00e9 ativa: \u00e9 a crian\u00e7a que d\u00e1 vida e de algum modo transforma o brinquedo. Podemos considerar que a crian\u00e7a, com a sua imagina\u00e7\u00e3o, praticamente cria o brinquedo, que tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 estagnado na cria\u00e7\u00e3o infantil: pelo contr\u00e1rio, esse brinquedo sempre ficar\u00e1 dispon\u00edvel a novos olhares e a novas cria\u00e7\u00f5es. Essa abertura \u00e0s ressignifica\u00e7\u00f5es se relaciona com uma ideia de liberdade presente no brincar das crian\u00e7as. Essa liberdade pode inclusive provocar efeitos nos adultos, como o de um encantamento:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Conhecemos aquela cena da fam\u00edlia reunida sob a \u00e1rvore de Natal, o pai inteiramente absorto com o trenzinho de brinquedo que ele acabou de dar ao filho, enquanto este chora ao seu lado. N\u00e3o se trata de uma regress\u00e3o maci\u00e7a \u00e0 vida infantil quando o adulto se v\u00ea tomado por um tal \u00edmpeto de brincar. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que brincar significa sempre liberta\u00e7\u00e3o. Rodeadas por um mundo de gigantes, as crian\u00e7as criam para si, brincando, o pequeno mundo pr\u00f3prio; mas o adulto, que se v\u00ea acossado por uma realidade amea\u00e7adora, sem perspectivas de solu\u00e7\u00e3o, liberta-se dos horrores do real mediante a sua reprodu\u00e7\u00e3o miniaturizada. [7]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por fim, gostaria de destacar um \u00faltimo aspecto apontado por Benjamin: a repeti\u00e7\u00e3o, \u201cgrande lei que, acima de todas as regras e ritmos particulares, rege a totalidade do mundo dos jogos\u201d [8]. No entanto, n\u00e3o se trata aqui de uma repeti\u00e7\u00e3o do id\u00eantico, do mesmo, na atividade da crian\u00e7a; trata-se, na verdade, de uma repeti\u00e7\u00e3o criadora, em que a experi\u00eancia \u00e9 sempre nova, n\u00e3o perde em originalidade:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Para ela [a crian\u00e7a], por\u00e9m, n\u00e3o bastam duas vezes, mas sim sempre de novo, centenas e milhares de vezes. N\u00e3o se trata apenas de um caminho para assenhorear-se de terr\u00edveis experi\u00eancias primordiais mediantes o embotamento, conjuro malicioso ou par\u00f3dia, mas tamb\u00e9m de saborear, sempre de novo e da maneira mais intensa, os triunfos e as vit\u00f3rias. O adulto, ao narrar uma experi\u00eancia, alivia o seu cora\u00e7\u00e3o dos horrores, goza duplamente uma felicidade. A crian\u00e7a volta a criar para si todo o fato vivido, come\u00e7a mais uma vez do in\u00edcio. [&#8230;] A ess\u00eancia do brincar n\u00e3o \u00e9 um \u201cfazer como se\u201d, mas um \u201cfazer sempre de novo\u201d, transforma\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia mais comovente em h\u00e1bito. [9]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_491\" aria-describedby=\"caption-attachment-491\" style=\"width: 245px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-491\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Walter_Benjamin_family1896-245x300.jpg\" alt=\"\" width=\"245\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Walter_Benjamin_family1896-245x300.jpg 245w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Walter_Benjamin_family1896.jpg 588w\" sizes=\"(max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-491\" class=\"wp-caption-text\">A crian\u00e7a \u00e0 direita \u00e9 Walter Benjamin, em 1896. Ele est\u00e1 junto de seus pais e de seu irm\u00e3o Georg.<\/figcaption><\/figure>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Benjamin traz, portanto, algumas leituras bastante produtivas sobre as crian\u00e7as, sobre as suas brincadeiras, sobre os seus brinquedos. Essa rela\u00e7\u00e3o envolve tamb\u00e9m, assim como a rela\u00e7\u00e3o de Chaplin com os objetos, uma intensa transforma\u00e7\u00e3o: muitas vezes, objetos quaisquer viram brinquedos, e a brincadeira parece se relacionar de forma muito efetiva com essa quase \u201cmudan\u00e7a de objetos\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Antes de finalizar este texto, trago dois exemplos de uma obra de Chaplin; exemplos famosos, talvez um pouco gastos, mas quem sabe at\u00e9 por isso mais claros. Trata-se de duas cenas do filme <i>Em Busca do Ouro <\/i>(The Gold Rush), lan\u00e7ado originalmente em 1925.