{"id":546,"date":"2021-07-30T12:03:41","date_gmt":"2021-07-30T15:03:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=546"},"modified":"2021-07-30T16:48:52","modified_gmt":"2021-07-30T19:48:52","slug":"herdeiras-de-capitu-personagens-femininas-silenciadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/07\/30\/herdeiras-de-capitu-personagens-femininas-silenciadas\/","title":{"rendered":"Herdeiras de Capitu? Personagens femininas silenciadas"},"content":{"rendered":"\n<p>No epis\u00f3dio <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/120-leitura-de-folego-ep-2-capitu-e-suas-herdeiras\/\">\u201cHerdeiras de Capitu? Personagens femininas silenciadas\u201d<\/a>, do <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/sobre\/\">podcast Oxig\u00eanio<\/a>, a L\u00facia Granja falou sobre alguns livros da literatura brasileira em que um narrador homem tenta omitir a voz de uma personagem feminina da trama. As vozes dessas mulheres, por\u00e9m, conseguem escapar e se inserir nas obras, de diferentes maneiras. A L\u00facia centrou a sua an\u00e1lise no romance <em>Dom Casmurro<\/em> (1899\/1900), do Machado de Assis, mas tamb\u00e9m falou sobre como esse modelo de narrativa reaparece em <em>S\u00e3o Bernardo<\/em> (1934), de Graciliano Ramos, <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas <\/em>(1956), de Guimar\u00e3es Rosa, <em>Um copo de c\u00f3lera<\/em> (1978), de Raduan Nassar e <em>Hosana na sarjeta<\/em> (2014), de Marcelo Mirisola. A L\u00facia \u00e9 professora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem, o <a href=\"https:\/\/www.iel.unicamp.br\/\">IEL<\/a> da Unicamp. Ela pesquisa principalmente a obra do Machado de Assis; em especial, as cr\u00f4nicas desse escritor e as rela\u00e7\u00f5es entre Literatura e Jornalismo na produ\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<h5><strong>O modelo <\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Um homem e uma mulher formam um casal. Por algum motivo, acontece um conflito entre eles, e esse relacionamento acaba. O homem, depois, resolve contar esse conflito. Com isso, ele procura dar um novo significado para a pr\u00f3pria vida e, ao mesmo tempo, silenciar, omitir, a voz da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao que aconteceu entre os dois. Mas, de alguma forma, a voz dessa mulher consegue escapar e aparecer na hist\u00f3ria&#8230; <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para a L\u00facia Granja, esse seria um modelo de narrativa importante na literatura brasileira a partir do s\u00e9culo XX. Ela identificou, em alguns dos nossos romances, narradores homens que, de formas diferentes, contaram suas hist\u00f3rias tentando silenciar as vozes femininas&#8230; E por que \u00e9 o homem quem narra o conflito amoroso?<\/p>\n<h5><strong>Uma coincid\u00eancia?<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Para sustentar sua an\u00e1lise, a L\u00facia partiu de um dado emp\u00edrico. Ela citou uma pesquisa, coordenada pela professora Regina Dalcastagn\u00e8, na qual foi observado (a partir de um exame extensivo de romances publicados entre 1990 e 2004) que os escritores brasileiros s\u00e3o, na sua maioria, brancos (90%), homens (70%) e moram no Rio de Janeiro (50%) ou em S\u00e3o Paulo (20%). [1]<\/p>\n<p>Apesar de esses dados se referirem \u00e0 literatura contempor\u00e2nea, a L\u00facia acredita que eles n\u00e3o dizem respeito apenas a esse per\u00edodo ou apenas ao contexto brasileiro. Ela tamb\u00e9m acredita que a ado\u00e7\u00e3o do ponto de vista masculino (pelo narrador que conta seu conflito amoroso) tem por tr\u00e1s a pr\u00f3pria autoria masculina. Ent\u00e3o, a pesquisa de Dalcastagn\u00e8 sustentaria a ideia de que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre a autoria e a cria\u00e7\u00e3o de um relato ficcional autobiogr\u00e1fico que projeta dados evidentes da nossa sociedade. E que dados s\u00e3o esses?