{"id":181,"date":"2010-03-25T23:34:57","date_gmt":"2010-03-26T02:34:57","guid":{"rendered":"http:\/\/meiodecultura.wordpress.com\/?p=181"},"modified":"2010-03-25T23:34:57","modified_gmt":"2010-03-26T02:34:57","slug":"banquete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/2010\/03\/25\/banquete\/","title":{"rendered":"D\u00ea-me pedras&#8230; eu fa\u00e7o um banquete"},"content":{"rendered":"<p>Chile&#8230; Deserto do Atacama&#8230; Ilha de P\u00e1scoa&#8230; Patag\u00f4nia&#8230; Andes Chilenos&#8230; E eles [os micr\u00f3bios] tamb\u00e9m est\u00e3o por l\u00e1. \u00c9 a ubiquidade dos microrganismos.<br \/>\n.<br \/>\nE vamos come\u00e7ando pelos Andes Chilenos &#8211; um lugar \u00e1rido e in\u00f3spito para humanos e grande parte das formas de vida. Apesar disso, microrganismos sobrevivem ali (e com sucesso!) partir de uma dieta muito peculiar: ar e rochas! N\u00e3o bastasse ocupar esse ambiente, alguns tamb\u00e9m sobrevivem a grandes per\u00edodos de seca, grande fluxo de ultravioleta, lagos de \u00e1cido sulf\u00farico contendo metais t\u00f3xicos. Esses micr\u00f3bios fixam CO<sub>2<\/sub> em biomassa, comendo [leia: <em><span style=\"color:#99cc00\"><strong><span style=\"color:#99cc00\">oxidando<\/span><\/strong><\/span><\/em>] minerais que contenham formas reduzidas de ferro e enxofre \u2013 \u00e9 um processo que \u00e9 mais ou menos como a fotoss\u00edntese, por\u00e9m, a energia do sistema n\u00e3o vem do Sol, mas de minerais: \u00e9 a <span style=\"color:#99cc00\"><em><strong><span style=\"color:#99cc00\">quimioss\u00edntese<\/span><\/strong><\/em><\/span><br \/>\n.<br \/>\nA partir do seu metabolismo, esses micr\u00f3bios mobilizam metais que antes estavam presos em rochas (em ingl\u00eas <em>ore<\/em>: rochas que cont\u00e9m minerais interessantes para a minera\u00e7\u00e3o). Dessa forma, esses min\u00fasculos seres vivos adquirem uma import\u00e2ncia econ\u00f4mica significativa na chamada <span style=\"color:#99cc00\"><em><strong><span style=\"color:#99cc00\">biominera\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/em><\/span>. Nesse processo, a extra\u00e7\u00e3o \u00e9 feita com o aux\u00edlio de microrganismos e n\u00e3o h\u00e1 o uso excessivo das t\u00e9cnicas tradicionais que envolvem calor extremo e\/ou produtos t\u00f3xicos que possuem efeitos nocivos tanto para os manipuladores quanto para o meio ambiente. Ainda no Chile, o deserto do Atacama \u00e9 um dos ambientes mais extremos \u00a0\u2013 \u00a0descrito v\u00e1rias vezes como o deserto mais seco do mundo \u2013 e, tamb\u00e9mali, encontramos esses microrganismos \u201ccomedores-de-minerais\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_182\" aria-describedby=\"caption-attachment-182\" style=\"width: 397px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/02\/minerais1.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-182\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/02\/minerais1.jpg\" alt=\"\" width=\"397\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/02\/minerais1.jpg 397w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/02\/minerais1-256x300.jpg 256w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/02\/minerais1-300x352.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/02\/minerais1-170x200.jpg 170w\" sizes=\"(max-width: 397px) 100vw, 397px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-182\" class=\"wp-caption-text\">Essa pilha tem cerca 60.000 toneladas de material para que os micr\u00f3bios que a habitam extraiam os preciosos minerais. Em detalhe, uma micrografia eletr\u00f4nica de varredura mostrando as \u201cAcidithiobacillus ferrooxidans\u201d aderidas \u00e0 part\u00edculas de calcopirita. A calcopirita \u00e9 um mineral de cobre e uma das principais fontes de obten\u00e7\u00e3o do mesmo.  As bact\u00e9rias possuem 1-2 micr\u00f4metros de comprimento.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essas bact\u00e9rias que oxidam o ferro, por exemplo, j\u00e1 foram encontradas no fundo dos oceanos, em minas \u00e1cidas, em \u00e1reas alagadas, em \u00e1guas subterr\u00e2neas e em lagos. A geoqu\u00edmica desses ambientes, consequentemente, pode ser alterada pela atividade metab\u00f3lica desses procariotos \u2013 e, assim, a disponibilidade de minerais e os ciclos de macro e micronutrientes.<br \/>\n.<br \/>\nS\u00f3 para vermos como o metabolismo dos micr\u00f3bios \u00e9 variado, al\u00e9m da <span style=\"color:#99cc00\"><em><strong><span style=\"color:#99cc00\">quimioss\u00edntese<\/span><\/strong><\/em><\/span><span style=\"color:#99cc00\"><em><strong><span style=\"color:#99cc00\"> <\/span><\/strong><\/em><\/span>(a energia proveniente de rea\u00e7\u00f5es de oxirredu\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizada na convers\u00e3o do CO<sub>2<\/sub> em biomassa) que falamos acima, podemos citar a <span style=\"color:#99cc00\"><em><strong><span style=\"color:#99cc00\">fotoss\u00edntese<\/span><\/strong><\/em><em><span style=\"color:#99cc00\"> <\/span><\/em><em><strong><span style=\"color:#99cc00\">anoxig\u00eanica<\/span><\/strong><\/em><\/span><strong> <\/strong>(a energia proveniente da luz do sol \u00e9 utilizados na convers\u00e3o do CO<sub>2<\/sub> em biomassa, mas n\u00e3o h\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o do O<sub>2<\/sub> como nos vegertais).