{"id":1575,"date":"2012-01-12T09:00:12","date_gmt":"2012-01-12T12:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/?p=1575"},"modified":"2012-01-12T09:00:12","modified_gmt":"2012-01-12T12:00:12","slug":"hp-urease","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/2012\/01\/12\/hp-urease\/","title":{"rendered":"HP: sobrevivendo mesmo quando parece imposs\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Pouco mais de 30 anos. \u00c9 esse o tempo que decorreu desde a descoberta dessa bact\u00e9ria <del>chata pra caramba para crescer em laborat\u00f3rio<\/del> fastidiosa. Foi em 1979 que Robin Warren e Barry Marshall conseguiram identificar a presen\u00e7a de uma bacteria em bi\u00f3psia de pacientes com gastrite cr\u00f4nica e \u00falcera p\u00e9ptica, e mais: hipotetizaram que a causa dessas doen\u00e7as seria essa bact\u00e9ria e n\u00e3o os fatores (como pimenta e estresse) at\u00e9 ent\u00e3o tidos como causa.<\/p>\n<p>A comunidade m\u00e9dica da \u00e9poca se recusou a ceder a esse estudo. Somente ap\u00f3s Marshall ingerir uma cultura dessa bact\u00e9ria (vindo a desenvolver um quadro de gastrite aguda) e novos estudos serem realizados o rep\u00fadio a essa nova ideia foi se diluindo. O impacto desse trabalho foi t\u00e3o grande para a medicina, que esses pesquisadores foram laureados com um Nobel em 2005.<\/p>\n<p>Ah, sim&#8230; E que bact\u00e9ria \u00e9 essa? Essa aqui embaixo (Fig 1)<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.sciencephoto.com\/image\/11114\/large\/B2200482-Helicobacter_pylori_bacterium-SPL.jpg\" alt=\"Helicobacter pylori\" width=\"197\" height=\"260\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #3366ff\">Fig 1. <em>Helicobacter pylori <\/em>(HP) &#8211;<del> a bact\u00e9ria que sobreviveu<\/del><\/span><\/p>\n<p>A infe\u00e7\u00e3o por <em>H. pylori<\/em> leva a um quadro de gastrite cr\u00f4nica em seus hospedeiros. A gastrite atinge cerca de 80% dos portadores da bact\u00e9ria e \u00e9, na maioria dos casos, um quadro assintom\u00e1tico. Cerca de 10-15% dos portadores desenvolvem quadros de \u00falcera p\u00e9ptica e 1-3% carcinoma g\u00e1strico. O curioso desses dados \u00e9 que pacientes com \u00falcera geralmente n\u00e3o desenvolver c\u00e2ncem g\u00e1strico, como muita gente pensa. Ao que parece, essas duas manifesta\u00e7\u00e3o s\u00e3o excludentes.\u00a0A raz\u00e3o para essas diferen\u00e7as est\u00e3o envolvidas na susceptibilidade gen\u00e9tica do hospedeiro, fatores ambientais e diversidade gen\u00e9tica da pr\u00f3pria bact\u00e9ria. [atualiza\u00e7\u00e3o 17\/01\/12: para saber um pouquinho mais sobre a bact\u00e9ria, d\u00ea uma conferida nos coment\u00e1rios!]<\/p>\n<p>Dois pontos curiosos sobre a infe\u00e7\u00e3o pela H. pylori que eu gostaria de ressaltar, dizem respeito 1) \u00e0 sua epidemiologia e 2) ao seu nicho ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Cerca de 50% da popula\u00e7\u00e3o mundial tem essa bact\u00e9ria, e sua preval\u00eancia \u00e9 inversamente proporcional ao n\u00edvel s\u00f3cio-econ\u00f4mico da popula\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, pa\u00edses pobres apresentam preval\u00eancia maior do que em pa\u00edses ricos (Fig. 2).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.helico.com\/images\/hpworld.gif\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"171\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #3366ff\">Fig 2. Esse mapa da <a href=\"http:\/\/www.helico.com\"><em>Helicobacter<\/em> Foundation<\/a> mostra que em pa\u00edses como o Brasil e os localizados no norte da \u00c1frica a taxa de preval\u00eancia de H. pylori chegam a 90%, enquanto em pa\u00edses como EUA e Canad\u00e1 essas taxas atingem marca de apenas 30-40% da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><em>H. pylori <\/em>\u00e9\u00a0uma bacteria exclusivamente humana e habita nosso est\u00f4mago \u2013 um ambiente muito \u00e1cido (pH~2). Um pH t\u00e3o baixo torna esse ambiente in\u00f3spito \u00e0 vida, mas a HP consegue sobreviver ali pois consegue produzir e liberar uma enzima chamada urease. Ent\u00e3o, a enzima quebra a ureia presente no suco g\u00e1strico em am\u00f4nia (Fig 3A) que vai neutralizar o ambiente \u00e1cido que mantido pelo HCl (\u00e1cido clor\u00eddrico) do suco g\u00e1strico (Fig 3B).<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/urease.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1580\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/urease-620x356.png\" alt=\"\" width=\"328\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/urease-620x356.png 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/urease-300x172.