{"id":1092,"date":"2021-10-13T12:07:29","date_gmt":"2021-10-13T15:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1092"},"modified":"2022-04-25T18:19:59","modified_gmt":"2022-04-25T21:19:59","slug":"epistemologia-feminista","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/epistemologia-feminista\/","title":{"rendered":"Epistemologia Feminista"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-4103fe6d\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-23a9e828\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Patr\u00edcia Ketzer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Professora da Universidade de Passo Fundo. <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4875848249103649\">Lattes.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1108\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/Epistemologia-Feminista.docx-1.pdf\" alt=\"\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/Epistemologia-Feminista.docx-1.pdf\">PDF &#8211; Epistemologia Feminista<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Epistemologia \u00e9 uma das grandes \u00e1reas da Filosofia. Sua etimologia vem das palavras gregas <em>episteme <\/em>e <em>logos<\/em>, e h\u00e1 diverg\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o. Segundo Steup e Neta (2020) <em>episteme<\/em> pode ser traduzida como <em>conhecimento <\/em>(<em>knowledge<\/em>), <em>entendimento <\/em>(<em>understanding<\/em>) ou <em>familiaridade <\/em>(<em>acquaintance<\/em>) e <em>logos<\/em> como <em>explica\u00e7\u00e3o<\/em> (<em>account<\/em>), <em>argumento <\/em>(<em>argument<\/em>) ou <em>raz\u00e3o<\/em> (<em>reason<\/em>). Tamb\u00e9m \u00e9 comum encontramos os termos traduzidos como <em>ci\u00eancia,<\/em> no caso de <em>episteme<\/em> e <em>estudo, <\/em>para <em>logos<\/em>. Cada uma destas tradu\u00e7\u00f5es pode apontar para uma compreens\u00e3o diversa de epistemologia. Epistemologia \u00e9 muitas vezes compreendida como Teoria do Conhecimento e outras tantas como Filosofia da Ci\u00eancia. Chau\u00ed, por exemplo, define epistemologia como <strong>\u201c<\/strong>an\u00e1lise cr\u00edtica das ci\u00eancias, tanto as ci\u00eancias exatas ou matem\u00e1ticas, quanto as naturais e as humanas; avalia\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos e dos resultados das ci\u00eancias; compatibilidades e incompatibilidades entre as ci\u00eancias; formas de rela\u00e7\u00f5es entre as ci\u00eancias, etc.\u201d (2000, p. 66). Enquanto, Almeida et. al. a define como \u201cuma das disciplinas centrais da filosofia [na qual] estuda-se a natureza do conhecimento, os seus requisitos e limites\u201d (2008, p. 111).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando compreendida como Teoria do Conhecimento ocupa-se de responder quest\u00f5es como: o que \u00e9 conhecimento? Quais as suas fontes? Quais os tipos de conhecimento existentes? O que \u00e9 cren\u00e7a? O que \u00e9 verdade? O que \u00e9 justifica\u00e7\u00e3o? Como podemos justificar o que conhecemos? Podemos adquirir conhecimento com base nos atos de fala de outras pessoas? J\u00e1 quando tomada como Filosofia da Ci\u00eancia indaga: O que \u00e9 ci\u00eancia? A Ci\u00eancia possui um m\u00e9todo? Qual? \u00c9 poss\u00edvel se estabelecer um crit\u00e9rio de demarca\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e pseudoci\u00eancia? Em muitos contextos epistemologia tamb\u00e9m \u00e9 compreendida como \u00e1rea que trata de quest\u00f5es relacionadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do conhecimento em \u00e1reas particulares de investiga\u00e7\u00e3o. Neste caso, teremos a epistemologia da sociologia, epistemologia da biologia, e assim por diante. De todo modo, \u00e9 uma \u00e1rea central para qualquer campo do conhecimento que busque fundamentar seus m\u00e9todos e justific\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As perspectivas tradicionais em epistemologia caracterizaram-se pelo individualismo, sendo o foco do conhecimento centrado no sujeito. Descartes, o fil\u00f3sofo que inaugura de forma mais acabada o pensamento moderno (MARCONDES, 2007), buscava um fundamento seguro para o conhecimento. Para encontra-loencontr\u00e1-lo, empreende a d\u00favida met\u00f3dica, com o objetivo de livrar-se de qualquer cren\u00e7a ou conhecimento que n\u00e3o seja confi\u00e1vel. Assim, coloca em d\u00favida todas as coisas, para reconstru\u00ed-las a partir de certezas indubit\u00e1veis, que seriam terreno firme para o edif\u00edcio do conhecimento. Com a d\u00favida hiperb\u00f3lica, questiona inclusive a realidade do mundo externo e de outras mentes, mas percebe que duvida, e se duvida, pensa, se pensa, existe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sujeito pensante foi a primeira certeza estabelecida por Descartes (1973), em suas <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas<\/em>, tornando-se o ponto de refer\u00eancia e discernimento, fundamento de todas as outras certezas. O sujeito cartesiano \u00e9 considerado a fonte de todo conhecimento. O <em>cogito<\/em> (esse sujeito que pensa, logo existe) garante a certeza dentro de si mesmo. A fonte da autoridade \u00e9 encontrada na raz\u00e3o, uma \u201craz\u00e3o purificada e descorporificada\u201d (LONGINO, 2012, p. 514). O corpo \u00e9 considerado como fonte de erro, pois os sentidos j\u00e1 o enganaram uma vez e podem engan\u00e1-lo novamente. Assim, Descartes funda um sujeito descorporificado, que pode realizar atos de pura raz\u00e3o. \u00c9 um eu descorporificado que \u00e9 \u201cbase da raz\u00e3o e da vontade, da cogni\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o, enquanto o corpo repudiado se torna mero mecanismo\u201d (LONGINO, 2012, p. 514).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 na metade do s\u00e9culo XX, soci\u00f3logos e fil\u00f3sofos da ci\u00eancia como Kuhn (1962 [1992]), Foucault (1969 [2013]), Latour e Woolgar (1986) e o pragmatista estadunidense Rorty (1979) come\u00e7am a \u201cdesmascarar a epistemologia ortodoxa\u201d destacando a import\u00e2ncia de considerar \u201co papel das cren\u00e7as e preconceitos culturais na cria\u00e7\u00e3o do conhecimento\u201d (GOLDMAN; O\u2019CONNOR, 2019, <em>on line<\/em>). Neste contexto, abre-se espa\u00e7o para o surgimento da epistemologia social, \u201cum novo ramo, ou esfera, da epistemologia dominante\u201d (GOLDMAN; O\u2019CONNOR, 2019, <em>on line<\/em>). O conhecimento deixa de ser concebido como um processo individual do sujeito e passa a ser compreendido como um empreendimento coletivo, no qual os seres humanos trabalham juntos em prol de um objetivo comum, o de obter cren\u00e7as verdadeiras. Na Epistemologia Social, considera-se as dimens\u00f5es sociais do conhecimento