{"id":605,"date":"2021-11-30T14:14:02","date_gmt":"2021-11-30T17:14:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=605"},"modified":"2021-11-30T14:14:05","modified_gmt":"2021-11-30T17:14:05","slug":"utopia-o-sonho-que-antecede-o-pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/11\/30\/utopia-o-sonho-que-antecede-o-pesadelo\/","title":{"rendered":"Utopia: o sonho que antecede o pesadelo?"},"content":{"rendered":"\n<blockquote>\n<p><em>Uma sociedade perfeita \u00e9 um perfeito pesadelo, porque ela elimina a \u00faltima coisa a ser eliminada do mundo, que \u00e9 o indiv\u00edduo. Pode eliminar tudo, menos o indiv\u00edduo, porque, se voc\u00ea eliminar o indiv\u00edduo, a\u00ed j\u00e1 est\u00e1 tudo eliminado, n\u00e3o tem mais nada. (Carlos Berriel)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No epis\u00f3dio <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/124-leitura-de-folego-ep-4-utopia-o-sonho-que-antecede-o-pesadelo\/\">Utopia: o sonho que antecede o pesadelo?<\/a>, do <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/sobre\/\">podcast Oxig\u00eanio<\/a>, o Carlos Eduardo Ornelas Berriel falou sobre utopia. Essa palavra, inventada a partir do grego, quer dizer \u201cn\u00e3o lugar\u201d, \u201co que n\u00e3o est\u00e1 em lugar nenhum\u201d. A gente fala de utopia normalmente pra se referir a um lugar ou a uma sociedade onde tudo \u00e9 perfeito. Ou tamb\u00e9m para se referir a uma situa\u00e7\u00e3o que tende a n\u00e3o se realizar, um sonho inalcan\u00e7\u00e1vel. Ent\u00e3o, por que ser\u00e1 que uma sociedade perfeita seria um perfeito pesadelo? Por que ela eliminaria os indiv\u00edduos?<\/p>\n<p>O Berriel \u00e9 professor e pesquisador do Instituto de Estudos da Linguagem, o <a href=\"https:\/\/www.iel.unicamp.br\/\">IEL<\/a>, da Unicamp, e faz mais de 20 anos que ele tem se dedicado ao tema das utopias liter\u00e1rias. Ele \u00e9 fundador e editor da <a href=\"http:\/\/www.revistamorus.com.br\/index.php\/morus\"><em>Revista Morus \u2013 Utopia e Renascimento<\/em><\/a> e dirige o Centro de Estudos sobre Utopias da Unicamp, chamado <a href=\"https:\/\/www.iel.unicamp.br\/br\/content\/u-topos-centro-de-estudos-sobre-utopia-da-unicamp\">U-TOPOS<\/a>. O Berriel tamb\u00e9m \u00e9 membro de v\u00e1rias sociedades cient\u00edficas internacionais voltadas para o problema ut\u00f3pico e tem se dedicado \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o, ao estudo e \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de utopias italianas.<\/p>\n<h5><strong>Defini\u00e7\u00e3o da utopia ou a utopia da defini\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A utopia \u00e9 um campo de reflex\u00e3o que nasceu no s\u00e9culo XX e tem sido especialmente estudado de uns trinta anos para c\u00e1. Os estudiosos desse campo, por\u00e9m, consideram que a utopia ainda est\u00e1 em defini\u00e7\u00e3o; eles t\u00eam realizado uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es para tentar definir a utopia.<\/p>\n<p>O Berriel, que \u00e9 mais ligado \u00e0 \u00e1rea da literatura, enxerga a utopia como um g\u00eanero liter\u00e1rio, um tipo de texto, que tem caracter\u00edsticas muito espec\u00edficas: ele nasceu com a sociedade moderna, a sociedade burguesa, e \u00e9 muito pr\u00f3ximo da s\u00e1tira ou \u00e9 mesmo uma s\u00e1tira pol\u00edtica, que \u00e9 t\u00edpica de per\u00edodos de grandes transforma\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A s\u00e1tira como um tipo de texto surgiu na Roma Antiga, e o Luc\u00edlio, que nasceu por volta de 180 a.C., \u00e9 considerado seu criador. A palavra <em>satura<\/em> tem a ver com um tipo de bandeja cheia \u2013 saturada \u2013 de frutas. O autor da s\u00e1tira imitava outros g\u00eaneros: \u00e9 como se ele misturasse em uma mesma obra (bandeja), v\u00e1rios g\u00eaneros liter\u00e1rios (frutas) diferentes. Isso acontece, porque, como disse o Berriel, o ch\u00e3o da s\u00e1tira \u00e9 uma crise social, uma rachadura na crosta hist\u00f3rica; \u00e9 como se um mundo estivesse acabando e outro ainda estivesse nascendo.