Enciclopédia Mulheres na Filosofia
Enciclopédia Mulheres na Filosofia

Susan Buck-Morss

Susan Buck-Morss

(1942-) 

 

Juliana de Moraes Monteiro, 

Professora assistente no Departamento de Teoria do Teatro da Universidade  Federal do Estado do Rio de Janeiro

Lattes 

PDF – Susan Buck-Morss

Fonte: CUNY Graduate Center, NY.

 

VIDA  

Susan Felmly Buck nasceu em 8 de agosto de 1942, nos Estados Unidos. Em 1972, casou-se  com Elliott Reed Morss, do qual se divorciou cinco anos depois, tendo adotado e optado por manter  seu sobrenome, que já a identificava em sua carreira acadêmica. Buck-Morss fez sua formação  escolar ao longo de 13 anos em uma instituição tradicional de Nova Jersey chamada St. John’s School, que foi dirigida por Theresa L. Wilson, viúva do fundador. Este local de ensino caracterizava-se por ter turmas reduzidas, conduzidas majoritariamente por professoras com formação universitária, o que foi considerada como uma das marcas distintivas da escola, rebatizada como Wilson School. 

Buck-Morss graduou-se em História Intelectual Europeia pelo Vassar College e,  posteriormente, fez mestrado em História pela Universidade de Yale, onde estudou História dos  Estados Unidos. Entre 1968 e 1969, foi contemplada com uma bolsa Fulbright–DAAD, que lhe  permitiu realizar um intercâmbio de um ano em Tübingen, na Alemanha, antes de ingressar no  doutorado, desenvolvido na Universidade de Georgetown. Seu orientador foi o historiador de  origem palestina Hisham Sharabi.  

Em 1971, retornou à Alemanha para desenvolver a pesquisa de sua tese de doutorado, intitulada The Origin of Negative Dialectics: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, and the Frankfurt Institute [A origem da Dialética Negativa: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin e a Escola de Frankfurt], e posteriormente publicada em livro em 1977, ainda não traduzido para o português. No prestigiado Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, trabalhou com Rolf Tiedemann, diretor dos arquivos de Adorno e Benjamin, e mais tarde editou o volume 20 das Gesammelte Schriften [Obras Completas] de Adorno. Nesse período, também frequentou a Universidade Goethe de Frankfurt, onde assistiu aos cursos de Jürgen Habermas, a quem ela expressa admiração e agradecimento.  

Em 1978, Buck-Morss ingressou no corpo docente da Universidade Cornell, onde lecionou teoria política por mais de três décadas no Departamento de Governo, tendo se tornado professora titular em 1990. Na universidade, também atuou nos programas de pós-graduação em Literatura Comparada, Estudos Germânicos, História da Arte, Estudos Românicos e na Escola de Arte, Arquitetura e Planejamento Urbano. Além disso, exerceu, por um mandato, a direção do Programa de Estudos Visuais. Durante esse período, prosseguiu suas pesquisas e atividades de ensino no campo da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, publicando, em 1989, uma de suas obras mais influentes, The Dialectics of Seeing: Walter Benjamin and the Arcades Project [A dialética do olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens]. 

Durante os anos 80, já com sua formação consolidada, conheceu o físico Eric Dean Siggia, com quem se casou em 1984. Até onde constam em fontes públicas disponíveis a respeito da sua vida pessoal, não há qualquer informação sobre filhos, deste ou de seu relacionamento anterior. Por conta do trabalho de Siggia, convidado para pesquisar no Instituto Landau de Física Teórica, realiza, em 1987, sua primeira viagem a Moscou, o que acaba por determinar novos rumos para a sua trajetória. Um dos resultados da parceria de Buck-Morss com filósofos moscovitas é seu livro  Dreamworld and Catastrophe: The Passing of Mass Utopia in East and West [Mundo de sonho e catástrofe: o desaparecimento da utopia de massas na União Soviética e nos Estados Unidos], lançado em 2000.  

Desde 2010, Buck-Morss é Professora Emérita do Departamento de Ciência Política da  Universidade Cornell, atuando também no Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de  Nova York (CUNY), onde participa do Comitê sobre Globalização e Mudança Social.  

Em 2011, recebeu o aclamado Prêmio Frantz Fanon, concedido pela Associação Filosófica Caribenha, por seu livro Hegel, Haiti and Universal History (2009) [Hegel e o Haiti]. A láurea denota reconhecimento ao mérito de sua obra para a formulação do pensamento crítico contemporâneo.  