e abandona-se individualismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Elizabeth Anderson (2020, <em>on line<\/em>) \u201cmuitas das contribuintes significativas para o campo de r\u00e1pido desenvolvimento da epistemologia social foram de epistem\u00f3logas feministas, te\u00f3ricas que investigam o papel do g\u00eanero na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento\u201d. G\u00eanero torna-se uma \u00e1rea significativa para investiga\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, que n\u00e3o pode ser ignorada pela epistemologia social. \u201cA epistemologia feminista foca em como a<em> localiza\u00e7\u00e3o social <\/em>do sujeito do conhecimento afeta o que e como ele sabe. \u00c9, portanto, um ramo da epistemologia social\u201d (ANDERSON, 2020, <em>on line<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Epistemologia Feminista est\u00e1 preocupada em investigar o papel do g\u00eanero nas diversas atividades epist\u00eamicas. Na transmiss\u00e3o de conhecimento e\/ou cren\u00e7a por testemunho, assim como na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Considera-se que h\u00e1 preconceito de g\u00eanero infiltrado nas mais variadas \u00e1reas do conhecimento humano, desde as ci\u00eancias humanas e sociais (SMITH, 1987; COLLINS, 2019; KILOMBA, 2019; GILLIGAN, 1982) at\u00e9 \u00e0s ci\u00eancias da vida (HARAWAY, 1989; 1991; 1995; KELLER, 2006). Esses preconceitos de g\u00eanero s\u00e3o expressos em \u201cdeterminadas afirma\u00e7\u00f5es e facilitado[s] pelos princ\u00edpios disciplinares b\u00e1sicos. A experi\u00eancia das mulheres torna-se invis\u00edvel ou distorcida, assim como as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero\u201d (LONGINO, 2012, p. 506). Um dos pap\u00e9is da Epistemologia Feminista seria elucidar esses preconceitos e question\u00e1-los.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os questionamentos apresentados pelas te\u00f3ricas feministas, emerge uma cr\u00edtica ao sujeito cartesiano como um ser descorporificado. Esse sujeito purificado, que nega o corpo, seria na verdade um sujeito europeu e branco, que ao libertar-se do corpo, na verdade liberta-se <em>dos outros <\/em>(o feminino, o n\u00e3o-branco). As feministas reivindicam o corpo, pois assumem que o conhecimento \u00e9 poss\u00edvel ao sujeito corporificado, e que \u201cas v\u00edtimas da d\u00favida cartesiana n\u00e3o s\u00f3 compreendem de forma distorcida as condi\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o cognitiva significativa como tamb\u00e9m n\u00e3o percebem os aspectos significantes da experi\u00eancia cognitiva, do saber\u201d (LONGINO, 2012, p. 515).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCorporifica\u00e7\u00e3o significa localiza\u00e7\u00e3o\u201d afirma Longino (2012, p. 516). Reivindicar um sujeito corporificado significa situ\u00e1-lo no tempo, no espa\u00e7o, considerando aspectos sociais e f\u00edsicos. Descartes p\u00f4de afirmar a universalidade por ser um homem branco europeu, mas essa universalidade n\u00e3o passa de uma \u201cparcialidade dissimulada\u201d (FRICKER, 2010, p. 597), poss\u00edvel somente aos homens brancos. Ao considerar a posi\u00e7\u00e3o social do sujeito precisamos atentar tamb\u00e9m para as intersec\u00e7\u00f5es entre g\u00eanero e outras categorias sociais, como ra\u00e7a e etnia, classe, sexualidade, capacidades e localiza\u00e7\u00e3o global, investigando sua import\u00e2ncia para o conhecimento (GRASSWICK, 2018). O trabalho de epistem\u00f3logas feministas lan\u00e7ou luz para as dimens\u00f5es sociais do conhecimento <s>,<\/s> e, apesar de terem focado inicialmente no g\u00eanero como categoria de an\u00e1lise das pr\u00e1ticas de conhecimento, suas reflex\u00f5es s\u00e3o generaliz\u00e1veis para outras formas de sujei\u00e7\u00e3o social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Epistemologia Feminista possui cunho normativo, pois visa alterar as pr\u00e1ticas de conhecimento para corrigir desigualdades de g\u00eanero, reivindicando mudan\u00e7as sociais na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento (GRASSWICK, 2018). Alguns de seus objetivos s\u00e3o estabelecer crit\u00e9rios para identificar boas e m\u00e1s afirma\u00e7\u00f5es de conhecimento, distinguindo pr\u00e1ticas de conhecimento androc\u00eantricas das n\u00e3o androc\u00eantricas e refor\u00e7ando as \u00faltimas etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pr\u00e1ticas dominantes do conhecimento excluem as mulheres da pesquisa cient\u00edfica; negam-lhes autoridade epist\u00eamica; desprezam os conhecimentos produzidos por mulheres, produzem teorias sobre mulheres representando-as como inferiores; produzem teorias sociais que tornam as atividades e interesses das mulheres invis\u00edveis e produzem ci\u00eancia e tecnologia que n\u00e3o consideram pessoas em posi\u00e7\u00f5es subordinadas, ou que refor\u00e7am hierarquias sociais. Deste modo, faz-se necess\u00e1rio pensar uma epistemologia que considere como a localiza\u00e7\u00e3o social da\/do agente cognitivo afeta o que ela\/ele conhece. A localiza\u00e7\u00e3o social \u00e9 formada por g\u00eanero, ra\u00e7a, orienta\u00e7\u00e3o sexual, capacidades, assim como por posi\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es sociais (classe, ocupa\u00e7\u00e3o, filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria etc.) (ANDERSON, 2015).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um olhar atento para o g\u00eanero como situa\u00e7\u00e3o social pode nos permitir observar amplas maneiras pelas quais as pessoas conhecem ou pensam que conhecem, e podem ser influenciadas por seu pr\u00f3prio g\u00eanero, pelo g\u00eanero de outras pessoas ou por ideias sobre g\u00eanero. Um exemplo \u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o na primeira inf\u00e2ncia, que influencia os corpos masculinos e femininos a assumirem diferentes normas de comportamento. Meninos tendem a ser criados mais livremente, desenvolvendo habilidades motoras, participando de jogos agressivos e mantendo uma postura corporal mais relaxada e informal. As meninas tendem a ser mais exigidas em rela\u00e7\u00e3o a apar\u00eancia e limpeza, t\u00eam atividades f\u00edsicas mais restritas e uma postura mais formal. Essas normas s\u00e3o internalizadas e \u201cinformam aos homens e \u00e0s mulheres o primeiro conhecimento pessoal de como \u00e9 habitar um corpo\u201d (ANDERSON, 2015).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses modelos te\u00f3ricos baseados na dicotomia macho-f\u00eamea s\u00e3o problem\u00e1ticos, na medida em que separam aquilo que na pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 separado: \u201ca vida n\u00e3o se divide em apenas duas esferas\u201d (CONNEL; PEARSE, 2015, p.46). Esta divis\u00e3o impede que o g\u00eanero seja visualizado onde n\u00e3o h\u00e1 diferencia\u00e7\u00e3o, o <em>homem afeminado<\/em>, a <em>mulher masculinizada<\/em>, os desejos LGBTQIA+ (CONNELL; PEARSE, 2015).