Hedwig Conrad-Martius
Hedwig Conrad-Martius
(1888 – 1966)
Clio Tricarico,
Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo
Vida

Hedwig Margarete Elisabeth Martius nasceu em Berlim, em 27 de fevereiro de 1888, filha de Friedrich Martius – médico, professor na Universidade de Rostock e diretor da Clínica Universitária da mesma cidade – e Marta Martius (nasc. Leonhard). Frequenta, inicialmente, a Escola Superior Feminina de Rostock (1894). Como não havia Gymnasium (algo equivalente ao ensino médio) para meninas na Alemanha do Norte no período, Conrad-Martius muda-se para Berlim aos 15 anos para frequentar a Escola Superior Feminina dirigida por Helene Lange (1903-1907). De 1907 a 1909, cursa História e Literatura na Universidade de Rostock; estuda, então, Filosofia pela primeira vez com Franz Bruno Erhardt, que lhe apresenta a obra de Spinoza.
Após frequentar um semestre na Universidade de Friburgo, sem nenhum conhecimento prévio de fenomenologia, ingressa na Universidade Ludwig Maximilian de Munique, onde cursa Filosofia, Psicologia e História da Arte (1909-1910). Lá, passa a fazer parte da Akademischer Verein für Psychologie [Associação Acadêmica de Psicologia], fundada por Theodor Lipps. A associação, que consistirá no Círculo de Munique, contava com a participação de Alexander Pfänder, Johannes Daubert e Moritz Geiger, dentre outros alunos que se reuniam semanalmente desde 1895 (Spiegelberg, 1994, p. 169). Vale destacar que, além de Conrad-Martius, havia mais quatro mulheres no círculo no verão de 1910: Margarete Calinich, Frau Dieltrich, Frau Dr. Ortner e Katharine Tischendorf (Hart, 2020, p. 2).
Impressionado com a sagacidade filosófica de Conrad-Martius, Geiger a orienta a fazer seu doutorado em Gotinga com Edmund Husserl. Segundo Hart, em sua carta de recomendação a Husserl, Geiger escreve “‘Conrad-Martius é a mulher com o pensamento filosófico mais brilhante que já conheci’ e, em uma carta simultânea a Adolf Reinach, Geiger a chama de ‘filósofa mais talentosa de Munique’” (Hart, 2020, p. 2). Conrad-Martius segue, então, para Gotinga, e é a primeira das três mulheres a serem admitidas por Husserl – depois dela, vieram Edith Stein e Gerda Walther.

Em Gotinga, Conrad-Martius conhece outro grupo promissor de estudiosos que, empolgados com as análises husserlianas das Investigações lógicas (1900-1901), reuniam-se em torno de Edmund Husserl e Adolf Reinach (principal colaborador de Husserl e fenomenólogo emblemático da fenomenologia “realista”). Esse grupo viria a ser conhecido como Círculo de Gotinga (e, posteriormente, Círculo de Munique-Gotinga); dentre os diversos membros, podemos destacar: Alexander Koyré, Edith Stein – futura amiga de Conrad-Martius (Stein ingressa no grupo um ano após a sua saída) –, Jean Hering, Max Scheler, Roman Ingarden e Theodor Conrad, seu futuro marido. Conrad-Martius destacou-se rapidamente dentro do círculo, presidindo inclusive, de 1911 a 1912, a Sociedade Filosófica de Gotinga, fundada por Theodor Conrad em 1907.
Os fenomenólogos do Círculo de Munique-Gotinga consistem fundamentalmente nos interlocutores filosóficos diretos de Conrad-Martius. Alguns filósofos clássicos exercerão forte influência em suas elaborações, em particular Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino e Immanuel Kant. Outros pensadores também serão relevantes em diferentes campos: Friedrich Schelling, Jakob Böhme e Franz Xaver von Baader, com relação à Filosofia da Natureza na perspectiva do romantismo, e Johann Wolfgang von Goethe, com sua teoria da morfologia, que a pensadora relacionará com a fenomenologia entendida como o estudo da essência (Hart, 2020, p. 4). Vale destacar também a crítica que a fenomenóloga fará à ontologia existencial de Martin Heidegger.

