{"id":1837,"date":"2022-04-06T15:11:43","date_gmt":"2022-04-06T18:11:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/?p=1837"},"modified":"2022-05-22T13:25:40","modified_gmt":"2022-05-22T16:25:40","slug":"mulher-maravilha-as-amazonas-e-o-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/mulher-maravilha-as-amazonas-e-o-feminismo\/","title":{"rendered":"Mulher-Maravilha, as amazonas e o feminismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">H\u00e1 algum tempo eu falo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o da Mulher-Maravilha com o movimento sufragista e, posteriormente, da sua identifica\u00e7\u00e3o com o feminismo. Isso porque, embora essas rela\u00e7\u00f5es possam parecer \u00f3bvias para alguns, foi apenas por meio dos estudos de g\u00eanero que pude entender mais claramente <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">por que n\u00e3o podemos afirmar que a personagem \u00e9 uma feminista, mas sim, um \u00edcone feminista<\/mark>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">De acordo com o <a href=\"https:\/\/dicionario.priberam.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dicion\u00e1rio Priberam<\/a>, entre 4 poss\u00edveis significados da palavra \u00edcone est\u00e3o:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" style=\"font-size:15px\"><p>Signo que tem uma rela\u00e7\u00e3o de semelhan\u00e7a com aquilo que est\u00e1 a representar; Figura SIMB\u00d3LICA representativa de algo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"706\" height=\"348\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/Capturar.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1838\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/Capturar.png 706w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/Capturar-300x148.png 300w\" sizes=\"(max-width: 706px) 100vw, 706px\" \/><figcaption><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2007\/07\/21\/movies\/21fron.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wonder Woman frees imprisoned South Vietnamese women in<\/a> \u201cJustice League: The New Frontier,\u201d a DVD due in February. Cr\u00e9dito: Warner Home Video <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Para entender melhor as rela\u00e7\u00f5es sobre quadrinhos, iconografia e simbologia, conversei com o prof. Dr. Iuri Reblin, que se tornou uma refer\u00eancia em estudos de super-her\u00f3is e teologia. Sua tese de doutorado intitulada&nbsp;<a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/O_alien%C3%ADgena_e_o_menino.html?id=3y71CAAAQBAJ&amp;source=kp_book_description&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O alien\u00edgena e o menino<\/a>&nbsp;foi ganhadora do pr\u00eamio Capes de melhor tese no ano de sua publica\u00e7\u00e3o, em 2013. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Sobre a import\u00e2ncia dos super-her\u00f3is na sociedade, Iuri afirma o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" style=\"font-size:15px\"><p>\u201cEnquanto bens culturais, os super-her\u00f3is e as super-hero\u00ednas s\u00e3o fornecedores e fornecedoras de sentido. Traduzem um conjunto de valores que s\u00e3o expressos em suas falas e em suas a\u00e7\u00f5es. As hist\u00f3rias das personagens da superaventura t\u00eam ocupado, frequentemente, o lugar que outras narrativas ocuparam (e ainda ocupam) em nossas vidas, como as sagas b\u00edblicas, os mitos, as hist\u00f3rias de fic\u00e7\u00e3o, as est\u00f3rias e os causos que nossos av\u00f4s, nossas av\u00f3s partilharam, no sentido de fornecer exemplos de atitudes, de ideais a serem almejados, influenciando na constru\u00e7\u00e3o de identidade, no senso de coletividade e na percep\u00e7\u00e3o de mundo. Claro que, se considerarmos essas hist\u00f3rias como produto de massa vinculado a uma ind\u00fastria cultural e todas as implica\u00e7\u00f5es correlacionadas, esses exemplos de atitudes e ideais podem ser questionados e avaliados criticamente. No entanto, isso n\u00e3o muda o fato de que os super-her\u00f3is e as super-hero\u00ednas hoje t\u00eam se tornado modelos de comportamento e express\u00e3o de nossos ideais e vis\u00f5es da realidade. Seu papel consiste em ser simultaneamente uma v\u00e1lvula de escape e um s\u00edmbolo ora mais, ora menos difuso que pode orientar nosso caminhar.\u201d<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">Diana nunca se assumiu abertamente feminista, at\u00e9 porque de onde ela vem, este conceito sequer existe.