&nbsp;Constroem-se padr\u00f5es de <em>feminino <\/em>e <em>masculino <\/em>que n\u00e3o representam a vida pr\u00e1tica, mas que comp\u00f5em o imagin\u00e1rio social, fazendo com que busquemos corresponder a eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma parte significativa do conhecimento produzido \u00e9 oriunda de uma representa\u00e7\u00e3o androc\u00eantrica do mundo. Segundo Anderson (2015), uma representa\u00e7\u00e3o de mundo \u00e9 androc\u00eantrica quando expressa a realidade a partir de interesses, emo\u00e7\u00f5es, atitudes ou valores dos homens, e ginoc\u00eantrica quando representa o mundo a partir de interesses, emo\u00e7\u00f5es, atitudes e valores das mulheres. Essas atitudes, interesses e valores comp\u00f5e o sistema de cren\u00e7as daqueles que as possuem. Entre os interesses androc\u00eantricos que comp\u00f5em a masculinidade hegem\u00f4nica, as mulheres s\u00e3o classificadas como \u201caquelas que s\u00e3o para casar\u201d e \u201caquelas que s\u00e3o para <em>comer<\/em>\u201d, as <em>putas <\/em>e as <em>santas<\/em>.&nbsp; As mulheres s\u00e3o vistas apenas como seres capazes de satisfazer os desejos sexuais dos homens ou servi-los.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa sociedade hierarquiza o g\u00eanero e constr\u00f3i no\u00e7\u00f5es de masculinidade e feminilidade hegem\u00f4nicas. A masculinidade hegem\u00f4nica consiste em um padr\u00e3o de pr\u00e1ticas que permite aos homens a manuten\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o sobre as mulheres, estabelecendo a forma mais adequada de ser homem (CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2013). A sustenta\u00e7\u00e3o da hegemonia passa por um policiamento do comportamento de todos os homens e pela exclus\u00e3o e descr\u00e9dito das mulheres. Este policiamento ocorre atrav\u00e9s da repreens\u00e3o dos comportamentos \u201cfemininos\u201d em homens e meninos. O conceito de masculinidade hegem\u00f4nica foi formulado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 feminilidade hegem\u00f4nica (posteriormente denominada feminilidade enfatizada). Ao relacion\u00e1-las se nota a posi\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica que ambas ocupam na sociedade patriarcal. Para Connell e Messerschmidt (2013, p. 265) \u201co g\u00eanero \u00e9 sempre relacional, e os padr\u00f5es de masculinidade s\u00e3o socialmente definidos em oposi\u00e7\u00e3o a algum modelo (quer real ou imagin\u00e1rio) da feminilidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As hierarquias sociais de g\u00eanero apresentam caracter\u00edsticas ligadas a masculinidade hegem\u00f4nica como positivas, enquanto aquelas ligadas \u00e0 feminilidade e \u00e0 masculinidades subordinadas s\u00e3o vistas como negativas, ou inferiores. Assim, a masculinidade hegem\u00f4nica geralmente envolve coragem, racionalidade, agressividade e esp\u00edrito de lideran\u00e7a. Enquanto a feminilidade \u00e9 associada a fragilidade, emo\u00e7\u00e3o, fraqueza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o do conhecimento pode ser afetada por estas no\u00e7\u00f5es de masculinidade e feminilidade hegem\u00f4nicas. Para Lorraine Code (1991), o modelo central de conhecimento proposicional admitido pela epistemologia anal\u00edtica contempor\u00e2nea pressup\u00f5e implicitamente um agente cognitivo do sexo masculino. Estipula-se um modelo de agente cognitivo como emocionalmente desapegado, impessoalmente orientado para coisas e n\u00e3o para as pessoas, e com uma postura \u201cobjetiva\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao objeto do conhecimento, caracter\u00edsticas que s\u00e3o simbolicamente masculinas e estereotipicamente atribu\u00eddas aos homens. E, na medida em que representamos a masculinidade e a feminilidade como naturalmente excludentes, negamos implicitamente a autoridade epist\u00eamica \u00e0s mulheres, por serem agentes cognitivos emocionalmente comprometidos e (supostamente) incapazes de objetividade. Os conceitos epistemol\u00f3gicos de raz\u00e3o e objetividade foram constru\u00eddos a partir de estere\u00f3tipos de masculinidade (LLOYD, G., 1984; ROONEY, 1991; 1995; LLOYD, E., 1995) e servem a uma dupla fun\u00e7\u00e3o: epistemol\u00f3gica e pol\u00edtica (LONGINO, 2012, p. 511), visto que influenciam diretamente todo o ideal de cientificidade. A Epistemologia Feminista questiona esses conceitos e se pergunta se uma revis\u00e3o conceitual bloquearia movimentos sexistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Epistemologia do Testemunho Feminista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atribui\u00e7\u00e3o de autoridade e confian\u00e7a epist\u00eamica tamb\u00e9m pode ser distorcida por preconceitos de g\u00eanero. Homens podem ser considerados mais confi\u00e1veis na transmiss\u00e3o de cren\u00e7as e\/ou conhecimento, pois sua palavra tem f\u00e9 p\u00fablica. Por exemplo, em alguns pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de se conseguir qualquer credibilidade nos tribunais para acusar um homem de estupro, sendo mulher. \u00c9 necess\u00e1rio que se tenha um homem como testemunha, pois a palavra da mulher n\u00e3o tem valor legal (SOLNIT, 2017). Essas s\u00e3o quest\u00f5es referentes a atribui\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a epist\u00eamica no testemunho de outras pessoas. A Epistemologia do Testemunho assume que o testemunho \u00e9 uma fonte de conhecimento. Confiar nos atos de fala de outros seres humanos de modo a adquirir conhecimento \u00e9 uma pr\u00e1tica disseminada, mas quest\u00f5es sociais interferem na atribui\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a, podendo gerar injusti\u00e7a epist\u00eamica. No exemplo do tribunal, os atos de fala proferidos por uma mulher n\u00e3o s\u00e3o considerados fonte de conhecimento, mas quando proferidos por um homem s\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Feministas t\u00eam considerado confian\u00e7a epist\u00eamica de maneira mais ampla do que apenas mera confian\u00e7a nas palavras de outra pessoa. Confian\u00e7a epist\u00eamica tem sido vista de uma perspectiva relacional e interpessoal, levando em conta os benef\u00edcios epist\u00eamicos que podem resultar de uma confian\u00e7a profunda e os danos epist\u00eamicos causados por climas de desconfian\u00e7a (GRASSWICK, 2017). As feministas t\u00eam buscado entender o papel da confian\u00e7a nas trocas de testemunho bem-sucedidas, mas tamb\u00e9m t\u00eam avaliado como rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a inadequadas podem prejudicar nossos projetos epist\u00eamicos. Foi a partir da perspectiva feminista que se compreendeu a relev\u00e2ncia de considerar a influ\u00eancia do poder social em nossas atribui\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a epist\u00eamica (GRASSWICK, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Epistem\u00f3logas feministas defendem a necessidade de se considerar a posi\u00e7\u00e3o social dos\/as agentes cognitivos. A posi\u00e7\u00e3o social \u00e9 determinante para o que e como conhecemos. Pessoas socialmente privilegiadas experienciam o mundo a partir de sua realidade privilegiada, entretanto universalizam estas experi\u00eancias particulares do social, legitimando-as como conhecimento objetivo. Mas, quem s\u00e3o os\/as privilegiados\/as?