\u00a0<\/p>\n<p>Em dado momento, Carlitos, em uma situa\u00e7\u00e3o de grande pen\u00faria e fome, cozinha uma das botas do par que estava usando e a serve em uma refei\u00e7\u00e3o. Nessa refei\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica, as pr\u00f3prias partes da bota se transformam: a base do cal\u00e7ado \u00e9 como uma carne; as pregas s\u00e3o como espinhos; os cadar\u00e7os s\u00e3o como espaguetes. Essa cena, inclusive, \u00e9 comentada por um autor mais ligado \u00e0 literatura, o escritor brasileiro Carlos Heitor Cony. Ele relaciona a transforma\u00e7\u00e3o dos objetos operada por Chaplin com aquela realizada por um grande personagem liter\u00e1rio: Dom Quixote. Cony afirma que, apesar de, em ambos os her\u00f3is, haver uma esp\u00e9cie de transforma\u00e7\u00e3o, Carlitos mant\u00e9m sempre um conhecimento da natureza \u201creal\u201d dos objetos, ao contr\u00e1rio de Quixote. O autor comenta a cena: \u201cseus olhos nunca duvidam do que realmente est\u00e1 vendo: v\u00ea uma bota [&#8230;], sabe que \u00e9 uma bota. [&#8230;] aceita a realidade e a bota: palita os dentes, satisfeito, depois desaperta o colete para fazer a digest\u00e3o, n\u00e3o a digest\u00e3o do bife, mas a digest\u00e3o da bota\u201d [10]. Ao contr\u00e1rio de Quixote, Carlitos n\u00e3o foge da realidade, n\u00e3o a nega, n\u00e3o cria ilus\u00f5es: \u201cele enfrenta o mundo real sem se evadir de sua aspereza, sem transferir culpas. N\u00e3o se justifica por ter comido a bota\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_495\" aria-describedby=\"caption-attachment-495\" style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-495\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Em-busca-do-ouro.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"194\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-495\" class=\"wp-caption-text\">Carlitos se alimenta da bota.<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Essa postura complexa de Carlitos indica uma consci\u00eancia por parte do personagem de seu processo imaginativo: Carlitos sabe que est\u00e1 inventando. E Carlitos tamb\u00e9m possui a ci\u00eancia do que faz na segunda sequ\u00eancia que comento, sequ\u00eancia um pouco menos tr\u00e1gica. Nela, em um momento de festa, Carlitos se utiliza de dois p\u00e3ezinhos para realizar uma dan\u00e7a. Com dois garfos, prende os p\u00e3es e come\u00e7a a realizar o seu n\u00famero, em que os alimentos se comportam como dois pezinhos. \u00c9 interessante observar que, nessa sequ\u00eancia, a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o possui um objetivo claro, pragm\u00e1tico. Carlitos n\u00e3o quer nada com a sua dan\u00e7a, que possui um valor e uma express\u00e3o em si. Essa dan\u00e7a n\u00e3o quer nada al\u00e9m de encantar, de nos encantar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_496\" aria-describedby=\"caption-attachment-496\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-496\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Em-Busca-do-Ouro-paes-300x187.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Em-Busca-do-Ouro-paes-300x187.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Em-Busca-do-Ouro-paes.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-496\" class=\"wp-caption-text\">Carlitos, em sua dan\u00e7a com os p\u00e3ezinhos.<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por fim, gostaria de trazer uma breve cita\u00e7\u00e3o de Benjamin. Em um texto de cr\u00edtica do filme de 1928 <i>O Circo <\/i>(The Circus), de Chaplin, Benjamin traz uma frase bastante interessante, um tanto metaf\u00f3rica, e quase prof\u00e9tica. Essa cita\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o tenha sido escrita com esse objetivo, pode dizer muito sobre Carlitos: \u201cChaplin acena com seu chap\u00e9u coco, e \u00e9 como se a tampa de uma chaleira transbordante se levantasse\u201d [11]. Benjamin j\u00e1 n\u00e3o estaria, ao menos metaforicamente, antevendo a import\u00e2ncia da transforma\u00e7\u00e3o dos objetos na obra de Chaplin?\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_497\" aria-describedby=\"caption-attachment-497\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-497\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Luzes-da-cidade-300x227.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Luzes-da-cidade-300x227.