 

OBRA 

Embora possa ser descrita como uma das principais representantes da Teoria Crítica, por  conta da contribuição de seus comentários a respeito de Benjamin e Adorno, notadamente presente nos livros A dialética do olhar e A origem da Dialética Negativa, é difícil circunscrever e reduzir o  trabalho filosófico de Buck-Morss a um campo específico. Profundamente interessada por  questões políticas que atravessam desde o marxismo até debates inseridos em estudos pós-coloniais ou de gênero, passando também por investigações estéticas sobre visualidade e cultura, a autora  estadunidense tem como um de seus principais procedimentos metodológicos a capacidade de  articulação por temáticas que parecem refratárias a qualquer tipo de conexão, seja porque se  encontram apartadas em áreas disciplinares muito distantes entre si, seja porque dizem respeito a conceitos e categorias que não foram necessariamente trabalhados por determinado autor ou autora  que lhe sirvam de referência.  

 

1. Caminhos indiretos: sobre o método 

Há, certamente, diversas formas para abordar uma autora tão multifacetada quanto Buck-Morss, sendo a possibilidade mais lógica compreendê-la como um dos principais nomes da Teoria  Crítica no presente, enquanto herdeira direta das vias abertas pelos filósofos da Escola de Frankfurt, ela mesma tendo trabalhado por alguns anos como pesquisadora no instituto que consagrou  gerações de pensadores ao longo do século passado.  

Todavia, gostaria de apresentá-la aos leitores por um aspecto distinto, menos enquanto uma  especialista no interior de um campo específico e sim como uma filósofa que, talvez mais  radicalmente, tenha adquirido um método benjaminiano — a partir das formulações do Prólogo  Epistemológico-Crítico da Origem do drama trágico alemão — como meio de elaboração de suas  ideias que, a meu ver, são atravessadas pela  concepção de método como “caminho  indireto” e da categoria de “constelação” que o autor alemão fez resplandecer no seio da filosofia  alemã dos anos 20 do século passado. 

No Prólogo da tese de habilitação, publicada em 1925, Benjamin inaugura uma proposição  sobre em que consistiria a atividade filosófica, concebendo a Filosofia não como o acesso privilegiado à Verdade, enquanto Ideia ou Conceito, mas sim como uma exposição linguística determinada por sua própria forma. Ao anunciar, no bojo desse novo programa, que “método é caminho não direto” (Benjamin, 2011, p. 16), constitui-se uma maneira singular de apresentação das ideias de Buck-Morss na medida em que, além dessa desorientação espacial implicada na ideia do fazer filosófico enquanto um bailado desviante, há também uma proposta disruptiva com relação à linearidade temporal. 

Assim, o pensamento não obedeceria ao curso ininterrupto e contínuo do fluxo de ideias, mas se manifestaria, de maneira análoga, a uma constelação. “As ideias relacionam-se com as coisas como as constelações com as estrelas”, escreve ele (Benjamin, 2011, p. 22).  A imagem de uma constelação é dada a partir de linhas imaginárias que, ao conectar pontos  da extremidade e manter o centro vazio, apresenta uma estrutura cujos componentes, embora dispersos e temporalmente distantes um do outro, são capazes de produzirem legibilidade. A alegoria benjaminiana intui uma possibilidade de ver como elementos aparentemente isolados e  heterogêneos conseguem ser dotados de significância ao serem recolhidos através dos movimentos do próprio pensar.  

No decorrer do texto, proponho que Buck-Morss assume com rigor uma metodologia desviante e constelar, tensionando tanto a espacialidade quanto a temporalidade dos seus  objetos de interesse, no intuito de revirar a coerência de certas narrativas, seja por alianças temáticas ou por proximidade cronológica, e torná-las mais indisciplinadas e menos sujeitas ao conformismo e conexões estéreis em nome de uma suposta adequação sem falhas na construção do  conhecimento. O brilho do arranjo constelar das ideias emanaria das relações estabelecidas entre fenômenos empíricos situados em diferentes extratos temporais e em lugares não contíguos. Ambas as perspectivas críticas  orientam o trabalho de Buck-Morss como um farol. 

