{"id":2696,"date":"2014-04-21T09:35:34","date_gmt":"2014-04-21T12:35:34","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/?p=2696"},"modified":"2014-04-21T09:35:34","modified_gmt":"2014-04-21T12:35:34","slug":"ela-esta-entre-nos-descricao-brasileira-de-uma-superbacteria-rara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/2014\/04\/21\/ela-esta-entre-nos-descricao-brasileira-de-uma-superbacteria-rara\/","title":{"rendered":"Ela est\u00e1 entre n\u00f3s! Descri\u00e7\u00e3o brasileira de uma superbact\u00e9ria rara"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>Palavrinhas iniciais&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Vamos falar de coisa boa!? Vamos falar de\u2026 ehhhr\u2026 Bem que eu gostaria de come\u00e7ar o post assim, mas infelizmente, depois de um tempinho parado, estou voltando para um noticia que n\u00e3o apenas \u00e9 ruim, como \u00e9 bastante preocupante.<\/p>\n<p>Em janeiro, participei de um podcast sobre Superbact\u00e9rias <del>(que, n\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o de Kripton)<\/del>. Foram as edi\u00e7\u00f5es 11 e 12 do #Scicast (que voc\u00ea pode ouvir <a href=\"http:\/\/meiobit.com\/281671\/scicast-011-superbacterias-parte-1\">aqui<\/a> e <a href=\"http:\/\/meiobit.com\/281678\/scicast-012-superbacterias-parte-2\">aqui<\/a>) e esses epis\u00f3dios s\u00e3o uma boa introdu\u00e7\u00e3o para o que vamos falar hoje aqui&#8230; Al\u00e9m disso, j\u00e1\u00a0comentamos aqui v\u00e1rias vezes sobre bact\u00e9rias resistentes a antibi\u00f3ticos e como elas adquirem e passam pra frente essa resist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>Vamos come\u00e7ar&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" \/><\/a><\/span> J\u00e1 se fala h\u00e1 algumas d\u00e9cadas do MRSA, siga em ingl\u00eas para <em>Staphylococcus aureus<\/em> resistente \u00e0 meticilina. A meticilina \u00e9 um antibi\u00f3tico e essa resist\u00eancia torna o MRSA uma bact\u00e9ria dif\u00edcil de ser tratada, e uma das poucas op\u00e7\u00f5es para o tratamento de infec\u00e7\u00f5es pelo MRSA \u00e9 o antibi\u00f3tico vancomicina.<\/p>\n<p>Acontece que existem bact\u00e9rias resistentes \u00e0 vancomicina, dentre elas, o VRE, sigla em ingl\u00eas para <em>Enterococcus<\/em> resistente \u00e0 vancomicina, merece destaque. Isso principalmente porque os enterococos tem uma grande facilidade para transmitir e receber genes de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Acho que a partir da\u00ed j\u00e1 come\u00e7a a ficar claro o tema do post de hoje&#8230; A tranfer\u00eancia da resist\u00eancia \u00e0 vancomicina para estafilococos foi descrita pela primeira vez em 2002 nos Estados Unidos e, desde ent\u00e3o, outros pouqu\u00edssimos casos por l\u00e1, al\u00e9m da \u00cdndia e do Iraque, foram descritos. A perda da vancomicina como possibilidade de tratamento dessas bact\u00e9rias faz com que o tratamento do MRSA torne-se mais dif\u00edcil e bm mais caro.<\/p>\n<p>Na \u00faltima quinta-feira (dia 17\/04\/14), a revista \u201c<em>The New England Journal of Medicine<\/em>\u201d publicou um artigo que relata o primeiro caso de um VRSA no Brasil. VRSA?! Sim, um <em>Staphylococcus aureus<\/em> resistente \u00e0 vancomicina.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2014\/04\/20140421-002348.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" aligncenter\" alt=\"20140421-002348.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2014\/04\/20140421-002348.jpg\" width=\"298\" height=\"223\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>Como tudo aconteceu?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Em Novembro de 2011, um paciente masculino de 35 anos foi admitido em um hospital paulistano, e apresentava micose fungoide (um tipo de lifoma de pele), v\u00edcio em coca\u00edna, diabete mellitus, al\u00e9m de depress\u00e3o e recente tentativa de suic\u00eddio. Ele desenvolveu um quadro de celulite na perna e foi tratado com antibi\u00f3ticos, sendo liberado em Fevereiro de 2012.