<\/p>\n<p>Na nossa sociedade, a organiza\u00e7\u00e3o privada da fam\u00edlia foi estruturada de maneira paternalista: existe um chefe de fam\u00edlia respons\u00e1vel por organizar tudo que acontece nessa fam\u00edlia, com domina\u00e7\u00e3o. Ou seja, h\u00e1 uma domina\u00e7\u00e3o masculina que impera no seio da fam\u00edlia e, de certa maneira, tamb\u00e9m impera nas rela\u00e7\u00f5es entre homem e mulher, por mais que elas tenham mudado ao longo do tempo. Mas como isso aparece nos romances analisados pela L\u00facia?<\/p>\n<h5><strong>\u201cCapitu que entra\u201d<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_549\" aria-describedby=\"caption-attachment-549\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-549 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/1.-Dom-Casmurro.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-549\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de capa do livro <strong>Dom Casmurro<\/strong> e Machado de Assis (Divulga\u00e7\u00e3o da campanha \u201cMachado de Assis Real\u201d, feita pela Faculdade Zumbi dos Palmares)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O enredo de <em>Dom Casmurro<\/em> \u00e9 bastante conhecido, mas, s\u00f3 para lembrar rapidinho: a hist\u00f3ria \u00e9 narrada por um homem, o Bento Santiago (tamb\u00e9m chamado de Bentinho ou Dom Casmurro), que, quando j\u00e1 est\u00e1 mais velho, resolve escrever sobre a pr\u00f3pria vida. Ele fala das dificuldades que teve para se casar com a sua vizinha Capitolina, a Capitu. E, depois do casamento, ele acha o pr\u00f3prio filho muito parecido com seu melhor amigo e desconfia que a Capitu o tenha tra\u00eddo.<\/p>\n<p>Sem entrar na discuss\u00e3o sobre a culpa da Capitu (ela traiu ou n\u00e3o o marido?), a L\u00facia considera que os ci\u00fames crescentes do Bentinho o levam a tomar decis\u00f5es unilaterais. O Bentinho decide que o casal ir\u00e1 se separar, decide tamb\u00e9m exilar a Capitu na Su\u00ed\u00e7a, enquanto ele finge para os seus contempor\u00e2neos que vai \u00e0 Europa todos os anos para ver a fam\u00edlia. E ele quer resolver tudo isso em sil\u00eancio. A Capitu pede explica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o v\u00eam. Quando o Bentinho se nega a conversar com a Capitu sobre a suposta trai\u00e7\u00e3o dela e j\u00e1 decide como vai ser a separa\u00e7\u00e3o dos dois, como se dissesse \u201cesse caso n\u00e3o \u00e9 da sua conta\u201d, ele estava silenciando a Capitu; ou seja, o sil\u00eancio dele impediu que ela se manifestasse naquela situa\u00e7\u00e3o de crise no relacionamento deles.<\/p>\n<p>No podcast, a L\u00facia mostrou com mais detalhes como esse silenciamento acontece em um dos cap\u00edtulos do livro, o 138, chamado \u201cCapitu que entra\u201d. No entanto, apesar do silenciamento imposto com sucesso nessa cena do cap\u00edtulo 138, a voz da Capitu, ao longo do livro, aparece (de forma inclusive poderosa) nas d\u00favidas que o Bentinho narrador deixa escapar, quando se lembra do seu passado e conta a sua hist\u00f3ria. Ele \u2013 que decidiu, sozinho, exilar a Capitu \u2013 parece querer convencer o leitor de que foi tra\u00eddo, mas, ao mesmo tempo, parece que ele quer convencer a si pr\u00f3prio de que tomou a decis\u00e3o correta. Atrav\u00e9s dessas d\u00favidas de um velho deprimido, casmurro, \u00e9 como se a voz, a vers\u00e3o da Capitu, aparecesse no romance.<\/p>\n<h5><strong>Madalena, Diadorim(na), a jornalista e Paulinha Denise<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A L\u00facia percebeu que esse modelo de <em>Dom Casmurro<\/em>, romance que ela escolheu como ponto de partida para sua an\u00e1lise, reaparece na literatura brasileira de diferentes formas. Por exemplo, no livro <em>S\u00e3o Bernardo<\/em>, escrito por Graciliano Ramos e publicado pela primeira vez em 1934, o narrador, Paulo Hon\u00f3rio (assim como o Bentinho), quando est\u00e1 mais velho, decide escrever sobre a sua hist\u00f3ria. Ele conta as dificuldades que passou na vida e os meios (at\u00e9 ilegais e violentos) que