&nbsp; Na hierarquia social, o homem branco cisg\u00eanero e heterossexual. \u00c2ngela Davis, em <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe <\/em>(2013),<em> <\/em>exp\u00f5e a liga\u00e7\u00e3o entre a supremacia branca e masculina que fundamenta o heteropatriarcado de supremacia branca. Dados emp\u00edricos corroboram a exist\u00eancia de privil\u00e9gios para homens e brancos\/as. Em levantamento que analisa diferen\u00e7as salariais descobriu-se que homens brancos com ensino superior t\u00eam sal\u00e1rio m\u00e9dio 159% maior do que mulheres negras que tamb\u00e9m cursaram faculdade. As mulheres negras tamb\u00e9m recebem menos do que homens negros e do que mulheres brancas (PAPP; LIMA; GERBELLI, 2020). A suposta neutralidade apresentada pelo conhecimento que se sup\u00f5e universal e descorporificado mascara suas origens dominantes. As feministas denunciam esta situa\u00e7\u00e3o, questionando a suposta neutralidade e universalidade do conhecimento, e destacaram como experi\u00eancias de grupos oprimidos podem servir como base para o desenvolvimento de percep\u00e7\u00f5es opostas a esta compreens\u00e3o dominante do social (GRASSWICK, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas autoras t\u00eam destacado como rela\u00e7\u00f5es de poder acabam influenciando rela\u00e7\u00f5es de autoridade epist\u00eamica. Defende-se que nossa forma de identificar bons informantes pode ser influenciada por preconceitos ou manipulada pelos interesses de informantes mal-intencionados. Miranda Fricker (1998) defende que a posi\u00e7\u00e3o social do sujeito exerce influ\u00eancia quando se concede confian\u00e7a. Segundo a autora, pode-se considerar algu\u00e9m fidedigno pelo simples fato desta pessoa possuir uma posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio no meio em que vive. A isso ela nomeia <em>mera credibilidade <\/em>(<em>mere credibility<\/em>). Possuir mera credibilidade \u00e9 diferente de possuir credibilidade e autoridade racional. Algu\u00e9m que \u00e9 fidedigno (<em>trustworthy<\/em>) e competente (<em>competent<\/em>) tem autoridade racional, e se possuir as propriedades indicadoras dessas caracter\u00edsticas possui credibilidade (<em>credibility<\/em>). Mas mera credibilidade \u00e9 diferente de credibilidade, significa que o sujeito nem \u00e9 confi\u00e1vel, nem competente, mas por algum motivo lhe est\u00e3o concedendo autoridade. Em um heteropatriarcado de supremacia branca \u00e9 de se esperar que a atribui\u00e7\u00e3o de autoridade e\/ou confian\u00e7a epist\u00eamica seja generificada e derive em injusti\u00e7as epist\u00eamicas contra minorias. Em decorr\u00eancia disso, injusti\u00e7a epist\u00eamica \u00e9 uma tem\u00e1tica de interesse para as epistem\u00f3logas feministas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Epistemologia Feminista volta sua aten\u00e7\u00e3o exatamente para as formas como g\u00eanero e outras opress\u00f5es (classe, ra\u00e7a, etc.)<s>,<\/s> influenciam nas atribui\u00e7\u00f5es de autoridade epist\u00eamica. Consideram o impacto destas influ\u00eancias em modelos gerais de conhecimento; na posi\u00e7\u00e3o epist\u00eamica dos\/as conhecedores\/as; nas afirma\u00e7\u00f5es que comunidades epist\u00eamicas aceitam e devem aceitar como cr\u00edveis; e em como isso afeta a distribui\u00e7\u00e3o do conhecimento na sociedade. Assim, assumem que alguns desses efeitos constituem injusti\u00e7a epist\u00eamica contra membros de grupos subordinados (ANDERSON, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conhecimento \u00e9 um bem coletivo. Os seres humanos t\u00eam necessidade de adquirir cren\u00e7as verdadeiras, e para isto precisam de bons informantes que os auxiliem neste empreendimento. Assim, identificar bons informantes \u00e9 crit\u00e9rio para atribui\u00e7\u00e3o de autoridade epist\u00eamica. Bons informantes devem ser competentes, fidedignos e ter propriedades indicadoras de um bom informante. Ser competente significa que um informante deve acreditar que p se p \u00e9 o caso, e n\u00e3o acreditar que p se n\u00e3o p \u00e9 o caso. Para que um informante seja fidedigno, deve haver um canal de comunica\u00e7\u00e3o aberto entre ele e a pessoa a quem ele informa; ambos devem falar a mesma linguagem. As propriedades indicadoras s\u00e3o sinal da presen\u00e7a de fidedignidade e compet\u00eancia em um informante (FRICKER, 1998).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"290\" height=\"445\" class=\"wp-image-1100\" style=\"width: 150px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/51KvDfnjlmL._SX342_SY445_QL70_ML2_.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/51KvDfnjlmL._SX342_SY445_QL70_ML2_.jpg 290w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/51KvDfnjlmL._SX342_SY445_QL70_ML2_-196x300.jpg 196w\" sizes=\"(max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fricker (1998, p. 167) considera que as condi\u00e7\u00f5es que ela prop\u00f5e para identificar bons informantes podem ser \u201cinocentemente fal\u00edveis\u201d ou mesmo \u201cvulner\u00e1veis \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o individual deliberada\u201d. H\u00e1 uma norma de credibilidade (<em>norm of credibility<\/em>), utilizada para distinguir entre bons e maus informantes, segundo a qual a autoridade epist\u00eamica ser\u00e1 atribu\u00edda apenas \u00e0queles informantes que possuem propriedades indicadoras relevantes. Mas, nas pr\u00e1ticas sociais a concess\u00e3o de autoridade epist\u00eamica \u00e9 influenciada por rela\u00e7\u00f5es de poder. Preconceitos e desvantagens relacionados a identidades sociais das pessoas podem corromper a norma de credibilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fricker (2007) identifica duas formas de injusti\u00e7a epist\u00eamica: injusti\u00e7a testemunhal e injusti\u00e7a hermen\u00eautica. Quando se nega credibilidade a um falante por