<\/p>\n<blockquote><p>Aqui precisamos abrir par\u00eanteses:<br \/>\n<em>A celulite que estamos falando aqui \u00e9 uma doen\u00e7a infecciosa bacteriana, que atinge a pele e os tecidos adjacentes e \u00e9 causada por diferentes bact\u00e9rias, sendo a mais comum o estreptococo &#8211; nesses casos, a bact\u00e9ria produz enzimas que ajudam na sua dissemina\u00e7\u00e3o pelo tecido. Ela tamb\u00e9m pode ser causado por estafilococos, mas apresenta \u00e1rea de extens\u00e3o mais reduzida. A outra celulite \u00e9 um ac\u00famulo de gordura e tecido fibroso sobre a pele, e n\u00e3o tem nada a ver com esse post.<\/em><br \/>\nAqui fechamos nossos par\u00eanteses.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em Junho de 2012, foi readmitido no hospital. Ele apresentou uma piora no quadro psiqui\u00e1trico e, n\u00e3o bastasse isso, apresentou reincid\u00eancia do quadro de infec\u00e7\u00f5es de pele e tecidos moles e foi novamente tratado com antibi\u00f3tico. Um pouco do sangue foi coletado e plaqueado em meio de cultura para ver a presen\u00e7a de bact\u00e9rias no sangue (chamamos isso de hemocultura), e n\u00e3o houve crescimento (hemocultura negativa). O paciente continuou internado, devido \u00e0 quimioterapia para tratar do c\u00e2ncer de pele<\/p>\n<p>Em Julho de 2012, o paciente come\u00e7ou a apresentar febre recorrente e foi tratado com antibi\u00f3tico (dentre eles vancomicina). Dessa vez a hemocultura deu positiva para MRSA. A antibioticoterapia foi alterada (teicoplanina) e, em Agosto, quando o antibi\u00f3tico foi retirado, a febre retornou. A hemocultura foi positiva para dois diferentes isolados de MRSA sendo, um deles, ainda, resistente \u00e0 teicoplanina e \u00e0 vancomicina (al\u00e9m de eritromicina, clindamicina, ciprofloxacina, gentamicina, trimetoprima-sulfametoxazole). O paciente foi ent\u00e3o isolado, foi iniciado um tratamento com daptomicina e foi realizada uma cultura de swab retal, que deu positiva pra VRE. [swab ou zaragatoa \u00e9 um instrumento est\u00e9ril, semelhante a um cotonete, utilizado para a coleta de secre\u00e7\u00f5es e amostras]. Ap\u00f3s algumas semanas, diversas complica\u00e7\u00f5es associadas a m\u00faltiplas infec\u00e7\u00f5es, o paciente veio a \u00f3bito.<\/p>\n<p>A figura abaixo, retirada do artigo, resume e esquematiza curso cl\u00ednico apresentado acima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2014\/04\/20140421-002358.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\" aligncenter\" alt=\"20140421-002358.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2014\/04\/20140421-002358.jpg\" width=\"347\" height=\"278\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>O que os pesquisadores fizeram com esse VRSA?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A primeira coisa foi estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre os dois isolados de MRSA, que vamos passar a chamar de <em>S. aureus<\/em> sens\u00edvel (VSSA) e resiste (VRSA) \u00e0 vancomicina. E eles observaram que eles possuem um perfil gen\u00e9tico semelhante, sugerindo que a sele\u00e7\u00e3o ocorreu in vivo, durante a administra\u00e7\u00e3o dos glicopeptideos (vancomicina e teicoplanina) e dos outros antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p>O VRSA, por\u00e9m, apresentou um plasm\u00eddio que VSSA n\u00e3o possu\u00eda. Esse plasm\u00eddio, foi denominado pBRZ01 e possui os genes que conferem a resist\u00eancia \u00e0 vancomicina (<em>vanA<\/em> e outros) e \u00e0 gentamicina (<em>acc(6\u2019)-aph(2\u201d)<\/em>). O VRSA, por\u00e9m, apresentou taxa de crescimento semelhante a do VSSA, sugerindo que o plasm\u00eddio n\u00e3o afeta o fitness da linhagem resistente.