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Luzes-da-cidade.jpg 566w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-497\" class=\"wp-caption-text\">Chaplin levanta o seu chap\u00e9u e cumprimenta uma est\u00e1tua em Luzes da Cidade (City Lights)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria indument\u00e1ria do personagem, que o constitui, parece passar por processos de transforma\u00e7\u00e3o, de mudan\u00e7a. O personagem, em suas brincadeiras, nos traz um turbilh\u00e3o de imagina\u00e7\u00f5es e de ressignifica\u00e7\u00f5es. E n\u00f3s, um pouco crian\u00e7as (ainda), brincamos com ele.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\">(Essa discuss\u00e3o, em que enfatizei as ideias de Walter Benjamin, \u00e9 apenas uma parte de meu artigo. Caso tenha se interessado, aconselho-o ludicamente e seriamente a ler a vers\u00e3o integral de meus questionamentos. Nela, trago algumas discuss\u00f5es adicionais, que n\u00e3o caberiam neste espa\u00e7o, mas que s\u00e3o tamb\u00e9m bastante importantes, como a ideia do jogo e do l\u00fadico. Al\u00e9m disso, desenvolvo mais a discuss\u00e3o sobre Chaplin, com o coment\u00e1rio de outras obras. Sinta-se \u00e0 vontade para fazer parte dessa brincadeira!).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h5><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[1] \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o a uma simbologia de Carlitos\u201d, de Andr\u00e9 Bazin. Texto do livro <i>Charlie Chaplin<\/i>, publicado pela editora Jorge Zahar, em 2006.\u00a0<\/p>\n<p>[2] <a href=\"https:\/\/www.gewebe.com.br\/pdf\/cad19\/texto_10.pdf\">\u201cO car\u00e1ter l\u00fadico da rela\u00e7\u00e3o entre Carlitos e os objetos\u201d<\/a>, de Diogo Rossi Ambiel Facini. Artigo publicado no volume 19 da revista <i>Cadernos Walter Benjamin<\/i>, em 2018.<\/p>\n<p>[3] \u201cA obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica\u201d, de Walter Benjamin. Texto dispon\u00edvel em v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es brasileiras. No meu artigo, utilizei a publica\u00e7\u00e3o da editora Zouk, de 2012.<\/p>\n<p>[4] \u201cO poeta e o fantasiar\u201d, de Sigmund Freud. O trecho citado est\u00e1 na p\u00e1gina 54 do livro <i>Arte, Literatura e os artistas<\/i>,\u00a0 publicado pela Aut\u00eantica Editora, em 2015.<\/p>\n<p>[5] \u201cLivros infantis velhos e esquecidos\u201d, de Walter Benjamin. O trecho citado est\u00e1 nas p\u00e1ginas 57 e 58 da segunda edi\u00e7\u00e3o do livro <i>Reflex\u00f5es sobre a crian\u00e7a, o brinquedo e a educa\u00e7\u00e3o<\/i>, publicado em conjunto pela editora Duas Cidades e Editora 34, em 2009.<\/p>\n<p>[6] \u201cHist\u00f3ria cultural do brinquedo\u201d, de Walter Benjamin. O trecho citado est\u00e1 na p\u00e1gina 92 do mesmo livro mencionado na nota 5.<\/p>\n<p>[7] \u201cVelhos brinquedos: sobre a exposi\u00e7\u00e3o de brinquedos no M\u00e4rkisches Museum\u201d, de Walter Benjamin. O trecho citado est\u00e1 na p\u00e1gina 85 do mesmo livro mencionado na nota 5.<\/p>\n<p>[8] \u201cBrinquedos e jogos: observa\u00e7\u00f5es marginais sobre uma obra monumental\u201d, de Walter Benjamin. O trecho citado est\u00e1 na p\u00e1gina 101 do mesmo livro mencionado na nota 5.<\/p>\n<p>[9] O trecho citado est\u00e1 nas p\u00e1ginas 101 e 102 do mesmo texto mencionado na nota 8.<\/p>\n<p>[10] \u201cChaplin\u201d, de Carlos Heitor Cony. Os trechos citados est\u00e3o na p\u00e1gina 29 do livro <i>Chaplin e outros ensaios<\/i>, publicado pela editora Top Books, em 2012.\u00a0<\/p>\n<p>[11] \u201cChaplin\u201d, de Walter Benjamin. O trecho citado est\u00e1 na p\u00e1gina 170 do livro <i>Chaplin, retrospectiva integral: cat\u00e1logo.<\/i> Obra organizada por Rafael Ciccarini e Mateus Ara\u00fajo, publicada pela Funda\u00e7\u00e3o Cl\u00f3vis Salgado, em 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":643,"featured_media":494,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[27,187,21],"tags":[191,190,188,192,193,189],"class_list":["post-487","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artes","category-cinema","category-pesquisas-de-pos-graduacao","tag-atuacao","tag-brincadeiras","tag-charles-chaplin","tag-cinema","tag-filmes","tag-walter-benjamin"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/03\/Casa-de-penhores.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/487","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/643"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=487"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/487\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":517,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/487\/revisions\/517"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/494"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}