Em 1912, por ocasião do festival que celebrava a sua fundação, a Universidade de Gotinga concedeu um prêmio ao melhor trabalho filosófico do concurso de ensaios anônimos proposto por Husserl. Conrad-Martius, com então 24 anos, ganha o prêmio por seu ensaio Die erkenntnistheoretischen Grundlagen des Positivismus [Os fundamentos epistemológicos do positivismo]. O fato de uma mulher ter conquistado um prêmio altamente prestigioso foi tão extraordinário que alguns jornais escreveram sobre isso na época. Não obstante o trabalho premiado, o bacharelado não foi suficiente para que Conrad-Martius conseguisse o doutorado na Universidade de Gotinga, pois o curso não incluía nenhum estudo formal de grego, requisito para obtenção do título nessa universidade. Contudo, Pfänder aceitaria o ensaio premiado que, após algumas reelaborações, fez com que Conrad-Martius obtivesse, em quatro semanas, o título de doutorado summa cum laude pela Universidade de Munique, em 20 de julho de 1912. Um mês depois, Conrad-Martius se casa com Theodor Conrad.
Uma carreira acadêmica em Filosofia ainda era inacessível para mulheres nesse período. Então, em vista de sua notável capacidade, Conrad procura assegurar um meio de subsistência e, ao mesmo tempo, condições para o trabalho filosófico de Conrad-Martius, de modo que, nesse mesmo ano, eles se mudam para uma casa em Bergzabern (próxima à fronteira entre a Alemanha e a França) e, a partir de 1919, investem num pomar nessa propriedade. Isso possibilitou a Conrad-Martius desenvolver as bases para a sua fenomenologia, em particular no campo das Ciências Naturais. A casa dos Conrad permaneceu um ponto de encontro dos fenomenólogos remanescentes de Gotinga após a dissolução do Círculo, “a ponto de quase se falar em um ‘Círculo de Bergzabern’” (Spiegelberg, 1994, p. 213). Esses encontros durariam aproximadamente de 1921 a 1928; neles discutia-se fenomenologia, bem como temas filosóficos, políticos e religiosos. Foi nesse período que cresceram a amizade e a colaboração intelectual entre Conrad-Martius e Edith Stein, relacionamento que perdurará até a morte de Edith Stein.
De 1921 a 1934, Conrad-Martius dedica-se à elaboração de sua ontologia. Destacam-se nesse período as publicações de Metaphysische Gespräche [Diálogos metafísicos] e Realontologie [Ontologia real] no sexto volume do Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung [Anuário de filosofia e pesquisa fenomenológica] dirigido por Husserl, bem como a escrita de Die “Seele” der Pflanze [A “alma” da planta] – nesse meio-tempo, Conrad-Martius faz outra tentativa frustrada de obter a habilitação na Universidade de Tübingen em 1931. Com a ascensão do nacional-socialismo, entretanto, suas oportunidades de publicação foram severamente restringidas a partir de 1935 em razão de sua origem judaica (um dos avós). Aliada ao fracasso de seu projeto com o pomar – a crise gerada pela Primeira Guerra Mundial destruiu a produtividade do sítio e, nos anos seguintes, a luta pelo próprio sustento foi a principal ocupação dos Conrad –, a restrição de publicação de seus trabalhos fez com que as dificuldades financeiras aumentassem consideravelmente. Assim, o casal vende a casa em Bergzabern e, sem alternativa, retorna a Munique em 1937, onde a fenomenóloga recorre temporariamente a bolsas de pesquisa junto à universidade estatal, retomando seu trabalho filosófico em tempo integral.
Entre 1939 e 1941, Conrad-Martius trabalha em um longo manuscrito intitulado Metaphysik des Irdischen [Metafísica do terrestre], nunca publicado – na verdade, Conrad-Martius não conseguiu concluir o que seria sua obra-prima em razão de problemas persistentes de saúde e dificuldades financeiras (Hart, 2020, p. 4). Em 1944, consegue publicar uma de suas obras mais importantes, Der Selbstaufbau der Natur: Entelechien und Energien [A autoconstrução da natureza: enteléquias e energias] por meio de um decreto.

Conrad-Martius se tornará, finalmente, docente de Filosofia da Natureza aos 61 anos, em 1949, na Universidade de Munique, na qual lecionará por um semestre, sem remuneração. Na verdade, era tarde demais para seguir uma carreira universitária, pois já havia ultrapassado o limite de idade para obter a habilitação – a filósofa conseguirá retornar à docência e à pesquisa nessa mesma universidade em 1952 (com apoio financeiro de fora da universidade) e, a partir de 1955, passa a ser professora honorária. Em 1958, Conrad-Martius recebe a Cruz Federal de Mérito, a mais alta condecoração civil da República Federal da Alemanha. Nesse mesmo ano, a Fundação Alemã de Pesquisa concede-lhe um assistente de pesquisa, função para a qual ela designa Eberhard Avé-Lallemant.