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise mais a fundo desse plasm\u00eddio mostrou que ele sofreu altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas importantes no transposon Tn1546 (que carreia os genes de resist\u00eancia \u00e0 vancomicina), al\u00e9m de que a compara\u00e7\u00e3o da seq\u00fc\u00eancia desses genes indicam que a origem desses genes \u00e9 enteroc\u00f3cica \u2013 sem, entretanto, terem sido originados do isolado de VRE do swab retal. Eles chegaram a essa conclus\u00e3o por meio de experimentos que mostraram que o VRE era incapaz de transferir o plasm\u00eddio para outros enterococos ou estafilococos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>Precisamos entrar em p\u00e2nico?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>P\u00e2nico n\u00e3o&#8230; Mas ficar preocupados, sim!<\/p>\n<p>Geralmente as linhagens multirresistentes s\u00e3o restritas a hospitais, principalmente, porque \u00e9 comum terem uma taxa de replica\u00e7\u00e3o mais lenta, o que as deixam com vantagem competitiva apenas em situa\u00e7\u00f5es que envolvem pacientes com sa\u00fade comprometida e que est\u00e3o sob terapia antimicrobiana.<\/p>\n<p>Essa linhagem brasileira de MRSA, por\u00e9m, al\u00e9m de ter origem na comunidade, n\u00e3o ficou em desvantagem ap\u00f3s a aquisi\u00e7\u00e3o do plasm\u00eddio&#8230; \u00c9 aqui que est\u00e1 o ponto que merece aten\u00e7\u00e3o! Uma bact\u00e9ria dessas tem um elevado poder de dissemina\u00e7\u00e3o, pois tem capacidade comoetitiva com outras bact\u00e9rias da comunidade, n\u00e3o precisando do ambiente hospitalar e de um paciente com sa\u00fade comprometida para poder coloniz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nesse caso que apresentamos aqui, o paciente foi identificado e isolado como medida de seguran\u00e7a para evitar a dissemina\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria pelo ambiente hospitalar e, consequentemente para a comunidade.<\/p>\n<p>Apesar de serem raros e restritos os casos descritos, isso n\u00e3o \u00e9 motivo para descuidar. Muito pelo contr\u00e1rio, deve servir de alerta para o uso incorreto de antibi\u00f3ticos e para o cuidado da equipe m\u00e9dica para evitar a transmiss\u00e3o interna e para fora do hospital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=New+England+Journal+of+Medicine&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1056%2FNEJMoa1303359&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Transferable+Vancomycin+Resistance+in+a+Community-Associated+MRSA+Lineage&amp;rft.issn=0028-4793&amp;rft.date=2014&amp;rft.volume=370&amp;rft.issue=16&amp;rft.spage=1524&amp;rft.epage=1531&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nejm.org%2Fdoi%2Fabs%2F10.1056%2FNEJMoa1303359&amp;rft.au=Rossi%2C+F.&amp;rft.au=Diaz%2C+L.&amp;rft.au=Wollam%2C+A.&amp;rft.au=Panesso%2C+D.&amp;rft.au=Zhou%2C+Y.&amp;rft.au=Rincon%2C+S.&amp;rft.au=Narechania%2C+A.&amp;rft.au=Xing%2C+G.&amp;rft.au=Di+Gioia%2C+T.&amp;rft.au=Doi%2C+A.&amp;rft.au=Tran%2C+T.&amp;rft.au=Reyes%2C+J.&amp;rft.au=Munita%2C+J.&amp;rft.au=Carvajal%2C+L.&amp;rft.au=Hernandez-Roldan%2C+A.&amp;rft.au=Brand%C3%A3o%2C+D.&amp;rft.au=van+der+Heijden%2C+I.&amp;rft.au=Murray%2C+B.&amp;rft.au=Planet%2C+P.&amp;rft.au=Weinstock%2C+G.&amp;rft.au=Arias%2C+C.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CMedicine%2CMicrobiology%2C+Clinical+Research\">Rossi, F., Diaz, L., Wollam, A., Panesso, D., Zhou, Y., Rincon, S., Narechania, A., Xing, G., Di Gioia, T., Doi, A., Tran, T., Reyes, J., Munita, J., Carvajal, L., Hernandez-Roldan, A., Brand\u00e3o, D., van der Heijden, I., Murray, B., Planet, P., Weinstock, G., &amp; Arias, C. 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