Em A dialética do olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens, a pensadora mergulha  nos arquivos de Benjamin na Alemanha para apresentar a riqueza de seu procedimento construtivo,  onde imagem e texto colidem, fatos do passado encontram eventos do presente, fragmentos são  apresentados sem qualquer determinação prévia. A filósofa explicita sua própria intuição a respeito da prática filosófica a partir do gesto de lidar com esses cacos estraçalhados da história que a modernidade não cessou de acumular e empilhar:

 

Espartilhos, espanadores, pentes vermelhos e verdes, fotografias antigas, réplicas de lembrança da Vénus de Milo, botões de colarinho de camisas há muito descartadas — estes sobreviventes históricos maltratados do alvorecer da cultura industrial, que apareciam juntos nas galerias em declínio como ‘um mundo de afinidades secreta’, eram as ideias filosóficas, enquanto uma constelação de referentes concretos e históricos. (Buck-Morss, 1991, p. 4)

 

O gesto faz parte do interesse de Buck-Morss em legitimar um tipo de fazer filosófico que não se rende à objetividade do método e busca protegê-lo da crítica à não ortodoxia das suas diretrizes.  Na seção “Isso é filosofia?”, ela aponta que um dos seus objetivos é recontar a montagem  dessa obra [As passagens] , caracterizada “pelo estudo minucioso e detalhado de textos do passado, pelo cuidadoso  inventário dos fragmentos deles extraídos e pelo uso planejado desses fragmentos em ‘constelações’ deliberadamente construídas”, cujos “procedimentos sóbrios e autorreflexivos” foram exemplares  para “tornar visível uma imagem da verdade que as ficções da historiografia convencional  encobriam”. (Buck-Morss, 1991, p. 220)

Ao desvelar as vicissitudes desses dispositivos inovadores, ela postula que é “nesses  extremos aparentemente paradoxais do método benjaminiano que se encontra a origem de um  dilema interpretativo” (Buck-Morss, 1991, p. 222), no qual reside justamente a dificuldade de  encaixe do pensador por parte dos estudiosos de sua obra nos meios institucionais a partir dos anos  70. Não só Buck-Morss é uma das autoras que mais obteve sucesso em  esclarecer a complexidade deste procedimento, como também fez dele o próprio princípio organizador da sua reflexão, também singular, sobre o mundo.  

 

2. Anestética: novas constelações 

Começo por um texto da autora publicado na revista October em 1992, “Estética e  anestética: uma reconsideração de A obra de arte de Walter Benjamin”. Sinteticamente, o texto de Benjamin, escrito entre 1935 e 1936, busca compreender as transformações no campo da arte e da política derivadas da reprodutibilidade técnica, uma condição moderna advinda das invenções tecnológicas que propiciaram o surgimento da fotografia e do cinema. Logo na abertura do ensaio, Benjamin diz que as categorias da Estética tradicional — criatividade e gênio, validade  eterna e estilo, forma e conteúdo — seriam insuficientes para pensar este novo cenário, uma vez que  poderiam ser apreendidas pelos regimes totalitários. Ele almeja, então, apresentar novos conceitos,  que seriam imunes às capturas desses sistemas de governo. Vemos aqui a principal oposição  trabalhada pelo filósofo no texto: contra a estetização da política, inerente ao fascismo, o autor  contrapõe a politização da arte e as  “exigências revolucionárias na política artística”.  

O título do ensaio de Buck-Morss nos conduz a um engano, uma vez que ela não vai  simplesmente reconsiderar o texto de Benjamin, mas vai reler a história da própria disciplina  Estética, fundada por Alexander Baumgarten no século XVIII, classificando-a como uma forma de  domesticação dos sentidos do corpo. Em “Coisas indignas para um filósofo: da anestética à estética  em Susan Buck-Morss” artigo publicado na Revista Viso: Cadernos de Estética Aplicada, trabalhei  essa questão da seguinte forma:

 

É essa oposição benjaminiana – estetização da política X politização da arte –  que guia o comentário de Buck-Morss. Ela enfatiza a tese de que a introdução da  estética na vida política teria como consequência a alienação sensorial. Isso  permite que a filósofa repense o estatuto da sensibilidade a partir da  modernidade como uma anestesia provocada pela própria Estética moderna. (Monteiro, 2025, p. 242)  

 

De acordo com ela, a Estética, descrita na Aesthetica enquanto “ciência do conhecimento  sensível” seria, na verdade, uma “aísthesis anestesiada”, atrofiada pela tentativa filosófica de conter o domínio da sensibilidade por meio de faculdades inteligíveis e cognitivas. Ao afirmar que não tentará “conduzir os leitores por toda a história da metafísica ocidental, para demonstrar as permutações dessa constelação em termos de desenvolvimento histórico intrínseco da filosofia, de uma ‘vida mental’ descontextualizada”(Buck-Morss, 2012, p. 175), ela irá recuperar “significado etimológico original da palavra ‘estética’ (Buck-Morss, 2012, p. 175) para reposicioná-la em sua íntima proximidade com o corpo. 

Segundo Buck-Morss, “aisthitikos é a antiga palavra grega que designa o que é ‘percebido pela sensação. Aisthisis é a experiência sensorial da percepção. O campo original da estética não é a arte, mas a realidade – a natureza material, corpórea” (Buck-Morss, 2012, p. 175). Para ela, o diagnóstico de Benjamin sobre as relações entre  técnicas de reprodução de imagem na modernidade e dados fascistas deveria ser interpretado da  seguinte forma: politizar é “desfazer a alienação do sensório corporal, restaurar a força instintiva dos sentidos corporais humanos em prol da autopreservação da humanidade” (Buck-Morss, 2012, p. 174). 

A fim de produzir interlocuções para a formulação de seu conceito anestética, o qual permite  reinterpretar estetização da política de Benjamin como alienação da sensibilidade, condição  incapacitante do agir político, Buck-Morss não nos envereda por toda a narrativa metafísica que validou os usos da razão em detrimento dos sentidos, mas  lança mão de um inusitado fato histórico que, sendo concomitante ao nascimento da Estética, permite visualizar o desenho imaginário formado por elementos aparentemente inconciliáveis que apresentamos tendo em vista o conceito de  constelação. 

Desse modo, ela vislumbra na descoberta da anestesia como técnica cirúrgica, de 1846, evento cuja relação com o surgimento  da Estética seria impensável, uma nova pressuposição. Para ela, a Estética emerge como uma tentativa de domesticar os sentidos corporais, na medida em que, por não conseguir mais barrar a esfera da sensibilidade do âmbito que outorgou para si próprio o acesso privilegiado ao domínio da inteligibilidade, foi preciso que, para figurar como legítimo objeto filosófico, o sensível fosse apaziguado e protegido da sua relação com “o campo dos sentidos animais” (Buck-Morss, 2012, p. 176). Como ela pontua, a aisthesis, enquanto experiência sensorial, é  

 

uma forma de cognição obtida por meio do paladar, do tato, da audição, da visão  e do olfato – de todo o sensório corporal. Os terminais de todos esses sentidos –  nariz, olhos ouvidos, boca e algumas áreas mais sensíveis da pele – localizam -se  na superfície do corpo (…) É claro que todos esses sentidos podem ser  aculturados – essa é a ideia do interesse filosófico pela “estética” na era moderna. Contudo, por mais rigorosamente que se treinem os sentidos (como  sensibilidade moral, refinamento do gosto, sensibilidade às normas culturais da  beleza), tudo isso vem a posteriori. Os sentidos conservam um traço incivilizado e  incivilizável. (Buck-Morss, 2012, p. 176) 

 

Nesse sentido, as articulações propostas pela autora só podem ser  conduzidas a partir de uma metodologia específica que, ao ligar extremidades, permite forjar  imagens para um pensamento que opera segundo constelações de sentido. Ao recontar o percurso que conduziu até a invenção da anestesia geral e conectá-la com a publicação do estudo basilar de Baumgarten, ela reconfigura o passado da filosofia ocidental e assevera que, se  o discurso filosófico almeja se tornar fundamental para a práxis política, será necessário negociar com o corpo, reinvestindo-o enquanto aparato sensório dotado de potencialidades indispensáveis, e não apenas entendendo-o como um epifenômeno exterior ao intelecto. Essa vocação para erguer outras legibilidades a partir de componentes divergentes nos fornece as coordenadas errantes através das quais se fundamenta a pesquisa constelar de Susan Buck-Morss. 

 

3. Uma mulher nas margens  

Publicado primeiro como artigo — “Hegel e o Haiti”— na revista Critical Inquiry em 2000,  o texto ganhou uma versão expandida intitulada Hegel, Haiti and Universal History, publicada em  2009. Nele, Buck-Morss se debruça sobre uma das páginas mais comentadas da filosofia moderna,  a célebre dialética do senhor e do escravo que aparece no capítulo IV da segunda seção da  Fenomenologia do espírito de G. W. F. Hegel, publicada em 1807. 

Em leituras contemporâneas e situadas no interior dos debates propostos pelos estudos pós-coloniais, Hegel tornou-se um autor problemático devido às declarações de cunho abertamente racista encontradas em escritos de sua época berlinense. Embora Buck-Morss não se esquive dessa constatação e observe a devida gravidade desses textos, o desejo de  investigação de Hegel e o Haiti é complexificar outro aspecto da obra hegeliana.  

Ao optar por reler Hegel, a filósofa estadunidense escapará de duas posições antinômicas  para encontrar uma posição original no encontro com a Fenonomelogia, engendrando uma  sofisticada argumentação que foge tanto à posição mais segura: 1) o discurso universalista de Hegel  seria falso e nele não haveria senão um desejo inconfessável de dominação e repressão,  corroborando a visão eurocêntrica e racista do autor; quanto a mais distanciada: 2) a escravidão abordada por Hegel é apenas metafórica, não diz respeito a figuras concretas, salvaguardando Hegel  como um filósofo do Esclarecimento alemão e que, no máximo, poderia estar escrevendo sobre a Revolução Francesa, tal como “há plena concordância dos especialistas em reconhecer no texto a presença da rebelião dos franceses” (Buck-Morss, 2017, p. 78), e não sobre assuntos coloniais, ou seja, não haveria como pensar em senhores e escravos que respondem a processos sociopolíticos decisivos e factuais.  

O método Buck-Morss abre uma chave de leitura que vê na teoria do reconhecimento hegeliana uma das entradas do problema da escravidão moderna na cena filosófica, mas vai fazer isso a partir de fontes documentais que costumam ser deixadas à margem por filósofos: a imprensa da época, jornais e revistas que, segundo ela, eram lidos por Hegel, bem como a troca de  correspondência entre Hegel e demais autores, além de biografias e dados historiográficos do contexto alemão do século XVIII e XIX: 

 

Ou Hegel era o mais cego de todos os filósofos da liberdade na Europa  iluminista, deixando Locke e Rousseau para trás em sua capacidade de negar a realidade debaixo do seu nariz (a realidade impressa debaixo do seu nariz sobre a  mesa do café da manhã), ou Hegel sabia — dos escravos reais que foram vitoriosos do senhorio e da servidão deliberadamente no âmbito de seu contexto contemporâneo. (Buck-Morss, 2017, p. 78) 

 

Ao não hierarquizar esse material em relação à letra da Fenomenologia e não invalidar  registros cujo estatuto é inferiorizado face à produção filosófica, a autora  demonstra primeiramente que as informações sobre o Haiti — tais como a quantidade do enorme contingente da massa de rebelados, a influência dos ideais da Revolução Francesa para o levante, a atuação militar bem-sucedida de Toussaint Louverture na incitação da revolta e de Jean-Jacques Dessalines, general que efetivamente proclamou a independência da ex-colônia após a prisão do primeiro líder — circularam intensamente na imprensa europeia e, em segundo lugar, que Hegel era um leitor de jornais e periódicos, acompanhando com bastante interesse o que acontecia no Caribe. 

 No capítulo quatro do livro, ela critica a “neutralidade moral” como “inerente aos métodos disciplinares” (Buck-Morss, 2017, p. 53), que tendem a fazer com que “fatos incômodos desapareçam furtivamente”. Todavia, segundo a pensadora, “eles se mantêm visíveis,  contudo, nas histórias gerais da época, nas quais não podem deixar de ser mencionados” (Buck-Morss, 2017, p. 53). Saber e querer ler o mal-estar é parte da obra dessa filósofa que se orienta permanentemente por narrar “histórias indisciplinadas” (Buck-Morss, 2017, p. 118).  

Baseada na biografia canônica do autor, Georg Wilhelm Friedrich Hegels Leben, de Karl  Rosenkranz, ela lança sua suspeição da seguinte maneira: 

 

Ninguém ousou sugerir que a ideia para a dialética do senhorio e da escravidão  pudesse ter ocorrido a Hegel em Jena, entre os anos 1803 e 1805, a partir da leitura da imprensa – revistas e jornais. Porém esse mesmo Hegel, nesse mesmo  período de Jena, durante o qual a dialética do senhor e do escravo foi concebida pela primeira vez, fez a seguinte anotação: Ler o jornal no início da manhã é uma  espécie de prece matinal realista. (Buck-Morss, 2017, p. 77) 

 

Quais seriam os periódicos lidos por Hegel que oferecem provas contundentes do seu  conhecimento a respeito do que acontecia no Haiti? “Os olhos do mundo estavam agora em Saint Domingue”(Archenvolz apud Buck-Morss, 2017, p. 68): dessa forma, iniciava-se o artigo de Johann Wilhelm von Archenvolz, publicado na revista Minerva em 1894, no qual narrava sua  desconfiança em relação à viabilidade e o logro do processo revolucionário haitiano. Como ela comprova,  

 

por um ano inteiro, do outono de 1804 ao fim de 1805, Minerva publicou uma  série contínua, totalizando mais de cem páginas, incluindo fontes documentais, sumários de imprensa e relatos testemunhais, relatando aos leitores não apenas a luta final pela independência dessa colônia francesa — sobre a bandeira de  Liberdade ou morte! — mas também os eventos dos dez anos que a precederam. (Buck-Morss, 2017, p. 69) 

 

Ao descortinar uma fortuna crítica ainda não mobilizada em relação ao tema, ela aponta que  “Minerva era o ‘mais importante periódico político da virada do século’” e “lido por algumas das  pessoas mais influentes na Alemanha” (Buck-Morrs, 2017, p. 72). Ao citar uma carta de Hegel para  Schelling, presente em Hegel: The letters, vêm à luz, nesses elementos muitas vezes excluídos do  rigor científico do exercício filosófico, os encadeamentos do pensamento da autora, que incorpora e se apropria do material descartado por uma metodologia ortodoxa para encontrar na imprensa e na comunicação epistolar uma forma legítima de filosofar : “De maneira  acidental, falei há alguns dias com o autor das cartas assinadas por ‘O’ na Minerva de Archenvolz. Sem dúvida, você sabe de quais estou falando”, escreve Hegel em dezembro de 1794, aludindo ao conhecimento que tinha da Revolução Haitiana. 

Assim, a contribuição teórica buckmorrssiana, ao integrar peças normalmente colocadas à margem do debate filosófico central, enfrenta a dificuldade de estabelecer correspondências  inauditas entre a Fenomenologia do espírito e a discussão colonial, não (só) no sentido de encontrar  em Hegel aquilo que o identifica plenamente como um autor da modernidade eurocêntrica, mas de  encontrar na filosofia hegeliana o ponto de desajuste, frente ao qual um Hegel não dialetizado, cujo  pensamento é isento de contradições, seja, na verdade, uma impossibilidade. 

Com isso, permitiu desmontar a dicotomia do problema racial  — obra ou autor racista/não racista — na filosofia moderna, acolhendo, em um texto que recentemente vem sendo lido criticamente do ponto de vista da condenação, uma perspectiva original na qual a universalidade pleiteada por Hegel, entendida como limitada a partir do Esclarecimento, movimento de viés inegavelmente colonialista, seja, de fato, universal, leitura essa que garantiu a ela o prestigiado prêmio Frantz Fanon, como mencionado anteriormente.

 

4. Susan Buck-Morss, uma filósofa indisciplinada 

Em Year 1: a philosophical recounting [Ano 1: uma narrativa filosófica], publicado por ela  em 2021, há uma forma de resumir como ela estabelece eticamente as bases de uma prática filosófica comprometida politicamente com a tarefa de construir uma filosofia indisciplinada,  que não se furta em recolher fragmentos dispersos do nosso passado comum, patrimônio que reivindica como algo que se conecta com a história universal da humanidade. Ao apresentar suas referências para reconstituir a história da disciplina filosófica, Buck-Morss diz:  

 

Nossas principais fontes são três autores do século I que raramente são  considerados em conjunto e, na verdade, raramente sequer são incluídos nas narrativas historiográficas convencionais: Flávio Josefo, historiador da Guerra  da Judeia; Fílon de Alexandria, filósofo neoplatônico; e João de Patmos, autor do  Apocalipse (Apocalypsis), o último livro da Bíblia cristã. Muitos leitores talvez  não estejam familiarizados com nenhum deles, e mesmo aqueles que conhecem  um desses autores podem desconhecer os demais. Contudo, quando tomados  seriamente em seus próprios termos, esses autores conduzem a direções  surpreendentes, que contradizem de maneira profunda aquilo que supomos saber, oferecendo chaves para uma reviravolta radical das pressuposições  epistemológicas de nosso tempo. Quando isso ocorre, torna-se possível uma  profusão de interconexões, à medida que personagens separados temporalmente  são atraídos para o vórtice de uma reconfiguração histórica. Antígona e John  Coltrane, Platão e Bulwer-Lytton, Nicolau de Cusa e Zora Neale Hurston, al Farabi e Jean Anouilh surgem nesse cenário, sem mencionar Descartes, Kant,  Hegel, Kristeva e Derrida. (Buck-Morss, 2021, p. 12-13) 

 

Essa miscelânea que atrai “para o vórtice de uma reconfiguração histórica” obedece a  prerrogativa de que “a humanidade global merece uma história comum” e que seu livro “é uma  contribuição para o desenvolvimento da mesma” (Buck-Morss, 2021, p. 19), ao arquitetar “novas  constelações entre passado e presente, nas quais o material é libertado das restrições ordenadoras da  modernidade, evidenciando o potencial filosófico de uma relação transformada com o passado” (Buck-Morss, 2021, p. 19).  

