{"id":651,"date":"2022-02-06T14:43:35","date_gmt":"2022-02-06T17:43:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=651"},"modified":"2022-02-06T14:43:37","modified_gmt":"2022-02-06T17:43:37","slug":"um-rosto-pelo-outro-o-espelho-que-falta-em-a-mulher-de-pes-descalcos-de-scholastique-mukasonga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2022\/02\/06\/um-rosto-pelo-outro-o-espelho-que-falta-em-a-mulher-de-pes-descalcos-de-scholastique-mukasonga\/","title":{"rendered":"Um rosto pelo outro: o espelho que falta em A mulher de p\u00e9s descal\u00e7os, de Scholastique Mukasonga"},"content":{"rendered":"\n<p>Em diferentes \u00e9pocas, em diferentes espa\u00e7os geogr\u00e1ficos, o espelho apareceu representado na literatura, funcionando ora mais, ora menos como s\u00edmbolo ou met\u00e1fora. Pensemos no mito grego de Narciso, que <em>acha feio o que n\u00e3o \u00e9 espelho<\/em>, eternizado nas <em>Metamorfoses<\/em> do poeta Ov\u00eddio; ou na carta aos Cor\u00edntios de S\u00e3o Paulo, passagem b\u00edblica em que o enigma antecede a possibilidade de nos vermos face a face; ou at\u00e9 mesmo na hist\u00f3ria da Branca de Neve, f\u00e1bula dos Irm\u00e3os Grimm ou filme da Disney, em que a madrasta se pergunta sobre a exist\u00eancia de algo mais belo do que si mesma. Na literatura brasileira, igualmente disseminado, o espelho aparece, por exemplo, tanto em Machado de Assis, quanto em Guimar\u00e3es Rosa, quando ambos escolhem chamar seus contos de, justamente, &#8220;O espelho&#8221;. N\u00e3o faltam, portanto, refer\u00eancias e an\u00e1lises sobre esse tema, que se tornou um prato cheio para os estudos liter\u00e1rios. No entanto, hoje, lendo o romance <em>A mulher de p\u00e9s descal\u00e7os<\/em>, pude refletir (com todas as ambiguidades que essa palavra poder\u00e1 ressoar aqui) de uma maneira diferente sobre ele.<\/p>\n<p>Escrito por Scholastique Mukasonga e publicado em 2008, na Fran\u00e7a, e em 2017, no Brasil, em tradu\u00e7\u00e3o de Mar\u00edlia Garcia pela editora N\u00f3s, <em>A mulher de p\u00e9s descal\u00e7os <\/em>\u00e9 o que poder\u00edamos chamar de testemunho da hist\u00f3ria, com h min\u00fasculo, e da Hist\u00f3ria, com h mai\u00fasculo. A escritora, que nasceu em Ruanda em 1956 e se refugiou na Fran\u00e7a na d\u00e9cada de 1990, homenageia nesse romance sua m\u00e3e, Stefania. As experi\u00eancias narradas v\u00e3o sendo encadeadas de forma que a hist\u00f3ria particular de sua fam\u00edlia se costure \u00e0 terr\u00edvel guerra civil que marcou a Hist\u00f3ria de seu pa\u00eds de origem. Entre ex\u00edlios e genoc\u00eddios, Mukasonga vai nos colocando em contato com as m\u00faltiplas viol\u00eancias relacionadas aos conflitos \u00e9tnicos ocorridos em Ruanda nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, enquanto nos imerge em mem\u00f3rias familiares que tematizam seus h\u00e1bitos e costumes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-652 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/02\/Capa_Mukasonga-804x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"669\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/02\/Capa_Mukasonga-804x1024.jpeg 804w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/02\/Capa_Mukasonga-236x300.jpeg 236w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/02\/Capa_Mukasonga-768x978.