causa de um preconceito relacionado a sua identidade social, decorre-se em <em>injusti\u00e7a testemunhal<\/em>. Injusti\u00e7a testemunhal est\u00e1 diretamente ligada a n\u00e3o atribui\u00e7\u00e3o de credibilidade em fun\u00e7\u00e3o de preconceitos contra o grupo social a que a pessoa pertence. A injusti\u00e7a hermen\u00eautica ocorre quando os recursos interpretativos dispon\u00edveis a uma comunidade tornam as experi\u00eancias de uma pessoa inintelig\u00edveis, devido \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o epist\u00eamica dessa pessoa ou de seu grupo social da participa\u00e7\u00e3o em pr\u00e1ticas de constru\u00e7\u00e3o de significado. Anderson (2015) exemplifica esse tipo de injusti\u00e7a: por muito tempo mulheres foram taxadas de mal-humoradas ou hipersens\u00edveis por se ofenderem com piadas, investidas ou elogios grosseiros, pois o conceito de ass\u00e9dio sexual n\u00e3o estava dispon\u00edvel para nomear corretamente este tipo de atitude advinda dos homens. Isso ocorria porque as mulheres n\u00e3o podiam construir significados a partir de suas perspectivas, de modo a tornar intelig\u00edveis suas experi\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Epistemologia Feminista Negra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Epistemologia Feminista Negra reflete o ponto de vista das mulheres negras, buscando produzir conhecimento a partir do grupo que a criou. Os homens brancos ricos e heterossexuais t\u00eam, historicamente, negligenciado o que \u00e9 produzido \u00e0s margens, negando o <em>status <\/em>de conhecimento a tudo que n\u00e3o reproduz seus interesses. O conhecimento hegem\u00f4nico, apresentado como universal, \u00e9 na verdade o ponto de vista deste grupo dominante. Patricia Hill Collins (2019) destaca como resultado disso a distor\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias de mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img decoding=\"async\" width=\"241\" height=\"346\" class=\"wp-image-1102\" style=\"width: 150px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/51EOGE5HPL._SY344_BO1204203200_.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/51EOGE5HPL._SY344_BO1204203200_.jpg 241w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/51EOGE5HPL._SY344_BO1204203200_-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 241px) 100vw, 241px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pensamento feminista negro norte-americano reflete os temas de interesse e as viv\u00eancias das mulheres negras, dentre eles o trabalho, a fam\u00edlia, a maternidade e o ativismo pol\u00edtico. O desafio que se apresenta para as mulheres negras n\u00e3o \u00e9 pequeno, visto que o mundo todo foi estruturado a partir do ponto de vista masculino branco e heterossexual, o conhecimento por elas produzido \u00e9 um conhecimento subjugado. A forma encontrada pelas afro-americanas foi utilizar da m\u00fasica, da literatura e de conversas e comportamentos di\u00e1rios para construir uma consci\u00eancia feminista negra (COLLINS, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Patricia Hill Collins (2019) considera que a forma\u00e7\u00e3o dos cientistas sociais no campo hegem\u00f4nico de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento impossibilita estudar o conhecimento subjugado do ponto de vista de uma mulher negra. Grupos subordinados precisam recorrer a caminhos alternativos para desenvolverem um ponto de vista pr\u00f3prio. E as mulheres negras, atrav\u00e9s do pensamento feminista negro produzem conhecimento subjugado, criando autodefini\u00e7\u00f5es e autoavalia\u00e7\u00f5es que n\u00e3o reproduzem as imagens de controle socialmente impostas a elas pelo heteropatriarcado de supremacia branca. A autodefini\u00e7\u00e3o consiste em questionar o processo de valida\u00e7\u00e3o do conhecimento pol\u00edtico que resultou em imagens estereotipadas das mulheres negras, enquanto a autoavalia\u00e7\u00e3o destaca as autodefini\u00e7\u00f5es das mulheres negras, substituindo as imagens estereotipadas por imagens aut\u00eanticas (COLLINS, 2016, p. 102).&nbsp; A partir disso, as mulheres negras criam meios alternativos de produzir e validar o conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em ambientes acad\u00eamicos, homens brancos costumam reproduzir estere\u00f3tipos destinados \u00e0s mulheres negras. Como afirma Kilomba (2019, p. 50) \u201cconceitos de conhecimento, erudi\u00e7\u00e3o e ci\u00eancia est\u00e3o intrinsecamente ligados ao poder e \u00e0 autoridade racial\u201d. \u00c0quelas que tentam promover o pensamento feminista negro e o conhecimento produzido atrav\u00e9s dele costumam ser negligenciadas do processo de valida\u00e7\u00e3o do conhecimento, pois esse refor\u00e7a a hegemonia dos homens brancos ricos e heterossexuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img decoding=\"async\" width=\"181\" height=\"278\" class=\"wp-image-1103\" style=\"width: 150px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/download.jpeg\" alt=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kilomba relata em seu livro <em>Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o: epis\u00f3dios de racismo cotidiano<\/em> (2019) a recep\u00e7\u00e3o de sua pesquisa na universidade em que trabalhava. Recorrentemente, ouvia que seu trabalho era interessante, mas subjetivo, acient\u00edfico, pessoal, emocional, parcial. Uma colega branca chegou a afirmar que ela interpretava demais, devia \u201cachar que \u00e9 a<em> rainha da interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d (p. 55, <em>grifos da autora<\/em>). Ser a <em>rainha da interpreta\u00e7\u00e3o<\/em> significava extrapolar as normas da epistemologia tradicional e produzir conhecimento inv\u00e1lido. Kilomba ressalta que tais posicionamentos tamb\u00e9m s\u00e3o proferidos por homens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es feministas, mas naquele momento vinham de uma mulher branca para uma mulher negra, o que evidencia a profunda intersec\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e g\u00eanero. Estes coment\u00e1rios, segundo a autora, s\u00e3o um convite para que intelectuais negras retornem a seus lugares, \u201cnas margens, onde seus corpos s\u00e3o vistos como \u2018apropriados\u2019 e \u2018em casa\u2019\u201d (p. 56-57). S\u00e3o coment\u00e1rios de \u201ccontrole e intimida\u00e7\u00e3o que certamente logram sucesso em silenciar vozes oprimidas\u201d (p. 57). Por outro lado, os corpos brancos est\u00e3o sempre em seu lugar, s\u00e3o \u201cuniversais\u201d. Pertencem tanto a Europa, quanto a \u00c1frica, est\u00e3o sempre \u201cem casa\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mulheres negras h\u00e1 muito tempo criticam o