<\/p>\n<p>E, na beira desse abismo, o escritor ainda n\u00e3o podia inventar um g\u00eanero novo; ent\u00e3o, ele imitava e misturava g\u00eaneros \u201cmortos\u201d, g\u00eaneros de um mundo que estava acabando. O satirista est\u00e1 no \u201cmundo novo\u201d, mas usa materiais liter\u00e1rios do \u201cmundo velho\u201d, o que d\u00e1 ao texto um sabor ir\u00f4nico, de uma coisa relativamente falsa, de um riso de canto de boca, que \u00e9 o riso do cachorro, <em>cinus<\/em>, de onde pode vir o termo \u201ccinismo\u201d. Assim, toda s\u00e1tira teria um elemento de duplicidade, de um certo riso disfar\u00e7ado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_610\" aria-describedby=\"caption-attachment-610\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-610\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jonathan-daniels-CdVG9f96kyg-unsplash-300x190.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jonathan-daniels-CdVG9f96kyg-unsplash-300x190.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jonathan-daniels-CdVG9f96kyg-unsplash-1024x649.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jonathan-daniels-CdVG9f96kyg-unsplash-768x486.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jonathan-daniels-CdVG9f96kyg-unsplash-1536x973.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jonathan-daniels-CdVG9f96kyg-unsplash-2048x1297.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-610\" class=\"wp-caption-text\">O cinismo da utopia e o riso do cachorro. (Foto de Jonathan Daniels, Unsplash)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Berriel considera que a utopia nasceu com a publica\u00e7\u00e3o, em 1516, de um livro chamado justamente <em>Utopia<\/em>, escrito pelo Thomas Morus. Esse livro seria uma s\u00e1tira, no sentido de que \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre uma nova sociedade.<\/p>\n<p>Lembra que eu disse que a palavra \u201cutopia\u201d tinha sido inventada a partir do grego? Ent\u00e3o, foi o Morus, que n\u00e3o era grego e sim ingl\u00eas, que criou essa palavra. E ele n\u00e3o s\u00f3 criou a palavra, mas tamb\u00e9m criou a utopia enquanto esse tipo de texto liter\u00e1rio, que descreve uma sociedade supostamente perfeita em todos os sentidos. Mas esse texto n\u00e3o simplesmente descreve essa sociedade \u2013 o que poderia acontecer em um tratado pol\u00edtico, por exemplo \u2013, ele faz isso por meio de uma fic\u00e7\u00e3o, de uma hist\u00f3ria inventada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_607\" aria-describedby=\"caption-attachment-607\" style=\"width: 241px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-607\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Hans-Holbein-Retrato-Sir-Thomas-More_1527-241x300.jpg\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Hans-Holbein-Retrato-Sir-Thomas-More_1527-241x300.jpg 241w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Hans-Holbein-Retrato-Sir-Thomas-More_1527-823x1024.jpg 823w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Hans-Holbein-Retrato-Sir-Thomas-More_1527-768x956.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Hans-Holbein-Retrato-Sir-Thomas-More_1527-1234x1536.jpg 1234w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Hans-Holbein-Retrato-Sir-Thomas-More_1527-1646x2048.jpg 1646w\" sizes=\"(max-width: 241px) 100vw, 241px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-607\" class=\"wp-caption-text\">Retrato \u201cSir Thomas More\u201d, Hans Holbein (1527)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h5><strong>Comunidade X Sociedade<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Como o Berriel disse, a Utopia do Morus seria uma s\u00e1tira por refletir sobre uma nova sociedade. E que nova sociedade seria essa? O ano era 1516: navega\u00e7\u00f5es, chegada ao Novo Mundo, desenvolvimento de uma nova economia (o capitalismo mercantil)&#8230; Al\u00e9m disso, uma nova classe social, a burguesia, come\u00e7a a tomar conta da sociedade. Thomas Morus est\u00e1 dentro desse quadro de grande convuls\u00e3o social. Ele \u00e9 um intelectual, um escritor, que absorve elementos hist\u00f3ricos que est\u00e3o chegando para ele como uma avalanche (imagina viver naquela \u00e9poca!). Mas, ao mesmo tempo, ele tem um olhar conservador, porque lamenta o desaparecimento de certos elementos da comunidade feudal.