{"id":2669,"date":"2013-08-24T21:40:38","date_gmt":"2013-08-25T00:40:38","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/?p=2669"},"modified":"2013-08-24T21:40:38","modified_gmt":"2013-08-25T00:40:38","slug":"um-gigantesco-pequeno-detalhe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/2013\/08\/24\/um-gigantesco-pequeno-detalhe\/","title":{"rendered":"um gigantesco pequeno detalhe&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><strong>Pandoravirus: um gigantesco pequeno detalhe que pode alterar por completo nossa concep\u00e7\u00e3o sobre os dom\u00ednios da vida.<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Bact\u00e9rias s\u00e3o pequenas, muito pequenas (t\u00e3o pequenas quanto dividir 1mm em 100.000 partes &#8211; micrometros). Quando falamos em v\u00edrus, esperamos organismos que sejam t\u00e3o pequenos quanto 1\/100 de uma bact\u00e9ria &#8211; nanometros. T\u00e3o pequenos que n\u00e3o conseguimos observ\u00e1-los ao microsc\u00f3pio convenciona; para isso s\u00e3o necess\u00e1rios microsc\u00f3pios eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" width=\"49\" height=\"59\" \/><\/a><\/span> Acontece que pesquisadores descobriram no m\u00eas passado (<em>Science<\/em> 19\/07\/13) dois novos v\u00edrus, bem diferentes do comum&#8230; n\u00e3o s\u00f3 pelo tamanho gigante (umas 1000 vezes maior que um virus comum da gripe, o que permite que voc\u00ea o veja num microsc\u00f3pio convencional &#8212; figura 1), mas tamb\u00e9m por suas caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas poderem estar promovendo algumas mudan\u00e7as no que conhecemos atualmente como dom\u00ednios da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212355.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-2668\" alt=\"pandoravirus-microscopia\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212355.jpg\" width=\"316\" height=\"288\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212355.jpg 526w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212355-300x274.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212355-200x183.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 316px) 100vw, 316px\" \/><\/a><br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\"><strong>Figura 1:<\/strong> <em>Pandoravirus salinus<\/em>\u00a0e <em>P. dulcis<\/em>\u00a0&#8211; em fotos de microscopia \u00f3ptica convencional (MO) e sua ultraestrutura observada em microscopia eletr\u00f4nica.<\/span><\/p>\n<p>A descoberta desses organismos aconteceu quando, ap\u00f3s a descoberta dos mimivirus e megavirus nos \u00faltimos 10 anos, os pesquisadores comecaram a procurar novos v\u00edrus gigantes em amostras de \u00e1gua. Como o pr\u00f3prio nome desses v\u00edrus ja diz, um deles <em>P. dulcis<\/em>\u00a0foi isolado de um lago australiano e <em>P. salinus<\/em>\u00a0da foz do rio Tunquen, no Chile. O interessante de se notar a presen\u00e7a dos v\u00edrus em continentes distantes (Am\u00e9rica e Austr\u00e1lia) \u00e9 poder estabelecer que as observa\u00e7\u00f5es iniciais n\u00e3o eram artefatos de c\u00e9lulas conhecidas e inclusive sugerir que os pandoravirus s\u00e3o generalizados.<\/p>\n<p>No inicio da pesquisa, os cientistas chegaram a pensar que os v\u00edrus eram, na verdade, bact\u00e9rias. Isso aconteceu pois algumas culturas apresentaram multiplica\u00e7\u00e3o intracelular de part\u00edculas maiores que os maiores megavirus j\u00e1 descritos. Como mesmo com a utiliza\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos essa multiplica\u00e7\u00e3o continuou, essas amostras foram estudadas mais a fundo, afinal aquelas part\u00edculas ali n\u00e3o eram bact\u00e9rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212240.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-2666\" alt=\"Pandoravirus2\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212240.jpg\" width=\"384\" height=\"273\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212240.jpg 640w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212240-300x213.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212240-620x441.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212240-200x142.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/a><br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\"><strong>Figura 2:<\/strong> (D) <em>P. salinus<\/em>\u00a0internalizado em um vac\u00faolo do hospedeiro, com detalhe (E) para a fus\u00e3o das membranas do v\u00edrus e do vac\u00faolo. (F) Corte de <em>Acanthamoeba<\/em>\u00a0(seta verde) com diversos est\u00e1gios de matura\u00e7\u00e3o de <em>P. salinus<\/em>\u00a0(seta laranja) em seu citoplasma<\/span><\/p>\n<p>Geralmente virus reproduzem-se fabricando seus componentes separadamente e depois juntando-os. Curiosamente, os pandoravirus realizam todos processos simultaneamente, e os novos virus s\u00e3o formados de forma continua, de uma extremidade a outra, num processo que a equipe de cientistas denominou \u201ctricotar\u201d (<em>knitting<\/em>) &#8211; pois o v\u00edrus \u00e9 constru\u00eddo como se fosse uma malha de tric\u00f4 (Figura 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212248.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-2667\" alt=\"Pandoravirustrico\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212248.jpg\" width=\"384\" height=\"138\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212248.jpg 640w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212248-300x108.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212248-620x223.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2013\/08\/20130824-212248-200x72.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/a><br \/>\n<span style=\"color: #0000ff\"><strong>Figura 3:<\/strong> Imagens de microscopia eletr\u00f4nica mostrando a s\u00edntese continua do \u00e1pice \u00e0 base da part\u00edcula Vidal de <em>P. salinus<\/em>.<\/span><\/p>\n<p>Quando falamos sobre o genoma de um organismo, estamos nos referindo a toda a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de um determinado ser vivo.<\/p>\n<p>O ser humano, por exemplo, tem um genoma com 3 bilh\u00f5es de pares de base (pb), arranjados em 23 pares de cromossomos, que codificam cerca de 30 a 40 mil genes e por volta de 100 mil prote\u00ednas. O genoma de <em>P. salinus<\/em>\u00a0tem 1,9 milh\u00e3o pb, enquanto do de <em>P. dulcis<\/em>\u00a0tem cerca de 2,5 milh\u00f5es pb &#8211; muito maior do que o maior genoma viral j\u00e1 descrito at\u00e9 ent\u00e3o, o do <em>Megavirus chilensis<\/em>\u00a0com 1,2 milh\u00e3o pb.<\/p>\n<p>Um v\u00edrus da gripe tem apenas 10 genes, enquanto <em>M. chilensis<\/em> possui cerca de 1.000; mas os pandoravirus possuem muito mais, atingindo mais de 2.500 genes capazes de codificar prote\u00ednas e enzimas ainda com fun\u00e7\u00f5es desconhecidas.<\/p>\n<p>O grande impacto da descoberta desse novo e misterioso virus gigante, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 devido a histeria por um surto de uma nova doen\u00e7a&#8230; mas por motivos muitos mais amplos e filos\u00f3ficos que englobam as origens da vida na Terra. Talvez o mais surpreendente seja o fato de que 93% dos mais de 2.000 genes dos pandoravirus n\u00e3o pode ser pareada com qualquer linhagem conhecida na natureza. Em outras palavras, s\u00e3o genes completamente\u00a0novos, o que faz desses v\u00edrus algo muito diferente do que estamos acostumados, levando os cientistas a proporem um quarto dom\u00ednio para acomodar esses organismos na \u00e1rvore da vida.<\/p>\n<p>Assim, ao contr\u00e1rio de Pandora que abriu a caixa e liberou todos os males do mundo, e deixou presa a esperan\u00e7a, os pandoravirus n\u00e3o fazem mal aos seres humanos [at\u00e9 que se prove o contrario]. O que temos observado \u00e9 que esses v\u00edrus gigantes s\u00e3o geralmente encontrados em ambientes aqu\u00e1ticos e infectam amebas, mas ainda temos muita coisa pra aprendermos sobre a biologia desses seres.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science&amp;rft_id=info%3Apmid%2F23869018&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Pandoraviruses%3A+amoeba+viruses+with+genomes+up+to+2.5+Mb+reaching+that+of+parasitic+eukaryotes.&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2013&amp;rft.volume=341&amp;rft.issue=6143&amp;rft.spage=281&amp;rft.epage=286&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Philippe+N&amp;rft.au=Legendre+M&amp;rft.au=Doutre+G&amp;rft.au=Cout%C3%A9+Y&amp;rft.au=Poirot+O&amp;rft.au=Lescot+M&amp;rft.au=Arslan+D&amp;rft.au=Seltzer+V&amp;rft.au=Bertaux+L&amp;rft.au=Bruley+C&amp;rft.au=Garin+J&amp;rft.au=Claverie+JM&amp;rft.au=Abergel+C&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology+%2F+Conservation%2CMicrobiology%2C+Microbiology+%2C+Molecular+Biology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Virology\">Philippe N, Legendre M, Doutre G, Cout\u00e9 Y, Poirot O, Lescot M, Arslan D, Seltzer V, Bertaux L, Bruley C, Garin J, Claverie JM, &amp; Abergel C (2013). Pandoraviruses: amoeba viruses with genomes up to 2.5 Mb reaching that of parasitic eukaryotes. <span style=\"font-style: italic\">Science, 341<\/span> (6143), 281-286 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/23869018\" rev=\"review\">2386901823869018&gt;<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. Pandoravirus: um gigantesco pequeno detalhe que pode alterar por completo nossa concep\u00e7\u00e3o sobre os dom\u00ednios da vida. 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