{"id":1459,"date":"2011-12-20T10:43:49","date_gmt":"2011-12-20T13:43:49","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/?p=1459"},"modified":"2011-12-20T10:43:49","modified_gmt":"2011-12-20T13:43:49","slug":"fungo-garante-ceia-criando-armadilha-para-capturar-alimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/2011\/12\/20\/fungo-garante-ceia-criando-armadilha-para-capturar-alimento\/","title":{"rendered":"Fungo garante ceia criando armadilha para capturar alimento"},"content":{"rendered":"<p>A gente ouve muito falar em bact\u00e9rias e v\u00edrus, mas os fungos acabam ficando meio negligenciados. No final das contas, eu diria fungos s\u00e3o uns serezinhos bem peculiares&#8230; D\u00ea uma olhadinha nas duas fotos abaixo (Fig 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2011\/12\/Oauricolor-x-Aoligospora.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1460\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2011\/12\/Oauricolor-x-Aoligospora-620x275.png\" alt=\"\" width=\"434\" height=\"193\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #0099cc\">Fig 1. Em \u201cA\u201d vemos uma foto do fungo <em>Orbilia auricolor<\/em>, em \u201cB\u201d vemos um micrografia eletr\u00f4nica do fungo <em>Arthrobotrys oligospora<\/em><strong>. <\/strong><span style=\"text-decoration: underline\">Voc\u00ea seria capaz de dizer qual a rela\u00e7\u00e3o entre eles?<\/span><\/span><\/p>\n<p>Um grande problema nos estudos de alguns fungos acontecia justamente por que \u00e0s vezes um fungo era descrito duas vezes com nomes diferentes. E por que isso acontecia? Porque os est\u00e1gios reprodutivo e \u00a0vegetativo s\u00e3o morfologicamente diferentes, o que levava a crer que eram esp\u00e9cies diferentes! Um exemplo disso \u00e9 justamente o fungo da figura 1 \u2013 sim, leitor, <em>O. auricolor<\/em> e <em>A. oligospora<\/em> s\u00e3o a mesma esp\u00e9cie, o mesmo fungo! <em>O. auricololor<\/em> \u00e9 a forma reprodutiva do fungo (na foto vemos pequeninos cogumelos fotografados por cima), enquanto <em>A. oligospora<\/em> \u00e9 a forma vegetativa \u2013 ou seja: \u00e9 a forma como o fungo \u00e9 encontrado comumente no solo, esta fase \u00e9 tamb\u00e9m chamada de est\u00e1gio de crescimento \u2013 e esse \u00e9 o nome pelo qual vamos nos referir a esse fungo no restante do post.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve estar se perguntando \u201cmas o que esse fungo tem de t\u00e3o importante pra ter um post sobre ele\u201d? Eu poderia falar que ele \u00e9 frequentemente encontrado em solos polu\u00eddos com metais pesados, mas o enfoque aqui ser\u00e1 outro: esse fungo tem h\u00e1bitos carn\u00edvoros e mais, ele produz uma armadilha para capturar seu alimento! Na verdade, existem mais de 700 esp\u00e9cies de fungos carn\u00edvoros, mas estudos recentes com esta esp\u00e9cie nos permitiram dar um grande passo para a compreens\u00e3o da biologia do \u201cest\u00e1gio carn\u00edvoro\u201d desses fungos. Antes de falarmos sobre o estudo em si, vamos dar uma olhadinha no modo como esse fungo se organiza para capturar e se alimentar de vermes (nematoides) que habitam o solo (Fig 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2011\/12\/trapping-stage.png\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1461\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2011\/12\/trapping-stage-620x411.png\" alt=\"\" width=\"496\" height=\"329\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #0099cc\">Fig 2. Est\u00e1gio parasit\u00e1rio de <em>A. oligospora<\/em>. Na foto \u201cA\u201d vemos a forma\u00e7\u00e3o das armadilhas; em \u201cB\u201d vemos um nematoide em meio \u00e0s armadilhas das hifas do fungo; e em \u201cC\u201d observamos de pertinho o nematoide preso em uma armadilha! O fungo ent\u00e3o, penetra suas hifas no corpo do verme, lan\u00e7a enzimas digestivas no animal e, depois, se esbalda no delicioso banquete!<\/span><\/p>\n<p>O genoma de<em> A. oligospora<\/em> foi sequenciado, e o que os pesquisadores descobriram \u00e9 que o fungo possui 11.479 genes codificadores de prote\u00ednas. Depois, foram comparar o genoma desse fungo com o de outros 10 (alguns patog\u00eanicos e outros n\u00e3o) e os resultados demonstraram que dos 11.479 genes:<\/p>\n<ul>\n<li>6.157 s\u00e3o genes exclusivos dessa esp\u00e9cie f\u00fangica<\/li>\n<li>4.249 s\u00e3o genes que s\u00e3o encontrados nas outras esp\u00e9cies analisadas. S\u00e3o genes chamados housekeeping e que est\u00e3o envolvidos em fun\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas b\u00e1sicas das c\u00e9lulas.