De 1949 a 1960 Conrad-Martius faz palestras no rádio, escreve vários artigos e publica diversas obras (ver referências bibliográficas). Entre 1963 e 1965, Eberhard Avé-Lallemant publica a reunião de diversos escritos filosóficos de Conrad-Martius em três volumes intitulados Schriften zur Philosophie [Escritos sobre Filosofia]. Hedwig Conrad-Martius morre em 15 de fevereiro de 1966, pouco antes de completar 78 anos, em Starnberg, onde passou os últimos anos de sua vida ao lado do marido e da filha adotiva, a enfermeira Elisabeth Nelke-Conrad (Gerl-Falkovitz, 2022, p. 31). Seu túmulo fica no Cemitério de Munique.
Obra
Hedwig Conrad-Martius foi considerada, em seu tempo, a “primeira-dama” da filosofia alemã. Hoje ela é reconhecida como uma das pioneiras da Fenomenologia que, junto a Scheler, Hering, Ingarden, Heidegger e outros, retomou questões metafísicas abandonadas havia algum tempo. Dentre os pesquisadores do Círculo de Munique-Gotinga, Conrad-Martius talvez possa ser considerada como aquela que mais se manteve comprometida com os critérios fenomenológicos e os objetivos do Círculo de Munique: o desenvolvimento de uma fenomenologia do objeto, vertente da fenomenologia posteriormente conhecida como “realista”. Realismo talvez não seja o termo mais adequado para designar o tipo de fenomenologia que buscava superar o psicologismo por meio da análise das essências (pela intuição eidética), direcionando a investigação para o a priori do objeto – de caráter, portanto, ontológico. Desse modo, admitindo a redução eidética husserliana, mas recusando a redução transcendental – a chamada “virada idealista” de Edmund Husserl –, assim como os demais fenomenólogos de Munique, Conrad-Martius direcionou sua pesquisa para o campo da ontologia, concentrando suas investigações fenomenológicas no exame da realidade e da Natureza.
O caráter peculiar de sua fenomenologia se revela, desde seus primeiros trabalhos, nas exaustivas e inusitadas descrições realizadas na investigação da realidade. As análises nesse campo estabelecerão os alicerces de sua fenomenologia: seguindo os passos de Reinach, para Conrad-Martius, as essencialidades possuem subsistência e legalidade próprias, totalmente independentes da consciência.
O interesse de Conrad-Martius pela Natureza a conduziu a uma rigorosa pesquisa no campo das Ciências Naturais, particularmente nas áreas da Física e da Biologia. A filósofa estudou a evolução dessas ciências desde a antiguidade clássica, bem como acompanhou de perto os desenvolvimentos de seu tempo nessas áreas, como os da física quântica, da teoria da relatividade e do evolucionismo. O tratamento fenomenológico dado à relação entre essas ciências e a metafísica tinha um objetivo bem preciso: a elucidação de uma cosmologia filosófica, que, (i) com relação à Física, revelasse o caráter orgânico da Natureza em detrimento da visão mecanicista sustentada pela física moderna e da ideia positivista segundo a qual as ciências físico-matemáticas concentrariam a única interpretação da realidade; e (ii) no que diz respeito à Biologia, encontrasse a posição do ser humano na Natureza, partindo da investigação de suas formações inorgânicas e seus reinos (vegetal, animal e humano) e identificando suas diferenciações essenciais (Alfieri, 2008b). Para desenvolver esse projeto voltado à fundamentação de uma ontologia da Natureza, Conrad-Martius concebe a sua fenomenologia ontológica, a qual contribuiu significativamente para a fenomenologia dita “realista”, bem como possibilitou alternativas diversas de investigação para a fundamentação das próprias Ciências Naturais.