usou para comprar a sua fazenda, chamada justamente S\u00e3o Bernardo. O Paulo Hon\u00f3rio conta tamb\u00e9m sobre o seu casamento com a Madalena, que seria a mulher silenciada nessa narrativa. Os ci\u00fames e o machismo do personagem foram o tornando agressivo com a esposa, e a sa\u00edda que Madalena encontrou ao silenciamento que progressivamente lhe era imposto foi o suic\u00eddio. A L\u00facia considera que a Madalena respondeu com um silenciamento sobre o qual n\u00e3o se pode calar, j\u00e1 que, depois que uma pessoa se suicida, \u00e9 preciso falar sobre isso, principalmente quando a opress\u00e3o de um sujeito est\u00e1 no centro dessa decis\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_550\" aria-describedby=\"caption-attachment-550\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-550\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/2.-Sao-Bernardo.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-550\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia de Graciliano Ramos em 1940 (Arquivo Nacional) e imagem de capa do livro <strong>S\u00e3o Bernardo<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em <em>Grande Ser\u00e3o: Veredas<\/em>, publicado em 1956 e escrito por Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, o silenciamento \u00e9 mais complexo. Nesse livro, o ex-jagun\u00e7o Riobaldo conta a hist\u00f3ria da sua vida para um senhor e fala bastante sobre o amor que sentia por outro jagun\u00e7o, chamado Diadorim. Mas, perto do fim da narrativa, o Riobaldo revela para esse senhor que o Diadorim era, na verdade, uma mulher. O Riobaldo s\u00f3 descobre isso depois da morte do Diadorim, e o leitor s\u00f3 vai ficar sabendo disso no final do livro. Em primeiro lugar, o silenciamento aparece no amor entre Riobaldo e Diadorim, que n\u00e3o foi expresso, n\u00e3o foi realizado, ficou silenciado. Em segundo lugar, acontece um silenciamento da mulher, por vontade do pai de Diadorina e por obedi\u00eancia ou pela pr\u00f3pria vontade da filha, que adota uma identidade de g\u00eanero masculina e passa sua vida toda como jagun\u00e7o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_551\" aria-describedby=\"caption-attachment-551\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-551\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/3.-Grande-Sertao-Veredas.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-551\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de capa do livro <strong>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/strong> e Guimar\u00e3es Rosa durante suas viagens pelo sert\u00e3o em 1952 (Fotografia de Eug\u00eanio Silva, veiculada na revista O cruzeiro)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mais de trinta anos depois, em 1978, o modelo do silenciamento feminino reaparece em <em>Um copo de c\u00f3lera<\/em>, de Raduan Nassar, novela que \u00e9 centrada no relato de um encontro e de uma briga de um casal; ele, o dono de uma ch\u00e1cara (onde vive mais isolado da sociedade), e ela, uma jornalista. Nos primeiros seis cap\u00edtulos desse livro, tudo \u00e9 contado pela voz masculina, mas, no s\u00e9timo e \u00faltimo cap\u00edtulo, a hist\u00f3ria come\u00e7a a ser recontada, aparentemente, pela voz feminina. E \u00e9 poss\u00edvel notar muitas diferen\u00e7as entre as duas vers\u00f5es. Por exemplo: o homem diz que o sol estava se pondo. A mulher fala que a tarde j\u00e1 estava escura. Ele conta que, quando chegou em casa, era aguardado pela mulher. J\u00e1 ela diz que ele que estava \u00e0 espera dela.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Vers\u00e3o masculina: E quando cheguei \u00e0 tarde na minha casa l\u00e1 no 27, ela j\u00e1 me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o port\u00e3o pra que eu entrasse com o carro, e logo que sa\u00ed da garagem subimos juntos a escada pro terra\u00e7o, e assim que entramos nele abri as cortinas do centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, ficando com nossos olhos voltados pro alto do lado oposto, l\u00e1 onde o sol ia se pondo, e est\u00e1vamos os dois em sil\u00eancio quando ela me perguntou \u201cque que voc\u00ea tem?