<\/p>\n<p>A <strong>comunidade<\/strong> \u00e9 uma forma de vida coletiva que \u00e9 regida por uma tradi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pelo dinheiro. O que \u00e9 diferente da <strong>sociedade<\/strong> burguesa que estava nascendo naquela \u00e9poca. Nessa sociedade, as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas eram mais utilitaristas, mais focadas nos indiv\u00edduos, o que, por um lado, \u00e9 bom, porque a pessoa passa a ter liberdade pra buscar outros v\u00ednculos, mais baseados no interesse dela do que em uma tradi\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, por outro lado, essa mudan\u00e7a gerava um problema central dentro da <em>Utopia<\/em>, que \u00e9 o descarte, o abandono, da popula\u00e7\u00e3o&#8230;\u00a0<\/p>\n<p>Apesar de a comunidade ser dura, ter dominadores e dominados, dentro dela, todos tinham um lugar, definido em uma estrutura hier\u00e1rquica: Deus estava acima de tudo, depois vinham os nobres, os cavaleiros e vai descendo at\u00e9 chegar ao mais humilde dos servos, um homem comum. Era essa comunidade feudal, com essa organiza\u00e7\u00e3o, que estava desaparecendo na \u00e9poca em que o Morus escreveu a <em>Utopia<\/em>. No caso da Inglaterra, onde ele morava, esse desaparecimento era acelerado pelo surgimento de manufaturas de tecido, o que expulsava as pessoas do campo para colocar ovelhas nesses locais, animais que dariam a l\u00e3 utilizada na produ\u00e7\u00e3o dos tecidos.<\/p>\n<p>O Morus lamentava o desaparecimento dessa estrutura feudal, que era a forma de poder da Igreja Cat\u00f3lica, a qual estruturava a vis\u00e3o de mundo nessa \u00e9poca. E, com o desenvolvimento do capitalismo, a Igreja n\u00e3o iria se sustentar se ficasse do mesmo jeito (o protestantismo viria a ser a express\u00e3o religiosa da burguesia).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o Morus \u2013 que inclusive foi canonizado, virou santo \u2013 mesmo que criticasse os problemas da igreja, como a corrup\u00e7\u00e3o e a ociosidade de alguns religiosos, estava preocupado com o fim do feudalismo em seu pa\u00eds, porque os camponeses estavam sendo expulsos do campo, estavam perdendo o lugar (ainda que injusto) que ocupavam antes. Com isso, acontecia um aumento da pobreza e da criminalidade; muitas pessoas eram condenadas \u00e0 morte por cometerem crimes como roubo. Essa \u00e9 a quest\u00e3o do descarte da popula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 central na <em>Utopia<\/em>.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do Berriel, o Morus teria escrito esse livro para discutir esse fato, lamentar a perda desse passado, o que deixa o livro extremamente contradit\u00f3rio, como as utopias costumam ser. Enquanto g\u00eanero liter\u00e1rio, as utopias seriam essa captura de um momento de grande transi\u00e7\u00e3o da sociedade. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso&#8230;<\/p>\n<h5><strong>Diagn\u00f3stico e rem\u00e9dio<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A utopia \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento hist\u00f3rico e uma reflex\u00e3o sobre ele, mas ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um diagn\u00f3stico dos problemas sociais daquele contexto. Ela oferece tamb\u00e9m um f\u00e1rmaco, um rem\u00e9dio, para os males sociais, em uma forma ficcional, em uma narrativa, na qual ela projeta uma sociedade inventada que tem a solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas identificados pelo escritor.