{"id":658,"date":"2010-08-16T19:26:17","date_gmt":"2010-08-16T22:26:17","guid":{"rendered":"http:\/\/meiodecultura.wordpress.com\/?p=658"},"modified":"2010-08-16T19:26:17","modified_gmt":"2010-08-16T22:26:17","slug":"transplante-feca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/2010\/08\/16\/transplante-feca\/","title":{"rendered":"Transplante fecal: coc\u00f4 ajudando a salvar vidas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #ff9900\"><span style=\"color: #ff9900\"><strong>O CASO<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p>Uma mulher de 62 anos reportou um caso de diarr\u00e9ia cont\u00ednua durante 8 meses. O dist\u00farbio iniciou ap\u00f3s um tratamento com antibi\u00f3ticos devido a uma cirurgia e uma infec\u00e7\u00e3o pulmonar. Durante esse per\u00edodo a paciente foi internada diversas vezes para hidrata\u00e7\u00e3o intravenosa. Al\u00e9m disso, reclamava de altera\u00e7\u00f5es nos movimentos intestinais a cada 15 minutos, acompanhadas de grande urg\u00eancia e ard\u00eancia retal. O uso de fraldas era constante e ela estava confinada a uma cadeira de rodas, tendo perdido cerca de 27 Kg.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff9900\"><strong>A EXPLICA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O uso prolongado de antibi\u00f3ticos de amplo espectro est\u00e1 associado ao que chamamos de DAA (Diarreia Associada ao uso de Antibi\u00f3ticos). E por que isso ocorre? A causa mais comum \u00e9 a morte das bact\u00e9rias que comp\u00f5em a microbiota ind\u00edgena do hospedeiro, mas com a sobreviv\u00eancia e persist\u00eancia de uma bact\u00e9ria em particular, o <em>Clostridium difficile <\/em>(DACD \u2013 diarreia associada ao <em>C. difficile <\/em>|||<em> <\/em><span style=\"color: #800080\">atualiza\u00e7\u00e3o <\/span><span style=\"color: #800080\">19\/08: colite pseudomenbranosa<\/span>)<em>. Esse microrganismo tem se tornado um grande problema de sa\u00fade p\u00fablica devido ao fato da emerg\u00eancia de novas e mais virulentas<\/em><span style=\"color: #ff00ff\">[1]<\/span><em> linhagens \u2013 que causam doen\u00e7as mais severas e com maiores taxas de fatalidade.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_666\" aria-describedby=\"caption-attachment-666\" style=\"width: 368px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.medicinageriatrica.com.br\/2009\/09\/07\/estudo-de-caso-infeccao-hospitalar-pelo-clostridium-difficile\/\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-666 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/cdifficile.jpg\" alt=\"\" width=\"368\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/cdifficile.jpg 630w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/cdifficile-300x196.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/cdifficile-620x405.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/cdifficile-200x131.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 368px) 100vw, 368px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-666\" class=\"wp-caption-text\">C. difficile: um bastonete gram-positivo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas&#8230; se todas as bact\u00e9rias da microbiota\u00a0morrem, por que o <em>C. difficile<\/em> sobrevive? Essa bact\u00e9ria \u00e9 capaz de produzir um end\u00f3sporo de resist\u00eancia<span style=\"color: #ff00ff\">[2]<\/span>. Assim, ela fica latente at\u00e9 que as condi\u00e7\u00f5es do ambiente (no caso, o intestino da paciente) se tornem favor\u00e1veis e passa a se multiplicar. Sem outras bact\u00e9rias para competir pelo espa\u00e7o, o clostr\u00eddio vai se multiplicando e domina todo o trato gastrointestinal da paciente.<em> <\/em><\/p>\n<p>Durante os 8 meses, a paciente fez uso de antibi\u00f3ticos (metronidazol e vancomicina) \u2013 mas a linhagem era resistente e o tratamento n\u00e3o adiantou.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff9900\"><strong>O TRATAMENTO<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O objetivo num caso como esse \u00e9 eliminar a bact\u00e9ria patog\u00eanica permitindo que uma nova microbiota se instale. Mas e quando o tratamento com antibi\u00f3tico falha? H\u00e1 muito se fala na possibilidade de se fazer uma tentativa de reestabelecer a microbiata e assim, curar a DACD. Isso poderia ser feito, transferindo-se a microbiota de um doador saud\u00e1vel, diretamente para o intestino da paciente. Um tratamento promissor, mas que at\u00e9 o momento ainda tem poucos relatos documentados.<\/p>\n<p>Analisados os poss\u00edveis riscos, optou-se por esse tratamento. O doador seria o marido de 44 anos \u2013 que passou por uma s\u00e9ries de testes para avaliar a possibilidade e \u201cqualidade\u201d da microbiota como: aus\u00eancia de doen\u00e7as transmitidas via sangue, n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos, aus\u00eancia de doen\u00e7as gastrointestinais e, principalmente, aus\u00eancia de pat\u00f3genos (dentre eles o <em>C. difficile<\/em>).