1. Fenomenologia ontológica
Assim como aos demais fenomenólogos “realistas” – de agora em diante denominados ontologistas –, à Conrad-Martius parecia contraditória a perspectiva da redução transcendental de Husserl. Como diz a pensadora no artigo Die transzendentale und die ontologische Phänomenologie [A fenomenologia transcendental e a fenomenologia ontológica, 1959], a análise direcionada às estruturas essenciais dos atos intencionais parecia afastar-se progressivamente daquilo que era mais caro aos ontologistas: a objetividade radical (Conrad-Martius, 1965, p. 396). De modo geral, os ontologistas adotaram a maior parte das noções husserlianas apresentadas nas Investigações lógicas. Pode-se considerar como base comum a todos eles: a crítica ao psicologismo, o objetivo de “retorno às coisas mesmas”, a redução eidética, e até a assunção do “princípio de todos os princípios” explicitado por Husserl em Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura (Ideias I, 1913 / Husserl, 2006, §24). A derradeira divergência entre Husserl e os ontologistas foi a recusa por parte destes da redução transcendental, a qual parece não ter sido bem compreendida inicialmente pela maioria deles, que via nela um tipo de retorno ao idealismo kantiano. Vale ressaltar que esse não foi o caso de Conrad-Martius: sua rejeição à redução transcendental, como veremos, não foi por má compreensão. A partir desse posicionamento, cada um dos ontologistas deu prosseguimento à sua pesquisa de acordo com seus respectivos interesses. No que diz respeito a Conrad-Martius, é importante considerar o quanto as temáticas discutidas entre os ontologistas refletiu em suas análises. Dos diversos autores que contribuíram para o desenvolvimento de seus trabalhos, dois ontologistas foram imprescindíveis, no sentido de terem fornecido à fenomenóloga noções e fundamentos diretamente relacionados às suas principais investigações: Adolf Reinach e Jean Hering.
De Reinach, uma das ideias que norteou o percurso de Conrad-Martius foi a de independência das essencialidades em relação às estruturas da subjetividade (Reinach, 1914/2020). A fenomenóloga se serviu disso para fundamentar, em certa medida, a sua concepção de cosmos de sentido. A inserção da temporalidade na ordem da essência foi uma importante contribuição de Hering, o que permitiu a Conrad-Martius o desenvolvimento de uma abordagem fenomenológica ontologicamente fundada: na esteira de Reinach e sua ideia da independência das essencialidades em relação à consciência, as descrições fenomenológicas de Hering, com a distinção minuciosa entre essência, essencialidade e ideia, articulam fenomenologia e metafísica no interior da essência individual (Hering, 1921). As análises de Hering auxiliaram significativamente Conrad-Martius no desenvolvimento das distinções entre as existências ideal e real.
Mantendo-se sempre no registro da pesquisa de essência, a investigação de Conrad-Martius do ser real buscava saber o que é a realidade, e não o que se constitui como real para a consciência. O problema que se colocava, então, era saber como seria possível, seguindo os passos da fenomenologia de Husserl, ou seja, efetuando a redução transcendental, examinar a essência do ser real – à qual é necessária a possibilidade de se realizar efetivamente por si mesmo – se era exatamente o caráter real-efetivo que era suspenso pela redução. Em seu artigo [Fenomenologia e especulação, 1957], Conrad-Martius explica que “quando a efetividade do mundo está entre parênteses, […] o fenômeno total ‘mundo’ é deturpado em seu cerne, pois a realidade do ser pertence inseparavelmente à essência do mundo” (Conrad-Martius, 1957a/1965, p. 370). Para Conrad-Martius à efetividade caberia um duplo aspecto: de um lado, ela seria constituída como uma subsistência noemática ao modo husserliano, mas, de outro lado, ela consistiria no que a fenomenóloga denomina efetividade efetiva (wirkliche Wirklichkeit), transcendente à subsistência noemática na esfera da consciência. A efetividade efetiva mostra o caráter essencial da realidade: trata-se de um ser fundado em si mesmo, independente de uma consciência que o apreenda, e é justamente essa independência que o distingue dos demais seres, como os dos objetos ideais, que, com efeito, necessitam ser pensados para alcançar a existência. Segundo a fenomenóloga, “Nisso reside a efetividade efetiva do mundo, exista ele factualmente ou não” (Conrad-Martius, 1959/1965, p. 397).
Desse modo, a epoché realizada por Conrad-Martius difere da de Husserl, em primeiro lugar, em um aspecto: em vez de colocar o ser efetivo do mundo entre parênteses, o ser do mundo todo é suspenso com todas as suas subsistências, inclusive a sua efetividade. Ao colocar o ser do mundo como hipotético, torna-se possível a investigação não apenas das relações essenciais no âmbito da consciência pura, mas também da essência do real transcendente à consciência: somente assim, é possível examinar essencialmente a constituição ôntica do mundo.