Em uma de suas mais afiadas intuições, ela nos indica que “é possível colonizar o tempo tanto quanto o território” (Buck-Morss, 2021, p.13). O tempo que é colonizado, tal como o espaço,  precisa ser desapropriado de uma titularidade específica, sem o “recorte vertical” da história ou  “bandeira de pertença nacional ou religiosa” (Buck-Morss, 2021, p. 13). Assim, ela escreve:  

 

 Ao investigar o passado distante, somos estrangeiros que adentram um território  alheio. Os habitantes desse passado compartilham formas de compreensão que  nos permanecem inacessíveis sem o trabalho da tradução. Ainda que, do ponto de  vista linguístico, conheçamos suas palavras, não podemos presumir direitos de  propriedade sobre os significados que elas veiculam. E, mesmo que sejamos  capazes de reconstruir o percurso irregular por meio do qual esses significados  foram preservados ao longo do tempo e chegaram até nós, as leis privatizantes da  herança não lhes são aplicáveis. (Buck-Morss, 2021, p. 13) 

 

Saber trafegar por percursos irregulares foi a escolha que optei para apresentar uma filósofa contemporânea incontornável e que carece de maior ampliação da sua obra ao público brasileiro. Em 24 de março de 2022, a pesquisadora brasileira Bruna Della Torre, referência no campo da Teoria Crítica, publicou no blog da Editora Boitempo uma entrevista realizada com Buck-Morss, um dos esforços, parte de muitas das iniciativas do Mês das Mulheres, de suprir lacunas da presença feminina no campo da filosofia.

Já no título, anunciava-se esta intenção ao nomear as “frankfurtianas”. Em uma de suas  perguntas endereçadas à filósofa, ela afirma que a “relação da Escola de Frankfurt com o feminismo  e com as mulheres é complicada. As mulheres sempre ocuparam um lugar secundário em seus  projetos e não aparecem em muitos dos livros que contam a história do Instituto” (Della Torre, 2022, s.p.). Menciona também que “para além da invisibilização do trabalho e da participação das  mulheres no Instituto, é possível dizer que a ausência de mulheres teve um custo alto também do  ponto de vista teórico”, deixando claro a limitação de uma análise quando todo um segmento de  pensadoras é desqualificado. 

Há muitos momentos preciosos na troca do debate e da reflexão entre as duas que valeriam  serem ressaltados. A respeito do seu  método filosófico, ela diz o seguinte:

 

Sempre foi muito claro para mim que o pensamento centrado no homem distorceu  a filosofia. Você não pode pensar com clareza quando a supressão de gênero  torna seu argumento enviesado. É como o pensamento racista, como tentar teorizar sobre o capitalismo sem levar em conta a escravidão nas plantations como sua pedra de toque. Você vai errar a teoria. A teoria crítica não pode funcionar hoje se não reconhecer isso. Então, em certo sentido, tudo que escrevi é feminista e marxista. Eu também gostaria de ressaltar que meu  trabalho sempre foi mais profundamente influenciado por Walter Benjamin, uma figura marginal no Instituto de Pesquisa Social. Benjamin pode não ter encampado o feminismo como uma posição política e pode ser que tenha sido  menos marxista do que a forma como o interpretei, mas seu método é não autoritário, não-masculinista e não-dogmático de uma forma única. Isso deixa o pensamento vulnerável, aberto ao uso compartilhado e à apropriação criativa. (Buck-Morss apud Della Torre, 2022, s. p.) 

 

Nesse momento, espero que se esclareça a opção de introduzir Buck-Morss a partir da adesão original a uma metodologia não-autoritária, não-masculinista e não dogmática, capaz de produzir imagens constelares a fim de “nos libertar das disciplinas estabelecidas, passadas a nós pelos vencedores da história, que estão em consonância com o mau estado das coisas” (Buck-Morss apud Della Torre, 2022, s.p.).  

Em um ensaio intitulado “O presente do passado”, a autora deixa entrever como seu particular interesse filosófico nunca se afastou da real e concreta materialidade dos acontecimentos da história, deixando na opacidade se ela faz História da Filosofia ou Filosofia da História e para cuja dúvida espero que os leitores que a acompanharam até aqui compreendam que a sua indisciplina diz respeito a operar precisamente nos espaços limítrofes  e fronteiriços das imagens do pensamento que, tal como as narrativas históricas, são compostas por camadas. Como ela salienta, “as camadas não estão empilhadas em ordem” (Buck-Morss, 2018, p.  5). Ela conclui este escrito da seguinte forma: 

 

O passado ricocheteia no presente e se espalha em território inimigo. Os  fragmentos históricos são o resto de uma explosão. Liberados pela explosão da  memória oficial, os fragmentos da história são preservados em imagens. Eles  retêm a proximidade da experiência original e, com ela, a ambiguidade. Seu  significado é liberado somente em uma constelação com o presente. Eles trazem  guardado um aviso de perigo. O presente do passado é um cavalo de Tróia. A  gente acha que sabe de onde ele vem e a quem pertence. Mas a dádiva é para  outros, aqueles que os assim chamados herdeiros legítimos estão destruindo no  presente. Não há nada na história humana que nos seja alheio. (Buck-Morss, 2018,  p. 28) 

 

REFERÊNCIAS

  1. Obras mais relevantes e as traduções disponíveis

Buck-Morss, S. (1977). The origin of negative dialectics: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, and the Frankfurt Institute [A origem da Dialética Negativa: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin e a Escola de Frankfurt]. Nova York: The Free Press.