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/02\/Capa_Mukasonga.jpeg 959w\" sizes=\"(max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que ali pelo cap\u00edtulo VII, &#8220;A beleza e os casamentos&#8221;, li a seguinte passagem:<\/p>\n<blockquote>\n<p><span style=\"font-size: revert\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Mas como a gente faz para saber se \u00e9 bonita sem um espelho? Em Gitagata n\u00e3o havia espelhos, nem mesmo nas lojas; no maior comerciante de Nyamata, eles ficavam no alto da estante, atr\u00e1s do balc\u00e3o \u2013 e era imposs\u00edvel dar uma olhada, mesmo quando o vendedor se distra\u00eda atendendo outro cliente. O \u00fanico espelho eram os outros: o olhar satisfeito ou os suspiros de des\u00e2nimo da nossa pr\u00f3pria m\u00e3e, as observa\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios da irm\u00e3 mais velha ou dos colegas e, depois, o rumor que corria pelo vilarejo que acabava chegando at\u00e9 n\u00f3s: quem \u00e9 bonita? E quem n\u00e3o \u00e9?<\/span><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas, sem espelho, como ter certeza de que ao menos alguns tra\u00e7os do pr\u00f3prio rosto correspondem aos crit\u00e9rios de beleza valorizados pelas casamenteiras e celebrados pelas can\u00e7\u00f5es, prov\u00e9rbios e hist\u00f3rias? Uma cabeleira abundante, mas que deixe a testa \u00e0 mostra, um nariz reto (esse pequeno nariz tutsi que acabou decidindo a morte de tantos ruandeses), gengivas pretas como as de Stefania, sinais de boa linhagem, dentes afastados&#8230; Quando o Sol brilhava, a gente ia at\u00e9 uma po\u00e7a tentar ver o reflexo. Mas o retrato fluido dan\u00e7ava debaixo de nossos olhos impotentes. O rosto de \u00e1gua se enrugava, se encrespava e se fragmentava em pel\u00edculas de luz. Nosso rosto nunca era nosso como quando \u00e9 visto no espelho, ele era sempre de outro.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A pergunta que abre o excerto, como a gente faz para saber se \u00e9 bonita sem um espelho?, me deixou desconcertada. A presen\u00e7a desse objeto sempre foi t\u00e3o naturalizada e banal para mim \u2013 seja pela minha pr\u00f3pria exist\u00eancia, seja pela literatura contempor\u00e2nea que pude conhecer at\u00e9 aqui \u2013 que nunca tinha me passado pela cabe\u00e7a a possibilidade de n\u00e3o ter acesso, em tempos t\u00e3o recentes, \u00e0 experi\u00eancia de se encarar em um espelho. \u00c9 curioso porque, acompanhando a leitura do livro at\u00e9 aquele momento, eu j\u00e1 havia passado com as personagens pela falta de leite (t\u00e3o importante para a cultura dos tutsis, etnia da qual Mukasonga e sua fam\u00edlia fazem parte), de p\u00e3o, de \u00e1gua limpa, de seguran\u00e7a, de paz, mas foi com a falta de espelho que senti uma indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o sentida at\u00e9 ent\u00e3o com o livro \u2013 talvez por nunca ter pensado sobre isso, diferentemente das outras desigualdades, com as quais eu j\u00e1 havia me deparado simbolicamente em outros momentos.<\/p>\n<p>&#8220;O \u00fanico espelho eram os outros&#8221;. Sabemos o quanto a forma como as outras pessoas nos veem \u00e9 constitutiva da forma como n\u00f3s mesmas nos enxergamos, nos percebemos, nos projetamos. Por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o em Gitagata, conforme descrita no romance, era a de que essa era a <em>\u00fanica<\/em> forma de se ver fisicamente, o que levaria a personagem \u00e0 pergunta sem resposta: ser\u00e1 que sou bonita? S\u00f3 seria poss\u00edvel satisfazer essa curiosidade pelas caracter\u00edsticas apontadas pelos outros. Os olhares <em>de fora<\/em> seriam, ent\u00e3o, a r\u00e9gua definidora de como ela mesma se perceberia <em>de dentro<\/em>.