O que permite a Conrad-Martius fazer esse tipo de descrição fenomenológica remete ao segundo aspecto pelo qual a epoché realizada por Conrad-Martius difere da de Husserl: a consideração dos fenômenos relativos aos experimentos realizados por novos domínios do campo científico. Na época, Conrad-Martius teve acesso aos desenvolvimentos e às descobertas da nova Física, o que consistia em um novo campo de investigação na esfera ôntica. A inclusão de “resultados das ciências” na pesquisa de essência não deve ser entendida, no entanto, como a consideração de pressupostos teóricos na investigação fenomenológica. Como explica a pensadora, com base nos mesmos experimentos científicos, o fenomenólogo deve investigar precisamente o domínio que não cabe ao cientista investigar: a esfera das essências e seus princípios ônticos (Conrad-Martius, 1951, p. 126). Enquanto o cientista busca compreender os nexos causais, o fenomenólogo procura apreender as relações essenciais; no caso da fenomenologia ontológica de Conrad-Martius, as relações essenciais voltadas à fundamentação da origem ôntica da realidade.
Aqui surge outra diferença entre as fenomenologias ontológica e transcendental. A origem à qual sempre retorna a fenomenologia husserliana remete à anterioridade do mundo da subjetividade descoberta pela redução. Conrad-Martius questiona, nesse ponto, se não seria possível toda validade de sentido e de ser do mundo ser alcançada não apenas por uma subjetividade egológica como também por uma objetividade ontológica, uma vez que ambas as perspectivas são rigorosas, sustentadas por evidências (Conrad-Martius, 1959/1965, p. 400). Para a fenomenóloga, as duas perspectivas não se contrapõem, pois “o mesmo lógos que, concebido em sentido o mais universal imaginável, determina o mundo de acordo com a essência e o ser, permanece oculto na mesma universalidade também na razão humana” (Conrad-Martius, 1959/1965, pp. 400-401).
Segundo Conrad-Martius, o mundo é pleno de sentido em si mesmo. A totalidade de todos os entes formam um cosmos de sentido (Sinnkosmos), no qual tudo tem seu lugar determinado e imutável conforme o seu sentido, pois tudo é significativamente ligado a todo o resto. Esse cosmos de sentido é totalmente distinto do mundo real, mas o mundo efetivo, quando tomado em sua essência, é inscrito no cosmos conforme o seu sentido (Conrad-Martius, 1957a/1965, p. 377): “A pesquisa da essência visa a essência, mas esta é um dado exclusivamente ideal pertencente ao cosmos de sentido” (Conrad-Martius, 1957a/1965, p. 384). Alcançar a essência de algo, assim como em Husserl, requer um exercício fenomenológico rigoroso e exaustivo, no qual a visão espiritual deve estar obstinadamente direcionada a esse lugar de sentido. Diferentemente de Husserl, no entanto, o reconhecimento da essência, segundo Conrad-Martius, vem do lugar determinado na totalidade das relações essenciais inscritas no cosmos de sentido (Conrad-Martius, 1957a/1965, p. 378).
Na fenomenologia ontológica de Conrad-Martius, distinguem-se, em suma, alguns pontos em relação à fenomenologia de Husserl: (i) o a priori está na ordem da existência, entendendo-se com isso a existência do real – existência por excelência – não em sua factualidade, mas em essência, à qual é inerente a possibilidade de o ser se realizar na efetividade (no tempo); (ii) a essência é exclusivamente um dado ideal, pertencente ao cosmos de sentido – o lógos objetivo que atravessa todos os entes, cuja subsistência é independente da apreensão de qualquer consciência, assim como a estrutura ôntica do mundo; e (iii) à efetividade cabe um duplo aspecto: de um lado, ela pode ser constituída como uma subsistência noemática e, de outro, a efetividade consiste na efetividade efetiva.
Com relação a Martin Heidegger, a crítica de Conrad-Martius é predominantemente dirigida à concepção de ser-aí (Dasein) em Ser e tempo (1927). Ela reconhece a importância incontestável do pensamento de Heidegger, em particular, por ter-se desviado da esfera da consciência pura e resgatado o mundo real, superando, assim, o idealismo transcendental de Husserl por meio da sua concepção de existência, encontrada no ser-aí. O problema para a fenomenóloga é Heidegger ter limitado a realidade ao modo de ser do ser-aí. No entender da filósofa, se apenas o ser-aí é existência efetiva, tudo o mais que é simples presença ou simplesmente dado (nur Vorhandenheit) é algo objetivamente objetivo, mas sem existência efetiva e sem independência. A crítica de Conrad-Martius à concepção do ser-aí, portanto, problematiza a existência (Existenz) autônoma de todas as outras coisas do mundo.