<\/p>\n<p>A <em>Utopia<\/em> do Morus, assim como algumas das outras utopias que vieram depois, era movida por um desejo de criticar a sociedade da sua \u00e9poca, mas tamb\u00e9m por um desejo de propor reformas, mesmo que provavelmente os escritores de utopias n\u00e3o acreditassem que aquela sociedade que eles estavam descrevendo, inventando, fosse realiz\u00e1vel. Por isso, as utopias costumam ser datadas, porque s\u00e3o bem ligadas a problemas hist\u00f3ricos espec\u00edficos. Al\u00e9m disso, como j\u00e1 disse o Berriel, elas s\u00e3o tamb\u00e9m contradit\u00f3rias, amb\u00edguas&#8230; Essa caracter\u00edstica j\u00e1 aproximaria as utopias das distopias, que s\u00e3o narrativas que descrevem sociedades perfeitamente imperfeitas ou sociedades perfeitas em seus defeitos.<\/p>\n<h5><strong>O problema da perfei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Berriel acredita que a distopia \u00e9 um galho do tronco da utopia, porque, em grande parte, o procedimento, o material da distopia, j\u00e1 est\u00e1 na utopia. As utopias t\u00eam um problema grave, marcante, que \u00e9 o seguinte: o utopista oferece uma solu\u00e7\u00e3o, um modo de organizar a vida. Ent\u00e3o, as utopias inventam uma sociedade completa. Completa no sentido de que elas preveem como as pessoas v\u00e3o morar, como elas v\u00e3o trabalhar, como elas v\u00e3o casar, como elas v\u00e3o morrer, como elas se relacionam com a ci\u00eancia, com a natureza, com outros pa\u00edses. \u00c9 completa. Essa \u00e9 uma exig\u00eancia das grandes utopias, das utopias cl\u00e1ssicas: fazer um desenho completamente suficiente do que seria uma sociedade. Ela funciona inteira, n\u00e3o est\u00e1 faltando nada, ela j\u00e1 nasce pronta.\u00a0<\/p>\n<p>O utopista escreve, ent\u00e3o, uma narrativa em que ele exp\u00f5e as ideias dele sobre um mundo perfeito, completo. <strong>J\u00e1 d\u00e1 pra ver um problema nisso, se a gente pensar que a ideia de perfei\u00e7\u00e3o normalmente \u00e9 diferente pra cada pessoa: o sonho de alguns pode ser o pesadelo de outros<\/strong>. S\u00f3 que o problema da perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o para por a\u00ed&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_608\" aria-describedby=\"caption-attachment-608\" style=\"width: 228px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-608\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Ilustracao-da-ilha-de-utopia_1516_Autor-desconhecido-dominio-publico-228x300.png\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Ilustracao-da-ilha-de-utopia_1516_Autor-desconhecido-dominio-publico-228x300.png 228w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Ilustracao-da-ilha-de-utopia_1516_Autor-desconhecido-dominio-publico-780x1024.png 780w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Ilustracao-da-ilha-de-utopia_1516_Autor-desconhecido-dominio-publico-768x1008.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/Ilustracao-da-ilha-de-utopia_1516_Autor-desconhecido-dominio-publico.png 1099w\" sizes=\"(max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-608\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o da Ilha de Utopia, autor desconhecido (1516)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A sociedade da Ilha de Utopia, do Thomas Morus, n\u00e3o nasceu de um desenvolvimento natural, em que a popula\u00e7\u00e3o foi vivendo a sua hist\u00f3ria, errando, acertando, corrigindo, refletindo&#8230; Simplesmente, praticamente do nada, chega uma pessoa, com um ex\u00e9rcito, que \u00e9 o rei Utopus, com uma constitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 definida nos m\u00ednimos detalhes. E essa constitui\u00e7\u00e3o, essas leis que ele traz s\u00e3o tidas como perfeitas. <strong>E, se elas s\u00e3o perfeitas, a perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema grave, porque ela significa o congelamento da hist\u00f3ria. Se algo \u00e9 perfeito, voc\u00ea n\u00e3o pode aperfei\u00e7oar.