<\/p>\n<p>Essa passagem est\u00e1 inserida em um cap\u00edtulo em que o padr\u00e3o de beleza (interna e externa) das mulheres tutsis \u00e9 descrito de forma cuidadosa, afinal ele seria o crit\u00e9rio segundo o qual as mulheres do vilarejo conseguiriam se casar ou n\u00e3o. Com certo inc\u00f4modo, moldadas pela maneira como nossa pr\u00f3pria cultura tem problematizado essa quest\u00e3o na contemporaneidade, acompanhamos a m\u00e3e de Mukasonga, &#8220;casamenteira de m\u00e3o cheia&#8221;, tecendo considera\u00e7\u00f5es sobre as mo\u00e7as que ela analisava na tentativa de arranjar casamentos: quest\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o, como ser de fam\u00edlia respeit\u00e1vel, ter boa educa\u00e7\u00e3o, ser trabalhadora; mas tamb\u00e9m atributos f\u00edsicos, como ter charme, gra\u00e7a e estrias (sim, era bom sinal ter cochas grossas e cobertas por uma rede de estrias). Por isso, poder dizer sobre si mesma se era uma mulher bonita ou n\u00e3o seria um crit\u00e9rio t\u00e3o importante para a cultura tutsi \u2013 afinal isso determinaria, em alguma medida, a oportunidade de se conseguir um casamento e, por consequ\u00eancia, um futuro.<\/p>\n<p>A partir dessa passagem, carrego comigo a imagem do &#8220;rosto de \u00e1gua&#8221; que a personagem sugere. Para al\u00e9m de narrar as desigualdades e injusti\u00e7as que acometeram seu povo, levando \u00e0 dor de saber que a pr\u00f3pria fam\u00edlia, incluindo sua m\u00e3e, havia sido brutalmente assassinada em Ruanda, o romance de Mukasonga nos coloca diante desse n\u00e3o-espelho, ou desse espelho turvo, no qual ingenuamente acreditamos nos enxergar. Foi pela leitura de seu livro que pude sair de minha autoimagem confort\u00e1vel, acreditando que todos conhecem seu pr\u00f3prio rosto refletido em um espelho, e perceber que algo t\u00e3o banal para mim n\u00e3o \u00e9 exatamente vivido e percebido pelo outro dessa mesma maneira. Assim, no final das contas, \u00e9 a imagem que tenho de mim que acabou ficando enrugada, encrespada, fragmentada, por poder pensar, atrav\u00e9s da literatura, sobre outra cultura, outra realidade, outra perspectiva de exist\u00eancia. Esse tema, ao lado das in\u00fameras simbologias que o elemento espelho suscita na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, pode certamente se desdobrar em associa\u00e7\u00f5es, intertextualidades, bases te\u00f3ricas diversas \u2013 e espero poder aprofundar tais an\u00e1lises posteriormente. N\u00e3o deixa de ser fascinante, contudo, me dar conta de que nessa aproxima\u00e7\u00e3o ao livro de Mukasonga mesmo a experi\u00eancia de leitura mais dolorosa e mais desconcertante sobre mim mesma \u00e9 ainda, e sempre ser\u00e1, uma experi\u00eancia que vale a pena ser sentida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MUKASONGA, Scholastique. <em>A mulher de p\u00e9s descal\u00e7os<\/em>. Trad. Mar\u00edlia Garcia. S\u00e3o Paulo: Editora N\u00f3s, 2020 [2017], p. 90-91.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":133,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[22,7,53,20,3,4],"tags":[259,37,261,256,13,254,253,258,257,260,255],"class_list":["post-651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-literaria","category-em-sala-de-aula","category-literatura","category-mulheres-na-literatura","category-pensando-alto","category-sugestao-de-leitura","tag-a-mulher-de-pes-descalcos","tag-critica-literaria","tag-decolonialidade","tag-espelho","tag-estudos-literarios","tag-literatura-de-mulheres","tag-literatura-pos-colonial","tag-literatura-ruandesa","tag-literaturas-africanas","tag-representacao-literaria","tag-scholastique-mukasonga"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/133"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=651"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":653,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651\/revisions\/653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}