Buck-Morss, S. (1986). The flaneur, the sandwichman and the whore: the politics of loitering [O flâneur, o homem-sanduíche e a prostituta: a política da vadiagem]. New German Critique, (39), pp. 99–140.

Buck-Morss, S. (1991). The dialectics of seeing: Walter Benjamin and the Arcades Project [A dialética do olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens]. Massachusetts: MIT Press.

Buck-Morss, S. (2000). Dreamworld and catastrophe: the passing of mass utopia in East and West [Mundo de sonho e catástrofe: o desaparecimento das utopias de massas na União Soviética e nos Estados Unidos]. Tradução de Ana Luiza Andrade, Rodrigo Lopes de Barros & Ana Carolina Cernicchiaro. Massachusetts: MIT Press. [Tradução em português: Santa Catarina: Editora UFSC, 2018].

Buck-Morss, S. (2002). Thinking past terror: Islamism and critical theory on the Left [Pensando além do terror: islamismo e teoria crítica na esquerda]. Londres: Verso.

Buck-Morss, S. (2009). Hegel, Haiti, and universal history [Hegel e o Haiti]. Tradução de Sebastião Nascimento. Pittsburgh: University of Pittsburgh. [Tradução em português: São Paulo: n-1edições, 2017].

Buck-Morss, S. (2009). A tela como prótese de percepção. Tradução de Ana Luíza Andrade. Florianópolis: Cultura e Barbárie.

Buck-Morss, S. (2012). Estética e anestética: uma reconsideração de A obra de arte de Walter Benjamin. In Capistrano, T. (org.), Benjamin e a obra de arte: técnica, imagem, percepção. Tradução de Marijane Lisboa. Rio de Janeiro: Contraponto.

Buck-Morss, S. (2014). Walter Benjamin, escritor revolucionario [Walter Benjamin, escritor revolucionário]. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: la marca editora.

Buck-Morss, S. (2018). O presente do passado. Tradução de Ana Luiza Andrade & Adriana Varandas. Florianópolis: Cultura e Barbárie.

Buck-Morss, S. (2019). Revolution today [Revolução hoje]. Chicago: Haymarket Books.

Buck-Morss, S. (2021). Year one: a philosophical recounting [Ano um: uma narrativa filosófica]. Massachusetts: MIT Press.

 

  1. Literatura secundária

Mickus, R. Z. (2025). A constelação anestética da modernização capitalista em Susan Buck Morss (Dissertação de mestrado). Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Recuperado de: https://hdl.handle.net/1884/96799. Acesso em: 21 jul. 2026.

Monteiro, J. M. (2025). Coisas indignas para um filósofo: da anestética à estética em Susan Buck Morss. Viso: Cadernos de Estética Aplicada, 19 (36), pp. 224-253.

 

  1. Outros materiais e fontes

Benjamin, W. (1994). A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In Benjamin, W., Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense.

Benjamin, W. (2018). Passagens. Organização de Willi Bolle & Olgária Féres Matos. Tradução de Irene Aron & Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG.

Buck-Morss, S. (s.d.). Site da filósofa com informações e textos em inglês. Recuperado de: https://www.susanbuckmorss.info/. Acesso em: 21 jul. 2026.

Della Torre, B. (2022). As frankfurtianas: a crítica imanente continua sendo uma ferramenta analítica inestimável [Entrevista concedida a S. Buck-Morss]. Blog da Boitempo. Recuperado de: https://blogdaboitempo.com.br/2022/03/24/as-frankfurtianas-a-critica-imanente-continua-sendo-uma-ferramenta-analitica-inestimavel-entrevista-com-susan-buck-morss/. Acesso em: 21 jul. 2026.

Hegel, G. W. F. (2014). Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses, Karl-Heinz Efken & José Nogueira Machado. Petrópolis: Vozes.

Kester, G. (1997). Estética depois do fim da arte [Entrevista concedida a S. Buck-Morss]. Tradução de Adele Motta. Art Journal, 56 (1), pp. 38-45. Recuperado de: https://dazibao.cc/textos/estetica-depois-do-fim-da-arte-uma-entrevista-com-susan-buck-morss/. Acesso em: 21 jul. 2026.