conhecimento hegem\u00f4nico e seus ideais de objetividade e universalidade, mas como os espa\u00e7os acad\u00eamicos s\u00e3o dominados por homens brancos ricos elas precisam recorrer a formas alternativas de valida\u00e7\u00e3o de conhecimento. O que ocorre \u00e9 que esses processos alternativos s\u00e3o rejeitados pelo <em>status quo<\/em><strong><em> <\/em><\/strong>e as pesquisas das mulheres negras s\u00e3o apontadas como pouco confi\u00e1veis, sem credibilidade e subjetivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Collins (2019) aponta que uma maneira de excluir a maior parte das mulheres negras do processo de valida\u00e7\u00e3o do conhecimento \u00e9 permitir que algumas fa\u00e7am parte dos espa\u00e7os hegem\u00f4nicos de valida\u00e7\u00e3o. Essas devem seguir os protocolos institu\u00eddos pelos homens brancos e perpetuar imagens de controle de mulheres negras. As imagens de controle apontadas por Collins s\u00e3o a de <em>mammies<\/em>, matriarcas e jezeb\u00e9is. O estere\u00f3tipo de <em>mammies<\/em> vem da imagem de mulheres negras que trabalhavam na casa dos brancos durante a escravid\u00e3o, e foi usada para criar uma falsa imagem da mulher negra feliz mesmo sendo escravizada. O estere\u00f3tipo de Jezebel \u00e9 a hipersexualiza\u00e7\u00e3o das mulheres negras, retratadas como prom\u00edscuas. L\u00e9lia Gonzales, em <em>Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira <\/em>(1984), tamb\u00e9m questiona como foi que n\u00f3s conseguimos estabelecer no Brasil uma identifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte do oprimido com o opressor, introjetando completamente o mito da democracia racial. E destaca os estere\u00f3tipos de mulata, dom\u00e9stica e m\u00e3e preta imputados \u00e0s negras brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mulheres negras que produzem e disseminam o pensamento feminista negro v\u00e3o sendo isoladas dentro da academia. Muitas acad\u00eamicas negras n\u00e3o querem e n\u00e3o podem legitimar o seu conhecimento dentro das normas hegem\u00f4nicas, mesmo sabendo que ele \u00e9 verdadeiro e amplamente compartilhado entre mulheres negras (COLLINS, 2019). A autoridade epist\u00eamica \u00e9 negada \u00e0s mulheres negras mesmo quando o t\u00f3pico de pesquisa \u00e9 suas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A academia, espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, n\u00e3o \u00e9 um lugar neutro, mas um espa\u00e7o de privil\u00e9gio branco onde negras\/os s\u00e3o silenciadas\/os. Neste espa\u00e7o prevalece a objetifica\u00e7\u00e3o de negras\/os, que s\u00e3o constru\u00eddas\/os e representadas\/os como <em>outras\/os<\/em>. Resta a negras\/os produzir conhecimento independente, que vai ser visto nos espa\u00e7os acad\u00eamicos como subjetivo e parcial, portanto inv\u00e1lido. \u201cQualquer forma de saber que n\u00e3o se enquadre na ordem euroc\u00eantrica de conhecimento tem sido continuamente rejeitado, sob o argumento de n\u00e3o constituir ci\u00eancia cred\u00edvel\u201d (KILOMBA, 2019, p. 53).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o silenciamento de mulheres e homens negras\/os na academia, L\u00e9lia Gonzales (1984, p. 225) afirma que esses est\u00e3o no lixo da sociedade brasileira, mas que devem assumir&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[&#8230;] o risco [&#8230;] do ato de falar com todas as implica\u00e7\u00f5es. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans, \u00e9 aquele que n\u00e3o tem fala pr\u00f3pria, \u00e9 a crian\u00e7a que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos), que neste trabalho assumimos nossa pr\u00f3pria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, escritora negra brasileira, tamb\u00e9m ressalta a import\u00e2ncia do ato de falar quando diz \u201caquela imagem da escrava Anast\u00e1cia, eu tenho dito muito que a gente sabe falar pelos orif\u00edcios da m\u00e1scara e \u00e0s vezes a gente fala com tanta pot\u00eancia que a m\u00e1scara \u00e9 estilha\u00e7ada. E eu acho que o estilha\u00e7amento \u00e9 um s\u00edmbolo nosso, porque nossa fala for\u00e7a a m\u00e1scara\u201d (<em>apud <\/em>RIBEIRO, 2017, p. 43).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m no Brasil a intelectual negra Sueli Carneiro (1993, 2005) destaca que negras\/os s\u00e3o tratadas\/os na academia apenas como objetos de estudo, e colocadas\/os na condi\u00e7\u00e3o de subalternas\/os. E prop\u00f5e uma outra forma de analisar a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural brasileira, que difere daquela formulada por homens brancos ricos. Ela a pensa a partir da di\u00e1spora de negras\/os africanas\/os, negando os mitos da democracia racial, da cordialidade e da mesti\u00e7agem, at\u00e9 hoje entranhados no imagin\u00e1rio de brasileiras\/os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"219\" height=\"230\" class=\"wp-image-1104\" style=\"width: 150px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/download-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/download-1.jpeg 219w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/10\/download-1-24x24.jpeg 24w\" sizes=\"(max-width: 219px) 100vw, 219px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Collins (2019) destaca a import\u00e2ncia da experi\u00eancia vivida como crit\u00e9rio de significado entre mulheres negras. Por vivenciarem intersec\u00e7\u00f5es de opress\u00f5es entre ra\u00e7a e g\u00eanero, muitas vezes somadas a classe e sexualidade, as mulheres negras se percebem como oprimidas e se utilizam da sabedoria e da experi\u00eancia como mecanismos de sobreviv\u00eancia. Por isso, tendem a conceder maior credibilidade \u00e0quelas\/es que viveram as experi\u00eancias nas quais se dizem especialistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Epistemologia Feminista Negra aposta nas ra\u00edzes africanas do uso do di\u00e1logo para adequa\u00e7\u00e3o das metodologias utilizadas na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. A tradi\u00e7\u00e3o africana utiliza o di\u00e1logo como ferramenta para tornar-se humano. Mas, di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 debate de ideias contr\u00e1rias, trata-se de \u201cintera\u00e7\u00f5es verbais e n\u00e3o verbais espont\u00e2neas entre falante e ouvinte, em que todas as manifesta\u00e7\u00f5es do falante, ou \u201cchamamentos\u201d, s\u00e3o pontuadas por manifesta\u00e7\u00f5es ou \u201crespostas\u201d do ouvinte, esse modo de discurso negro permeia toda a cultura afro-americana\u201d (COLLINS, 2019, p. 417).