<\/mark> <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">Ela pode ser assumidamente qualquer coisa de acordo com as inten\u00e7\u00f5es do roteirista que a escreve, no entanto, vale lembrar que hist\u00f3rias em quadrinhos s\u00e3o um produto de uma cultura de massa inseridas em um contexto capitalista, a tend\u00eancia \u00e9 que a personagem feminina de maior alcance dos quadrinhos mantenha certa coer\u00eancia com as demandas do p\u00fablico feminino.<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">J\u00e1 nas hist\u00f3rias iniciais, concebidas por William Moulton Marston, Diana tinha um discurso de n\u00e3o submiss\u00e3o aos homens, lembrando constantemente que nenhuma mulher deveria se sentir inferior ou se submeter \u00e0s vontades masculinas. Esta seria a primeira e mais remota identifica\u00e7\u00e3o com o discurso feminista de igualdade de g\u00eaneros, se n\u00e3o fosse o fato de sua cria\u00e7\u00e3o estar diretamente ligada ao movimento sufragista entre os anos 10 e 20.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">De acordo com a pesquisadora&nbsp;Jill Lepore, em seu livro <a href=\"http:\/\/iluminerds.com.br\/mulher-maravilha-75-anos-e-mais-um-segredo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">The Secret History of Wonder Woman<\/a>, sem o feminismo nossa hero\u00edna sequer existiria, pois foi depois de ter conhecido o movimento sufragista que Moulton desistiu de se matar. Posteriormente, ap\u00f3s suas experi\u00eancias com o pol\u00edgrafo, tamb\u00e9m de sua cria\u00e7\u00e3o, constatou que as mulheres eram emocionalmente superiores aos homens, por mentirem menos, por isso, seriam capazes de articular melhores di\u00e1logos em prol de um bem comum.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"203\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/lepore_wonder_woman_cover-203x300-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1841\"\/><figcaption>livro <a href=\"http:\/\/iluminerds.com.br\/mulher-maravilha-75-anos-e-mais-um-segredo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">The Secret History of Wonder Woman<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ou seja, a Mulher-Maravilha n\u00e3o surge de uma concep\u00e7\u00e3o de igualdade entre os g\u00eaneros, mas de superioridade, o que estaria em discord\u00e2ncia com o feminismo, claro. Ainda assim, no decorrer dos seus 75 anos e tendo passado pelas m\u00e3os de in\u00fameros desenhistas e roteiristas, algumas de suas caracter\u00edsticas principais como a busca pela paz e pela justi\u00e7a e o fato de n\u00e3o precisar ser salva por um her\u00f3i, sendo capaz de tomar suas decis\u00f5es baseadas em suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, geraram identifica\u00e7\u00f5es por parte de grandes feministas como Gloria Steinem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"eplus-wrapper wp-block-heading\">A utopia feminista das amazonas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">J\u00e1 as amazonas, retratadas em diversas hist\u00f3rias h\u00e1 v\u00e1rios s\u00e9culos, tiveram na vers\u00e3o do desenhista e roteirista George Perez (1994-1996) uma representa\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima \u00e0 que foi imaginada pela escritora Christine de Pizan em sua utopia feminista Cidade das Damas, em 1405:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" style=\"font-size:15px\"><p>Considerada a primeira obra a questionar a supremacia masculina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher em v\u00e1rios dom\u00ednios, A Cidade das Damas busca reavaliar o papel feminino ao longo dos tempos, atrav\u00e9s da compila\u00e7\u00e3o de exemplos de v\u00e1rias figuras hist\u00f3ricas, lend\u00e1rias, mitol\u00f3gicas, de grandes virtudes, que deram prova da capacidade intelectual e f\u00edsica, cujas hist\u00f3rias foram emprestadas de obras de escritores de renome, como Ov\u00eddio, Virg\u00edlio, Jean de Meung, Jehan Le F\u00e8vre, Boccaccio. (DEPLAGNE, 2013, p. 116)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se o surgimento de utopias feministas se deve \u00e0 necessidade de fuga de um mundo onde a viol\u00eancia contra as mulheres impera, nas hist\u00f3rias em quadrinhos da Mulher-Maravilha n\u00e3o \u00e9 diferente. Entre as mais diversas origens que justifiquem a cria\u00e7\u00e3o de Themyscira habitada por Amazonas, a vers\u00e3o de George Perez se consolidou como uma tentativa de \u201creiniciar\u201d o universo da super-hero\u00edna. Nessa vers\u00e3o, o assassinato de uma mulher por seu companheiro em 30.000 a. C abre a narrativa, estabelecendo que a viol\u00eancia contra a mulher existe desde os prim\u00f3rdios da humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"712\" height=\"314\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/Capturar-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1843\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/Capturar-1.png 712w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/Capturar-1-300x132.