\u201d, mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhid\u00e3o l\u00e1 do poente, e s\u00f3 foi mesmo pela insist\u00eancia da pergunta que respondi \u201cvoc\u00ea j\u00e1 jantou?\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Vers\u00e3o feminina: E quando cheguei na casa dele l\u00e1 no 27, estranhei que o port\u00e3o estivesse ainda aberto, pois a tarde, fronteiri\u00e7a, j\u00e1 avan\u00e7ava com o escuro, notando, ao descer do carro, uma atmosfera precoce se instalando entre os arbustos, me impressionando um pouco a gravidade negra e erecta dos ciprestes, e ali ao p\u00e9 da escada notei tamb\u00e9m que a porta do terra\u00e7o se encontrava escancarada, o que poderia parecer mais um sinal, redundante, quase ostensivo, de que ele estava \u00e0 minha espera, embora o expediente servisse antes pra me lembrar que eu, mesmo atrasada, sempre viria, incapaz de dispensar as recompensas da visita, e eu de fato, pensativa, subi at\u00e9 o patamar no alto&#8230; [2]<\/p>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_552\" aria-describedby=\"caption-attachment-552\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-552\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/4.-Um-copo-de-colera.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-552\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de capa do livro <strong>Um copo de C\u00f3lera<\/strong> e Raduan Nassar em ato de apoio \u00e0 presidenta Dilma Rousseff, no Pal\u00e1cio do Planalto (Fotografia de Antonio Cruz, Ag\u00eancia Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por fim, em <em>Hosana na sarjeta<\/em>, um livro de Marcelo Mirisola publicado em 2014, tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o amorosa com um sujeito muito complicado leva uma mulher ao suic\u00eddio. O narrador, que \u00e9 um escritor, conta \u2013 de uma forma bastante preconceituosa e cheia de julgamentos \u2013 o seu envolvimento amoroso com Paulinha Denise, uma menina da periferia de S\u00e3o Paulo, que, para ele, era brega, n\u00e3o instru\u00edda&#8230; No entanto, segundo o que ele tenta narrar, a rela\u00e7\u00e3o entre os dois foi verdadeira. E a voz de Paulinha entra na narrativa por meio de um bilhete de suic\u00eddio, que passa a ser um n\u00facleo muito importante no romance, um n\u00facleo, inclusive, de transforma\u00e7\u00e3o e de mudan\u00e7a do teor de reflex\u00e3o desse sujeito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_553\" aria-describedby=\"caption-attachment-553\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-553\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/07\/5.-Hosana-na-sarjeta.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-553\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de capa do livro <strong>Hosana na sarjeta<\/strong> e Marcelo Mirisola (fotografia de Jo\u00e3o Marcondes)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Enfim, essas narrativas t\u00eam uma \u201cmoldura\u201d parecida, s\u00e3o todas hist\u00f3rias em que um narrador homem conta o seu conflito amoroso, tentando silenciar a voz feminina. Por\u00e9m, as vozes das mulheres conseguem escapar e se infiltrar na narrativa, cada uma de uma forma diferente: seja nas d\u00favidas de Bentinho, seja nos tormentos que Paulo Hon\u00f3rio e Riobaldo passam pelo resto da vida, seja por meio de um bilhete suicida ou at\u00e9 retomando a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quiser ouvir essas reflex\u00f5es com mais detalhes, em vozes femininas (a da L\u00facia e a minha), confira o epis\u00f3dio <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/120-leitura-de-folego-ep-2-capitu-e-suas-herdeiras\/\">\u201cHerdeiras de Capitu? Personagens femininas silenciadas\u201d<\/a>, do <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/sobre\/\">podcast Oxig\u00eanio<\/a>.