{"id":756,"date":"2010-10-28T10:08:36","date_gmt":"2010-10-28T13:08:36","guid":{"rendered":"http:\/\/meiodecultura.wordpress.com\/?p=756"},"modified":"2010-10-28T10:08:36","modified_gmt":"2010-10-28T13:08:36","slug":"viloes-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/meiodecultura\/2010\/10\/28\/viloes-da-resistencia\/","title":{"rendered":"Vil\u00f5es da resist\u00eancia: antibi\u00f3ticos e antiss\u00e9pticos [do Gene Rep\u00f3rter]"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><span style=\"color:#ff6600\">Essa \u00e9 uma repostagem integral do\u00a0<a href=\"http:\/\/genereporter.blogspot.com\/2010\/10\/viloes-da-resistencia-antibioticos-e.html\">post hom\u00f4nimo<\/a> do blogue \u201c<a href=\"http:\/\/genereporter.blogspot.com\/\">Gene Rep\u00f3rter<\/a>\u201d do Roberto Takata!<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>Esta postagem \u00e9 um adendo \u00e0 excelente feita por Karl do Ecce Medicus:\u00a0<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/eccemedicus\/2010\/10\/kpc_sabonetes_e_as_bacterias_i.php\">KPC, sabonetes e bact\u00e9rias irresist\u00edveis<\/a>.<\/p>\n<p>Uma diferen\u00e7a pr\u00e1tica entre antibi\u00f3ticos e antiss\u00e9pticos \u00e9 que os primeiros t\u00eam uso sist\u00eamico (s\u00e3o ingeridos, injetados, administrados de modo que sejam absorvidos e atuem *dentro* do nosso organismo &#8211; ou de animais que queremos tratar) e os segundos, uso t\u00f3pico (s\u00e3o aplicados na parte externa do corpo &#8211; mucosa da boca, ferimentos, pele&#8230;). (H\u00e1 antibi\u00f3ticos t\u00f3picos, mas s\u00e3o usados em casos bem espec\u00edficos, como em certos curativos de queimaduras, tratamento de conjuntivite purulenta ou eczema superinfectado.) Ambos t\u00eam a\u00e7\u00e3o restrita a micro-organismos &#8211; n\u00e3o t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de combater v\u00edrus.<\/p>\n<p>Muitas vezes os antibi\u00f3ticos atuam sobre a maquinaria celular b\u00e1sica &#8211; e como h\u00e1 similaridades com a nossa pr\u00f3pria maquinaria celular, os antibi\u00f3ticos podem ter a\u00e7\u00e3o sobre n\u00f3s tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, procura-se utilizar compostos que tenham efeitos sobre os micro-organismos em pequenas doses.<\/p>\n<p>Nosso corpo apresenta uma barreira natural &#8211; como a nossa pele &#8211; contra a invas\u00e3o de agentes externos. Essa barreira faz com que os antiss\u00e9pticos tenham uma a\u00e7\u00e3o limitada sobre nosso organismo, de modo que muitas vezes s\u00e3o usados em concentra\u00e7\u00f5es muito maiores.<\/p>\n<p>P.e., a penicilina administrada para um humano adulto \u00e9 algo em torno de 0,93 g. Espalhando-se pelo organismo d\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o de cerca de 1,3.10-2 g\/kg (0,0013% em massa).<\/p>\n<p>Sabonetes com triclosano (composto antiss\u00e9ptico usado desde os anos 1970, mas cujo mecanismo de a\u00e7\u00e3o molecular s\u00f3<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/nature\/journal\/v398\/n6726\/abs\/398383a0.html\">come\u00e7ou<\/a> a ser desvendado em 1999) podem ter concentra\u00e7\u00e3o de at\u00e9 1% (g\/ml) &#8211; sabonete cir\u00fargico -, sabonetes antiss\u00e9pticos mais comuns t\u00eam concentra\u00e7\u00e3o de 0,5%. Em desodorantes, o triclosano \u00e9 usando em concentra\u00e7\u00f5es de 0,1%.<\/p>\n<p>H\u00e1 registros de linhagens\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/nature\/journal\/v406\/n6792\/abs\/406145a0.html\">resistentes<\/a> ao triclosano. Mas n\u00e3o h\u00e1 tantos problemas como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s linhagens resistentes aos antibi\u00f3ticos. Por qu\u00ea? Por v\u00e1rios motivos.