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando as mulheres afro-americanas usam o di\u00e1logo como forma de avaliar as reivindica\u00e7\u00f5es de conhecimento trata-se de <em>conhecimento conectado<\/em>. \u201cEstudiosas feministas argumentam que homens e mulheres s\u00e3o socializados para buscar tipos diferentes de autonomia \u2013 no caso deles, autonomia baseada na separa\u00e7\u00e3o; no caso delas, autonomia baseada na conex\u00e3o\u201d (COLLINS, 2019, p. 419).<strong> <\/strong>Belenky, Clinchy, Goldberger e Tarule realizaram um estudo para identificar as cren\u00e7as epistemol\u00f3gicas das mulheres, que resultou no artigo intitulado <em>Women\u2019s ways of knowing: The development of self, voice, and mind <\/em>[Modos de conhecimento das mulheres: o desenvolvimento do eu, da voz e da mente] (1997). O objetivo da pesquisa era compreender \u201ccomo as mulheres sabem o que sabem\u201d. O estudo foi realizado com 135 mulheres de uma variedade de contextos e ambientes educacionais, que foram questionadas sobre t\u00f3picos como autoimagem, relacionamentos, tomada de decis\u00e3o, escolhas morais, crescimento pessoal e aspira\u00e7\u00f5es para o futuro.&nbsp; A partir deste estudo foi poss\u00edvel notar que as mulheres cultivam e valorizam maneiras particulares de conhecer (KHINE, 2010).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo distinguiu dois tipos de conhecimento procedimental (aquele que requer um pensamento consciente e sistem\u00e1tico): o conectado e o separado. As\/os agentes cognitivas\/os conectadas\/os s\u00e3o mais emp\u00e1ticas\/os e receptivas\/os, enquanto as\/os separadas\/os s\u00e3o mais cr\u00edticas\/os e distantes. O objetivo da\/o agente cognitiva\/o conectada\/o \u00e9 compreender e ser compreendida\/o, e n\u00e3o convencer ou ser convencida\/o (KHINE, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\/o agente dox\u00e1stica\/o conectada\/o busca entender a posi\u00e7\u00e3o da\/o outra\/o, ao inv\u00e9s de avali\u00e1a-la e testar sua validade. Neste modo de conhecer o sentimento \u00e9 parte do processo. J\u00e1 a\/o agente dox\u00e1stica\/o separada\/o busca a discuss\u00e3o e o debate, insere a d\u00favida e procura falhas de racioc\u00ednio. \u00c9 o modo de conhecer que relacionamos ao pensamento cr\u00edtico e ao m\u00e9todo cient\u00edfico. No estudo de Belenky et. al. foi aplicado um instrumento de pesquisa contendo 50 itens que apontavam para a distin\u00e7\u00e3o entre conhecimento separado e conhecimento conectado. O resultado foi que as mulheres eram mais propensas a pontuar alto em conhecimento conectado e baixo em conhecimento separado. O estudo aponta para diferen\u00e7as genereficadas nas maneiras de conhecer, mas de modo nenhum est\u00e1 relacionado a habilidades ou capacidades intelectuais naturais. Estas maneiras de conhecer podem ser aprendidas e aperfei\u00e7oadas, e ainda que relacionadas ao g\u00eanero, n\u00e3o s\u00e3o ditadas por ele (KHINE, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A epistemologia feminista negra se assemelha a esta perspectiva que valoriza o conhecimento fundado na conex\u00e3o entre as pessoas. Adota-se a perspectiva de escutar os pontos de vista da\/o outra\/o, trata-se de uma \u00e9tica do cuidar como metodologia de valida\u00e7\u00e3o do conhecimento. Collins (2019, p. 420) destaca tr\u00eas componentes dessa \u00e9tica do cuidar: a singularidade individual, que \u201c\u00e9 ilustrada pelo valor atribu\u00eddo \u00e0 expressividade pessoal nas comunidades afro-americanas\u201d; a presen\u00e7a da emo\u00e7\u00e3o nos di\u00e1logos, que \u201cindica que um falante acredita na validade de um argumento\u201d; e, por fim, a empatia, escritoras negras muitas vezes apostam no aumento da empatia como uma parte da \u00e9tica do cuidar\u201d (p. 421).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Epistemologia Feminista Negra tamb\u00e9m aposta em uma \u00e9tica da responsabilidade pessoal, que demanda que as pessoas se mostrem respons\u00e1veis por suas reivindica\u00e7\u00f5es de conhecimento. Leva-se em considera\u00e7\u00e3o a conex\u00e3o moral e \u00e9tica dos indiv\u00edduos que reivindicam conhecimento. A Epistemologia Feminista Negra n\u00e3o se prop\u00f5e neutra e nem objetiva, ao contr\u00e1rio, \u00e9 engajada com pesquisas que almejem justi\u00e7a social, e considera que \u201cemo\u00e7\u00e3o, \u00e9tica e raz\u00e3o s\u00e3o componentes interconectados e essenciais na avalia\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00f5es de conhecimento\u201d (COLLINS, 2019, p. 425).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Feminismo na Ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a partir da segunda onda do feminismo que quest\u00f5es relativas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica come\u00e7aram a ser pautadas pelas feministas. Ao longo dos anos 1970 o feminismo come\u00e7a a ganhar terreno nas discuss\u00f5es acad\u00eamicas. Na Filosofia, o debate inicia-se na \u00c9tica e na Filosofia Pol\u00edtica, mas logo feministas que trabalhavam nas mais diversas \u00e1reas da pesquisa acad\u00eamica come\u00e7aram a notar que seus campos traziam introjetado o sexismo e o androcentrismo. Muitas destas te\u00f3ricas apontaram a inefic\u00e1cia das metodologias utilizadas em suas \u00e1reas de pesquisa para explicar suas experi\u00eancias enquanto mulheres e suas percep\u00e7\u00f5es feministas, voltando-se assim para quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas de modo a tentar dar conta da modifica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria no interior da pesquisa cient\u00edfica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1986, Harding lan\u00e7a o livro <em>The Science Question in Feminism <\/em>[A quest\u00e3o da ci\u00eancia no feminismo], no qual estabelece uma distin\u00e7\u00e3o entre as tr\u00eas principais posi\u00e7\u00f5es em epistemologia feminista: o empirismo feminista, a teoria do ponto de vista feminista e o p\u00f3s-modernismo feminista. Harding define o empirismo feminista como a abordagem que defende que os preconceitos sexistas e androc\u00eantricos na ci\u00eancia s\u00e3o o resultado de \u201cm\u00e1\u201d ci\u00eancia e podem ser corrigidos atrav\u00e9s da ades\u00e3o a m\u00e9todos cient\u00edficos tradicionais, que permitiriam configurar um quadro objetivo e eliminar vieses de g\u00eanero (as principais representantes desta perspectiva s\u00e3o BLEIER, 1984; HUBBARD, 1983; LONGINO E DOELL, 1983).