<br \/>\n.<br \/>\nA figura abaixo <em>(clique nela para v\u00ea-la ampliada)<\/em>, retirada do livro de Tortora <em>et al<\/em> (2005), mostra a divis\u00e3o de todos os organismos, de acordo com sua forma de metabolismo. Vele a pena observar que <span style=\"color:#99cc00\">e<\/span><span style=\"color:#99cc00\"><span style=\"color:#99cc00\">m<\/span> todos os tipos de metabolismo temos representantes bacterianos!<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/03\/metabolismo.gif\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-246\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/03\/metabolismo.gif\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"367\" \/><\/a><br \/>\n.<br \/>\nAlgumas bact\u00e9rias suportam um ambiente com o pH baix\u00edssimo, perto de 1.0 (\u00e1cido); enquanto outros precisam de um pH\u00a0 pr\u00f3ximo 7.0 (neutro). Mas, continuando no exemplo inicial, com um metabolismo t\u00e3o complicado (pH baix\u00edssimos e quantidades tra\u00e7os de oxig\u00eanio), essas bact\u00e9rias s\u00e3o dif\u00edceis de serem cultivadas e manipuladas em laborat\u00f3rio. Repare bem&#8230; DIF\u00cdCIL. \u00a0N\u00e3o, imposs\u00edvel. E \u00e9 t\u00e3o poss\u00edvel que pesquisas t\u00eam sido feitas para esclarecer melhor a parte molecular dos processos bioqu\u00edmicos.<br \/>\n.<br \/>\nAl\u00e9m disso, muitas quest\u00f5es ainda est\u00e3o encucando muito os cientistas&#8230; Por exemplo: como esses microrganismos controlam essa dieta? O substrato da rea\u00e7\u00e3o Fe(II) na presen\u00e7a de oxig\u00eanio pode gerar esp\u00e9cies reativas de oxig\u00eanio. Mas, mesmo em condi\u00e7\u00f5es de anaerobiose (aus\u00eancia de O<sub>2<\/sub>) o Fe(II) pode ser t\u00f3xico para algumas esp\u00e9cies. Como \u00e9 o mecanismo de toxicidade do Fe(II) nestas bact\u00e9rias? Como ocorre o transporte do Fe(II) para dentro e do Fe(III) para fora da c\u00e9lula? Possiveis transportadores s\u00e3o conhecidos, mas como eles funcionam ainda n\u00e3o est\u00e1 claro.<br \/>\n.<br \/>\nUm fato interessante, mas que ainda carece de uma explica\u00e7\u00e3o, \u00e9 o fato de os microrganismos acid\u00f3filos possuem as enzimas que oxidam o Fe(II) no lado extracelular da c\u00e9lula. Por sua vez, as bact\u00e9rias neutrof\u00edlicas mant\u00e9m sua maquinaria oxidativa no interior da c\u00e9lula. E o que acontece para que o Fe(III) formado no interior dessas c\u00e9lulas bacterianas n\u00e3o se precipite? H\u00e1 forma\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas\/pol\u00edmeros que se ligam ao Fe(III)?<br \/>\n.<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 que quanto mais se sabe, mais se v\u00ea que menos se sabe. E conhecendo mais sobre como funciona o metabolismo dos \u201ccomedores-de-minerais\u201d, melhor poderemos entender o papel que esses organismos tiveram (e ainda t\u00eam) na geoqu\u00edmica dos diferentes ambientes da Terra. Isso, sem contar as aplica\u00e7\u00f5es biotecnol\u00f3gicas\/industriais que j\u00e1 est\u00e3o sendo proporcionadas.<br \/>\n.<br \/>\n<span style=\"color:#99cc00\">Textos b\u00e1sicos em microbiolog<span style=\"color:#99cc00\">i<\/span><\/span><span style=\"color:#99cc00\">a:<\/span><\/p>\n<p>Tortora GJ, Funke BR, Case CL (2005)\u00a0<span style=\"text-decoration:underline\">Microbiologia<\/span>. 8 ed. Porto Alegre: Artmed<\/p>\n<p>Madigan MT, Martinko JM, Dunlap PV, Clark DP (2010)\u00a0<span style=\"text-decoration:underline\">Microbiologia de Brock<\/span>. 12\u00a0ed. Porto Alegre: Artmed.<\/p>\n<p><span style=\"color:#99cc00\">Artigo consultado:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"float:left;padding:5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border:0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_white.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1126%2Fscience.1184229&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Feasting+on+Minerals&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=327&amp;rft.issue=5967&amp;rft.spage=793&amp;rft.epage=794&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.sciencemag.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1126%2Fscience.1184229&amp;rft.au=Newman%2C+D.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology\">Newman, D. (2010). Feasting on Minerals.\u00a0<span style=\"font-style:italic\">Science, 327<\/span> (5967), 793-794 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1126\/science.1184229\">10.1126\/science.1184229<\/a>.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chile&#8230; Deserto do Atacama&#8230; Ilha de P\u00e1scoa&#8230; Patag\u00f4nia&#8230; Andes Chilenos&#8230; E eles [os micr\u00f3bios] tamb\u00e9m est\u00e3o por l\u00e1. \u00c9 a<\/p>\n","protected":false},"author":491,"featured_media":182,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[27,33,112,158],"class_list":["post-181","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-microbiologia","tag-bacterias","tag-biomineracao","tag-metabolismo","tag-ubiquidade"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/02\/minerais1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/491"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=181"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/182"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}