2. Ontologia real
A investigação de Conrad-Martius do ser real tem início em sua obra Realontologie [Ontologia real, 1923] – da qual apenas duas das cinco partes foram publicadas (Miron, 2025) – e se desenvolverá praticamente por toda a sua vida até seus últimos escritos. Já na primeira frase da obra, coloca-se a questão fundamental: “O que é a realidade?” O ponto de partida para a investigação será a distinção entre determinação essencial e determinação existencial. É preciso observar, em primeiro lugar, que com o termo “existência” deve ser entendido um “existir genérico” no qual cabem todos os tipos de existência. Nesse sentido, existem as árvores, o gênero ser humano, a ideia do bem, as fantasias, a História, os estados de coisas, a Ciência, os juízos etc. Esse “existir” genérico, na verdade, serve apenas como parâmetro para a identificação da particularidade fundamental da existência efetiva, ou seja, a realidade. Em Conrad-Martius realidade ou existência efetiva não deve ser confundida com factualidade: mesmo quando o ser real a ser examinado é relativo à dimensão espaço-temporal, a investigação não é voltada propriamente para o ser factual, e sim para o ser que tem a possibilidade de ser realizado factualmente; nas palavras da fenomenóloga: “algo não é real porque existe de modo espacial ou temporal, mas existe espaço-temporalmente ou apenas temporalmente, porque pertence essencialmente a um determinado modo de realidade” (Conrad-Martius, 1924, §7).
Em suas análises do ser real, Conrad-Martius identifica um núcleo essencial do existente, que é autônomo em relação à consciência em termos de existência objetiva. Não se encontra essa autonomia no ser dos objetos ideais; neles, a distinção entre as determinações essenciais e existenciais permanece no âmbito formal: seu ser é dado com seu ser-assim (Sosein) e nele se funda, tornando impossível “distinguir” precisamente seu ser essencial de seu ser existencial. Começa a se mostrar, assim, o ponto crucial que leva à identificação da essência da realidade: o que existe como real só pode ser fundado na existência e não na essência. Em outras palavras, em ambas as existências, ideal e real, é encontrado o momento do quid (Was); mas, no primeiro caso, ele se restringe a uma configuração formal e, no segundo, remete à possibilidade da realização de uma configuração material. Para a fenomenóloga, a realidade altera a essência do ser como um todo de modo intrínseco: o ente real tem o fundamento do seu ser em si mesmo. Na verdade, a entidade real é fundamento e portador de sua própria quididade, mas antes de tudo é fundamento e portador de seu próprio ser. Naturalmente, não se trata aqui de um fundamento metafísico no sentido de que o ente real poderia alcançar efetivamente o seu ser por si mesmo: trata-se de um si ôntico (Sëität) ou de um ser-si próprio (Selber-Sein).
Em linhas gerais, a entidade real é concebida por Conrad-Martius como a mais autêntica realizadora no sentido de ser uma quididade “carregada” por um portador (hypokeímenon, ligado à tridimensionalidade e à corporificação). Importante observar que nessa unidade constituída pela quididade e pelo portador não há uma prioridade de nenhum dos dois momentos em termos de determinação: atividade e passividade são intercambiáveis (entre quididade e portador) no sentido de que é possível admitir uma atividade no hypokeímenon (a dýnamis no sentido aristotélico, ou seja, a potência necessária para que aquele ser se realize) e uma passividade do lado da quididade no sentido de que precisa ser “carregada” por um portador para se realizar. A totalidade formada pela quididade “carregada” pelo portador consiste no núcleo, a dimensão central do ser, a partir da qual se constituem seus demais estratos: as diversas combinações de graus de materialidade encontradas nas relações entre os aspectos material e formal do ôntico. A realidade será identificada, portanto, com o momento fundamental da constituição desse si ôntico, o encontro irrecusável de duas esferas de substancialidade opostas: a esfera da substância hilética e aquela da substância pneumática, que consistem, grosso modo, no encontro entre as dimensões da matéria e do espírito, encontro regido pela ordem das relações entre potência e ato.