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 segundo a teoria do ponto de vista feminista, o engajamento das feministas e seu acesso \u00e0 vida das mulheres apontam para um ponto de vista epistemicamente privilegiado sobre a realidade social (suas principais representantes s\u00e3o HARTSOCK, 1983; ROSE, 1983; SMITH, 1974). Segundo a teoria do ponto de vista, o fato de vivermos em uma sociedade excludente faz com que aquelas pessoas que s\u00e3o marginalizadas possuam um ponto de vista diferente dos demais, em fun\u00e7\u00e3o de suas experi\u00eancias e lutas. Essas pessoas podem questionar os relatos dominantes a partir de seus pontos de vista. Como foram historicamente silenciadas, devemos ouvi-las no processo de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. As mulheres, enquanto parte destes grupos, t\u00eam experi\u00eancias espec\u00edficas que foram sistematicamente ignoradas na pesquisa e produ\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;O feminismo p\u00f3s-moderno \u00e9 c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es universais da raz\u00e3o e ao progresso da ci\u00eancia, e pauta-se apenas na solidariedade pol\u00edtica entre locais sociais para fundamentar descobertas feministas, n\u00e3o havendo fundamentos epistemol\u00f3gicos independentes (suas principais representantes s\u00e3o FLAX, 1990; HARAWAY, 1991). \u00c9 importante salientar que se trata de termos <em>guarda-chuva<\/em>, dentro dos quais se pode encaixar diferentes posicionamentos, mas que, em geral, coincidem com a breve defini\u00e7\u00e3o apresentada acima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grasswick (2018) aponta que ao longo dos anos 1980 e in\u00edcio dos anos 1990, os debates em Epistemologia Feminista continuaram a se proliferar e as categorias formuladas por Harding j\u00e1 n\u00e3o deram mais conta de enquadrar todas as vis\u00f5es e perspectivas formuladas. Hoje em dia, muitos trabalhos cruzam as fronteiras propostas por Harding. O pr\u00f3prio empirismo feminista, formulado na d\u00e9cada de 1990, n\u00e3o tem muito em comum com a categoriza\u00e7\u00e3o proposta pela autora, pois n\u00e3o reduz o sexismo e androcentrismo na ci\u00eancia a ci\u00eancia ruim, e tampouco considera que os m\u00e9todos tradicionais da ci\u00eancia possam dar conta sozinhos dos problemas oriundos desta ci\u00eancia androc\u00eantrica. A pr\u00f3pria Sandra Harding, ao desenvolver sua perspectiva, apresenta uma posi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 entre a teoria do ponto de vista e o p\u00f3s-modernismo feminista (HARDING, 1991).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ADDELSON, K. (1983). The Man of Professional Wisdom. 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(1998). Rational Authority and Social Power: Towards a Truly Social Epistemology. <em>Proceedings of the Aristotelian Society<\/em>, 19(2), p. 159\u201377.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FRICKER, M.; GRIMSHAW, J.&nbsp; (2010). Feminismo e Filosofia. In: BUNNIN, N.; TSUI-JAMES, E. P. <em>Comp\u00eandio de Filosofia<\/em>. 3\u00aa ed. Tradu\u00e7\u00e3o Luiz Paulo Rouanet. S\u00e3o Paulo: Loyola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FRICKER, M. (1998). Rational Authority and Social Power: Towards a Truly Social Epistemology. <strong>Proceedings of the Aristotelian Society<\/strong>, 19(2), p. 159\u201377.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FRICKER, M. (2007) <em>Epistemic Injustice<\/em>. Oxford: Oxford University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FRICKER, M.; GRIMSHAW, J. (2010). Feminismo e Filosofia. In: BUNNIN, N.; TSUI-JAMES, E. P. <em>Comp\u00eandio de Filosofia<\/em>. 3\u00aa ed. Tradu\u00e7\u00e3o Luiz Paulo Rouanet. S\u00e3o Paulo: Loyola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GILLIGAN, C. <em>In a Different Voice<\/em>: Psychological Theory and Women\u201fs Development. Cambridge: Harvard, 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GRASSWICK, H. (2017). Trust and Testimony in Feminist Epistemology. In: <em>The Routledge Companion to Feminist Philosophy<\/em>. Abingdon: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GRASSWICK, H. (2018). <em>Feminist Social Epistemology. <\/em>Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/feminist-social-epistemology\/&gt;. Acessado em: 18 de fevereiro de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GOLDMAN, A.; O\u2019CONNOR, C. (2019). <em>Social Epistemology<\/em>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/epistemology-social\/#WhatSociEpis. Acesso em: 24 de setembro de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GONZALEZ, L. (1984). Racismo e sexismo na cultura brasileira. 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(2020). <em>Na mesma profiss\u00e3o, homem branco chega a ganhar mais que o dobro que mulher negra, diz estudo<\/em>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/g1.globo.com\/economia\/concursos-e-emprego\/noticia\/2020\/09\/15\/na-mesma-profissao-homem-branco-chega-a-ganhar-mais-que-o-dobro-da-mulher-negra-diz-estudo.ghtml. Acessado em: 23 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROONEY, P. (1991). Gendered Reason<em>: <\/em>Sex Metaphor and Conceptions of Reason.<em>Hypatia <\/em>6, n. 2, p. 77-193.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROONEY, P. (1995). Racionality and Politics os Gender Difference. <em>Metaphilosophy <\/em>26, n.1 e 2, p. 22-45.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROSE, H. (1983). Hand, Brain and Heart: A Feminist Epistemology for the Natural Sciences.&nbsp;<em>Signs: Journal of Women in Culture and Society<\/em>, 9(1), pp. 73\u201390.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RORTY, R. (1979) [1995]. <em>A filosofia e o espelho da natureza<\/em>. Trad. Antonio Tr\u00e2nsito; revis\u00e3o C\u00e9sar Ribeiro de Almeida. Rio de Janeiro: Relume-Dumar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SMITH, D. (1974) Women\u2019s Perspective as a Radical Critique of Sociology. <em>Sociological Inquiry<\/em>, 44, pp. 7\u201313.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SMITH, D. (1987). <em>The Everyday World as Problematic:<\/em><strong> <\/strong>A Feminist Sociology. Toronto: University of Toronto Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SOLNIT, R. (2017). <em>Os Homens Explicam Tudo Para Mim<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Isa Mara Lando. S\u00e3o Paulo: Cultrix.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STEUP, M.; NETA, R. (2020). <em>Epistemology. <\/em>Dispon\u00edvel em: https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/epistemology\/#WhatKnow. Acesso em: 24 de setembro de 2021.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1092","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1092","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1092"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1092\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1109,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1092\/revisions\/1109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}