<\/li>\n<li>112 genes s\u00e3o compartilhados com fungos n\u00e3o patog\u00eanicos<\/li>\n<li>961 genes s\u00e3o compartilhados com fungos patog\u00eanicos<\/li>\n<\/ul>\n<p>Em seguida, foram realizadas an\u00e1lises filogen\u00e9ticas, com a finalidade de verificar o parentesco entre esses 11 fungos, e <em>A. oligospora<\/em> \u00e9 t\u00e3o peculiar (53,64% do seu genoma \u00e9 exclusivo) que ele comp\u00f5e, sozinho, um clado na \u00e1rvore filogen\u00e9tica constru\u00edda.<\/p>\n<p>Algo, ainda, muito interessante nesse estudo foi a an\u00e1lise da regula\u00e7\u00e3o da express\u00e3o g\u00eanica nesse fungo durante a forma\u00e7\u00e3o das armadilhas. Para isso, eles fizeram <del>uma gororoba<\/del> um extrato de nematoide e aplicaram no fungo. Posteriormente, analisaram a express\u00e3o g\u00eanica ap\u00f3s 10h e 48h, comparando os resultados com um fungo que recebeu apenas \u00e1gua.<\/p>\n<p>Os resultados demonstraram que houve, nas 10 primeiras horas, um aumento na express\u00e3o de 90 prote\u00ednas e uma queda na express\u00e3o de 16. Por\u00e9m, ap\u00f3s 48h o aumento na express\u00e3o ocorreu em 25 prote\u00ednas e queda em 94. Lembre-se que esses resultados comparam cada um dos grupos experimentais com o grupo controle.<\/p>\n<p>Verificando-se a natureza das prote\u00ednas aumentadas em 10h, concluiu-se que \u00e9 nessa fase que o fungo est\u00e1 num per\u00edodo de crescimento e seu metabolismo est\u00e1 extremamente ativo, ou seja, \u00e9 nesse ponto que o fungo est\u00e1 formando as armadilhas. Essas prote\u00ednas que s\u00e3o superexpressas est\u00e3o envolvidas nos processos de tradu\u00e7\u00e3o, modifica\u00e7\u00f5es de prote\u00ednas, metabolismo de amino\u00e1cidos e carboidratos, al\u00e9m de genes de metabolismo energ\u00e9ticos e envolvidos na biog\u00eanese de membrana celular e parede. \u00c9 importante ainda dizer que esses genes, quando avaliados no tempo de 48h, est\u00e3o, em sua maioria, tendo sua express\u00e3o reduzida!<\/p>\n<p>Esses fungos s\u00e3o muito importantes para o controle biol\u00f3gico dos nematoides no solo, e pode haver grande interesse industrial para a identifica\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o em larga escala dos metab\u00f3litos fungicos que atuam como nematicidas.<\/p>\n<p>Os fungos s\u00e3o capazes de atrair e, depois, de percebem a presen\u00e7a dos vermes&#8230;\u00a0Agora o que falta para esse trabalho ficar completo \u00e9 algu\u00e9m descobrir: (A) qual \u00e9 o &#8220;sinal&#8221; que faz o nematoide ser atra\u00eddo pelo fungo e (B) como fungo percebe a presen\u00e7a desse nemat\u00f3ide desencadeando todas as altera\u00e7\u00f5es que o permitir\u00e3o construir as armadilhas.<\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"63\" height=\"77\" \/><\/a><\/span> <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=PLoS+pathogens&amp;rft_id=info%3Apmid%2F21909256&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Genomic+and+proteomic+analyses+of+the+fungus+Arthrobotrys+oligospora+provide+insights+into+nematode-trap+formation.&amp;rft.issn=1553-7366&amp;rft.date=2011&amp;rft.volume=7&amp;rft.issue=9&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Yang+J&amp;rft.au=Wang+L&amp;rft.au=Ji+X&amp;rft.au=Feng+Y&amp;rft.au=Li+X&amp;rft.au=Zou+C&amp;rft.au=Xu+J&amp;rft.au=Ren+Y&amp;rft.au=Mi+Q&amp;rft.au=Wu+J&amp;rft.au=Liu+S&amp;rft.au=Liu+Y&amp;rft.au=Huang+X&amp;rft.au=Wang+H&amp;rft.au=Niu+X&amp;rft.au=Li+J&amp;rft.au=Liang+L&amp;rft.au=Luo+Y&amp;rft.au=Ji+K&amp;rft.au=Zhou+W&amp;rft.au=Yu+Z&amp;rft.au=Li+G&amp;rft.au=Liu+Y&amp;rft.au=Li+L&amp;rft.au=Qiao+M&amp;rft.au=Feng+L&amp;rft.au=Zhang+KQ&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology+%2F+Conservation%2CMicrobiology\">Yang J, Wang L, Ji X, Feng Y, Li X, Zou C, Xu J, Ren Y, Mi Q, Wu J, Liu S, Liu Y, Huang X, Wang H, Niu X, Li J, Liang L, Luo Y, Ji K, Zhou W, Yu Z, Li G, Liu Y, Li L, Qiao M, Feng L, &amp; Zhang KQ (2011). Genomic and proteomic analyses of the fungus Arthrobotrys oligospora provide insights into nematode-trap formation. <span style=\"font-style: italic\">PLoS pathogens, 7<\/span> (9) PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/21909256\" rev=\"review\">21909256<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gente ouve muito falar em bact\u00e9rias e v\u00edrus, mas os fungos acabam ficando meio negligenciados. 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