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/urease-200x115.png 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/urease.png 679w\" sizes=\"(max-width: 328px) 100vw, 328px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #3366ff\">Fig 3. Em \u201cA\u201d vemos a rea\u00e7\u00e3o promovida pela urease, na qual a ureia \u00e9 quebrada em am\u00f4nia. Em \u201cB\u201d vemos a rea\u00e7\u00e3o de neutraliza\u00e7\u00e3o do \u00e1cido clor\u00eddrico do suco g\u00e1strico pela am\u00f4nia. Essas rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocorrem em todo o est\u00f4mago, mas nas regi\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0s bact\u00e9rias, criando, assim, um nicho com pH pr\u00f3ximo ao neutro, que permite a sobreviv\u00eancia da bact\u00e9ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"42\" height=\"51\" \/><\/a><\/span>Diversas enzimas s\u00e3o produzidas na sua forma inativa e precisam sofrer altera\u00e7\u00f5es em sua estrutura. A urease tamb\u00e9m \u00e9 assim, ela precisa receber dois \u00edons de n\u00edquel e um de seus amino\u00e1cidos (a lisina 219) deve ser carboxilado. Esse processo \u00e9 realizado pelas prote\u00ednas UreF, UreG e UreH que interagem entre si, formando um complexo heterotrim\u00e9rico. Esse complexo, por sua vez, interage com a urease, promovendo altera\u00e7\u00f5es espaciais de forma a permitir que os \u00edons de n\u00edquel e o di\u00f3xido de carbono interajam com a enzima, ativando-a.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado em dezembro do ano passado, Fong e colaboradores investigaram como ocorre a forma\u00e7\u00e3o do complexo UreF-G-H. Eles viram que a UreH e UreF interagem fomando um complexo bin\u00e1rio. Nessa intera\u00e7\u00e3o UreF sofre uma altera\u00e7\u00e3o conformacional, que permitir\u00e1 o recrutamento e a liga\u00e7\u00e3o com UreG (Fig 4). Os autores mostraram, ainda, que altera\u00e7\u00f5es nas prote\u00ednas auxiliares, impedem a forma\u00e7\u00e3o do complexo e, assim, impedem a ativa\u00e7\u00e3o da urease.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/UreFGH.png\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1583\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/UreFGH.png\" alt=\"\" width=\"169\" height=\"191\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/UreFGH.png 211w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2050\/01\/UreFGH-177x200.png 177w\" sizes=\"(max-width: 169px) 100vw, 169px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\">Fig 4. Nesta figura, retirada do pr\u00f3prio artigo, vemos a forma\u00e7\u00e3o do complexo UreF-UreH induz a alte\u00e7\u00e3o conformacional de UreF. Essa altera\u00e7\u00e3o permite que UreF-UreH ligue-se a Ure G para formar o complexo heterotrim\u00e9rico UreG-UreF-UreH.<\/span><\/p>\n<p>A grande import\u00e2ncia desse tipo de estudo vai al\u00e9m da compreens\u00e3o da biologia do micro-organismo. Ela tamb\u00e9m abre portas para a pesquisa de formas de impedir a intera\u00e7\u00e3o entre essas unidades e, assim, a forma\u00e7\u00e3o do complexo UreF-G-H. Consequentemente, a ativa\u00e7\u00e3o da Urease tamb\u00e9m seria prejudicada, impedindo a sobreviv\u00eancia desse micro-organismo no est\u00f4mago. Ou seja: um novo antimicrobiano contra\u00a0<em>H. pylori<\/em>\u00a0pode ser desenvolvido!<br \/>\n<strong><span style=\"color: #993366\">Bibliografia<\/span><\/strong><br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+Biological+Chemistry&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1074%2Fjbc.M111.296830&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Assembly+of+Preactivation+Complex+for+Urease+Maturation+in+Helicobacter+pylori%3A+CRYSTAL+STRUCTURE+OF+UreF-UreH+PROTEIN+COMPLEX&amp;rft.issn=0021-9258&amp;rft.date=2011&amp;rft.volume=286&amp;rft.issue=50&amp;rft.spage=43241&amp;rft.epage=43249&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.jbc.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1074%2Fjbc.M111.296830&amp;rft.au=Fong%2C+Y.&amp;rft.au=Wong%2C+H.&amp;rft.au=Chuck%2C+C.&amp;rft.au=Chen%2C+Y.&amp;rft.au=Sun%2C+H.&amp;rft.au=Wong%2C+K.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CMicrobiology\">Fong, Y., Wong, H., Chuck, C., Chen, Y., Sun, H., &amp; Wong, K. (2011). Assembly of Preactivation Complex for Urease Maturation in Helicobacter pylori: CRYSTAL STRUCTURE OF UreF-UreH PROTEIN COMPLEX <span style=\"font-style: italic\">Journal of Biological Chemistry, 286<\/span> (50), 43241-43249 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1074\/jbc.M111.296830\" rev=\"review\">10.1074\/jbc.M111.296830<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco mais de 30 anos. \u00c9 esse o tempo que decorreu desde a descoberta dessa bact\u00e9ria chata pra caramba para<\/p>\n","protected":false},"author":491,"featured_media":1621,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[11,16],"tags":[27,66,96,99,112,132],"class_list":["post-1575","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-microbiologia","category-saude","tag-bacterias","tag-ecologia-microbiana","tag-infeccao","tag-inflamacao","tag-metabolismo","tag-patogenicidade"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2012\/01\/B2200482-Helicobacter_pylori_bacterium-SPL.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1575","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/491"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1575"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1575\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1575"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1575"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1575"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}