<\/strong><\/p>\n<p>Na <em>Utopia<\/em> do Morus qualquer problema do mundo real que voc\u00ea possa imaginar, na economia, nas rela\u00e7\u00f5es humanas, enfim, qualquer problema, j\u00e1 est\u00e1 solucionado. E ele est\u00e1 solucionado antes de qualquer coisa, n\u00e3o pela experi\u00eancia das pessoas, mas por uma lei fixa, racional, sem defeitos. <strong>O modo de operar dessa sociedade n\u00e3o pode ser alterado, porque j\u00e1 \u00e9 perfeito. Ent\u00e3o, aquela sociedade fica congelada no tempo. Como tudo est\u00e1 perfeito, nada pode ser mexido. Dessa forma, a hist\u00f3ria \u00e9 eliminada. E, se voc\u00ea elimina a hist\u00f3ria, voc\u00ea elimina tamb\u00e9m os indiv\u00edduos, que s\u00e3o hist\u00f3rias individuais, que se misturam, formam hist\u00f3rias coletivas, dos povos&#8230; Na utopia n\u00e3o existe hist\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<p>A nossa individualidade depende da nossa hist\u00f3ria, da passagem do tempo, das nossas experi\u00eancias, de conflitos, dos nossos erros, dos nossos enganos&#8230; E na utopia n\u00e3o tem nada disso. Como a hist\u00f3ria \u00e9 eliminada, o tempo fica congelado em uma sociedade que \u00e9 tida como perfeita; \u00e9 como se as pessoas vivessem em um eterno presente. A gente pode perceber isso, inclusive, na forma como o texto \u00e9 escrito: na utopia n\u00e3o tem personagens, parece que s\u00f3 tem funcion\u00e1rios:<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Voc\u00ea imagina aqueles funcion\u00e1rios com uma bata branca, uma cara pl\u00e1cida, trazendo a sabedoria perfeita. Uma coisa horr\u00edvel, n\u00e9? Uma sociedade perfeita \u00e9 um perfeito pesadelo, porque ela elimina a \u00faltima coisa a ser eliminada do mundo, que \u00e9 o indiv\u00edduo. Pode eliminar tudo, menos o indiv\u00edduo, porque, se voc\u00ea eliminar o indiv\u00edduo, a\u00ed j\u00e1 est\u00e1 tudo eliminado, n\u00e3o tem mais nada. (Carlos Berriel)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>De fato, na utopia voc\u00ea n\u00e3o tem doen\u00e7as, n\u00e3o tem fome, n\u00e3o tem guerra, n\u00e3o tem epidemias, voc\u00ea n\u00e3o tem uma s\u00e9rie de coisas, porque todo o Estado funciona que \u00e9 uma maravilha, \u00e0s custas da pr\u00f3pria alma da hist\u00f3ria, que \u00e9 o indiv\u00edduo. Portanto, a primeira utopia j\u00e1 \u00e9 uma distopia. No entanto, ser\u00e1 necess\u00e1ria a passagem dos s\u00e9culos para que a gente tenha essa outra vis\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quiser saber mais sobre as distopias, confira o epis\u00f3dio <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/124-leitura-de-folego-ep-4-utopia-o-sonho-que-antecede-o-pesadelo\/\">Utopia: o sonho que antecede o pesadelo?<\/a>.\u00a0\u00a0 L\u00e1 a conversa com o Berriel continuou, e ele falou sobre algumas caracter\u00edsticas espec\u00edficas dessas \u201cprimas\u201d das utopias, ilustrando essa quest\u00e3o com o exemplo de um epis\u00f3dio da s\u00e9rie brit\u00e2nica <em>Black Mirror<\/em> e mostrando o elemento dist\u00f3pico que as tecnologias trazem para a sociedade atual, quando colocamos objetos tecnol\u00f3gicos para mediar as nossas rela\u00e7\u00f5es com outras pessoas&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_609\" aria-describedby=\"caption-attachment-609\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-609\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jamie-street-Y602iPcTq28-unsplash-300x209.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jamie-street-Y602iPcTq28-unsplash-300x209.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jamie-street-Y602iPcTq28-unsplash-1024x714.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jamie-street-Y602iPcTq28-unsplash-768x536.