<\/p>\n<h5><strong>A s\u00e9rie<\/strong><\/h5>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-483 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>\u201cLeitura de F\u00f4lego\u201d \u00e9 uma s\u00e9rie do podcast de jornalismo e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica Oxig\u00eanio, produzido por alunos do <a href=\"http:\/\/www.labjor.unicamp.br\/\">Labjor<\/a>-Unicamp e coordenado por Simone Pallone. Essa s\u00e9rie sobre literatura aborda temas de pesquisa de quatro professores do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. Al\u00e9m desse epis\u00f3dio sobre o silenciamento de personagens femininas na literatura brasileira, foram abordados os seguintes temas: livros licenciosos, ensaios e utopias. Aqui no \u201cMarca P\u00e1ginas\u201d, j\u00e1 tem <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/02\/24\/leitura-proibida\/\">um post sobre os livros licenciosos<\/a>, que, por conterem cenas de sexo (entre outros motivos), eram proibidos no Brasil dos s\u00e9culos XVIII e XIX, mas que circularam bastante por aqui nessa \u00e9poca. Temos tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/04\/15\/ensaio-em-cena\/\">um post sobre os ensaios<\/a>, um tipo de texto que d\u00e1 liberdade para o seu autor se mostrar, com suas d\u00favidas e imperfei\u00e7\u00f5es. Em breve, tamb\u00e9m vamos ter mais um texto, apresentando o epis\u00f3dio sobre utopias (e distopias).<\/p>\n<p>Todos os programas da s\u00e9rie est\u00e3o integralmente transcritos na descri\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios no site do Oxig\u00eanio, para que pessoas surdas ou com alguma defici\u00eancia auditiva possam ter acesso ao conte\u00fado. Os epis\u00f3dios podem ser acessados pelo <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/\">site do Oxig\u00eanio<\/a>, pelo <a href=\"http:\/\/www.rtv.unicamp.br\/?audio_cat=oxigenio\">site da R\u00e1dio e TV Unicamp<\/a>, pelo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCIbv86TkZal7E9QWkatWBLA\">canal no Youtube da TV Unicamp<\/a> ou por agregadores como <a href=\"https:\/\/podcasts.google.com\/feed\/aHR0cDovL294aWdlbmlvLmNvbWNpZW5jaWEuYnIvP2ZlZWQ9cG9kY2FzdA\">Google Podcasts<\/a> e <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/4yvnvAE2hvC5wMuNhWPa0I\">Spotify<\/a>.<\/p>\n<h5><strong>Notas<\/strong><\/h5>\n<p>[1] Se quiser saber mais sobre essa pesquisa de Regina Dalcastagn\u00e8, acesse a entrevista que a pesquisadora deu em 2018 para a <em>Revista Cult<\/em>, chamada <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autor-brasileiro\/\">\u201cQuem \u00e9 e sobre o que escreve o autor brasileiro\u201d<\/a>.<\/p>\n<p>[2] Trechos dos cap\u00edtulos 1 e 7, ambos intiulados &#8220;A chegada&#8221;, do livro <em>Um copo de c\u00f3lera<\/em>, na edi\u00e7\u00e3o da Companhia das Letras.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":397,"featured_media":548,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[22,53,20,21,19],"tags":[209,210,213,212,217,148,208,162,216,55,214,211,218,215],"class_list":["post-546","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-critica-literaria","category-literatura","category-mulheres-na-literatura","category-pesquisas-de-pos-graduacao","category-teoria-literaria","tag-dom-casmurro","tag-graciliano-ramos","tag-grande-sertao-veredas","tag-guimaraes-rosa","tag-hosana-na-sarjeta","tag-literatura-brasileira","tag-lucia-granja","tag-machado-de-assis","tag-marcelo-mirisola","tag-mulheres-na-literatura","tag-raduan-nassar","tag-sao-bernardo","tag-silenciamento-feminino","tag-um-copo-de-colera"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/397"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=546"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/546\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":564,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/546\/revisions\/564"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}