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mindflow\/wp-content\/uploads\/sites\/186\/2022\/04\/Capturar-1-710x313.png 710w\" sizes=\"(max-width: 712px) 100vw, 712px\" \/><figcaption>DC Modern Classics &#8211; Mulher Maravilha: Deuses e Mortais &#8211; Escritores: George Perez, Len Wein e Greg Potter &#8211; Ilustradores: George Perez e Bruce Patterson<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Alguns mil anos depois, em uma discuss\u00e3o entre os deuses no Olimpo sobre como a viol\u00eancia imposta por Ares vinha destruindo a humanidade com guerras e a afastando de sua adora\u00e7\u00e3o a eles, o deus da guerra prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de uma nova ra\u00e7a de mortais que se submetam aos deuses por medo, contrariando o posicionamento das deusas que acreditam que a humanidade deve ser composta por homens e mulheres que se relacionem de forma harmoniosa.<\/p>\n<p>Como os deuses n\u00e3o chegam a um consenso e Zeus n\u00e3o se posiciona, as deusas decidem seguir ao interior de Gaia, onde <span style=\"background-color: #99ccff;\">\u201cas almas de todas as mulheres cujas vidas foram encurtadas pelo medo e pela ignor\u00e2ncia do homem\u201d (PEREZ, 2017, p.16)<\/span> aguardam por seu renascimento ap\u00f3s eras de lamenta\u00e7\u00e3o no limbo. Com o sopro de \u00c1rtemis, as almas inundam o centro de Gaia, dando origem \u00e0s Amazonas:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" style=\"font-size:15px\"><p>\u201cVoc\u00eas s\u00e3o uma ra\u00e7a escolhida\u2026nascidas para mostrar \u00e0 humanidade a trilha da virtude\u2026 e os ensinamentos de Gaia! Gra\u00e7as as voc\u00eas, todos os homens nos conhecer\u00e3o melhor\u2026 e nos adorar\u00e3o para sempre! Assim sendo, Atena lhes confere sabedoria para se guiarem pela luz da verdade e da justi\u00e7a! Eu, \u00c1rtemis, lhes concedo o dom da ca\u00e7a. Dem\u00e9ter far\u00e1 com que seus prados frutifiquem. H\u00e9stia h\u00e1 de erigir-lhes uma cidade e aquecer seus cora\u00e7\u00f5es. A doce Afrodite, dar-lhes-\u00e1 o dom do amor!\u201d (PEREZ, 2017, p. 18)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">As Amazonas, lideradas por Hip\u00f3lita e Ant\u00edope, ambas possuidoras dos cintur\u00f5es de Gaia, s\u00edmbolos de poder oferecido pelas deusas, habitam Themyscira, lutam contra invasores e n\u00e3o se submetem aos homens, o que levanta a ira de soberanos gregos, que passam a enxerg\u00e1-las como uma amea\u00e7a. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Instigado por Ares, Her\u00e1cles declara guerra \u00e0s Amazonas em cenas que retratam misoginia em seu discurso ao se referir \u00e0 Hip\u00f3lita como meretriz, no entanto, em um primeiro momento, ele reconhece que as Amazonas s\u00e3o boas aliadas e pede a seus homens que guardem as armas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Assim, em uma noite de celebra\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres, Hip\u00f3lita se dirige a Her\u00e1cles para lhe comunicar seu contentamento com a situa\u00e7\u00e3o, mas o semideus a droga, a espanca e a acorrenta em um calabou\u00e7o ap\u00f3s retirar-lhe o cintur\u00e3o de Gaia, enquanto seus homens incendeiam Themyscira. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Desejando vingan\u00e7a, Hip\u00f3lita suplica a Atena que a liberte, mas a deusa lhe adverte sobre seu verdadeiro prop\u00f3sito, o de promover o amor de Gaia e n\u00e3o se submeter aos homens ou ao seu \u00f3dio. Hip\u00f3lita ent\u00e3o se liberta e luta com suas irm\u00e3s contra os soldados de Her\u00e1cles, mas por sua trai\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios estipulados pelas deusas para que elas retornassem \u00e0 Terra, elas seriam ent\u00e3o enviadas a uma nova localiza\u00e7\u00e3o <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">\u201conde os homens n\u00e3o descobrir\u00e3o facilmente. Ela parece o para\u00edso e realmente o ser\u00e1 enquanto guardarem seu terr\u00edvel segredo\u201d (PEREZ, 2017, p. 32), <\/mark>e onde teriam que usar os s\u00edmbolos de seu cativeiro, entre eles, braceletes que as lembrariam eternamente que n\u00e3o deveriam errar novamente. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, por muitos s\u00e9culos, elas viveriam como imortais enquanto estivessem na ilha, a nova Themyscira, protegidas do mundo exterior, em uma sociedade justa, longe das quedas e guerras das civiliza\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, Hip\u00f3lita, sentia grande descontentamento e ang\u00fastia continuamente, o que lhe foi explicado por Menalipe, a Or\u00e1culo, se tratar da frustra\u00e7\u00e3o por ter sido assassinada enquanto estava gr\u00e1vida em sua vida anterior. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Por isso, as deusas a concederam o direito \u00e0 maternidade quando ela forjou um beb\u00ea de barro com suas m\u00e3os e pediu as ben\u00e7\u00e3os do Olimpo. A menina, que recebeu dons divinos, se chamava Diana e ficaria conhecida posteriormente como a Mulher-Maravilha. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Essa vers\u00e3o de Perez estabelece ent\u00e3o que os fatores determinantes para o surgimento das Amazonas e da Mulher-Maravilha est\u00e3o relacionados \u00e0 viol\u00eancia imposta pelos homens, que leva as mulheres a precisarem se proteger deles em um lugar fora de seu alcance, e ao amor das deusas pelas Amazonas, que lhes concedem dons e presentes para que possam viver de forma digna e harmoniosa, longe dos conflitos provocados pelo patriarcado. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Em outras vers\u00f5es, Diana \u00e9 fruto de um relacionamento entre Zeus e Hip\u00f3lita, um poss\u00edvel estupro, j\u00e1 que Zeus costuma se disfar\u00e7ar para se relacionar com as mais diversas mulheres, provocando sempre a ira de sua esposa Hera. Entretanto, em todas as vers\u00f5es de Themyscira, a ilha existe como um ref\u00fagio seguro para as Amazonas, mesmo que eventualmente elas se relacionem sexualmente com marinheiros que naveguem em suas \u00e1guas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia contra a mulher como recurso narrativo utilizado para definir seu papel nas tramas n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade dos quadrinhos. Na verdade, se trata de uma representa\u00e7\u00e3o recorrente em todos os tipos de produ\u00e7\u00f5es, desde sempre, como se os autores n\u00e3o conseguissem conceber nossa exist\u00eancia se n\u00e3o a partir da viol\u00eancia que promovem:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote eplus-wrapper is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" style=\"font-size:15px\"><p>A coadjuv\u00e2ncia feminina n\u00e3o \u00e9 novidade. Desde o in\u00edcio das divulga\u00e7\u00f5es massivas as personagens femininas aparecem como mocinhas a serem resgatadas por um her\u00f3i, secret\u00e1rias de importantes agentes de pol\u00edcia, figuras que serviram aos assuntos relativos ao sexo, em grande parte dotadas de belos atributos f\u00edsicos. A representa\u00e7\u00e3o do corpo feminino, por exemplo \u201c[\u2026] tem sido, h\u00e1 v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, um l\u00f3cus erotizado de significa\u00e7\u00f5es, uma inst\u00e2ncia de vigil\u00e2ncia e controle sobre as sexualidades masculinas e femininas\u201d (apud OLIVEIRA, 2007, p.150). As cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, liter\u00e1rias, foram durante muito tempo de hegemonia masculina. Esse dom\u00ednio, se n\u00e3o determinou a constitui\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos femininos, pode ser responsabilizado, em parte, pela menos presen\u00e7a das protagonistas femininas. (BOFF, 2014, p. 63)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Essa mesma viol\u00eancia, t\u00e3o presente nas obras de autoria masculina, gerou a certeza para muitas autoras de que seria necess\u00e1rio reescrever a hist\u00f3ria das mulheres a partir de uma perspectiva onde n\u00e3o f\u00f4ssemos definidas exclusivamente a partir da viol\u00eancia que nos \u00e9 perpetrada e que nos possibilitasse sonhar novos futuros onde igualdade, justi\u00e7a, amor, pudessem ser encontrados. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das justificativas para a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o exclusivo de mulheres, h\u00e1 outras similaridades entre as obras aqui mencionadas: tanto na obra de Perez como na obra de Pizan, as amazonas s\u00e3o retratadas de maneira mais diversa do que nas vers\u00f5es mais difundidas do mito e seus feitos s\u00e3o enaltecidos, n\u00e3o questionados. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Essa percep\u00e7\u00e3o corrobora um recente estudo feito por Adrienne Mayor, pesquisadora de Stanford, <a href=\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691147208\/the-amazons\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">onde a autora constata<\/a>, por meio de descobertas de vasos e outros utens\u00edlios gregos, que as origens das Amazonas eram as mais variadas poss\u00edveis, contemplando mulheres da \u00c1frica, \u00c1sia e Europa e contrariando a perspectiva de Boccaccio que exclu\u00ed determinados grupos de mulheres do eixo das mulheres bravas e corajosas em sua obra. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Obviamente, com mais de 80 anos de exist\u00eancia, seria poss\u00edvel escrever um verdadeiro tratado sobre essa hero\u00edna t\u00e3o ic\u00f4nica, e de fato, h\u00e1 v\u00e1rias teses e disserta\u00e7\u00f5es em \u00e1reas diversas que tamb\u00e9m exploram as rela\u00e7\u00f5es entre feminismo e representatividade nas hist\u00f3rias em quadrinhos da Mulher-Maravilha.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Outros aspectos podem ser observados a partir de outros vieses acad\u00eamicos em praticamente todas as \u00e1reas do conhecimento. E voc\u00ea? J\u00e1 pensou tinha parado para pensar nas aproxima\u00e7\u00f5es entre a Mulher-Maravilha e outras teorias acad\u00eamicas?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"eplus-wrapper wp-block-heading\">Sobre a entrevista com Iuri Reblin<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Apesar de milhares de estudos e publica\u00e7\u00f5es refor\u00e7arem que a figura da Mulher-Maravilha como um \u00edcone feminista, \u00e9 preciso ter claro em mente que isso n\u00e3o significa que ela seja uma, ao menos at\u00e9 que um roteirista fa\u00e7a tal afirma\u00e7\u00e3o, como foi o caso de sua bissexualidade atestada por Greg Rucka. De qualquer forma, essa escolha feita por feministas e endossada por mulheres no mundo todo, n\u00e3o deixa d\u00favidas que a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior que qualquer teoria que tente desmerecer seu t\u00edtulo, portanto, \u00e9 bem poss\u00edvel que seu posicionamento como uma personagem assumidamente feminista nos quadrinhos mainstream venha em breve, selando de uma vez por todas essa discuss\u00e3o e norteando suas futuras hist\u00f3rias. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Sobre o significado dessa escolha, Iuri Reblin me enviou um lindo tratado que tento resumir aqui:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>1\u00ba<\/strong>&nbsp;Escolher a Mulher Maravilha como um \u00edcone significa assumir <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">um s\u00edmbolo de poder num exerc\u00edcio de empoderamento<\/mark>. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A Mulher-Maravilha \u00e9 um s\u00edmbolo de poder, de poder da mulher. Mesmo que haja uma ambiguidade e, inclusive, uma contrariedade nos enfoques em quase 80 anos de hist\u00f3rias (isto \u00e9, nem sempre as hist\u00f3rias da Mulher-Maravilha foram pr\u00f3-liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, reproduzindo, n\u00e3o raras vezes, clich\u00eas patriarcais, sobretudo, pelo fato de essas hist\u00f3rias serem escritas por homens imersos em uma sociedade patriarcal) h\u00e1 certas conven\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias em torno do mitema de suas hist\u00f3rias que perduram ao longo dos anos, de modo que, dentro dessa ambiguidade, seja poss\u00edvel identificar e reconhecer a Mulher-Maravilha como s\u00edmbolo de poder da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>2\u00ba&nbsp;<\/strong>Escolher a Mulher-Maravilha <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">como um \u00edcone significa construir uma representatividade p\u00fablica e cultural.<\/mark> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Isso significa que, em termos quantitativos, as mulheres sempre foram coadjuvantes nas hist\u00f3rias ou dependentes de narrativas masculinas. Nessa dire\u00e7\u00e3o, essa representatividade significa uma reivindica\u00e7\u00e3o de protagonismo, assumir as r\u00e9deas da hist\u00f3ria e ser sua protagonista, considerando igualmente o impacto que uma personagem como a Mulher-Maravilha possui na vida social cotidiana e no imagin\u00e1rio comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>3\u00ba<\/strong>&nbsp;Escolher a Mulher-Maravilha como um \u00edcone <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">significa assumir um&nbsp;norteador na constru\u00e7\u00e3o de identidade de adolescentes<\/mark>&nbsp;(meninas e tamb\u00e9m meninos) e mulheres, como uma alternativa a Barbie e as Princesas da Disney. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que o papel da Mulher-Maravilha como \u00edcone n\u00edtido da luta de mulheres se torna mais claro publicamente, e os novos enredos de suas hist\u00f3rias assumem esse papel, h\u00e1 uma diversifica\u00e7\u00e3o entre os modelos identit\u00e1rios existentes e at\u00e9 mesmo uma tens\u00e3o entre eles. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>4\u00ba<\/strong>&nbsp;Escolher a Mulher-Maravilha como um \u00edcone <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">significa assumir valores espec\u00edficos como Verdade, Justi\u00e7a e Igualdade<\/mark>, que est\u00e3o articulados e intrinsecamente vinculados aos anseios de uma transforma\u00e7\u00e3o social, cultural e pol\u00edtica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">A premissa do mito da Mulher-Maravilha remete a uma hero\u00edna estranha ao mundo (ela vem de fora) que enxerga a viol\u00eancia machista e se prop\u00f5e a desconstrui-la, lutando por uma nova ordem social. Esse movimento est\u00e1 intimamente relacionado \u00e0 luta por direitos de igualdade. Sua principal arma \u00e9 a&nbsp;Verdade, representada por um la\u00e7o. Isto \u00e9, a verdade \u00e9 uma ferramenta indel\u00e9vel de sua luta pela igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>5\u00ba&nbsp;<\/strong>Escolher a Mulher-Maravilha como um \u00edcone <mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color\">n\u00e3o significa (ou n\u00e3o deve significar) ignorar que o movimento feminista \u00e9 plural e que vai se permanecer cr\u00edtico<\/mark> tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Mulher Maravilha. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Na perspectiva de Heleieth Saffioti, em seu texto \u201cOntog\u00eanese e filog\u00eanese do g\u00eanero: ordem patriarcal de g\u00eanero e a viol\u00eancia\u201d, a complexidade do feminismo abrange a desconstru\u00e7\u00e3o de estruturas racistas, classistas, de opress\u00e3o, de explora\u00e7\u00e3o que v\u00e3o identificar tamb\u00e9m as limita\u00e7\u00f5es da Mulher-Maravilha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Sem a diversidade e a pluralidade, h\u00e1 o silenciamento de experi\u00eancias e identidades. Nessa dire\u00e7\u00e3o, penso que a luta vai ser para que a Mulher-Maravilha n\u00e3o seja um \u00edcone domesticado dentro da l\u00f3gica hegem\u00f4nica constitu\u00edda. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>O que quero dizer \u00e9: <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Nem todas as mulheres se sentem (e n\u00e3o precisam se sentir) representadas pela Mulher-Maravilha. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>O movimento feminista \u00e9 plural e contestador e sua luta pol\u00edtica vai al\u00e9m da tens\u00e3o entre igualdade entre homens e mulheres, ou, melhor dizendo, a luta pela igualdade entre homens e mulheres vai al\u00e9m do bin\u00f4mio, envolvendo outras esferas e outros conflitos sociais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/germinablog.wordpress.com\/2020\/07\/20\/christine-de-pizan-e-mulher-maravilha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/germinablog.wordpress.com\/2020\/07\/20\/christine-de-pizan-e-mulher-maravilha\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><br>BOFF, Ediliane de Oliveira. De Maria a Madalena: representa\u00e7\u00f5es femininas nas hist\u00f3rias em quadrinhos. 2014. Tese (Doutorado em Interfaces Sociais da Comunica\u00e7\u00e3o) &#8211; Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2014<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">DEPLAGNE, Luciana Eleonora de F. C. A reescrita do mito das amazonas na obra A Cidade das Damas de Christine de Pizan. Anu. Lit., Florian\u00f3polis, v.18, n. esp. 1, p. 115-136, 2013.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>__<\/strong>. A Cidade das Damas: A constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria feminina no imagin\u00e1rio ut\u00f3pico de Christine de Pizan. Tese de Doutorado &#8211; Estudo e Tradu\u00e7\u00e3o, Universidade Federal de Pernambuco, 2006.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">LEPORE, Jill. A Hist\u00f3ria Secreta da Mulher-Maravilha. Bestseller, S\u00e3o Paulo, 2017.<br>PEREZ, George. Mulher-Maravilha:Lendas do Universo DC, vol. 1. Panini, S\u00e2o Paulo, 2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algum tempo eu falo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o da Mulher-Maravilha com o movimento sufragista e, posteriormente, da sua identifica\u00e7\u00e3o com o feminismo. 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