{"id":671,"date":"2022-03-31T16:05:58","date_gmt":"2022-03-31T19:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/?p=671"},"modified":"2022-04-01T09:52:29","modified_gmt":"2022-04-01T12:52:29","slug":"goncalves-dias-na-bibliotequinha-antropofagica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2022\/03\/31\/goncalves-dias-na-bibliotequinha-antropofagica\/","title":{"rendered":"Gon\u00e7alves Dias na bibliotequinha antropof\u00e1gica?"},"content":{"rendered":"\n<h5><b>As r\u00e3s, a antropofagia e o \u00edndio de lata de bolacha<\/b><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_674\" aria-describedby=\"caption-attachment-674\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-674\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-100x100.jpg 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33-96x96.jpg 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/33.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-674\" class=\"wp-caption-text\">O que as r\u00e3s t\u00eam a ver com o Movimento Antropof\u00e1gico?<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Um grupo de amigos se reuniu para jantar em um restaurante especializado em r\u00e3s. Quando o prato chegou, um dos amigos se levantou e come\u00e7ou a brincar, fazendo um elogio das r\u00e3s. Citando autores imagin\u00e1rios, ele concluiu que esses animais faziam parte da linha da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do ser humano. A companheira desse homem entrou na brincadeira e afirmou que, ent\u00e3o, ao comerem as r\u00e3s, os amigos eram uns quase antrop\u00f3fagos. O homem que fez o elogio era Oswald de Andrade. A mulher que deu corda para a brincadeira era Tarsila do Amaral. E teria sido assim que, em 1928, come\u00e7ou o Movimento Antropof\u00e1gico. <b>[1]<\/b><\/p>\n<figure id=\"attachment_675\" aria-describedby=\"caption-attachment-675\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-675\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-100x100.jpg 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34-96x96.jpg 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/34.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-675\" class=\"wp-caption-text\">Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade: o que come\u00e7ou como uma brincadeira em um restaurante se transformou no Movimento Antropof\u00e1gico<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Esse movimento, basicamente, propunha a combina\u00e7\u00e3o de est\u00e9ticas estrangeiras, de moderniza\u00e7\u00e3o, com express\u00f5es brasileiras, nativas, para que, assim, fossem produzidas <strong><em>\u201ccoisas novas, coisas nossas\u201d<\/em><\/strong>. <b>[2]<\/b> Os elementos estrangeiros deveriam ser assimilados de forma cr\u00edtica, deveriam ser consumidos e \u201cdeglutidos\u201d, sendo que partes deles seriam aproveitadas na forma\u00e7\u00e3o da cultura nacional. Da\u00ed a rela\u00e7\u00e3o com a antropofagia que era praticada por alguns ind\u00edgenas brasileiros e que pode ser entendida como a ingest\u00e3o de inimigos com a finalidade de se apropriar de suas qualidades, em um movimento de incorpora\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas do outro, mas sem a perda da independ\u00eancia, da autonomia. Ent\u00e3o, de forma metaf\u00f3rica, para esse movimento de vanguarda, n\u00f3s dever\u00edamos devorar as influ\u00eancias dos \u201cinimigos\u201d externos e absorver, de forma cr\u00edtica, o que fosse positivo para a forma\u00e7\u00e3o da nossa cultura.<\/p>\n<p>O que come\u00e7ou como uma brincadeira em um restaurante ficou s\u00e9rio e rendeu, entre outras coisas, duas fases da <i>Revista de Antropofagia<\/i>. Oswald pretendia ainda organizar o Primeiro Congresso Mundial de Antropofagia e, durante a prepara\u00e7\u00e3o das teses que seriam discutidas nesse congresso, fez um levantamento do que chamou de \u201cos cl\u00e1ssicos da antropofagia\u201d, como Andr\u00e9 Th\u00e9vet, Jean de L\u00e8ry, Hans Staden e, principalmente, Michel de Montaigne, autor do ensaio \u201cDos Canibais\u201d. <b>[3]<\/b> Oswald queria formar uma <b>\u201cbibliotequinha antropof\u00e1gica\u201d<\/b> com esses cl\u00e1ssicos e outros textos, como o rec\u00e9m-publicado <i>Macuna\u00edma<\/i>, de M\u00e1rio de Andrade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_682\" aria-describedby=\"caption-attachment-682\" style=\"width: 218px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-682\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Pagina-de-uma-edicao-da-obra-de-Staden-mostrando-uma-cena-de-canibalismo-218x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"218\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Pagina-de-uma-edicao-da-obra-de-Staden-mostrando-uma-cena-de-canibalismo-218x300.jpeg 218w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Pagina-de-uma-edicao-da-obra-de-Staden-mostrando-uma-cena-de-canibalismo.jpeg 364w\" sizes=\"(max-width: 218px) 100vw, 218px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-682\" class=\"wp-caption-text\">P\u00e1gina de uma edi\u00e7\u00e3o da obra de Hans Staden, mostrando uma cena de canibalismo. Esse aventureiro alem\u00e3o, em seu livro, relata as experi\u00eancias que teve ao viajar para o Brasil em meados do s\u00e9culo XVI. Ele conta, inclusive, que, por pouco, n\u00e3o foi devorado em um ritual antropof\u00e1gico&#8230;<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O congresso e a bibliotequinha ficaram apenas nas ideias: o grupo dos antrop\u00f3fagos se dissolveu por conflitos amorosos entre seus integrantes, havendo uma \u201cdebandada geral\u201d. <b>[4]<\/b><\/p>\n<p>Apesar de esses planos n\u00e3o terem sido concretizados, Oswald, antes dessa dissolu\u00e7\u00e3o, publicou o conhecido \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d, no primeiro n\u00famero da <i>Revista de Antropofagia<\/i>, em 1928. E um dos pontos questionados nesse manifesto era o <em>\u201cindianismo na sua fei\u00e7\u00e3o ufanista e rom\u00e2ntica\u201d<\/em>. <b>[5] <\/b>Pelo menos dois trechos do manifesto de Oswald deixam esse ponto evidente:<\/p>\n<blockquote>\n<p><i>Nunca fomos catequizados. Fizemos foi o Carnaval. O \u00edndio vestido de senador do Imp\u00e9rio. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas \u00f3peras de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.<\/i><\/p>\n<p><i>Contra o \u00edndio de tocheiro. O \u00edndio filho de Maria, afilhado de Catarina de M\u00e9dicis e genro de D. Ant\u00f4nio de Mariz.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A pesquisadora Ana Beatriz Sampaio Soares Azevedo <b>[6]<\/b> comenta que, neste primeiro aforismo mencionado, Oswald, em um golpe s\u00f3, ataca tanto Jos\u00e9 de Alencar quanto o compositor Carlos Gomes (que escreveu a famosa \u00f3pera <i>O Guarani<\/i>). Segundo ela, os dois criticados, para Oswald, \u201c<em>seriam os respons\u00e1veis por colocar em cena o famigerado \u2018\u00edndio vestido\u2019, cheio de \u2018bons sentimentos portugueses\u2019, ou seja, um \u00edndio aculturado, domesticado, tornado bom selvagem\u201d<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao segundo aforismo destacado, a pesquisadora tamb\u00e9m comenta que <b>Oswald critica e ironiza o Indianismo do Romantismo brasileiro<\/b>: esse \u201c\u00edndio de tocheiro\u201d seria um personagem constru\u00eddo de uma forma alienada, alinhada aos ideais do colonizador.\u00a0<\/p>\n<p>Ana Beatriz Azevedo tamb\u00e9m comenta que Oswald <em>\u201ccita criticamente em seus textos <\/em>O Guarani <em>de Jos\u00e9 de Alencar e a poesia de Gon\u00e7alves Dias\u201d<\/em>. Al\u00e9m disso, ela nos lembra, inclusive, que Oswald fez uma par\u00f3dia da \u201cCan\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio\u201d, conhecido poema de Gon\u00e7alves Dias.<\/p>\n<figure id=\"attachment_685\" aria-describedby=\"caption-attachment-685\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-685\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Parodia-300x157.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Parodia-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Parodia-1024x536.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Parodia-768x402.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Parodia.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-685\" class=\"wp-caption-text\">Um trecho do poema &#8220;Can\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio&#8221;, de Gon\u00e7alves Dias, e um trecho do poema &#8220;Canto de regresso \u00e0 p\u00e1tria&#8221;, de Oswald de Andrade.<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Essa restri\u00e7\u00e3o de Oswald em rela\u00e7\u00e3o aos rom\u00e2nticos tamb\u00e9m foi explorada por Haroldo de Campos. <b>[7]<\/b> Ele comenta que, em \u201cA Marcha das Utopias\u201d, um texto te\u00f3rico e mais maduro, Oswald retomou um trecho do \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d (o segundo aforismo mencionado neste texto) para depois mostrar a diferen\u00e7a entre o \u201cseu \u00edndio\u201d e o dos rom\u00e2nticos. Nas palavras de Haroldo de Campos, o ind\u00edgena na vis\u00e3o de Oswald:<\/p>\n<blockquote>\n<p><i>nada tinha a ver com \u201cos \u00edndios conformados e bonzinhos de cart\u00e3o-postal e de lata de bolacha\u201d. O \u201c\u00edndio\u201d oswaldiano n\u00e3o era o \u201cbom selvagem\u201d de Rousseau, acalentado pelo Romantismo e, entre n\u00f3s, \u201cninado pela suave contrafa\u00e7\u00e3o de Alencar e Gon\u00e7alves Dias\u201d. Tratava-se de um Indianismo \u00e0s avessas, inspirado no selvagem brasileiro de Montaigne (Des cannibales), de um \u201cmau selvagem\u201d, portanto, a exercer sua cr\u00edtica (devora\u00e7\u00e3o) desabusada contra as imposturas do civilizado.