<\/p>\n<p>Para o \u201ctransplante\u201d, as fezes do indiv\u00edduo foram dilu\u00eddas em uma solu\u00e7\u00e3o salina e injetadas diretamente no ceco da paciente por meio de uma colonoscopia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_669\" aria-describedby=\"caption-attachment-669\" style=\"width: 368px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2010\/07\/13\/science\/13micro.html\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-669\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/alexander-khoruts-univ-minnesota-nyt.jpg\" alt=\"\" width=\"368\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/alexander-khoruts-univ-minnesota-nyt.jpg 600w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/alexander-khoruts-univ-minnesota-nyt-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/wp-content\/uploads\/sites\/234\/2010\/08\/alexander-khoruts-univ-minnesota-nyt-200x120.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 368px) 100vw, 368px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-669\" class=\"wp-caption-text\">Alexander Khrotus, M.D., da &quot;University Minnesota&quot; que usou a bacterioteriapia (transplante fecal) para curar a paciente que sofria de infec\u00e7\u00e3o intestinal por C. difficile<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"color: #ff9900\"><strong>OS RESULTADOS<\/strong><\/span><\/p>\n<p>No segundo dia ap\u00f3s o tratamento a paciente passou a apresentar movimentos intestinais normal, chegando a apresentar constipa\u00e7\u00e3o nos meses iniciais. As dores foram gradualmente desaparecendo e ap\u00f3s um m\u00eas, <em>C. difficile <\/em>n\u00e3o foi detectado. Outros poucos eventos ocasionais se resolveram sem terapia. Em 6 meses, a paciente j\u00e1 reportava fezes s\u00f3lidas di\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000\">NOTAS<\/span><\/strong><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #ff00ff\"><em>[1]<\/em><\/span><em>Chamamos de PATOG\u00caNICA uma bact\u00e9ria que tem capacidade de causar danos ao indiv\u00edduo. Essa bact\u00e9ria pode ser mais ou menos VIRULENTA de acordo com as \u201cferramentas\u201d que ela possuir. Em outras palavras, virul\u00eancia \u00e9 o grau de patogenicidade do microrganismo. \u00c0s \u201cferramentas\u201d damos o nome de \u201cFATORES DE VIRUL\u00caNCIA\u201d e podemos citar: <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>flagelos<\/em><\/span><em>: permitem a movimenta\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria; os <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>pili<\/em><\/span><em>, que atuam como estruturas de ades\u00e3o da bact\u00e9ria nas c\u00e9lulas do hospedeiro; <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>c\u00e1psulas<\/em><\/span><em>, que deixam os micr\u00f3bios invis\u00edveis ao sistema imune; a capacidade de forma\u00e7\u00e3o de <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>biofilmes<\/em><\/span><em>; al\u00e9m da capacidade de <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>produ\u00e7\u00e3o de toxinas<\/em><\/span><em> e de forma\u00e7\u00e3o de <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>esporos de resist\u00eancia<\/em><\/span><em> (end\u00f3sporos).<\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff00ff\"><em>[2]<\/em><\/span><em>\u00c9 importante ressaltar que ao contr\u00e1rio do que estamos acostumados a pensar, os esporos bacterianos n\u00e3o est\u00e3o associados \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o desses microrganismos, mas com a sobreviv\u00eancia em condi\u00e7\u00f5es de estresse como: temperaturas elevadas, seca, e presen\u00e7a de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas no meio. S\u00e3o comumente produzidos pelos g\u00eaneros <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>Bacillus <\/em><\/span><em>e <\/em><span style=\"text-decoration: underline\"><em>Clostridium<\/em><\/span><em>.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong><span style=\"color: #008000\">Leia mais sobre microbiota e suas propriedades aqui no blogue!<\/span><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2010\/02\/16\/100-trilhoes\/\">100 trilh\u00f5es \u201cdelas\u201d em n\u00f3s <\/a><\/p>\n<p><a href=\"scienceblogs.com.br\/meiodecultura\/2010\/02\/17\/microbiota-ii\/\">100 trilh\u00f5es \u201cdelas\u201d em n\u00f3s \u2013 parte II <\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000\"><strong>ARTIGO CONSULTADO<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+clinical+gastroenterology&amp;rft_id=info%3Apmid%2F20048681&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Changes+in+the+composition+of+the+human+fecal+microbiome+after+bacteriotherapy+for+recurrent+Clostridium+difficile-associated+diarrhea.&amp;rft.issn=0192-0790&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=44&amp;rft.issue=5&amp;rft.spage=354&amp;rft.epage=60&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Khoruts+A&amp;rft.au=Dicksved+J&amp;rft.au=Jansson+JK&amp;rft.au=Sadowsky+MJ&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CClinical+Research%2CHealth%2CMicrobiology+%2C+Aging%2C+Gastroenterology%2C+Physiology%2C+Medicine%2C+Public+Health\">Khoruts A, Dicksved J, Jansson JK, &amp; Sadowsky MJ (2010). Changes in the composition of the human fecal microbiome after bacteriotherapy for recurrent Clostridium difficile-associated diarrhea. <span style=\"font-style: italic\">Journal of clinical gastroenterology, 44<\/span> (5), 354-60 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/20048681\" rev=\"review\">20048681<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O CASO Uma mulher de 62 anos reportou um caso de diarr\u00e9ia cont\u00ednua durante 8 meses. 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