Caro divulgador científico, desculpe a demora em retornar! Com as peripécias do fim do doutorado, acabei deixando de lado uma história que aconteceu em 2023. Hoje, consigo contá-la com boas risadas, mas, na época, ela me rendeu alguns bons surtos! Então, que tal conversarmos sobre os desafios da relação entre ciência e imprensa?
Sim, eu apareci no Greg News!
Greg News , encerrado em 2024, foi um programa no estilo talk show, seu apresentador Gregório Duvivier, apresentava as notícias do Brasil e do mundo enquanto tecia comentários com um tom sarcástico e humorístico. Produzido pelo coletivo Porta dos Fundos e exibido pela HBO Brasil.
Vocês sabem da minha defesa pela parceria entre a imprensa e a divulgação científica, acredito nesse potencial e apoio iniciativas que buscam produzir conteúdos capazes de ampliar o acesso ao conhecimento científico e, ao mesmo tempo, facilitar o trabalho dos profissionais de imprensa na busca por informações qualificadas e fontes especializadas. Inclusive essa foi uma estratégia muito bem sucedida no Especial Covid-19 aqui do Blogs.
Mas é claro, que devemos sempre lembrar que apesar do apoio a parceria a divulgação científica e jornalismo científico não são a mesma coisa. Embora dialoguem e possam atuar de forma complementar, são campos que possuem histórias, objetivos, práticas e responsabilidades próprias.
Como bem coloca Herton Escobar, em Divulgação científica: faça agora ou cale-se para sempre:
A comunidade científica não pode mais delegar à imprensa a responsabilidade de educar a sociedade sobre a importância da ciência — porque não cabe a ela essa responsabilidade, e mesmo que coubesse, ela não tem condições de fazer isso sozinha. O abismo é fundo demais para ser preenchido só com folhas de jornal e alguns minutos de televisão.
O tempo da ciência x o tempo da imprensa
Também é preciso reconhecer que transitar entre esses diferentes espaços, embora necessário e potente, está longe de ser uma tarefa simples. Mesmo para quem acredita, defende e busca ativamente essa aproximação — não apenas para ampliar os espaços de divulgação do próprio trabalho, mas também para dar visibilidade às pesquisas e às contribuições de colegas —, os encontros entre ciência e imprensa são atravessados por desafios, expectativas distintas e, muitas vezes, tensões.
De um lado, o jornalista trabalha sob a pressão do tempo e da necessidade de transformar acontecimentos e informações complexas em uma narrativa compreensível para o público. Além de encontrar uma fonte disponível para atender à demanda, é preciso que essa fonte consiga dialogar com a imprensa, compreender as particularidades da linguagem jornalística e apresentar informações que possam ser contextualizadas para aquela audiência. Há, ainda, as limitações próprias do espaço e do formato jornalístico, que muitas vezes exigem síntese, clareza e objetividade.
Do outro lado, o cientista está inserido em uma dinâmica marcada pelo rigor metodológico, pela necessidade de contextualização, pela apresentação de evidências e pelas incertezas que fazem parte da própria produção do conhecimento científico. Seu compromisso está, antes de tudo, com a precisão das informações, com os limites dos resultados obtidos e com a adequada interpretação dos dados.
Nem sempre, portanto, aquilo que o cientista considera essencial para comunicar uma pesquisa cabe no tempo, no espaço ou no formato exigido pela imprensa. E nem sempre aquilo que é necessário para construir uma boa narrativa jornalística corresponde à forma como o pesquisador está acostumado a apresentar seu trabalho.
É justamente nesse encontro — e, muitas vezes, nesse desencontro — que podem surgir os ruídos.
E eu, como comunicadora e cientista, não estou isenta desses receios. Pelo contrário. Vivenciar esses dois lugares torna ainda mais evidente o quanto essa relação exige diálogo, negociação e, principalmente, compreensão sobre os limites, as responsabilidades e as expectativas de cada campo.
Foi justamente ao me ver dos dois lados dessa relação que essa experiência ganhou outra dimensão. Na matéria que acabou indo parar no Greg News, eu me vi, na prática, nesse lugar:
Como agir quando aquilo que imaginávamos que seria comunicado não é exatamente o que chega ao público?
Como fui parar no Greg News!
No inicio de 2023, as mudanças no Ensino Médio propostas e implementadas em São Paulo, pós pandemia, era pauta do nosso grupo de pesquisa: o Pemcie. Como resultado dessas discussões nosso colega Matheus Naville Gutierrez produziu textos que não só explicava as mudanças mas refletia nossas discussões e trazia elementos de sua própria pesquisa.
A partir desses textos, exerci uma das minhas funções no trabalho com os Blogs Unicamp: a assessoria de imprensa. Que dentre as muitas tarefas está a atividade de oferecer pautas a imprensa, neste caso, foi oferecimento dos textos do Matheus e a sua disponibilidade para entrevistas. O que na época atraiu a atenção de vários jornalistas.
Dentre elas, uma colega, já conhecida de outros trabalhos, pediu um bate-papo comigo antes de decidir se daria andamento à matéria. Após a conversa profissional, na qual expliquei o trabalho do Matheus, indiquei outras leituras para embasamento científico e possibilidades de entrevistas, começamos a conversar sobre o nosso dia a dia — e foi aí que eu errei, afinal eu não disse em nenhum momento, que esses comentários não deveriam ser usados como base da matéria.
No meio desse bate-papo, acrescentei à conversa minha experiência pessoal como mãe de adolescentes, que também estavam vivenciando as mudanças no Ensino Médio. Entre os comentários, destaquei o quanto considerava injusto submeter a comunidade escolar a um processo de mudança sem o devido preparo.
Naquele momento, entendi que esse comentário estava fora do contexto profissional da conversa, afinal, o objetivo era divulgar o trabalho do Matheus. A jornalista, porém, considerou os comentários pertinentes e acabou incorporando-os à matéria. E eu só me dei conta disso depois que o texto foi publicado.

Eu não cheguei a ver essa matéria na época! Por isso, acreditei que a pauta não havia sido aceita e está tudo certo!
Alguns meses depois eu estava em São José dos Campos, como convidada do Pint of Science para falar sobre Difusão científica em tempos de desinformação, e recebi várias mensagens e ligações de colegas comentando de forma bem humorada sobre a minha participação no Greg News.
– Olha lá a Erica falando mal de RPG!
Eu sem entender muito bem, como que isso havia acontecido, fui buscar o vídeo. E no quarto episódio da sétima temporada, no minuto 16:10, estava lá, meu nome estampado acompanhando do comentário bem humorado do apresentador:
“Outras aulas estão sendo ensinadas nesse momento, em escolas públicas, incluem RPG. Não a prática na coluna, mas o jogo. Que curiosamente só é jogado por gente com escoliose.”
Entre responder às mensagens, tentar descobrir de onde aquela citação havia surgido e, ao mesmo tempo, me organizar para a palestra para a qual havia sido convidada, eu me desesperei.
Afinal, como aquela situação poderia repercutir na minha trajetória como pesquisadora? Como eu iria, poucas horas depois, falar sobre a importância de atender à imprensa e da relação entre ciência e jornalismo? Será que eu deveria responder a tudo aquilo? Ou seria melhor deixar a situação passar?
O desespero chegou ao seu ápice, após perceber que dentre as mensagens havia o contato da assessoria do Jornal Nacional para participar de uma entrevista sobre o assunto como personagem.
Quando a imprensa conta a sua história!
Quero deixar registrado aqui, de forma bastante clara: não há nada de errado com as duas matérias publicadas.
Embora, naquele momento, eu tenha ficado nervosa, preocupada e insegura diante da repercussão que aquela situação poderia ter para o meu trabalho, é importante dizer que isso não se trata de gostar ou não da matéria. Minha reação estava relacionada às minhas expectativas e aos meus receios enquanto pesquisadora diante da exposição pública.
Faço essa afirmação porque é importante distinguir aquilo que diz respeito à responsabilidade jornalística daquilo que diz respeito às minhas expectativas, enquanto pesquisadora, fonte ou personagem, sobre como o meu trabalho deveria ser apresentado.
Uma coisa é existir um erro de apuração, uma informação incorreta ou uma distorção do conteúdo científico; outra, bastante diferente, é a matéria ter uma condução ou uma edição diferente daquela que eu imaginava. E, neste caso, uma coisa não significa necessariamente a outra.
Para isso, considero importante recuperar alguns princípios que orientam o exercício do jornalismo no Brasil, entre eles o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, o Decreto-Lei nº 972, de 17 de outubro de 1969, que dispõe sobre o exercício da profissão de jornalista, e os princípios relacionados à liberdade de imprensa e à responsabilidade civil discutidos pelo TJDFT.
1º — Tanto a matéria de O Globo quanto o conteúdo exibido pelo Greg News passaram pelo processo de apuração jornalística.
No que diz respeito à informação científica que apresentei, mesmo que inicialmente eu não tenha sido procurada como pesquisadora, ainda sim, concedi entrevista, apresentei os dados disponíveis, expliquei os resultados da pesquisa e ofereci a análise científica necessária para contextualizar o tema.
Ou seja, a informação não foi construída a partir de uma interpretação aleatória ou de uma fonte sem conhecimento sobre o assunto. Houve uma fonte especializada, houve entrevista e houve acesso às informações e aos dados científicos pertinentes.
Isso não significa, evidentemente, que uma entrevista jornalística tenha como objetivo reproduzir integralmente aquilo que a fonte disse. Significa que o jornalista dispõe de elementos para realizar seu trabalho de apuração e, a partir deles, construir a narrativa jornalística.
2º — A jornalista tem liberdade editorial para definir a condução da matéria.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes, e que nós, pesquisadores, precisamos ter em mente quando aceitamos falar com a imprensa.
Ao conceder uma entrevista, eu não passo a ser responsável pela edição da matéria.
A jornalista tem autonomia para decidir quais informações são mais relevantes, quais fontes serão ouvidas, como diferentes perspectivas serão articuladas e qual será a abordagem do conteúdo. Essa liberdade editorial é parte constitutiva do próprio trabalho jornalístico.
Eu posso explicar e contextualizar os dados. Posso esclarecer conceitos e corrigir desinformação ou oferecer ajuda caso algo tenha sido compreendido de maneira equivocada.
Mas isso é diferente de ter o direito de aprovar, reprovar ou editar previamente a matéria.
Não existe uma obrigação geral de que o jornalista devolva a matéria à fonte para validação antes da publicação. E, particularmente quando estamos falando de imprensa, é fundamental que essa autonomia seja preservada.
3º — Entrevista não é coautoria da matéria.
Quando um pesquisador concede uma entrevista, ele contribui com conhecimento, dados, interpretações e informações que podem subsidiar a reportagem. Mas isso não significa que passe a ser coautor do texto jornalístico.
A matéria pertence ao campo do jornalismo, assim como um artigo científico pertence ao campo da produção científica. São formas diferentes de produzir, organizar e comunicar conhecimento, com critérios, linguagens, objetivos e responsabilidades próprios.
Eu posso não gostar de uma escolha editorial. Posso achar que determinada informação merecia mais espaço. Posso considerar que uma questão científica foi simplificada demais para o público. Posso até me sentir desconfortável com a forma como determinado trecho foi apresentado.
Mas nada disso, por si só, significa que a matéria esteja errada.
4º — Precisamos diferenciar erro jornalístico de resultado editorial indesejado pela fonte.
Uma coisa seria a publicação apresentar uma informação falsa, atribuir a mim uma declaração que não fiz, distorcer deliberadamente um dado científico ou apresentar como fato algo que não corresponde às informações apuradas.
Outra coisa, bastante diferente, é a matéria ter uma condução que não corresponde exatamente àquilo que eu imaginava quando concedi a entrevista.
E essa diferença é fundamental.
Nem toda matéria que produz desconforto na fonte é uma matéria equivocada. Nem toda edição que não favorece a narrativa que gostaríamos de ver é uma falha jornalística.
Às vezes, o que existe é simplesmente uma diferença entre a expectativa da fonte e a autonomia editorial do jornalista. Como é o caso que exemplifiquei aqui nesse texto.
5º — O pesquisador também precisa compreender os limites de sua participação como fonte.
Defender a aproximação entre ciência e imprensa significa, necessariamente, defender também a autonomia dos dois campos.
Se queremos que jornalistas recorram a pesquisadores como fontes qualificadas, precisamos estar dispostos a compreender que o conhecimento científico será transformado em uma linguagem jornalística, inserido em uma narrativa, relacionado a outras fontes e submetido aos critérios editoriais daquela produção.
Isso não significa abrir mão da responsabilidade científica. Pelo contrário.
Cabe a nós, pesquisadores, oferecer informações qualificadas, deixar claros os limites dos dados, explicar aquilo que pode ou não ser concluído a partir de uma pesquisa e corrigir eventuais erros factuais quando eles ocorrerem.
Mas não cabe ao pesquisador controlar a narrativa jornalística!
E é justamente por defender tanto a divulgação científica quanto a aproximação entre ciência e imprensa que considero importante fazer essa distinção.
Mas isso é diferente de afirmar que “há algo de errado com a matéria”.
Não há.
Houve uma pesquisa. Houve uma pesquisadora. Houve uma entrevista. Houve informações e dados científicos apresentados à jornalista. E houve, posteriormente, um trabalho jornalístico de seleção, edição, contextualização e construção narrativa.
E o que fazer quando não concordar com a matéria publicada?
Ainda assim, o cientista que se sentir desconfortável ou discordar do conteúdo publicado pode — e, em determinadas situações, deve — entrar em contato com o jornalista para apontar possíveis erros, esclarecer informações ou apresentar sua perspectiva sobre o que foi publicado.
Contudo, é importante reforçar que a decisão de realizar ou não alterações cabe ao veículo de comunicação e à sua equipe editorial.
Isso não significa que o cientista deva simplesmente aceitar uma matéria com a qual não concorda, mas compreender que a relação com a imprensa não termina quando a entrevista acaba.
Da mesma forma que o jornalista tem a responsabilidade de apurar, selecionar e editar as informações, o cientista pode exercer seu direito de questionar, esclarecer e corrigir eventuais equívocos.
O diálogo, nesse caso, continua sendo o melhor caminho, respeitando os limites e as responsabilidades de cada campo.