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jamie-street-Y602iPcTq28-unsplash-1536x1072.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/11\/jamie-street-Y602iPcTq28-unsplash-2048x1429.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-609\" class=\"wp-caption-text\">O \u201cespelho preto\u201d, black mirror, que a gente carrega para todos os lados seria um elemento dist\u00f3pico da nossa \u00e9poca? (Foto de Jamie Street, Unsplash)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h5><strong>A s\u00e9rie<\/strong><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-483\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2021\/02\/Leitura-de-folego-logo.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.oxigenio.comciencia.br\/serie-leitura-de-folego\/\">\u201cLeitura de F\u00f4lego\u201d<\/a> \u00e9 uma s\u00e9rie do podcast de jornalismo e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica Oxig\u00eanio, produzido por alunos do <a href=\"http:\/\/www.labjor.unicamp.br\/\">Labjor<\/a>-Unicamp e coordenado por Simone Pallone. Essa s\u00e9rie sobre literatura aborda temas de pesquisa de quatro professores do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. Aqui no \u201cMarca P\u00e1ginas\u201d, j\u00e1 temos textos sobre os outros epis\u00f3dios da s\u00e9rie: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/02\/24\/leitura-proibida\/\">um sobre os livros licenciosos<\/a>, que, por conterem cenas de sexo (entre outros motivos), eram proibidos no Brasil dos s\u00e9culos XVIII e XIX, mas que circularam bastante por aqui nessa \u00e9poca; outro <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/04\/15\/ensaio-em-cena\/\">sobre os ensaios<\/a>, um tipo de texto que d\u00e1 liberdade para o seu autor se mostrar, com suas d\u00favidas e imperfei\u00e7\u00f5es; e, por fim, um sobre <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/07\/30\/herdeiras-de-capitu-personagens-femininas-silenciadas\/\">livros brasileiros em que narradores homens, ao narrarem um conflito amoroso, tentam silenciar as vozes de suas parceiras<\/a> (mas as vozes das mulheres conseguem escapar e se inserir na narrativa).<\/p>\n<p>Todos os programas da s\u00e9rie est\u00e3o integralmente transcritos na descri\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios no site do Oxig\u00eanio, para que pessoas surdas ou com alguma defici\u00eancia auditiva possam ter acesso ao conte\u00fado. Os epis\u00f3dios podem ser acessados pelo <a href=\"http:\/\/oxigenio.comciencia.br\/\">site do Oxig\u00eanio<\/a>, pelo <a href=\"http:\/\/www.rtv.unicamp.br\/?audio_cat=oxigenio\">site da R\u00e1dio e TV Unicamp<\/a>, pelo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCIbv86TkZal7E9QWkatWBLA\">canal no Youtube da TV Unicamp<\/a> ou por agregadores como <a href=\"https:\/\/podcasts.google.com\/feed\/aHR0cDovL294aWdlbmlvLmNvbWNpZW5jaWEuYnIvP2ZlZWQ9cG9kY2FzdA\">Google Podcasts<\/a> e <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/4yvnvAE2hvC5wMuNhWPa0I\">Spotify<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":397,"featured_media":606,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[25,53,17],"tags":[226,227,65,184,229,232,230,228,225],"class_list":["post-605","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanidades","category-literatura","category-literaturas-classicas","tag-carlos-eduardo-ornelas-berriel","tag-distopia","tag-historia","tag-podcast","tag-satira","tag-sociedade-e-comunidade","tag-thomas-more","tag-thomas-morus","tag-utopia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/397"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=605"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":616,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605\/revisions\/616"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/606"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}