3. Natureza e ser humano
Em Metaphysische Gespräche [Diálogos metafísicos, 1921], Conrad-Martius se refere aos dois elementos constitutivos de todo e qualquer ser com as expressões “de baixo” (matéria/potência, correspondente à substância hilética) e “do alto” (espírito/ato, correspondente à substância pneumática) – o uso dessas expressões já nessa obra inicial indica que, embora as substâncias sejam distintas, não há propriamente uma separação entre elas na unidade que formam, mas uma continuidade, contrapondo-se ao esquema de polaridade. A totalidade dos seres seria, assim, hierarquizada segundo um tipo de escala que “conjuga” essas duas substâncias em diversos graus, desde a matéria informe (potencialidade pura) até a forma mais pura de espírito (atualidade pura).
Em Der Selbstaufbau der Natur: Entelechien und Energien [A autoconstrução da Natureza: enteléquias e energias, 1944], um de seus trabalhos mais complexos, ao examinar como se “integram” as substâncias hilética e pneumática, Conrad-Martius identifica um elemento fundamental: a enteléquia. A noção de enteléquia de Conrad-Martius, derivada da concepção aristotélica, é concebida, porém, sob dois aspectos. De um lado, há o que a pensadora denomina enteléquia essencial (Wesensentelechie) – lógos completo de tudo o que existe na Natureza –, que faz o ser vivo ser o que ele é; a enteléquia essencial manifesta o eîdos por meio da causa eficiente (caráter metafísico). De outro lado, há a enteléquia formadora (Bildungsentelechie), que consiste no instrumento de realização da enteléquia essencial, enformando e fazendo com que o ser vivo atinja seu grau máximo de desenvolvimento; ela é a potência formadora que age na formação “interna” estruturante do ser (caráter transfísico). O caráter transfísico da enteléquia formadora remete a uma série de “mediações” de atualização dentro de cada camada constitutiva do ser, que compreendem “subdivisões” compostas por pares de subpotências polarizadas na modalidade de potência e ato. Essas subpotências são inerentes a regiões pré-físicas ou pré-atuais e operam na dinâmica que relaciona as substâncias hilética (material) e pneumática (espiritual) em suas diversas camadas no processo constitutivo dos seres em todos os reinos. Na visão do quadro geral, a dimensão física consiste na potencialidade que é atualizada pela anímica que, por sua vez, é atualizada pela espiritual, constituindo, assim, um tipo de hierarquia que inter-relaciona as dimensões entre si por meio da dinâmica entre potência e ato, admitindo sempre nessas dimensões inúmeras camadas de mediação constituídas pelas subpotências transfísicas.
As enteléquias essenciais em si mesmas são gerais; elas se individuam na Natureza por meio do vínculo com o material essencial (Wesensstoff), a matéria prima. A síntese entre a enteléquia essencial e o material essencial é denominada si originário (Ursprungsselbst), que é alcançado por meio da ação da enteléquia formadora (dimensão transfísica). Em Realontologie [Ontologia real, 1923], essa dimensão é apresentada como a região da alma; trata-se de uma profunda dimensão de pré-atualidade, constituinte do poder de todo ser real de se sustentar em si mesmo. Alma, nesse sentido, consiste na exteriorização do interior de um si (Conrad-Martius, 1961, pp. 55-88; Ales Bello, 2025, pp. 226-230; Hart, 2020, p. 109 ss.).
No reino natural, deparamo-nos com diversos tipos de seres, os quais, em linhas gerais, podem ser divididos em dois grandes grupos: seres inanimados e seres vivos. Nos seres inanimados (reino mineral), a materialidade é enformada por um espírito objetivo; nos seres vivos (reinos vegetal e animal), a relação entre matéria e espírito é “intermediada” pela alma, que constitui o si originário. Nas plantas, o si se restringe à forma vivente, relacionada à configuração vegetativa/orgânica, responsável pelo seu desenvolvimento corporal de dentro para fora. Nos animais, o si consiste em um tipo de interiorização que, além da formação vegetativa/orgânica, permite o controle do próprio corpo, bem como possibilita a reatividade e a emotividade instintiva. Especificamente nos seres humanos, o si é qualificado também pela dimensão espiritual, tornando a alma subjetivamente pessoal: o eu. A principal distinção entre o “si animal” e o “si humano” (eu) está basicamente relacionada, portanto, à diferença qualitativa entre alma natural e alma espiritual. Considerado da perspectiva da relação entre potência e ato, na “passagem” do si para o eu, o si consiste na materialidade animal que deve ser atualizada de modo a alcançar a forma da pessoa humana, levando em conta, nessa passagem, todas as camadas de atualização dos pares de subpotências transfísicas. Com isso, no caso do ser humano, o si (anímico) qualifica a pessoalidade do espírito, que, por sua vez, personifica a qualidade do si. Nisso consiste a singularidade da alma espiritual humana (Conrad-Martius, 1960, p. 65).