<\/p>\n<p>Como dito sobre antiss\u00e9pticos, seu uso \u00e9 *externo*. Ou seja, esses micro-organismos resistentes est\u00e3o *fora* do corpo. O grande problema \u00e9 quando micro-organismos resistentes a tratamento est\u00e3o *dentro*. Como no caso de micro-organismos resistentes a antibi\u00f3ticos, em condi\u00e7\u00f5es normais, as linhagens resistentes a antiss\u00e9pticos s\u00e3o *menos* bem adaptados do que linhagens n\u00e3o-resistentes em um ambiente sem o agente seletivo (o antiss\u00e9ptico ou o antibi\u00f3tico) &#8211; isso porque o antiss\u00e9ptico ou o antibi\u00f3tico muitas vezes atua sobre o metabolismo ou estrutura do micro-organismo, e a resist\u00eancia ocorre normalmente pela altera\u00e7\u00e3o no metabolismo ou estrutura. Quando o agente seletivo n\u00e3o est\u00e1 presente, temos a situa\u00e7\u00e3o anterior &#8211; para as quais as linhagens n\u00e3o-resistentes j\u00e1 estavam adaptadas; quase sempre a altera\u00e7\u00e3o presente nas linhagens resistentes n\u00e3o trabalha bem nessas condi\u00e7\u00f5es sem o agente seletivo &#8211; at\u00e9 por isso est\u00e3o presentes em muito menor n\u00famero (se est\u00e3o). (N\u00e3o \u00e9 exatamente correto falar em &#8220;sem agente seletivo&#8221;, o que ocorre \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o se altera.)<\/p>\n<p>Pensemos, ent\u00e3o, no caso dos antibi\u00f3ticos. A infec\u00e7\u00e3o se instala, \u00e9 administrado o antibi\u00f3tico. Linhagens resistentes proliferam. Quando se para de administrar o antibi\u00f3tico, leva um tempo at\u00e9 que ele seja eliminado. A linhagem resistente continua a proliferar. Assim que o antibi\u00f3tico \u00e9 eliminado pelo organismo (\u00e9 metabolizado e\/ou eliminado pelas excre\u00e7\u00f5es), as linhagens n\u00e3o-resistentes passam a proliferar. Ou seja, o paciente fica em um quadro permanente de infec\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o problema.<\/p>\n<p>Analisemos o caso dos antiss\u00e9pticos. Na nossa vida cotidiana, sem trabalhar em ambiente hospitalar ou em laborat\u00f3rios de microbiologia, estamos em contato permanente com micro-organismos. Na maior parte do tempo, eles n\u00e3o fazem mal. Ou porque sua biologia n\u00e3o \u00e9 patog\u00eanica, ou porque as nossas defesas d\u00e3o conta. O uso de antiss\u00e9pticos apenas diminui &#8211; por um momento &#8211; a quantidade deles em partes (externas) de nosso corpo: diminuindo &#8211; por um momento &#8211; a probabilidade de infec\u00e7\u00f5es oportunistas. Na verdade, apenas o uso de sabonetes comuns j\u00e1 remove &#8211; por um momento &#8211; uma boa quantidade de micro-organismos do local lavado; sabonetes antiss\u00e9pticos apenas aumentam um pouco mais a quantidade removida. Mas o que acontece com as linhagens resistentes? Bem, o contato com antiss\u00e9pticos \u00e9 apenas moment\u00e2neo &#8211; lavamos, a maior parte dos micro-organismos \u00e9 removida, restando os poucos resistentes. S\u00f3 que nosso corpo est\u00e1 em permanente contato com o ambiente, linhagens n\u00e3o-resistentes voltam e, normalmente, superam as linhagens resistentes. Na pr\u00f3xima lavagem, a maior parte das linhagens n\u00e3o-resistentes \u00e9 removida, restando os poucos resistentes. As linhagens resistentes n\u00e3o levam muita vantagem nessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 motivo, portanto, de paranoia com os produtos de higiente que cont\u00eam antiss\u00e9pticos. (E como alerta Karl no Ecce Medicus, produtos de higiene com antibi\u00f3ticos s\u00e3o proibidos.)<\/p>\n<p>Eu apenas acho que \u00e9 desperd\u00edcio de dinheiro comprar sabonetes antiss\u00e9pticos salvo em condi\u00e7\u00f5es muito especiais &#8211; como recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica (por exemplo, a pessoa tiver feridas na pele).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa \u00e9 uma repostagem integral do\u00a0post hom\u00f4nimo do blogue \u201cGene Rep\u00f3rter\u201d do Roberto Takata! 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