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esse trecho de Haroldo de Campos \u00e9 particularmente significativo por indicar que, de alguma maneira, a postura de Oswald em rela\u00e7\u00e3o aos rom\u00e2nticos se manteve constante, ainda que a rela\u00e7\u00e3o desse escritor com a antropofagia tenha sido inconstante: depois da j\u00e1 comentada \u201cdebandada geral\u201d do grupo dos antrop\u00f3fagos, Oswald se envolveu com a milit\u00e2ncia pol\u00edtica marxista e renegou o que chamou de <strong>\u201csaramp\u00e3o antropof\u00e1gico\u201d<\/strong>, uma doen\u00e7a infantil, que atingiu indistintamente aqueles que n\u00e3o tinham recebido a vacina marxista. Por volta de 1945, Oswald rompeu com a orienta\u00e7\u00e3o marxista e se dedicou ao estudo da Filosofia. Nesse per\u00edodo, ele retomou suas intui\u00e7\u00f5es apresentadas tanto no \u201cManifesto da Poesia Pau-Brasil\u201d, de 1924, quanto no \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d, de 1928, e as desenvolveu, elaborando a <b>antropofagia como uma concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de mundo.<\/b> <b>[8]<\/b>\u00a0<\/p>\n<p>Essa breve retomada da trajet\u00f3ria (inconstante) de Oswald em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 antropofagia e da sua postura (aparentemente constante) em rela\u00e7\u00e3o ao Indianismo rom\u00e2ntico serve aqui como ponto de partida para uma provoca\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 que o \u00edndio antropof\u00e1gico de Oswald realmente n\u00e3o tem nada a ver com o \u00edndio do Romantismo? Ou, mais especificamente, n\u00e3o tem nada a ver com o \u00edndio antropof\u00e1gico de Gon\u00e7alves Dias? Talvez valha a pena \u201cexperimentar\u201d esse poeta rom\u00e2ntico com um pouco mais de calma, antes de simplesmente o expulsar do banquete antropof\u00e1gico&#8230;<\/p>\n<h5><b>Quem \u00e9 Gon\u00e7alves Dias na fila do Indianismo?<\/b><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_677\" aria-describedby=\"caption-attachment-677\" style=\"width: 227px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-677\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Retrato-de-Goncalves-Dias-cerca-de-1855.-227x300.jpg\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Retrato-de-Goncalves-Dias-cerca-de-1855.-227x300.jpg 227w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Retrato-de-Goncalves-Dias-cerca-de-1855.-773x1024.jpg 773w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Retrato-de-Goncalves-Dias-cerca-de-1855.-768x1017.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Retrato-de-Goncalves-Dias-cerca-de-1855..jpg 1098w\" sizes=\"(max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-677\" class=\"wp-caption-text\">Retrato de Gon\u00e7alves Dias (aproximadamente 1855)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Indianismo foi um movimento de nacionalismo cultural mais nuan\u00e7ado e influente em seu contexto hist\u00f3rico e pol\u00edtico do que normalmente tem sido considerado pela cr\u00edtica. Isso \u00e9 o que sugere David Treece. <b>[9]<\/b> Esse pesquisador brit\u00e2nico desenvolveu seu argumento a partir da identifica\u00e7\u00e3o de um paradoxo: <strong>ao mesmo tempo em que os ind\u00edgenas eram massacrados em propor\u00e7\u00f5es genocidas, eles ocupavam um local de destaque na tradi\u00e7\u00e3o de pensamento nacionalista no Brasil, sendo celebrados por escritores, artistas e intelectuais<\/strong>.<\/p>\n<p>No entanto, o pesquisador defende que esse paradoxo (ou ironia) n\u00e3o passou despercebido pelos escritores indianistas. Pelo contr\u00e1rio, esse ponto teria ocupado um lugar central nas reflex\u00f5es que alguns desses autores faziam sobre a forma\u00e7\u00e3o do Brasil como um Estado independente. Esses escritores, inclusive, levavam essa ironia em considera\u00e7\u00e3o quando discutiam quest\u00f5es relacionadas \u00e0quelas pessoas que ainda eram desprovidas de direitos de cidadania no Brasil, como os pr\u00f3prios ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m os escravizados negros. Nesse sentido, David Treece chama a aten\u00e7\u00e3o para um fato que tem sido quase ignorado: <b>o Indianismo foi um movimento art\u00edstico, mas foi tamb\u00e9m uma<\/b> <b>arena de debate sociopol\u00edtico<\/b>. O Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro (IHGB), por exemplo, era n\u00e3o s\u00f3 um centro de pesquisa fundado por Dom Pedro II, mas tamb\u00e9m o principal f\u00f3rum que articulava a rela\u00e7\u00e3o entre a esfera pol\u00edtica e o Indianismo.\u00a0<\/p>\n<p>Para Treece, al\u00e9m de ser incorreto assumir que o Indianismo era desligado do debate sociopol\u00edtico, \u00e9 ainda menos correto considerar que a comunidade liter\u00e1ria era homog\u00eanea e simplesmente expressava a mentalidade da elite imperial. Na verdade, <b>a escritura indianista exibia diversas (e muitas vezes at\u00e9 contradit\u00f3rias) perspectivas<\/b>.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Partindo, ent\u00e3o, desse ponto <b>o autor prop\u00f5e uma an\u00e1lise que ultrapassa uma literatura cr\u00edtica que comumente assume que um \u00fanico escritor, Jos\u00e9 de Alencar, poderia representar de forma suficiente um movimento que durou mais de um s\u00e9culo<\/b>. Treece destaca o car\u00e1ter din\u00e2mico e complexo do Indianismo, e afirma que, se por um lado, houve um romantismo complacente ou conservador em rela\u00e7\u00e3o ao dom\u00ednio da burguesia agr\u00e1ria ap\u00f3s a Independ\u00eancia (representado pelo pr\u00f3prio Alencar), houve tamb\u00e9m, por outro lado, intelectuais e artistas que eram marginalizados dos centros pol\u00edticos e econ\u00f4micos da vida imperial, o que os levava a se identificarem com os setores mais oprimidos da sociedade, como os ind\u00edgenas e os escravizados africanos. <b>\u00c9 justamente como membro desse segundo grupo que Treece enxerga Gon\u00e7alves Dias<\/b>.\u00a0<\/p>\n<p>O pesquisador afirma que as obras de Gon\u00e7alves Dias e de seu contempor\u00e2neo menos famoso, Teixeira e Souza, formariam <b>uma tend\u00eancia dissidente no interior do quadro predominantemente conservador do movimento rom\u00e2ntico.<\/b> Para Treece, dentro do limitado espa\u00e7o pol\u00edtico dispon\u00edvel na \u00e9poca, esses dois autores usaram o cen\u00e1rio indianista para fazer compara\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas \u2013 mas perturbadoras \u2013 entre as opress\u00f5es sofridas por ra\u00e7as consideradas inferiores e a nega\u00e7\u00e3o de liberdades sociais e pol\u00edticas a uma grande parte dos brasileiros, que, embora fossem livres (no sentido de n\u00e3o serem escravizados), n\u00e3o eram propriet\u00e1rios de terras e dependiam de favores daqueles que as possu\u00edam. As oportunidades de trabalho por aqui naquela \u00e9poca eram limitadas, j\u00e1 que o Brasil era um pa\u00eds essencialmente rural, e muitas das atividades eram exercidas pelos escravizados.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves Dias fazia parte desse grupo de pessoas livres, mas dependentes de favores da elite agr\u00e1ria. Conhecer alguns aspectos da vida do escritor talvez nos ajude a entender por que ele se identificava com os setores mais oprimidos da sociedade e como isso o diferenciava de outros escritores do Indianismo.<\/p>\n<h5><b>Mas quem foi Gon\u00e7alves Dias?<\/b><\/h5>\n<p>Ant\u00f4nio Gon\u00e7alves Dias <b>[10]<\/b> nasceu em 10 de agosto de 1823 em Caxias, no Maranh\u00e3o. Seu pai, Jo\u00e3o Manuel Gon\u00e7alves Dias, era um pequeno lojista portugu\u00eas que estava entre aqueles que haviam tentado evitar a Independ\u00eancia do Brasil em rela\u00e7\u00e3o a Portugal. Sua m\u00e3e, Vic\u00eancia Mendes Ferreira, provavelmente era \u201ccafusa\u201d, ou seja, mesti\u00e7a de pais \u00edndio e africano. Jo\u00e3o Manuel, pouco tempo depois do nascimento do filho, exilou-se em Portugal, fugindo da persegui\u00e7\u00e3o dos nacionalistas brasileiros e ficou l\u00e1 por cerca de dois anos, per\u00edodo em que Ant\u00f4nio e Vic\u00eancia viveram sozinhos em uma pequena fazenda pr\u00f3xima a Caxias.\u00a0<\/p>\n<p>Voltando ao Brasil, Jo\u00e3o Manuel se casou com outra mulher, Adelaide Ramos de Almeida, e assumiu a responsabilidade da cria\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio, impedindo-o, inclusive, de conviver com Vic\u00eancia. Mesmo relutando, Adelaide pagou os estudos de Ant\u00f4nio, que foi mandado, aos quinze anos, em 1838, para a Universidade de Coimbra, em Portugal. No ano seguinte, sua madrasta sofreu perdas financeiras, e Ant\u00f4nio s\u00f3 conseguiu dar continuidade a seus estudos em Portugal com a ajuda de amigos que o hospedaram; um deles foi Alexandre Te\u00f3filo de Carvalho Leal. Com isso, Ant\u00f4nio se formou em direito, mas, por um incidente familiar, retornou ao Brasil em 1845 antes de obter seu doutorado.\u00a0<\/p>\n<p>Instalou-se em Caxias e passou por um per\u00edodo de reclus\u00e3o, sentindo-se humilhado pela condi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia econ\u00f4mica em que vivia. No ano seguinte, mudou-se para S\u00e3o Lu\u00eds, onde foi hospedado, mais uma vez, por seu amigo Te\u00f3filo, que conseguiu lhe arranjar um cargo jur\u00eddico no Rio de Janeiro, cidade em que Gon\u00e7alves Dias publicou seu livro <i>Primeiros cantos<\/i>, em 1847. Depois, outros dois amigos conseguiram um cargo com fonte de renda regular para ele, como secret\u00e1rio e professor assistente de latim no Liceu de Niter\u00f3i.<\/p>\n<p>Em 1848, ele exerceu atividades para diversos jornais e, por algumas de suas reportagens, foi indicado como professor de latim e hist\u00f3ria no Col\u00e9gio Imperial Dom Pedro II. Ainda nesse per\u00edodo, tornou-se membro do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro, onde desenvolveu seu estudo etnogr\u00e1fico <i>Brasil e Oceania<\/i>, comparando os povos tribais das Ilhas do Pac\u00edfico e do Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>Em 1851, publicou os <i>\u00daltimos Cantos<\/i>, e, por volta dessa \u00e9poca, fez uma proposta de casamento \u00e0 prima de seu amigo Te\u00f3filo, Ana Am\u00e9lia. Essa proposta foi recusada pela m\u00e3e da mo\u00e7a, provavelmente por motivos de preconceitos raciais. Durante sua vida, Ant\u00f4nio teve uma s\u00e9rie de encontros amorosos insatisfat\u00f3rios, mas acabou se casando com Ol\u00edmpia da Costa, com quem teve um casamento infeliz e uma filha, a qual morreu aos dois anos de idade.\u00a0<\/p>\n<p>A obra do escritor foi bem recebida na \u00e9poca, e v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es de suas poesias foram lan\u00e7adas. Em 1863, ele partiu para a Europa para tratar de problemas de sa\u00fade e, no final do ano seguinte, embarcou de volta para o Brasil, mesmo que sua sa\u00fade ainda estivesse bem debilitada. Em 3 de novembro de 1864, quase chegando \u00e0 costa brasileira, seu navio sofreu um acidente e afundou. Toda a tripula\u00e7\u00e3o se salvou, mas, quando se lembraram de socorrer o poeta, seu camarote j\u00e1 estava submerso.<\/p>\n<p>De acordo com David Treece, a vida pessoal e profissional desse escritor mesti\u00e7o e de classe m\u00e9dia baixa daria testemunho de <em>\u201cuma consci\u00eancia aguda da desvantagem racial e econ\u00f4mica e uma avers\u00e3o amarga \u00e0s condi\u00e7\u00f5es opressivas nas quais se baseava a prosperidade do Imp\u00e9rio\u201d<\/em>. <b>[11]<\/b> Por\u00e9m, como o pr\u00f3prio pesquisador nos previne, essa consci\u00eancia nunca foi t\u00e3o longe a ponto de questionar o pensamento b\u00e1sico indianista de que os ind\u00edgenas deveriam ser integrados na sociedade brasileira, abandonando suas identidades e pr\u00e1ticas culturais. O poeta teria receio de que uma revolu\u00e7\u00e3o dissolvesse violentamente a ent\u00e3o jovem na\u00e7\u00e3o brasileira. Nesse sentido, o cr\u00edtico ingl\u00eas considera que, no Indianismo de Gon\u00e7alves Dias, haveria um jogo entre for\u00e7as contradit\u00f3rias, um estado de tens\u00e3o. Isso daria \u00e0 sua obra uma intensidade \u00fanica, ausente nos trabalhos de outros colegas de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vejamos como essa intensidade aparece na leitura que Treece faz do poema \u201cI-Juca Pirama\u201d, de Gon\u00e7alves Dias. Com isso, talvez o poeta se mostre digno de ser devorado pelos escritores modernistas do Movimento Antropof\u00e1gico.<\/p>\n<h5><b>O que \u00e9 digno de ser devorado<\/b><\/h5>\n<figure id=\"attachment_679\" aria-describedby=\"caption-attachment-679\" style=\"width: 188px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-679\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Ultimos-Cantos-188x300.jpg\" alt=\"\" width=\"188\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Ultimos-Cantos-188x300.jpg 188w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Ultimos-Cantos-640x1024.jpg 640w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Ultimos-Cantos-768x1228.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Ultimos-Cantos-961x1536.jpg 961w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Ultimos-Cantos-1281x2048.jpg 1281w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Ultimos-Cantos.jpg 1558w\" sizes=\"(max-width: 188px) 100vw, 188px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-679\" class=\"wp-caption-text\">Capa de <strong>\u00daltimos Cantos<\/strong>, de 1851, livro em que foi publicado o poema \u00e9pico &#8220;I-Juca Pirama&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O poema \u00e9pico \u201cI-Juca Pirama\u201d faz parte do livro <i>\u00daltimos cantos<\/i>, publicado em 1851. O seu t\u00edtulo, como adverte o pr\u00f3prio Gon\u00e7alves Dias em uma nota, se fosse traduzido do tupi para o portugu\u00eas, seria equivalente a <em>\u201co que h\u00e1 de ser morto, e que \u00e9 digno de ser morto\u201d<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>Esse poema, narrado por um velho da etnia timbira (como descobrimos apenas no d\u00e9cimo e \u00faltimo canto), conta a hist\u00f3ria de um jovem guerreiro tupi que \u00e9 capturado por uma tribo timbira e que, seguindo o costume, dever\u00e1 ser sacrificado em um ritual de canibalismo. Entretanto, ao contar sua hist\u00f3ria antes de ser morto, o \u00edndio chora e pede clem\u00eancia, para poder cuidar de seu pai, velho e cego, j\u00e1 que eles dois s\u00e3o os \u00fanicos sobreviventes da sua tribo. Por ter chorado, o jovem \u00e9 considerado fraco e, por isso, indigno de ser comido, e \u00e9 libertado. Ele, ent\u00e3o, reencontra seu pai, que percebe que o filho tinha sido preparado para um ritual de sacrif\u00edcio que n\u00e3o foi conclu\u00eddo. Ao saber que o filho tinha sido poupado para cuidar dele, o velho decide que eles devem voltar \u00e0 tribo timbira para terminar o ritual. Chegando l\u00e1, por\u00e9m, ele descobre que o filho, na verdade, foi libertado porque chorou na presen\u00e7a da morte. O pai, por isso, amaldi\u00e7oa o filho. O jovem tupi, incitado pelo \u00f3dio do pai, ataca a tribo timbira e luta com bravura, mostrando-se, assim, digno de ser morto, o que faz o pai chorar, mas de alegria.<\/p>\n<figure id=\"attachment_687\" aria-describedby=\"caption-attachment-687\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-687 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-100x100.png 100w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Trecho.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-687\" class=\"wp-caption-text\">Primeira estrofe do canto X de &#8220;I-Juca Pirama&#8221; [12]<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Podemos notar que a abordagem que Gon\u00e7alves Dias apresenta para o canibalismo em seu poema se distancia muito da concep\u00e7\u00e3o de que esse ato \u00e9 uma <strong>pr\u00e1tica de b\u00e1rbaros que deve ser superada<\/strong>, uma abordagem presente em outros textos, como no poema <i>Caramuru<\/i>, de 1781, escrito por Santa Rita Dur\u00e3o, precursor do Indianismo. Al\u00e9m disso, em \u201cI-juca Pirama\u201d, por ser um tema central da narrativa, ainda que o ritual em si n\u00e3o seja descrito,<strong> o canibalismo n\u00e3o foi minimizado em prol de uma idealiza\u00e7\u00e3o da figura do ind\u00edgena<\/strong>, o que aconteceria em obras de Jos\u00e9 de Alencar, como no romance <i>Ubirajara<\/i>, de 1874. <b>[13]<\/b><\/p>\n<p>Essa postura diferente de Gon\u00e7alves Dias com rela\u00e7\u00e3o ao canibalismo n\u00e3o surpreende quando lembramos do que foi discutido na segunda parte deste texto: a posi\u00e7\u00e3o que esse poeta ocupa dentro do Indianismo. <b>Essa era uma posi\u00e7\u00e3o dissidente de um homem livre, mas dependente, que v\u00ea a realidade dos \u00edndios e dos negros pr\u00f3xima da sua, sem direitos e lugar na sociedade dominada por uma burguesia agr\u00e1ria do Brasil de sua \u00e9poca<\/b>. Tudo isso j\u00e1 ajuda a entender um pouco a forma como Gon\u00e7alves Dias retratou o canibalismo, que pode contrariar positivamente algumas expectativas, inclusive do leitor contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Ao acompanhar a leitura que David Treece fez desse poema, vemos que o cr\u00edtico enxerga o canibalismo como o elemento central, que d\u00e1 for\u00e7a ao poema. Para Treece, o ritual de canibalismo seria, em \u201cI-Juca Pirama\u201d, o meio de reintegra\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade, de recupera\u00e7\u00e3o do sentimento de pertencimento na integridade da cultura tribal. \u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>O cr\u00edtico considera que pode ser tentador enxergar que uma ideia ocidental, a devo\u00e7\u00e3o do filho pelo pai, triunfa sobre a cultura tribal marcial de coragem e de resist\u00eancia. Por\u00e9m, essa leitura ignoraria a estrutura dram\u00e1tica do texto em sua inteireza, j\u00e1 que, <b>ainda que o la\u00e7o de paternidade seja um tema importante, ele est\u00e1 subordinado ao cl\u00edmax do poema, que \u00e9 o momento de reconcilia\u00e7\u00e3o e de reintegra\u00e7\u00e3o na tribo<\/b>. Al\u00e9m disso, a for\u00e7a m\u00e1xima dessa reconcilia\u00e7\u00e3o seria consequ\u00eancia do contexto hist\u00f3rico da narrativa, que \u00e9 claramente estabelecido no texto: o momento posterior \u00e0 Conquista dos europeus. O jovem e seu pai s\u00e3o os \u00fanicos sobreviventes de uma tribo vitimada pelo encontro com os colonizadores. Nas palavras de Treece:<\/p>\n<blockquote>\n<p>eles t\u00eam caminhado errantes no ex\u00edlio, parece, apenas para finalmente redescobrirem seu mundo perdido em outro lugar, entre os timbiras que mant\u00eam prisioneiro o guerreiro. \u00c9-lhe dada a oportunidade de reafirmar os valores tradicionais de seu povo dentro do contexto honroso de seu cativeiro, atrav\u00e9s de algum ato de bravura. Assim ele faz, dando nova vida a seu velho e decr\u00e9pito pai e \u00e0 tribo que a Conquista parece ter destru\u00eddo. <b>[14]<\/b>\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O ritual antropof\u00e1gico, assim, representaria uma redescoberta da identidade tribal. Desse modo, o gesto de devo\u00e7\u00e3o filial n\u00e3o destr\u00f3i a cultura militarista dominante do povo tupi: o gesto questiona essa cultura momentaneamente, mas depois a deixa mais forte e mais rica. Honrando o ritual e aceitando sua incorpora\u00e7\u00e3o ao corpo da tribo, o protagonista estaria <em>\u201ccumprindo o papel a ele destinado dentro da ordem social e c\u00f3smica do mundo ind\u00edgena: I-Juca Pirama \u2013 \u2018o que h\u00e1 de ser morto, e que \u00e9 digno de ser morto\u2019\u201d<\/em>. <b>[14]<\/b><\/p>\n<p>A partir dessa an\u00e1lise, Treece destaca a import\u00e2ncia do ritual de canibalismo para o poema, bem como a import\u00e2ncia do pr\u00f3prio Gon\u00e7alves Dias dentro da literatura brasileira:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ao oferecer uma leitura dessa pr\u00e1tica que se aproxima do conhecimento antropol\u00f3gico moderno sobre o assunto, Gon\u00e7alves Dias rompeu com toda uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria indianista no Brasil, que, por tr\u00eas s\u00e9culos, representou e caricaturou o canibalismo como prova da barb\u00e1rie primitiva do \u00edndio [&#8230;]. De fato, ele \u00e9 \u00fanico no Indianismo do s\u00e9culo dezenove por essa interpreta\u00e7\u00e3o, e, depois dele, teve-se que esperar pelo movimento modernista para que a significa\u00e7\u00e3o ritual do canibalismo fosse novamente reafirmada. Tal revis\u00e3o radical de uma das pedras fundamentais do discurso colonial fala alto pela not\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o deste poeta como uma das mais poderosas vozes dissidentes no seio da tradi\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica indianista. <b>[15]<\/b><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>David Treece, com uma boa dose de contund\u00eancia, aproxima a abordagem que Gon\u00e7alves Dias faz da antropofagia com a do conhecimento antropol\u00f3gico moderno e a do movimento modernista. No entanto, vale finalizar este texto com uma breve ressalva, que relativiza um pouco essa aproxima\u00e7\u00e3o feita por Treece.<\/p>\n<p>Para o antrop\u00f3logo Carlos Fausto, embora essa ideia da absor\u00e7\u00e3o das qualidades pela devora\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja totalmente incorreta, ela n\u00e3o \u00e9 capaz de explicar completamente a pr\u00e1tica da antropofagia. Na vis\u00e3o do antrop\u00f3logo, diferentemente de Gon\u00e7alves Dias, Oswald de Andrade teria conseguido propor uma leitura de antropofagia mais parecida com as representa\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, pois o modernista compreendeu essa pr\u00e1tica como um movimento que n\u00e3o busca apenas se identificar com o outro ou neg\u00e1-lo, mas sim que busca exprimir a contradi\u00e7\u00e3o existente entre um desejo pelo outro e a necessidade de se constituir como sujeito aut\u00f4nomo, independente. <b>[16]<\/b><\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o mais profunda que Oswald prop\u00f5e da pr\u00e1tica da antropofagia tamb\u00e9m \u00e9 defendida pela pesquisadora L\u00facia S\u00e1, quando a autora explica a postura do modernista diante de tal pr\u00e1tica:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O que interessava a Oswald era desenvolver uma teoria da identidade cultural: as experi\u00eancias intertextuais com fontes ind\u00edgenas n\u00e3o eram importantes para ele. Como te\u00f3rico, ele se voltou para as culturas ind\u00edgenas em busca de conceitos, n\u00e3o de hist\u00f3rias. <b>[17]<\/b><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>De todo modo, acredito que n\u00e3o precisamos considerar essa sutileza do conceito aparentemente capturada por Oswald para afirmar que Gon\u00e7alves Dias talvez merecesse, sim, um lugar na bibliotequinha antropof\u00e1gica.<\/p>\n<h5><b>Notas<\/b><\/h5>\n<p>[1] Essa \u00e9 a hist\u00f3ria contada por Raul Bopp \u2013 um dos amigos do jantar \u2013 no livro <b>Vida e morte da Antropofagia<\/b>, publicado pela editora Jos\u00e9 Olympio em 2006. O livro re\u00fane textos do autor escritos entre 1965-1966, lan\u00e7ados esparsamente em jornais ou em livros de tiragens reduzidas.<\/p>\n<p>[2] Como disse Oswald de Andrade, em entrevista a <b>O Jornal do Rio de Janeiro<\/b> em 18 de maio de 1928. Esse trecho da entrevista foi citado no artigo <a href=\"http:\/\/www.each.usp.br\/revistaec\/?q=revista\/1\/fome-antropof%C3%A1gica-utopias-e-contradi%C3%A7%C3%B5es\">A fome antropof\u00e1gica &#8211; utopias e contradi\u00e7\u00f5es<\/a>, de Fernada Oliveira Figueiras Santos e Mauro de Mello Leonel, publicado na <b>Revista de Estudos Culturais<\/b>, da USP. Esse artigo tamb\u00e9m embasou a breve apresenta\u00e7\u00e3o do movimento, comentada neste par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>[3] Se quiser saber mais sobre os ensaios de Michel de Montaigne, confira o texto <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/2021\/04\/15\/ensaio-em-cena\/\">\u201cEnsaio em cena\u201d<\/a>, publicado aqui no <b>Marca P\u00e1ginas<\/b>.<\/p>\n<p>[4] Nas palavras de Raul Bopp, no mesmo livro citado na nota 1.<\/p>\n<p>[5] Como colocado pela pesquisadora L\u00facia Helena em seu livro <b>Modernismo brasileiro e vanguarda<\/b>, publicado pela editora \u00c1tica, em 1996.<\/p>\n<p>[6] <b>Antropofagia \u2013 palimpsesto selvagem<\/b>, disserta\u00e7\u00e3o defendida em 2012 na USP, na qual a pesquisadora analisa detidamente os 51 aforismos do \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d.<\/p>\n<p>[7] Em seu texto \u201cUma po\u00e9tica da radicalidade\u201d, o qual tem uma se\u00e7\u00e3o intitulada \u201cIndianismo \u00e0s avessas\u201d. Esse texto foi publicado nas <b>Obras Completas VII \u2013 Poesias Reunidas<\/b>, de Oswald de Andrade. Publicado pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira em 1971.<\/p>\n<p>[8] Informa\u00e7\u00f5es baseadas no texto de Benedito Nunes, \u201cAntropofagia ao alcance de todos\u201d. Publicado no livro <b>Obras Completas VII \u2013 Do pau-brasil \u00e0 antropofagia e \u00e0s utopias (Manifestos, teses de concursos e ensaios)<\/b>, de Oswald de Andrade. O livro foi editado pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira e lan\u00e7ado em 1970.<\/p>\n<p>[9] Em seu livro <b>Exilados, aliados, rebeldes: o movimento Indianista, a pol\u00edtica indigenista e o Estado-Na\u00e7\u00e3o imperial<\/b>. Traduzido por F\u00e1bio Fonseca de Melo e publicado em 2008 em uma parceria das editoras Nankin e Edusp.<\/p>\n<p>[10] As informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas apresentadas nesta se\u00e7\u00e3o se baseiam, sobretudo, nas seguintes refer\u00eancias: o livro de Treece mencionado na nota anterior; o livro <b>Gentis Guerreiros: o Indianismo de Gon\u00e7alves Dias<\/b>, de Cl\u00e1udia Neiva de Matos, publicado em 1988 pela editora Atual; e a \u201cCronologia da vida e da obra de Gon\u00e7alves Dias\u201d (inclu\u00edda na colet\u00e2nea de poemas <b>Ainda uma vez \u2013 Adeus<\/b>, publicada pela J. Aguilar em 1974). Essa cronologia \u00e9 ancorada, entre outras fontes, nas pesquisas da principal bi\u00f3grafa do poeta, L\u00facia Miguel Pereira.<\/p>\n<p>[11] Cita\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina 149, do livro de David Treece mencionado na nota 9.<\/p>\n<p>[12] Trecho do poema retirado do livro <b>\u00c9picos<\/b> (da cole\u00e7\u00e3o Multicl\u00e1ssicos), organizado por Ivan Teixeira e publicado em parceria pela Edusp e pela Imprensa Oficial, em 2008.<\/p>\n<p>[13] As representa\u00e7\u00f5es da antropofagia em Santa Rita Dur\u00e3o e em Jos\u00e9 de Alencar foram discutidas por Maria C\u00e2ndida Ferreira de Almeida, em seu livro <b>Tornar-se outro: o <\/b><b><i>topos<\/i><\/b><b> canibal na literatura brasileira<\/b>, publicado pela Annablume, em 2002. Nesse livro, baseado na pesquisa de doutorado da autora, \u00e9 proposta a ideia de que a antropofagia \u00e9 um tema que se repetiu e que se fixou na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria brasileira, sendo retratado de diferentes formas.<\/p>\n<p>[14] Cita\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina 187, do livro de David Treece mencionado na nota 9.<\/p>\n<p>[15] Cita\u00e7\u00e3o das p\u00e1ginas 190 e 191, do livro de David Treece mencionado na nota 9.<\/p>\n<p>[16] Carlos Fausto apresenta essa ideia no artigo \u201cCinco s\u00e9culos de carne de vaca: antropofagia literal e antropofagia liter\u00e1ria\u201d, publicado na revista <b>Nuevo Texto Cr\u00edtico<\/b><i>,<\/i> em 1999.<\/p>\n<p>[17] Essa \u00e9 uma leitura que L\u00facia S\u00e1 fez em seu livro <b>Literaturas da Floresta: textos amaz\u00f4nicos e cultura latino-americana<\/b>, publicado em 2012 pela edUERJ.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":397,"featured_media":673,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[22,53,263,19],"tags":[269,73,272,267,264,268,274,277,276,271,275,270,265,273,266],"class_list":["post-671","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-critica-literaria","category-literatura","category-literatura-brasileira","category-teoria-literaria","tag-antropofagia","tag-brasil","tag-canibalismo","tag-david-treece","tag-goncalves-dias","tag-i-juca-pirama","tag-indianismo","tag-indigena","tag-indio","tag-manifesto-antropofago","tag-modernismo","tag-movimento-antropofagico","tag-oswald-de-andrade","tag-romantismo","tag-tarsila-do-amaral"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-content\/uploads\/sites\/96\/2022\/03\/Goncalves-dias-na-bibliotequinha.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/397"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=671"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/671\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":688,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/671\/revisions\/688"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/673"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/marcapaginas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}