A ideia de uma dimensão transfísica, cuja dinâmica atravessa o ser real – em que a realidade potencial é o fundamento ôntico da realidade real –, pode ser considerada uma das chaves mais importantes para a compreensão da ontologia da Natureza de Conrad-Martius. Suas elaborações nessa temática, desde Realontologie [Ontologia real, 1923] até Der Selbstaufbau der Natur [A autoconstrução da Natureza, 1944] estabelecem as bases para o desenvolvimento de suas obras posteriores, em particular, Naturwissenschaftlich-metaphysische Perspektiven [Perspectivas metafísico-científicas, 1948], Bios und Psyche [Bio e psique, 1949], sua trilogia Die Zeit [O tempo, 1954], Das Sein [O ser, 1957] e Der Raum [O espaço, 1958], bem como Die Geistseele des Menschen [A alma espiritual do ser humano, 1960], nas quais as investigações sobre ser, espaço e tempo, existências inextricavelmente ligadas à estrutura real da Natureza, evidenciam a importância e o imenso campo de pesquisa da fenomenologia ontológica.
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Embora não tenha assumido uma posição militante no campo do feminismo em sentido moderno e estrito, a atuação profissional e a produção filosófica de Conrad-Martius certamente contribuíram para a valorização da capacidade intelectual feminina no início do século XX, abrindo caminhos fundamentais para a participação de mulheres na filosofia contemporânea. Nos últimos anos, o pensamento de Conrad-Martius tem sido retomado e revisitado por diversos autores – ver referências bibliográficas –, mostrando o ressurgimento do interesse por sua vasta e complexa obra, o que amplia a possibilidade de estudo dessa pensadora notável e injustamente negligenciada. As análises realizadas sobre a Natureza por meio de sua fenomenologia ontológica ampliaram o horizonte de investigação, revelando regiões do ser ainda pouco exploradas. Continuar o seu trabalho com o mesmo espírito, ou seja, retomar e aprofundar suas análises de acordo com os avanços científicos da atualidade, consistirá numa contribuição inestimável tanto para a Filosofia como para as Ciências Naturais.
P.S.: este verbete foi elaborado, em boa parte, com base nos estudos desenvolvidos e resultados alcançados durante a pesquisa realizada durante o curso de doutorado da autora, motivo pelo qual algumas considerações podem ser encontradas de modo mais detalhado em sua tese e/ou em algumas de suas outras publicações (ver referências bibliográficas).
Referências bibliográficas
Principais obras
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Volumes comemorativos e coletâneas de e sobre Hedwig Conrad-Martius:
Conrad-Martius, H. (1963-1965) Schriften zur Philosophie. Band I-III [Escritos sobre filosofia. Volumes I-III]. Eberhard Avé-Lallemant (Hrsg.). München: Kösel.
Ales Bello, A. (ed.). (2008). Axiomathes, 18. (Special Issue on Hedwig Conrad-Martius) [Edição especial sobre Hedwig Conrad-Martius].
Ales Bello, A., Alfieri, F., & Shahid, M. (ed.). (2010). Edith Stein – Hedwig Conrad-Martius: fenomenologia, metafisica, scienze [Edith Stein – Hedwig Conrad-Martius: fenomenologia, metafísica, ciências]. Bari: Giuseppe Laterza.
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Links
Avé-Lallemant, E. (1975b). Die Nachlässe der Münchener Phänomenologen in der Bayerischen Staatsbibliothek [Legado dos fenomenólogos de Munique na Biblioteca Estadual da Baviera], Wiesbaden:
Bayerische Staatsbibliothek München, Bildarchiv [Biblioteca Estadual da Baviera em Munique, Arquivo de imagens]:
https://bildarchiv.bsb-muenchen.de/
History of Women Philosophers and Scientists [História das mulheres filósofas e cientistas]:
Philosophie [Filosofia]:
https://www.information-philosophie.de/hedwig-conrad-martius.html
Society for Women of Ideas [Sociedade para mulheres de ideias]:
https://www.womenofideas.com/conrad-martius
Stanford Encyclopedia of Philosophy [Enciclopédia de Filosofia de Stanford]:
https://plato.stanford.edu/entries/phenomenology-mg/
The Open Commons of Phenomenology [Os bens comuns abertos da fenomenologia]:
