{"id":1145,"date":"2021-11-10T16:03:06","date_gmt":"2021-11-10T19:03:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1145"},"modified":"2021-11-10T17:08:45","modified_gmt":"2021-11-10T20:08:45","slug":"macrina","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/macrina\/","title":{"rendered":"Macrina"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Laura Carolina Dur\u00e1n &#8211; Professora da Universidade de Buenos Aires<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/11\/Macrina-1.pdf\">PDF &#8211; Macrina<\/a><\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00f5es sobre sua vida<\/strong><br \/>O L\u00e9xico dos Nomes dos Santos (Lexikon der Namen und Heiligen) diz sobre Macrina, a jovem: \u201cela nasceu por volta de 327 em Cesareia, na Capad\u00f3cia (leste da \u00c1sia Menor). Ela era a irm\u00e3 mais velha de Bas\u00edlio de Ces\u00e1rea e de Greg\u00f3rio de Nisa. Ap\u00f3s a morte de seu noivo, ela se retirou com sua m\u00e3e Em\u00e9lia e alguns ex-criados para uma fazenda da fam\u00edlia no rio \u00cdris perto de Anesi, onde viveu uma vida de contempla\u00e7\u00e3o, ora\u00e7\u00e3o e penit\u00eancia. Greg\u00f3rio de Nisa elogia-a como uma mulher com forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Ele morreu em cerca de 379-380. Comemora\u00e7\u00e3o: 19 de julho\u201d(Wimmer, Melzer, Gelmi, 2002). Esta breve informa\u00e7\u00e3o destaca aspectos centrais da vida de Macrina, de quem n\u00e3o temos seus pr\u00f3prios escritos, mas seu modo de vida e pensamento nos foi transmitido. A principal fonte de informa\u00e7\u00e3o a este respeito \u00e9 a Vida de Macrina (doravante VM), escrita por Gregorio de Nisa em 381-382. A Carta 19 e o di\u00e1logo Sobre a alma e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio tamb\u00e9m fornecem informa\u00e7\u00f5es, junto com alguns depoimentos de Bas\u00edlio e um epigrama de Greg\u00f3rio Nacianceno (Silvas, 2008, p. X). Em geral, Macrina \u00e9 conhecida como irm\u00e3 de Bas\u00edlio e Greg\u00f3rio, dada a import\u00e2ncia desses dois padres capad\u00f3cios, mas n\u00e3o foi suficientemente considerada com base em seu pr\u00f3prio perfil intelectual e espiritual e no legado que deixou para a posteridade crist\u00e3. A Vida de Macrina foi caracterizada como uma &#8220;biografia filos\u00f3fica&#8221; (Maraval, 1971, pp. 21-23). Greg\u00f3rio refere que se trata de uma carta que se estendeu, dirigida a algu\u00e9m que permanece an\u00f4nimo, companheiro de longas reflex\u00f5es, v\u00e1rias delas centradas na mem\u00f3ria da irm\u00e3. Ele escreve esta obra com a esperan\u00e7a de que &#8220;uma vida dessa natureza n\u00e3o seja esquecida com o passar do tempo&#8221; (VM 1.3, trad. Mateo Seco), desejo que podemos considerar realizado. Greg\u00f3rio entendeu a vida da irm\u00e3 como um modelo a seguir. Ela \u201cascendeu \u00e0 mais alta virtude humana por meio da filosofia\u201d (VM 1.3). Essas duas palavras, virtude e filosofia, tinham uma rela\u00e7\u00e3o especial para os crist\u00e3os do s\u00e9culo IV, uma vez que, na Antiguidade tardia, os fil\u00f3sofos eram entendidos como aqueles que defendiam suas ideias com a sua forma de vida como um todo. A obra est\u00e1 dividida nas seguintes se\u00e7\u00f5es: pr\u00f3logo, informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas, encontro, sepultamento, milagres e ep\u00edlogo. O pr\u00f3logo levanta a quest\u00e3o central de como \u00e9 poss\u00edvel para uma mulher levar uma vida t\u00e3o perto de Deus. Greg\u00f3rio tratou do lugar das mulheres no movimento asc\u00e9tico do s\u00e9culo IV. Afirma no pr\u00f3logo: &#8220;uma mulher era o tema de nosso relato, se \u00e9 que ela pode ser chamada de mulher, porque n\u00e3o sei se conv\u00e9m designar com uma qualidade pertencente \u00e0 natureza a algu\u00e9m que veio a estar acima da pr\u00f3pria natureza&#8221; (VM prol.). Este lema de Greg\u00f3rio est\u00e1 muito pr\u00f3ximo da f\u00f3rmula de G\u00e1latas 3:28 \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais homem nem mulher\u201d, ideia que representa a ant\u00edtese escatol\u00f3gica de G\u00eanesis 1:27 (Deus aos seres humanos \u00e0 sua imagem, \u00e0 imagem de Deus, criou, macho e f\u00eamea os criou).<\/p>\n<p><br \/>Na se\u00e7\u00e3o de dados biogr\u00e1ficos, Greg\u00f3rio destaca os seguintes eventos: o sonho da m\u00e3e pouco antes do nascimento de Macrina, sua educa\u00e7\u00e3o, seu noivado, a decis\u00e3o de continuar uma vida asc\u00e9tica, a transforma\u00e7\u00e3o de seu estilo de vida, a influ\u00eancia sobre seus irm\u00e3os Bas\u00edlio e Pedro, a for\u00e7a em face da adversidade. Entre essas passagens narrativas, s\u00e3o incorporadas descri\u00e7\u00f5es do ideal asc\u00e9tico de vida que, juntamente com eventos externos, esclarecem a figura de Macrina. Greg\u00f3rio v\u00ea o estilo de vida de Macrina como um progresso constante em dire\u00e7\u00e3o a uma santidade cada vez maior, onde as crises e golpes do destino representam oportunidades para se provar e seguir por esse caminho. Ele enumera tr\u00eas figuras femininas que v\u00e3o moldar a vida de Macrina: Macrina, a anci\u00e3 (av\u00f3 paterna), Em\u00e9lia (m\u00e3e) e Tecla (disc\u00edpula de Paulo). A anci\u00e3 Macrina sofreu a \u00faltima persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os no in\u00edcio do s\u00e9culo IV (VM 2.1) e teve seus bens confiscados (VM 20.2). Ela fugiu da persegui\u00e7\u00e3o com sua fam\u00edlia para as florestas montanhosas de Ponto e passou sete anos ali, sofrendo com o clima severo. Duas gera\u00e7\u00f5es depois, seus netos escolheram um estilo de vida muito semelhante, mas voluntariamente. Por outro lado, Macrina, a anci\u00e3, era muito admirada em sua fam\u00edlia por ter recebido forma\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio Taumaturgo, por sua vez instru\u00eddo por Or\u00edgenes. A import\u00e2ncia dos ensinamentos de Greg\u00f3rio Taumaturgo \u00e9 ilustrada na obra que Niceno lhe dedicou (Vida de Greg\u00f3rio Taumaturgo). Macrina leva o nome desta av\u00f3 e o da disc\u00edpula de Paulo, seus nomes p\u00fablicos e secretos, respectivamente. O nome secreto \u00e9 revelado a Em\u00e9lia em uma vis\u00e3o, em que algu\u00e9m de porte mais majestoso do que um homem lhe diz para chamar sua filha por nascer de Tecla (VM 2.3). Como em todas as religi\u00f5es, sonhos e vis\u00f5es desempenham um papel importante no Cristianismo como meio de transmiss\u00e3o da vontade divina. Tecla foi a disc\u00edpula de Paulo cuja hist\u00f3ria foi registrada nos Atos de Paulo e Tecla, ap\u00f3crifos do s\u00e9culo II, e no Simp\u00f3sio ou Sobre a virgindade de Met\u00f3dio de Ol\u00edmpia, o texto que provavelmente mais influenciou a caracteriza\u00e7\u00e3o de Macrina por Greg\u00f3rio (Wilson Kastner, 1979, p. 110). Tecla pregou o Evangelho como ap\u00f3stola e se tornou modelo para todas as mulheres ascetas (Davies, 2001). Greg\u00f3rio, Bas\u00edlio e Greg\u00f3rio de Nazianzo referem-se em v\u00e1rias ocasi\u00f5es a Tecla e suas virtudes. Segundo Greg\u00f3rio, esse nome secreto tem a ver com o modo de vida que sua irm\u00e3 escolheu, j\u00e1 que os nomes s\u00e3o entendidos como portadores de s\u00edmbolos e significados.<\/p>\n<p><br \/>Quanto \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de Macrina, embora n\u00e3o se afirme que tenha aprendido a ler e a escrever, \u00e9 muito prov\u00e1vel que o tenha feito. Na Vida descreve-se o cotidiano mon\u00e1stico: todas as atividades da Macrina, desde levantar-se at\u00e9 deitar, eram acompanhadas pelo canto de salmos (VM 11.2). Por outro lado, a implementa\u00e7\u00e3o de um regime mon\u00e1stico acarreta a necessidade do trabalho manual. Depois de escolher uma vida asc\u00e9tica, Macrina costumava fazer p\u00e3o para a m\u00e3e com as pr\u00f3prias m\u00e3os (VM 5.3), aceitando assim um trabalho realizado por escravas. Macrina e a m\u00e3e decidiram expressamente assumir os trabalhos necess\u00e1rios. Na comunidade feminina fundada por Macrina, atribu\u00eda-se grande import\u00e2ncia ao fato de n\u00e3o haver mais diferen\u00e7a de hierarquia, pois a mesa, a cama e todos os aspectos do cotidiano eram compartilhados (VM 11.1).<\/p>\n<p><br \/>No final da inf\u00e2ncia, Macrina comprometeu-se em casamento. Para as meninas, a idade de 12 anos era o limite entre a inf\u00e2ncia e a idade adulta, e em Biz\u00e2ncio elas geralmente se casavam aos 12 ou 13 anos (Clark, 1981, pp. 13-15, 76ss.; Elm, 1994, p. 141). O candidato selecionado para Macrina tinha conclu\u00eddo os estudos e estava no in\u00edcio da carreira de orador (VM 5), mas o casamento n\u00e3o se concretizou devido ao falecimento do jovem. Os pais tentaram persuadi-la a um novo noivado, mas sem sucesso: &#8220;ela, chamando de casamento a decis\u00e3o do pai, e como se o que j\u00e1 estava decidido realmente tivesse acontecido, decidiu permanecer celibat\u00e1ria&#8221; (VM 5.1), ou seja, Macrina se considera vi\u00fava. Com esta decis\u00e3o, Macrina n\u00e3o atingiu seu objetivo na vida, ao contr\u00e1rio, o verdadeiro caminho come\u00e7a a\u00ed.<br \/>O curso posterior da Vida descreve-a como uma guia. A decis\u00e3o de n\u00e3o se casar tornou-a uma virgem (parth\u00e9nos), que de boa vontade dedica sua vida ao Senhor. A segunda decis\u00e3o foi ficar com a m\u00e3e. M\u00e3e e filha se cuidam mutuamente, a m\u00e3e desempenhava as tarefas educativas e a filha, tarefas manuais e dom\u00e9sticas, enquanto ainda moravam na casa da fam\u00edlia (VM 5.3). A rela\u00e7\u00e3o entre as duas se inverte quando Macrina consegue atrair sua m\u00e3e para sua orienta\u00e7\u00e3o de vida, a filosofia. A fase de ascetismo familiar de Macrina pertence \u00e0 primeira metade do s\u00e9culo IV, enquanto a partida para o p\u00e1ramo, com o in\u00edcio da vida mon\u00e1stica, \u00e0 segunda metade do mesmo s\u00e9culo. Greg\u00f3rio apresenta a vida asc\u00e9tica de sua irm\u00e3 como um progresso constante em dire\u00e7\u00e3o ao objetivo, a uni\u00e3o com Cristo. Mudan\u00e7as internas e externas marcam o progresso. O plano de vida de Macrina adquire grande influ\u00eancia, pois as pessoas ao seu redor decidem se juntar a ela. Greg\u00f3rio se refere \u00e0s mudan\u00e7as externas a partir do exemplo dos servas e escravas que s\u00e3o libertados por Macrina, elevados a \u201cirm\u00e3s e iguais\u201d (VM 7.1), e compartilham o novo estilo de vida. O padr\u00e3o social normal \u00e9 simplesmente anulado, pois n\u00e3o vale mais lutar pela riqueza, mas sim tentar participar da vida dos pobres, do servi\u00e7o m\u00fatuo, que ganha uma nova qualidade pelo fato de se tornar uma ajuda volunt\u00e1ria. Macrina executou a alforria de todos os empregados dom\u00e9sticos. Essa alforria ocorria de duas maneiras: como manumissio in ecclesia (promulgada por dois \u00e9ditos Constantinianos de 316 e 323, um procedimento formalizado) ou como manumissio inter amicos (um escravo era declarado amigo, por carta \u2013 per epistulam \u2013 ou por convite para jantar na mesma mesa \u2014 per mesam). Provavelmente na comunidade de Anesi se praticava essa \u00faltima forma de alforria (Elm 1996: 85 ss.). Isso representa um aspecto do impacto social que teve a implementa\u00e7\u00e3o dessa nova forma de vida. Por outro lado, entre os membros da comunidade, foram admitidas muitas pessoas que sofreram da grande fome dos anos 368\/369 (VM 12.3). Durante esta grande fome, os mosteiros masculinos e femininos no \u00cdris forneciam gr\u00e3os para a popula\u00e7\u00e3o circundante &#8220;de modo que o deserto parecia ter se transformado em cidade pelas multid\u00f5es daqueles que se reuniam&#8221; (VM 12.3, Stathakopoulos 2004). Comunidades de mosteiros foram fundadas no deserto para escapar do barulho e da agita\u00e7\u00e3o da cidade; entretanto, se necess\u00e1rio, o p\u00e1ramo poderia se transformar em cidade. Segundo o que se sabe at\u00e9 hoje, o mosteiro fundado por Macrina \u00e9 um dos mais antigos mosteiros femininos a surgir na \u00c1sia Menor. Na capital, Constantinopla, n\u00e3o havia um \u00fanico mosteiro antes de 384 (Albrecht, 1986, p.119). Os mosteiros de mulheres e homens eram pr\u00f3ximos uns dos outros e tinham muitas conex\u00f5es entre si, embora cada comunidade fosse organizada de forma independente. Das descri\u00e7\u00f5es feitas por Greg\u00f3rio, pode-se deduzir que os dois mosteiros de Anesi tinham uma igreja comum, onde se celebravam os servi\u00e7os (VM 16.1; cf. Cadenhead, 2018, p. 87ss).<\/p>\n<p><br \/>Greg\u00f3rio n\u00e3o informa a data exata do retiro para Ponto. O fato de Macrina continuar a sua vida asc\u00e9tica em Er\u00e9mia \u00e9 muito importante para ele, como se pode ver, por exemplo, na Carta 19, na qual, em primeiro lugar, diz que a sua irm\u00e3 se encontra no deserto do Ponto (Carta 19.7). Em geral se aceitou que Bas\u00edlio foi o primeiro a estabelecer a vida mon\u00e1stica masculina em Ponto e que Macrina mais tarde o seguiu (La Porte, 1982, p. 86; Lowther Clarke, 192, pp. 37-38). No entanto, a Vida nos ensina que aconteceu exatamente ao contr\u00e1rio. Bas\u00edlio foi convertido ao ideal asc\u00e9tico de vida por Macrina (VM 6.1). A funda\u00e7\u00e3o do mosteiro de Macrina n\u00e3o responde aos movimentos anteriores da igreja, pelo contr\u00e1rio, a igreja teve que lidar com este despertar religioso das mulheres, que se desenvolveu de forma independente. Trata-se de um fen\u00f4meno altamente significativo do s\u00e9culo IV: tanto no Oriente quanto no Ocidente, fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas inteiras se entregaram \u00e0 vida asc\u00e9tica, uma transforma\u00e7\u00e3o na qual as mulheres desempenharam um papel central (Giannerelli, 1989, p. 226; Serrato Garrido, 1999).<\/p>\n<p><br \/>A principal caracter\u00edstica da vida asc\u00e9tica pode ser resumida na ideia de \u201cvida angelical\u201d (b\u00edos angelik\u00f3s), ou seja, a imita\u00e7\u00e3o da vida dos anjos (VM 11.2; Frank, 1964). Esta vida na fronteira implica participa\u00e7\u00e3o em ambos os mundos, no mundo da vida humana e no que est\u00e1 acima do humano. Greg\u00f3rio expressa a tens\u00e3o desse contraste em um paradoxo, pois \u201cmesmo vivendo na carne, em semelhan\u00e7a com as potestades incorp\u00f3reas, n\u00e3o estavam marcadas pelo peso do corpo, ao contr\u00e1rio, sua vida era elevada e tendia para cima, desdobrando-se nas alturas junto com as potestades celestiais \u201d(VM 11.3). Segundo Greg\u00f3rio, Macrina transcendeu a natureza humana comum porque n\u00e3o temia a imin\u00eancia de sua morte (VM 18.1, 22.3; Frank 1964). Aqueles que vivem como parth\u00e9nos j\u00e1 est\u00e3o colhendo na vida presente o que foi prometido para a ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que aumenta a assimila\u00e7\u00e3o aos seres sobrenaturais, a filosofia progride (VM 11.4). Aqui n\u00e3o h\u00e1 medida a ser alcan\u00e7ada, por\u00e9m o esfor\u00e7o pela filosofia, que se realiza por meio do exerc\u00edcio das virtudes, s\u00f3 pode ir al\u00e9m superando o que j\u00e1 foi realizado. Esta descri\u00e7\u00e3o resume o que Greg\u00f3rio e Macrina entendem por filosofia (VM 11.2).<\/p>\n<p><br \/>A Vida relata dois milagres alcan\u00e7ados pelas ora\u00e7\u00f5es de Macrina, ambos curas: da pr\u00f3pria Macrina e de uma menina com uma doen\u00e7a ocular (VM 31.1, 36.2). Os milagres n\u00e3o eram entendidos como um sinal da pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o no poder, mas como um testemunho do poder e da presen\u00e7a de Cristo. Atrav\u00e9s da sua f\u00e9 e modo de vida, Macrina torna-se a verdadeira seguidora de Jesus e dos seus disc\u00edpulos, recebendo os mesmos dons da gra\u00e7a que eles. Como mulher, ela participa da nova realidade testemunhada no Evangelho e a difunde por meio de milagres (Albrecht, 1986, pp. 100-101).<\/p>\n<p>Em um ponto muito proeminente da Vida, s\u00e3o introduzidos termos e imagens do misticismo da noiva. Imediatamente antes de sua morte, Macrina revela aos que a cercam o que esconde no fundo do cora\u00e7\u00e3o: \u201co amor divino e puro do marido invis\u00edvel\u201d (VM 22.4). O paralelismo com a oculta\u00e7\u00e3o do nome Tecla \u00e9 significativo, pois esse amor de Macrina pelo noivo celestial fica oculto e s\u00f3 \u00e9 comunicado antes da morte aos que a cercam. Para Macrina, a morte significa uni\u00e3o com Cristo, o amado e desejado. Quanto mais sua vida se aproximava do fim, mais ela \u201ccontemplava a beleza do noivo\u201d (VM 23.1). Este motivo, usado com modera\u00e7\u00e3o aqui, ser\u00e1 uma imagem altamente desenvolvida em tempos posteriores. A introdu\u00e7\u00e3o do topos da m\u00edstica da noiva na Vida apresenta um paralelo marcante com o mart\u00edrio de Perp\u00e9tua e Felicidade. Em seu \u00faltimo dia, Perp\u00e9tua \u00e9 levada \u00e0 arena com outros crist\u00e3os para lutar contra os animais e naquele momento, em face da morte, ela diz: \u201cela os seguia com o rosto iluminado e um passo tranquilo, como a noiva de Cristo\u201d (Paix\u00e3o, XVIII). Cristo como marido e seu seguidor como esposa n\u00e3o apenas simbolizam um relacionamento interno da alma humana com o divino, mas aparecem aqui como uma categoria que determina a vida real. Essa tend\u00eancia aumentou ao longo do s\u00e9culo IV, \u00e0 medida que a vida asc\u00e9tica das mulheres era cada vez mais entendida como casamento com Cristo (De virg. XX 3 e segs.; Bjerre-Aspergen, 1977). O Tratado da Virgindade pode ser considerado uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica de Greg\u00f3rio sobre vidas t\u00e3o amadas por ele: Macrina e Bas\u00edlio (V\u00f6lker, 1993, p. 228). A virgindade desempenhou um papel nas sociedades pag\u00e3s, e no cristianismo o motivo nupcial remonta a Paulo que, em 2 Cor\u00edntios 11: 2 entende a congrega\u00e7\u00e3o como a esposa de Cristo. Al\u00e9m dessa interpreta\u00e7\u00e3o, especialmente desde Or\u00edgenes, a considera\u00e7\u00e3o da alma individual como a esposa de Cristo se desenvolveu a partir da exegese do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos.<\/p>\n<p>Assim como no in\u00edcio da Vida Greg\u00f3rio relata a vis\u00e3o de Em\u00e9lia antes do nascimento de Macrina, ao fim ele relata uma segunda vis\u00e3o que ele mesmo experimentou, intimamente relacionada \u00e0 primeira. Quando ia visitar a irm\u00e3, depois de oito anos sem v\u00ea-la, Greg\u00f3rio teve um sonho (VM 15.2). Em suas m\u00e3os ele parece levar rel\u00edquias de m\u00e1rtires das quais emanam raios deslumbrantes. O paralelismo na descri\u00e7\u00e3o de ambas as vis\u00f5es \u00e9 surpreendente: ambos, m\u00e3e e Greg\u00f3rio, carregam Macrina nas m\u00e3os, a m\u00e3e sua filha ainda n\u00e3o nascida e Greg\u00f3rio as rel\u00edquias, os restos mortais. O nascimento e a morte de Macrina s\u00e3o acompanhados por apari\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que iluminam seu caminho. Antes de ela nascer, sua m\u00e3e a viu e conheceu seu verdadeiro destino marcado em nome de Tecla e, antes de ela deixar o mundo, seu irm\u00e3o viu o que ela realmente era: uma m\u00e1rtir. Desta forma, Greg\u00f3rio antecipa sua venera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que m\u00e1rtires e santos se tornavam tais em virtude das homenagens que recebiam, o que \u00e9 corroborado na descri\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o f\u00fanebre (VM 34.1).<\/p>\n<p><strong>O pensamento de Macrina<\/strong><br \/>Greg\u00f3rio destacou a figura de sua irm\u00e3 n\u00e3o s\u00f3 como mestra de vida, mas tamb\u00e9m como profunda pensadora e exegeta em Sobre a alma e a ressurrei\u00e7\u00e3o (De anima et ressurrectione, doravante DAR). Esta obra exp\u00f5e detalhadamente um evento da Vida (VM 18.1), na medida em que desenvolve as profundas discuss\u00f5es teol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas mantidas no encontro entre os irm\u00e3os nos \u00faltimos dois dias da vida de Macrina. Dado o tema e o contexto do di\u00e1logo, este foi denominado \u201cF\u00e9don Crist\u00e3o\u201d (Frede-Reis, 2007, p. 16). Por outro lado, tamb\u00e9m tem semelhan\u00e7a com Banquete, pois, assim como Diotima instrui S\u00f3crates sobre a natureza do amor, Macrina ensina ao irm\u00e3o a imortalidade da alma. Ressalte-se que o texto de Greg\u00f3rio \u00e9 muito semelhante ao de Met\u00f3dio \u2013 oponente de Or\u00edgenes \u2013 intitulado Da Ressurrei\u00e7\u00e3o (Woods Callahan, 1967, p.195). A preocupa\u00e7\u00e3o de Macrina com o estado de esp\u00edrito de Greg\u00f3rio \u00e9 assimilada ao primeiro livro da Consola\u00e7\u00e3o da Filosofia de Bo\u00e9cio, como tamb\u00e9m nos lembra as conversas entre Agostinho e M\u00f4nica em Ostia. Nesse di\u00e1logo, ao contr\u00e1rio do que se afirma sobre a forma\u00e7\u00e3o de Macrina na Vida, o professor aparece como algu\u00e9m competente em todos os problemas cient\u00edficos, filos\u00f3ficos e teol\u00f3gicos. Podemos supor que Greg\u00f3rio n\u00e3o apresentou ao acaso a figura de sua irm\u00e3 como companheira nesses di\u00e1logos que tratam de temas t\u00e3o importantes de seu pensamento (Dani\u00e9lou 1940), mas que se valeu de experi\u00eancias vividas com Macrina, e a delineou como uma mulher com uma forma\u00e7\u00e3o completa dedicada a instru\u00ed-lo. Apresentaremos as ideias centrais trabalhadas nesta obra.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio primeiro exp\u00f5e a dor que sentiu pela morte de Bas\u00edlio, e por isso se aproximou da irm\u00e3 em busca de consolo. Refere que Macrina &#8220;como costumam fazer aqueles que t\u00eam muita experi\u00eancia na arte de domesticar potros&#8221; permitiu-lhe expressar a sua dor e depois insistiu para que conseguisse conter as emo\u00e7\u00f5es (DAR 1.1, edi\u00e7\u00e3o de Moreschini). Macrina traz assim a dor da perda humana para o campo da pedagogia do esp\u00edrito. O rem\u00e9dio para essa dor desproporcional \u00e9 aprender o que \u00e9 a alma. Aqui, ao contr\u00e1rio do que acontece com S\u00f3crates no F\u00e9don, trata-se de agradar ou ceder \u00e0 dor de outra pessoa. Deixar que outra pessoa experimente sua dor sem repreens\u00e3o imediata \u00e9 necess\u00e1rio para educ\u00e1-la em uma percep\u00e7\u00e3o verdadeira da natureza da alma (Williams, 1993). Greg\u00f3rio refere que a dor e o medo da morte s\u00e3o t\u00edpicos do ser humano. Macrina convida a uma avalia\u00e7\u00e3o racional desta situa\u00e7\u00e3o e questiona o irm\u00e3o sobre a sua dor, pois ela revelaria d\u00favidas sobre a cren\u00e7a na sobreviv\u00eancia da alma para al\u00e9m da morte do corpo. No final desta introdu\u00e7\u00e3o, Macrina esbo\u00e7a o argumento sobre a virtude e os sacrif\u00edcios que ela implica, o que s\u00f3 faz sentido se considerarmos a eternidade da alma. Na vida virtuosa, a morte \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o extrema que nos obriga a nos perguntar por que vivemos como vivemos. Greg\u00f3rio refere que h\u00e1 opini\u00f5es divergentes sobre o assunto, entre gregos e fil\u00f3sofos, e relembra opini\u00f5es de fil\u00f3sofos materialistas que entendem que, se a alma est\u00e1 nos elementos do corpo, quando ele se dissolve ao morrer, o mesmo acontece com a primeira (DAR 3.3). Macrina retoma esses argumentos e menciona os est\u00f3icos e os epicureus, enfocando a figura de Epicuro, e explica o erro de tais posi\u00e7\u00f5es. Ensina como atrav\u00e9s das coisas vis\u00edveis podemos conhecer as n\u00e3o vis\u00edveis, como a exist\u00eancia de Deus, e atrav\u00e9s de uma cita\u00e7\u00e3o do profeta: \u201cos pr\u00f3prios c\u00e9us cantam com vozes indiz\u00edveis a gl\u00f3ria de Deus\u201d (DAR 4.6, Salmo XVIII. 1) introduz a descri\u00e7\u00e3o da harmonia de todas as coisas\u00ac \u2013 incluindo uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas \u2013 que nos obriga a pensar sobre a virtude divina primorosa e engenhosa que aparece em todas as coisas e se estende por meio delas.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio objeta sobre a rela\u00e7\u00e3o desse argumento sobre o mundo com a alma humana. Macrina responde com a ideia do homem como um microcosmo (DAR 4.7), que n\u00e3o \u00e9 apenas um reflexo do cosmos maior, mas, por um lado, reproduz a harmonia e, por outro, constitui um elo entre o mundo sens\u00edvel e o intelig\u00edvel. A rela\u00e7\u00e3o entre o macrocosmo e o microcosmo, portanto, n\u00e3o se limita a uma rela\u00e7\u00e3o entre o maior e o menor, mas enfoca no microcosmo o elo entre os dois planos da realidade, o intelig\u00edvel e o sens\u00edvel. Essa ideia est\u00e1 presente em outra obra de Greg\u00f3rio (De hom. opif. cap. 1 e 8), o que nos faz pensar na import\u00e2ncia de sua irm\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formula\u00e7\u00f5es centrais de seu pensamento, uma vez que as expressa por meio de Macrina.<\/p>\n<p><br \/>Greg\u00f3rio exige uma defini\u00e7\u00e3o de alma, \u00e0 qual Macrina responde:<\/p>\n<p>A alma \u00e9 uma ess\u00eancia gerada, uma ess\u00eancia viva, intelectual, que por si mesma infunde em um corpo dotado de instrumentos e sensa\u00e7\u00f5es uma for\u00e7a vital e capaz de perceber coisas que caem sob os sentidos, enquanto se mant\u00e9m em vida a natureza capaz de perceb\u00ea-las. (DAR 5).<\/p>\n<p>Dessa forma, Macrina apresenta dois aspectos centrais relacionados \u00e0 sua concep\u00e7\u00e3o de alma: o relativo ao vivente e o car\u00e1ter intelectual. Durante toda a primeira se\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo, a \u00eanfase \u00e9 colocada no tra\u00e7o racional da alma, guia das coisas que s\u00e3o percebidas pelos sentidos para penetrar nas coisas n\u00e3o percept\u00edveis. Da mesma forma que o mundo inteiro \u00e9 governado pela intelig\u00eancia divina, no ser humano a intelig\u00eancia governa como aspecto central da alma. Diante disso, Greg\u00f3rio objeta que assim chegamos a algo absurdo, j\u00e1 que nossa mente seria a mesma coisa que a natureza divina (DAR 6.15). Macrina corrige o irm\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o se trata do mesmo, mas sim da semelhan\u00e7a, pois a humanidade foi criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a. Assim como a &#8220;sabedoria arcana e inef\u00e1vel de Deus&#8221; (DAR 7.16) brilha em todas as coisas, mas \u00e9 diversa das coisas singulares, tamb\u00e9m a alma simples, indivis\u00edvel e sem forma por natureza n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a coagula\u00e7\u00e3o e o agrupamento dos corpos, por isso n\u00e3o duvidamos da efic\u00e1cia vital da alma, que se mistura e se difunde nos elementos do corpo. A alma infunde os elementos com sua for\u00e7a vital e, uma vez dissolvido o agrupamento que comp\u00f5e os corpos, aquela natureza simples e n\u00e3o composta permanece presente nas partes. Em outras palavras, nas palavras de Macrina: \u201cporque o composto se dissolve, n\u00e3o necessariamente se segue que o que n\u00e3o \u00e9 composto tamb\u00e9m se dissolve\u201d (DAR 7.16). Desta forma, defende-se a ideia de que a alma permanecer\u00e1 unida aos elementos que formaram o corpo ap\u00f3s a sua desintegra\u00e7\u00e3o pela morte. No momento da ressurrei\u00e7\u00e3o dos corpos, a alma mais uma vez informar\u00e1 o corpo ressuscitado. Interpretou-se que se trata aqui de um v\u00ednculo com a doutrina est\u00f3ica segundo a qual o princ\u00edpio divino, imanente ao universo, est\u00e1 intrinsecamente ligado ao material, embora se denomine esp\u00edrito e seja racional (Moreschini, 2014, p. 372).<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio questiona novamente sua mestra, com o problema das paix\u00f5es da alma, pois s\u00e3o o desejo e a raiva os geradores dos movimentos (DAR 8.19). Macrina responde que as paix\u00f5es est\u00e3o na alma, mas n\u00e3o s\u00e3o a alma, pois ela \u00e9 semelhante a Deus e n\u00e3o h\u00e1 paix\u00f5es nela. Aqui se retoma uma imagem desde o in\u00edcio, pois ela argumenta que \u00e9 necess\u00e1rio &#8220;ignorar a carruagem de Plat\u00e3o e o tronco dos cavalos atrelados a esta carruagem [&#8230;] e deixar de lado o que ensina aquele fil\u00f3sofo que veio depois de Plat\u00e3o&#8221; (DAR 8.20, cf. Fedro 246a-254e, Rep\u00fablica 441e-442b) para procurar o fundamento nas Escrituras. O que Macrina rejeita \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de uma canga de cavalos diferente entre si em seus impulsos, ou seja, ela desconfia do chamado problema do hom\u00fanculo que trata as partes ou poderes da alma como quase-sujeitos (Annas, 1981, pp. 150-151). O que se segue na exposi\u00e7\u00e3o de Macrina \u00e9, de fato, uma elimina\u00e7\u00e3o cuidadosa de qualquer independ\u00eancia para a vida afetiva, ao mesmo tempo que nega que seja intr\u00ednseca \u00e0 alma. As Escrituras ensinam que tudo o que \u00e9 estranho a Deus, visto que a alma \u00e9 criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a, n\u00e3o pertence \u00e0 defini\u00e7\u00e3o da alma. Essas paix\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o constituintes de naturezas n\u00e3o racionais, portanto n\u00e3o caracterizam o que \u00e9 pr\u00f3prio da alma racional, n\u00e3o s\u00e3o a natureza da alma, mas afetos e perturba\u00e7\u00f5es \u201ccomo verrugas que surgem da parte pensante da alma. Essas partes s\u00e3o consideradas coisas da alma, porque est\u00e3o relacionadas, mas n\u00e3o como aquilo que por sua ess\u00eancia e natureza \u00e9 a alma\u201d (DAR 8.24). Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a psicologia de todo o pensamento niceno e se conecta com sua antropologia, que segue a doutrina b\u00edblica do homem criado \u00e0 imagem de Deus: como imagem de Deus, o homem foi inicialmente desprovido de paix\u00e3o, que se agarrou \u00e0 sua alma como um resultado do pecado, sem deixar de ser algo intrinsecamente estranho a ele. A ess\u00eancia da alma, portanto, n\u00e3o est\u00e1 aprisionada na irracionalidade. Greg\u00f3rio novamente se op\u00f5e a Macrina, neste caso seguindo exemplos b\u00edblicos em que as paix\u00f5es cumprem uma fun\u00e7\u00e3o no desenvolvimento da virtude. Macrina aceita a obje\u00e7\u00e3o e se ocupa dessa confus\u00e3o. Ele exp\u00f5e, a fim de esclarecer o assunto, uma interpreta\u00e7\u00e3o da ordem da cria\u00e7\u00e3o encontrada nas Escrituras. Desejo e raiva n\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas essenciais da alma, mas, em uma escala de realidade que vai do grau mais baixo (a planta e seus movimentos indicam a natureza animada em seu estado essencial) ao mais alto (a alma racional no homem), constituem um s\u00e9rie de qualidades que s\u00e3o adicionadas \u00e0 pr\u00f3pria alma:<\/p>\n<p>O numen divino chegou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do homem seguindo um determinado caminho e uma coer\u00eancia que tem sua pr\u00f3pria ordem. Porque, como nos diz a hist\u00f3ria, ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do universo, o homem n\u00e3o esteve imediatamente na terra, ao contr\u00e1rio, ele foi precedido pela natureza daqueles que n\u00e3o t\u00eam raz\u00e3o, assim como, antes destes, existiam as plantas. A Sagrada Escritura mostra com isso, a meu ver, que a for\u00e7a vital se une \u00e0 natureza corporal seguindo seu pr\u00f3prio processo, penetrando e infundindo-se primeiro naqueles que n\u00e3o t\u00eam os sentidos, depois alcan\u00e7ando aqueles que os t\u00eam e, finalmente, ascendendo at\u00e9 aqueles que s\u00e3o dotados de mente e intelig\u00eancia e participam da raz\u00e3o (DAR 10.25).<\/p>\n<p>O homem abrange todas as esp\u00e9cies vitais. A for\u00e7a dotada de raz\u00e3o n\u00e3o pode estar na vida corporal se n\u00e3o for pela media\u00e7\u00e3o dos sentidos, e a comunh\u00e3o se d\u00e1 pelos afetos ou paix\u00f5es, que s\u00e3o movimentos da alma que podem estar a servi\u00e7o da virtude ou do v\u00edcio, de acordo com o uso que a vontade e o livre arb\u00edtrio fazem deles. Aqui Macrina apresenta mais uma vez a imagem do cocheiro, que representa a raz\u00e3o que deve reger o movimento irracional das paix\u00f5es dos cavalos. Isso implica uma concep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o concorda com a ideia origeniana da pr\u00e9-exist\u00eancia das almas (Karamanolis, 2020). O racional cresce a partir do mais elementar. O poder de anima\u00e7\u00e3o move-se lentamente atrav\u00e9s dos diferentes n\u00edveis da vida material, do vegetal ao animal e do animal ao racional, o n\u00edvel em que \u00e9 mais plenamente ativo precisamente como raz\u00e3o. No entanto, mesmo neste est\u00e1gio, ele n\u00e3o pode ser separado da mat\u00e9ria, porque a raz\u00e3o requer experi\u00eancia sensorial para operar. Ou seja, aqui a defini\u00e7\u00e3o \u00e9 centrada em termos da for\u00e7a motriz: a alma \u00e9 o que efetua o movimento e, portanto, \u00e9 um termo aplic\u00e1vel a tudo o que, em um determinado n\u00edvel de exist\u00eancia, produz e sustenta o movimento pr\u00f3prio desse n\u00edvel. Nos seres humanos, ent\u00e3o, a alma \u00e9 um conceito complexo porque o movimento pr\u00f3prio para os humanos \u00e9 complexo: a alma humana \u00e9 criada, viva e inteligente \u00ac\u2013 como vimos na primeira defini\u00e7\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m \u00e9 uma for\u00e7a vital ou poder de anima\u00e7\u00e3o que trabalha em conjunto com a vida sens\u00edvel. Em geral, podemos tra\u00e7ar a distin\u00e7\u00e3o entre ess\u00eancia (ous\u00eda) da alma, para a refer\u00eancia \u00e0 alma como distintamente ativa e inteligente, e natureza (ph\u00fdsis) da alma, para a realidade mais complexa da alma como animadora de um corpo. Nossa animalidade pode se tornar uma virtude quando a raz\u00e3o dirige o desejo e a raiva, que n\u00e3o s\u00e3o ruins em si. Esta hist\u00f3ria de intelig\u00eancia animada fornece uma ferramenta para lidar com o problema de como vincular a unidade ps\u00edquica ao conflito ps\u00edquico.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio objeta mais uma vez que, se a purifica\u00e7\u00e3o das almas implica que n\u00e3o h\u00e1 movimento destitu\u00eddo de raz\u00e3o, na alma perecer\u00e1 a faculdade do desejo e com ela todo desejo para o bem (DAR 15.42). Macrina responde com outra ideia central para o pensamento niceno. Com efeito, indica que a alma de alguma forma imita a natureza celeste e, tendo alcan\u00e7ado a tranquilidade, o apaziguamento e o fim de todas as coisas que agora s\u00e3o almejadas como boas, encontrar\u00e1 a \u00fanica coisa que n\u00e3o tem fim: o amor e a caridade, que nunca perecem. A a\u00e7\u00e3o do amor n\u00e3o tem limites porque o que \u00e9 belo ou bom em si n\u00e3o tem limites. Desta forma, o mal ser\u00e1 expulso do que existe. Assim, dois conceitos centrais est\u00e3o ligados: a ep\u00e9ktasis e a apokat\u00e1stasis. A ep\u00e9ktasis implica aquele desejo constante, t\u00edpico de uma vida destinada ao crescimento infinito na contempla\u00e7\u00e3o de Deus e na virtude, visto que o amor e o desejo da alma n\u00e3o t\u00eam limites na capacidade de crescimento, com a concep\u00e7\u00e3o paradoxal de uma perfei\u00e7\u00e3o que consiste em um progresso que n\u00e3o tem fim (Dani\u00e9lou, 1944, p. 291ss). Por isso, poder\u00edamos argumentar que o texto toma a dor humana comum pelo luto, compreens\u00edvel e permiss\u00edvel, como paradigma do desejo, ou seja, da fixa\u00e7\u00e3o em um objeto: a dor que \u00e9 moldada ou sintonizada pela mente deve, presumivelmente , ser capaz de ver o outro como algo mais do que o mero objeto de apego. A cren\u00e7a de que a vida eterna da alma \u00e9 o crescimento eterno \u00e9 uma das contribui\u00e7\u00f5es mais conhecidas e distintas de Macrina-Greg\u00f3rio para a espiritualidade crist\u00e3: o objetivo n\u00e3o \u00e9 a plenitude atemporal, mas uma expans\u00e3o constante da consci\u00eancia amorosa, at\u00e9 mesmo uma renova\u00e7\u00e3o do deslumbramento (Williams, 1993, p. 241). A ideia origineana da apokat\u00e1stasis entende que, no final dos s\u00e9culos, todas as coisas ser\u00e3o restauradas em Cristo e o mal deixar\u00e1 de existir, um estado de retorno \u00e0 santidade original anterior ao pecado, uma restaura\u00e7\u00e3o universal de modo definitivo.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima reflex\u00e3o. Ao longo deste di\u00e1logo, a alma \u00e9 vista como essencialmente sem g\u00eanero, e uma igualdade espiritual fundamental \u00e9 mantida entre homens e mulheres, que n\u00e3o s\u00e3o determinados simplesmente por sua oposi\u00e7\u00e3o \/ complementaridade: eles s\u00e3o precisamente iguais como mentes corporificadas, lutando da mesma forma com a tarefa de tornar a exist\u00eancia animal uma vida significativa. H\u00e1 quem tenha feito leituras muito cr\u00edticas sobre a figura de Macrina em Greg\u00f3rio, pois interpretam que se trata, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de estrat\u00e9gias que fortalecem o discurso universalizante masculino (Clark, 1998; Burrus, 2005; Halperin, 1990). No entanto, devemos considerar que a teologia de g\u00eanero de Greg\u00f3rio n\u00e3o se concentra na diferen\u00e7a, mas na unidade (a conflu\u00eancia de masculino e feminino em um estado sem g\u00eanero), que desestabiliza o g\u00eanero por meio da transposi\u00e7\u00e3o anag\u00f3gica para um estado angelical sem g\u00eanero (Boersma, 2013, pp.110 -111). A figura de Macrina representa uma altera\u00e7\u00e3o nos pap\u00e9is usuais, tanto femininos quanto masculinos, uma vez que ela adota os dois tipos de pap\u00e9is e assim os transforma (Cadenhead, 2018).<\/p>\n<p><strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Carolina Ara\u00fajo<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><br \/>Edi\u00e7\u00f5es e tradu\u00e7\u00f5es<br \/>Cadiz, L. (1952). San Gregorio Niseno. Di\u00e1logo sobre el alma y la resurrecci\u00f3n. Buenos Aires: Atl\u00e1ntida.<br \/>Krabinger, J. (1837). Gregorii Episcopi Nysseni de anima et resurrectione cum sorore sua Macrina dialogus. Leipzig: Gustav Wittig. <br \/>Leone, L. (1988). Gregorio di Nissa. Vita di Gregorio Taumaturgo. Roma: Citt\u00e0 Nuova.<br \/>Maraval, P. (1971). Gr\u00e9goire de Nysse: Vie de Sainte Macrine, Sources Chr\u00e9tiennes 178. Paris: Cerf.<br \/>Mateo Seco, L. (1995). Gregorio de Nisa. Vida de Macrina. Elogio de Basilio. Madrid: Ciudad Nueva.<br \/>Mateo Seco, L. (2000). Gregorio de Nisa. 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Greg\u00f3rio de Nisa elogia-a como uma mulher com forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Ele morreu em cerca de 379-380. Comemora\u00e7\u00e3o: 19 de julho\u201d(Wimmer, Melzer, Gelmi, 2002). Esta breve informa\u00e7\u00e3o destaca aspectos centrais da vida de Macrina, de quem n\u00e3o temos seus pr\u00f3prios escritos, mas seu modo de vida e pensamento nos foi transmitido. A principal fonte de informa\u00e7\u00e3o a este respeito \u00e9 a Vida de Macrina (doravante VM), escrita por Gregorio de Nisa em 381-382. A Carta 19 e o di\u00e1logo Sobre a alma e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio tamb\u00e9m fornecem informa\u00e7\u00f5es, junto com alguns depoimentos de Bas\u00edlio e um epigrama de Greg\u00f3rio Nacianceno (Silvas, 2008, p. X). Em geral, Macrina \u00e9 conhecida como irm\u00e3 de Bas\u00edlio e Greg\u00f3rio, dada a import\u00e2ncia desses dois padres capad\u00f3cios, mas n\u00e3o foi suficientemente considerada com base em seu pr\u00f3prio perfil intelectual e espiritual e no legado que deixou para a posteridade crist\u00e3. A Vida de Macrina foi caracterizada como uma &#8220;biografia filos\u00f3fica&#8221; (Maraval, 1971, pp. 21-23). Greg\u00f3rio refere que se trata de uma carta que se estendeu, dirigida a algu\u00e9m que permanece an\u00f4nimo, companheiro de longas reflex\u00f5es, v\u00e1rias delas centradas na mem\u00f3ria da irm\u00e3. Ele escreve esta obra com a esperan\u00e7a de que &#8220;uma vida dessa natureza n\u00e3o seja esquecida com o passar do tempo&#8221; (VM 1.3, trad. Mateo Seco), desejo que podemos considerar realizado. Greg\u00f3rio entendeu a vida da irm\u00e3 como um modelo a seguir. Ela \u201cascendeu \u00e0 mais alta virtude humana por meio da filosofia\u201d (VM 1.3). Essas duas palavras, virtude e filosofia, tinham uma rela\u00e7\u00e3o especial para os crist\u00e3os do s\u00e9culo IV, uma vez que, na Antiguidade tardia, os fil\u00f3sofos eram entendidos como aqueles que defendiam suas ideias com a sua forma de vida como um todo. A obra est\u00e1 dividida nas seguintes se\u00e7\u00f5es: pr\u00f3logo, informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas, encontro, sepultamento, milagres e ep\u00edlogo. O pr\u00f3logo levanta a quest\u00e3o central de como \u00e9 poss\u00edvel para uma mulher levar uma vida t\u00e3o perto de Deus. Greg\u00f3rio tratou do lugar das mulheres no movimento asc\u00e9tico do s\u00e9culo IV. Afirma no pr\u00f3logo: &#8220;uma mulher era o tema de nosso relato, se \u00e9 que ela pode ser chamada de mulher, porque n\u00e3o sei se conv\u00e9m designar com uma qualidade pertencente \u00e0 natureza a algu\u00e9m que veio a estar acima da pr\u00f3pria natureza&#8221; (VM prol.). Este lema de Greg\u00f3rio est\u00e1 muito pr\u00f3ximo da f\u00f3rmula de G\u00e1latas 3:28 \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais homem nem mulher\u201d, ideia que representa a ant\u00edtese escatol\u00f3gica de G\u00eanesis 1:27 (Deus aos seres humanos \u00e0 sua imagem, \u00e0 imagem de Deus, criou, macho e f\u00eamea os criou).<br \/>Na se\u00e7\u00e3o de dados biogr\u00e1ficos, Greg\u00f3rio destaca os seguintes eventos: o sonho da m\u00e3e pouco antes do nascimento de Macrina, sua educa\u00e7\u00e3o, seu noivado, a decis\u00e3o de continuar uma vida asc\u00e9tica, a transforma\u00e7\u00e3o de seu estilo de vida, a influ\u00eancia sobre seus irm\u00e3os Bas\u00edlio e Pedro, a for\u00e7a em face da adversidade. Entre essas passagens narrativas, s\u00e3o incorporadas descri\u00e7\u00f5es do ideal asc\u00e9tico de vida que, juntamente com eventos externos, esclarecem a figura de Macrina. Greg\u00f3rio v\u00ea o estilo de vida de Macrina como um progresso constante em dire\u00e7\u00e3o a uma santidade cada vez maior, onde as crises e golpes do destino representam oportunidades para se provar e seguir por esse caminho. Ele enumera tr\u00eas figuras femininas que v\u00e3o moldar a vida de Macrina: Macrina, a anci\u00e3 (av\u00f3 paterna), Em\u00e9lia (m\u00e3e) e Tecla (disc\u00edpula de Paulo). A anci\u00e3 Macrina sofreu a \u00faltima persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os no in\u00edcio do s\u00e9culo IV (VM 2.1) e teve seus bens confiscados (VM 20.2). Ela fugiu da persegui\u00e7\u00e3o com sua fam\u00edlia para as florestas montanhosas de Ponto e passou sete anos ali, sofrendo com o clima severo. Duas gera\u00e7\u00f5es depois, seus netos escolheram um estilo de vida muito semelhante, mas voluntariamente. Por outro lado, Macrina, a anci\u00e3, era muito admirada em sua fam\u00edlia por ter recebido forma\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio Taumaturgo, por sua vez instru\u00eddo por Or\u00edgenes. A import\u00e2ncia dos ensinamentos de Greg\u00f3rio Taumaturgo \u00e9 ilustrada na obra que Niceno lhe dedicou (Vida de Greg\u00f3rio Taumaturgo). Macrina leva o nome desta av\u00f3 e o da disc\u00edpula de Paulo, seus nomes p\u00fablicos e secretos, respectivamente. O nome secreto \u00e9 revelado a Em\u00e9lia em uma vis\u00e3o, em que algu\u00e9m de porte mais majestoso do que um homem lhe diz para chamar sua filha por nascer de Tecla (VM 2.3). Como em todas as religi\u00f5es, sonhos e vis\u00f5es desempenham um papel importante no Cristianismo como meio de transmiss\u00e3o da vontade divina. Tecla foi a disc\u00edpula de Paulo cuja hist\u00f3ria foi registrada nos Atos de Paulo e Tecla, ap\u00f3crifos do s\u00e9culo II, e no Simp\u00f3sio ou Sobre a virgindade de Met\u00f3dio de Ol\u00edmpia, o texto que provavelmente mais influenciou a caracteriza\u00e7\u00e3o de Macrina por Greg\u00f3rio (Wilson Kastner, 1979, p. 110). Tecla pregou o Evangelho como ap\u00f3stola e se tornou modelo para todas as mulheres ascetas (Davies, 2001). Greg\u00f3rio, Bas\u00edlio e Greg\u00f3rio de Nazianzo referem-se em v\u00e1rias ocasi\u00f5es a Tecla e suas virtudes. Segundo Greg\u00f3rio, esse nome secreto tem a ver com o modo de vida que sua irm\u00e3 escolheu, j\u00e1 que os nomes s\u00e3o entendidos como portadores de s\u00edmbolos e significados.<br \/>Quanto \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de Macrina, embora n\u00e3o se afirme que tenha aprendido a ler e a escrever, \u00e9 muito prov\u00e1vel que o tenha feito. Na Vida descreve-se o cotidiano mon\u00e1stico: todas as atividades da Macrina, desde levantar-se at\u00e9 deitar, eram acompanhadas pelo canto de salmos (VM 11.2). Por outro lado, a implementa\u00e7\u00e3o de um regime mon\u00e1stico acarreta a necessidade do trabalho manual. Depois de escolher uma vida asc\u00e9tica, Macrina costumava fazer p\u00e3o para a m\u00e3e com as pr\u00f3prias m\u00e3os (VM 5.3), aceitando assim um trabalho realizado por escravas. Macrina e a m\u00e3e decidiram expressamente assumir os trabalhos necess\u00e1rios. Na comunidade feminina fundada por Macrina, atribu\u00eda-se grande import\u00e2ncia ao fato de n\u00e3o haver mais diferen\u00e7a de hierarquia, pois a mesa, a cama e todos os aspectos do cotidiano eram compartilhados (VM 11.1).<br \/>No final da inf\u00e2ncia, Macrina comprometeu-se em casamento. Para as meninas, a idade de 12 anos era o limite entre a inf\u00e2ncia e a idade adulta, e em Biz\u00e2ncio elas geralmente se casavam aos 12 ou 13 anos (Clark, 1981, pp. 13-15, 76ss.; Elm, 1994, p. 141). O candidato selecionado para Macrina tinha conclu\u00eddo os estudos e estava no in\u00edcio da carreira de orador (VM 5), mas o casamento n\u00e3o se concretizou devido ao falecimento do jovem. Os pais tentaram persuadi-la a um novo noivado, mas sem sucesso: &#8220;ela, chamando de casamento a decis\u00e3o do pai, e como se o que j\u00e1 estava decidido realmente tivesse acontecido, decidiu permanecer celibat\u00e1ria&#8221; (VM 5.1), ou seja, Macrina se considera vi\u00fava. Com esta decis\u00e3o, Macrina n\u00e3o atingiu seu objetivo na vida, ao contr\u00e1rio, o verdadeiro caminho come\u00e7a a\u00ed.<br \/>O curso posterior da Vida descreve-a como uma guia. A decis\u00e3o de n\u00e3o se casar tornou-a uma virgem (parth\u00e9nos), que de boa vontade dedica sua vida ao Senhor. A segunda decis\u00e3o foi ficar com a m\u00e3e. M\u00e3e e filha se cuidam mutuamente, a m\u00e3e desempenhava as tarefas educativas e a filha, tarefas manuais e dom\u00e9sticas, enquanto ainda moravam na casa da fam\u00edlia (VM 5.3). A rela\u00e7\u00e3o entre as duas se inverte quando Macrina consegue atrair sua m\u00e3e para sua orienta\u00e7\u00e3o de vida, a filosofia. A fase de ascetismo familiar de Macrina pertence \u00e0 primeira metade do s\u00e9culo IV, enquanto a partida para o p\u00e1ramo, com o in\u00edcio da vida mon\u00e1stica, \u00e0 segunda metade do mesmo s\u00e9culo. Greg\u00f3rio apresenta a vida asc\u00e9tica de sua irm\u00e3 como um progresso constante em dire\u00e7\u00e3o ao objetivo, a uni\u00e3o com Cristo. Mudan\u00e7as internas e externas marcam o progresso. O plano de vida de Macrina adquire grande influ\u00eancia, pois as pessoas ao seu redor decidem se juntar a ela. Greg\u00f3rio se refere \u00e0s mudan\u00e7as externas a partir do exemplo dos servas e escravas que s\u00e3o libertados por Macrina, elevados a \u201cirm\u00e3s e iguais\u201d (VM 7.1), e compartilham o novo estilo de vida. O padr\u00e3o social normal \u00e9 simplesmente anulado, pois n\u00e3o vale mais lutar pela riqueza, mas sim tentar participar da vida dos pobres, do servi\u00e7o m\u00fatuo, que ganha uma nova qualidade pelo fato de se tornar uma ajuda volunt\u00e1ria. Macrina executou a alforria de todos os empregados dom\u00e9sticos. Essa alforria ocorria de duas maneiras: como manumissio in ecclesia (promulgada por dois \u00e9ditos Constantinianos de 316 e 323, um procedimento formalizado) ou como manumissio inter amicos (um escravo era declarado amigo, por carta \u2013 per epistulam \u2013 ou por convite para jantar na mesma mesa \u2014 per mesam). Provavelmente na comunidade de Anesi se praticava essa \u00faltima forma de alforria (Elm 1996: 85 ss.). Isso representa um aspecto do impacto social que teve a implementa\u00e7\u00e3o dessa nova forma de vida. Por outro lado, entre os membros da comunidade, foram admitidas muitas pessoas que sofreram da grande fome dos anos 368\/369 (VM 12.3). Durante esta grande fome, os mosteiros masculinos e femininos no \u00cdris forneciam gr\u00e3os para a popula\u00e7\u00e3o circundante &#8220;de modo que o deserto parecia ter se transformado em cidade pelas multid\u00f5es daqueles que se reuniam&#8221; (VM 12.3, Stathakopoulos 2004). Comunidades de mosteiros foram fundadas no deserto para escapar do barulho e da agita\u00e7\u00e3o da cidade; entretanto, se necess\u00e1rio, o p\u00e1ramo poderia se transformar em cidade. Segundo o que se sabe at\u00e9 hoje, o mosteiro fundado por Macrina \u00e9 um dos mais antigos mosteiros femininos a surgir na \u00c1sia Menor. Na capital, Constantinopla, n\u00e3o havia um \u00fanico mosteiro antes de 384 (Albrecht, 1986, p.119). Os mosteiros de mulheres e homens eram pr\u00f3ximos uns dos outros e tinham muitas conex\u00f5es entre si, embora cada comunidade fosse organizada de forma independente. Das descri\u00e7\u00f5es feitas por Greg\u00f3rio, pode-se deduzir que os dois mosteiros de Anesi tinham uma igreja comum, onde se celebravam os servi\u00e7os (VM 16.1; cf. Cadenhead, 2018, p. 87ss).<br \/>Greg\u00f3rio n\u00e3o informa a data exata do retiro para Ponto. O fato de Macrina continuar a sua vida asc\u00e9tica em Er\u00e9mia \u00e9 muito importante para ele, como se pode ver, por exemplo, na Carta 19, na qual, em primeiro lugar, diz que a sua irm\u00e3 se encontra no deserto do Ponto (Carta 19.7). Em geral se aceitou que Bas\u00edlio foi o primeiro a estabelecer a vida mon\u00e1stica masculina em Ponto e que Macrina mais tarde o seguiu (La Porte, 1982, p. 86; Lowther Clarke, 192, pp. 37-38). No entanto, a Vida nos ensina que aconteceu exatamente ao contr\u00e1rio. Bas\u00edlio foi convertido ao ideal asc\u00e9tico de vida por Macrina (VM 6.1). A funda\u00e7\u00e3o do mosteiro de Macrina n\u00e3o responde aos movimentos anteriores da igreja, pelo contr\u00e1rio, a igreja teve que lidar com este despertar religioso das mulheres, que se desenvolveu de forma independente. Trata-se de um fen\u00f4meno altamente significativo do s\u00e9culo IV: tanto no Oriente quanto no Ocidente, fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas inteiras se entregaram \u00e0 vida asc\u00e9tica, uma transforma\u00e7\u00e3o na qual as mulheres desempenharam um papel central (Giannerelli, 1989, p. 226; Serrato Garrido, 1999).<br \/>A principal caracter\u00edstica da vida asc\u00e9tica pode ser resumida na ideia de \u201cvida angelical\u201d (b\u00edos angelik\u00f3s), ou seja, a imita\u00e7\u00e3o da vida dos anjos (VM 11.2; Frank, 1964). Esta vida na fronteira implica participa\u00e7\u00e3o em ambos os mundos, no mundo da vida humana e no que est\u00e1 acima do humano. Greg\u00f3rio expressa a tens\u00e3o desse contraste em um paradoxo, pois \u201cmesmo vivendo na carne, em semelhan\u00e7a com as potestades incorp\u00f3reas, n\u00e3o estavam marcadas pelo peso do corpo, ao contr\u00e1rio, sua vida era elevada e tendia para cima, desdobrando-se nas alturas junto com as potestades celestiais \u201d(VM 11.3). Segundo Greg\u00f3rio, Macrina transcendeu a natureza humana comum porque n\u00e3o temia a imin\u00eancia de sua morte (VM 18.1, 22.3; Frank 1964). Aqueles que vivem como parth\u00e9nos j\u00e1 est\u00e3o colhendo na vida presente o que foi prometido para a ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que aumenta a assimila\u00e7\u00e3o aos seres sobrenaturais, a filosofia progride (VM 11.4). Aqui n\u00e3o h\u00e1 medida a ser alcan\u00e7ada, por\u00e9m o esfor\u00e7o pela filosofia, que se realiza por meio do exerc\u00edcio das virtudes, s\u00f3 pode ir al\u00e9m superando o que j\u00e1 foi realizado. Esta descri\u00e7\u00e3o resume o que Greg\u00f3rio e Macrina entendem por filosofia (VM 11.2).<br \/>A Vida relata dois milagres alcan\u00e7ados pelas ora\u00e7\u00f5es de Macrina, ambos curas: da pr\u00f3pria Macrina e de uma menina com uma doen\u00e7a ocular (VM 31.1, 36.2). Os milagres n\u00e3o eram entendidos como um sinal da pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o no poder, mas como um testemunho do poder e da presen\u00e7a de Cristo. Atrav\u00e9s da sua f\u00e9 e modo de vida, Macrina torna-se a verdadeira seguidora de Jesus e dos seus disc\u00edpulos, recebendo os mesmos dons da gra\u00e7a que eles. Como mulher, ela participa da nova realidade testemunhada no Evangelho e a difunde por meio de milagres (Albrecht, 1986, pp. 100-101).<br \/>Em um ponto muito proeminente da Vida, s\u00e3o introduzidos termos e imagens do misticismo da noiva. Imediatamente antes de sua morte, Macrina revela aos que a cercam o que esconde no fundo do cora\u00e7\u00e3o: \u201co amor divino e puro do marido invis\u00edvel\u201d (VM 22.4). O paralelismo com a oculta\u00e7\u00e3o do nome Tecla \u00e9 significativo, pois esse amor de Macrina pelo noivo celestial fica oculto e s\u00f3 \u00e9 comunicado antes da morte aos que a cercam. Para Macrina, a morte significa uni\u00e3o com Cristo, o amado e desejado. Quanto mais sua vida se aproximava do fim, mais ela \u201ccontemplava a beleza do noivo\u201d (VM 23.1). Este motivo, usado com modera\u00e7\u00e3o aqui, ser\u00e1 uma imagem altamente desenvolvida em tempos posteriores. A introdu\u00e7\u00e3o do topos da m\u00edstica da noiva na Vida apresenta um paralelo marcante com o mart\u00edrio de Perp\u00e9tua e Felicidade. Em seu \u00faltimo dia, Perp\u00e9tua \u00e9 levada \u00e0 arena com outros crist\u00e3os para lutar contra os animais e naquele momento, em face da morte, ela diz: \u201cela os seguia com o rosto iluminado e um passo tranquilo, como a noiva de Cristo\u201d (Paix\u00e3o, XVIII). Cristo como marido e seu seguidor como esposa n\u00e3o apenas simbolizam um relacionamento interno da alma humana com o divino, mas aparecem aqui como uma categoria que determina a vida real. Essa tend\u00eancia aumentou ao longo do s\u00e9culo IV, \u00e0 medida que a vida asc\u00e9tica das mulheres era cada vez mais entendida como casamento com Cristo (De virg. XX 3 e segs.; Bjerre-Aspergen, 1977). O Tratado da Virgindade pode ser considerado uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica de Greg\u00f3rio sobre vidas t\u00e3o amadas por ele: Macrina e Bas\u00edlio (V\u00f6lker, 1993, p. 228). A virgindade desempenhou um papel nas sociedades pag\u00e3s, e no cristianismo o motivo nupcial remonta a Paulo que, em 2 Cor\u00edntios 11: 2 entende a congrega\u00e7\u00e3o como a esposa de Cristo. Al\u00e9m dessa interpreta\u00e7\u00e3o, especialmente desde Or\u00edgenes, a considera\u00e7\u00e3o da alma individual como a esposa de Cristo se desenvolveu a partir da exegese do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos.<br \/>Assim como no in\u00edcio da Vida Greg\u00f3rio relata a vis\u00e3o de Em\u00e9lia antes do nascimento de Macrina, ao fim ele relata uma segunda vis\u00e3o que ele mesmo experimentou, intimamente relacionada \u00e0 primeira. Quando ia visitar a irm\u00e3, depois de oito anos sem v\u00ea-la, Greg\u00f3rio teve um sonho (VM 15.2). Em suas m\u00e3os ele parece levar rel\u00edquias de m\u00e1rtires das quais emanam raios deslumbrantes. O paralelismo na descri\u00e7\u00e3o de ambas as vis\u00f5es \u00e9 surpreendente: ambos, m\u00e3e e Greg\u00f3rio, carregam Macrina nas m\u00e3os, a m\u00e3e sua filha ainda n\u00e3o nascida e Greg\u00f3rio as rel\u00edquias, os restos mortais. O nascimento e a morte de Macrina s\u00e3o acompanhados por apari\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que iluminam seu caminho. Antes de ela nascer, sua m\u00e3e a viu e conheceu seu verdadeiro destino marcado em nome de Tecla e, antes de ela deixar o mundo, seu irm\u00e3o viu o que ela realmente era: uma m\u00e1rtir. Desta forma, Greg\u00f3rio antecipa sua venera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que m\u00e1rtires e santos se tornavam tais em virtude das homenagens que recebiam, o que \u00e9 corroborado na descri\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o f\u00fanebre (VM 34.1).<\/p>\n<p>O pensamento de Macrina<br \/>Greg\u00f3rio destacou a figura de sua irm\u00e3 n\u00e3o s\u00f3 como mestra de vida, mas tamb\u00e9m como profunda pensadora e exegeta em Sobre a alma e a ressurrei\u00e7\u00e3o (De anima et ressurrectione, doravante DAR). Esta obra exp\u00f5e detalhadamente um evento da Vida (VM 18.1), na medida em que desenvolve as profundas discuss\u00f5es teol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas mantidas no encontro entre os irm\u00e3os nos \u00faltimos dois dias da vida de Macrina. Dado o tema e o contexto do di\u00e1logo, este foi denominado \u201cF\u00e9don Crist\u00e3o\u201d (Frede-Reis, 2007, p. 16). Por outro lado, tamb\u00e9m tem semelhan\u00e7a com Banquete, pois, assim como Diotima instrui S\u00f3crates sobre a natureza do amor, Macrina ensina ao irm\u00e3o a imortalidade da alma. Ressalte-se que o texto de Greg\u00f3rio \u00e9 muito semelhante ao de Met\u00f3dio \u2013 oponente de Or\u00edgenes \u2013 intitulado Da Ressurrei\u00e7\u00e3o (Woods Callahan, 1967, p.195). A preocupa\u00e7\u00e3o de Macrina com o estado de esp\u00edrito de Greg\u00f3rio \u00e9 assimilada ao primeiro livro da Consola\u00e7\u00e3o da Filosofia de Bo\u00e9cio, como tamb\u00e9m nos lembra as conversas entre Agostinho e M\u00f4nica em Ostia. Nesse di\u00e1logo, ao contr\u00e1rio do que se afirma sobre a forma\u00e7\u00e3o de Macrina na Vida, o professor aparece como algu\u00e9m competente em todos os problemas cient\u00edficos, filos\u00f3ficos e teol\u00f3gicos. Podemos supor que Greg\u00f3rio n\u00e3o apresentou ao acaso a figura de sua irm\u00e3 como companheira nesses di\u00e1logos que tratam de temas t\u00e3o importantes de seu pensamento (Dani\u00e9lou 1940), mas que se valeu de experi\u00eancias vividas com Macrina, e a delineou como uma mulher com uma forma\u00e7\u00e3o completa dedicada a instru\u00ed-lo. Apresentaremos as ideias centrais trabalhadas nesta obra.<br \/>Greg\u00f3rio primeiro exp\u00f5e a dor que sentiu pela morte de Bas\u00edlio, e por isso se aproximou da irm\u00e3 em busca de consolo. Refere que Macrina &#8220;como costumam fazer aqueles que t\u00eam muita experi\u00eancia na arte de domesticar potros&#8221; permitiu-lhe expressar a sua dor e depois insistiu para que conseguisse conter as emo\u00e7\u00f5es (DAR 1.1, edi\u00e7\u00e3o de Moreschini). Macrina traz assim a dor da perda humana para o campo da pedagogia do esp\u00edrito. O rem\u00e9dio para essa dor desproporcional \u00e9 aprender o que \u00e9 a alma. Aqui, ao contr\u00e1rio do que acontece com S\u00f3crates no F\u00e9don, trata-se de agradar ou ceder \u00e0 dor de outra pessoa. Deixar que outra pessoa experimente sua dor sem repreens\u00e3o imediata \u00e9 necess\u00e1rio para educ\u00e1-la em uma percep\u00e7\u00e3o verdadeira da natureza da alma (Williams, 1993). Greg\u00f3rio refere que a dor e o medo da morte s\u00e3o t\u00edpicos do ser humano. Macrina convida a uma avalia\u00e7\u00e3o racional desta situa\u00e7\u00e3o e questiona o irm\u00e3o sobre a sua dor, pois ela revelaria d\u00favidas sobre a cren\u00e7a na sobreviv\u00eancia da alma para al\u00e9m da morte do corpo. No final desta introdu\u00e7\u00e3o, Macrina esbo\u00e7a o argumento sobre a virtude e os sacrif\u00edcios que ela implica, o que s\u00f3 faz sentido se considerarmos a eternidade da alma. Na vida virtuosa, a morte \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o extrema que nos obriga a nos perguntar por que vivemos como vivemos. Greg\u00f3rio refere que h\u00e1 opini\u00f5es divergentes sobre o assunto, entre gregos e fil\u00f3sofos, e relembra opini\u00f5es de fil\u00f3sofos materialistas que entendem que, se a alma est\u00e1 nos elementos do corpo, quando ele se dissolve ao morrer, o mesmo acontece com a primeira (DAR 3.3). Macrina retoma esses argumentos e menciona os est\u00f3icos e os epicureus, enfocando a figura de Epicuro, e explica o erro de tais posi\u00e7\u00f5es. Ensina como atrav\u00e9s das coisas vis\u00edveis podemos conhecer as n\u00e3o vis\u00edveis, como a exist\u00eancia de Deus, e atrav\u00e9s de uma cita\u00e7\u00e3o do profeta: \u201cos pr\u00f3prios c\u00e9us cantam com vozes indiz\u00edveis a gl\u00f3ria de Deus\u201d (DAR 4.6, Salmo XVIII. 1) introduz a descri\u00e7\u00e3o da harmonia de todas as coisas\u00ac \u2013 incluindo uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas \u2013 que nos obriga a pensar sobre a virtude divina primorosa e engenhosa que aparece em todas as coisas e se estende por meio delas.<br \/>Greg\u00f3rio objeta sobre a rela\u00e7\u00e3o desse argumento sobre o mundo com a alma humana. Macrina responde com a ideia do homem como um microcosmo (DAR 4.7), que n\u00e3o \u00e9 apenas um reflexo do cosmos maior, mas, por um lado, reproduz a harmonia e, por outro, constitui um elo entre o mundo sens\u00edvel e o intelig\u00edvel. A rela\u00e7\u00e3o entre o macrocosmo e o microcosmo, portanto, n\u00e3o se limita a uma rela\u00e7\u00e3o entre o maior e o menor, mas enfoca no microcosmo o elo entre os dois planos da realidade, o intelig\u00edvel e o sens\u00edvel. Essa ideia est\u00e1 presente em outra obra de Greg\u00f3rio (De hom. opif. cap. 1 e 8), o que nos faz pensar na import\u00e2ncia de sua irm\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formula\u00e7\u00f5es centrais de seu pensamento, uma vez que as expressa por meio de Macrina.<br \/>Greg\u00f3rio exige uma defini\u00e7\u00e3o de alma, \u00e0 qual Macrina responde:<\/p>\n<p>A alma \u00e9 uma ess\u00eancia gerada, uma ess\u00eancia viva, intelectual, que por si mesma infunde em um corpo dotado de instrumentos e sensa\u00e7\u00f5es uma for\u00e7a vital e capaz de perceber coisas que caem sob os sentidos, enquanto se mant\u00e9m em vida a natureza capaz de perceb\u00ea-las. (DAR 5).<\/p>\n<p>Dessa forma, Macrina apresenta dois aspectos centrais relacionados \u00e0 sua concep\u00e7\u00e3o de alma: o relativo ao vivente e o car\u00e1ter intelectual. Durante toda a primeira se\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo, a \u00eanfase \u00e9 colocada no tra\u00e7o racional da alma, guia das coisas que s\u00e3o percebidas pelos sentidos para penetrar nas coisas n\u00e3o percept\u00edveis. Da mesma forma que o mundo inteiro \u00e9 governado pela intelig\u00eancia divina, no ser humano a intelig\u00eancia governa como aspecto central da alma. Diante disso, Greg\u00f3rio objeta que assim chegamos a algo absurdo, j\u00e1 que nossa mente seria a mesma coisa que a natureza divina (DAR 6.15). Macrina corrige o irm\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o se trata do mesmo, mas sim da semelhan\u00e7a, pois a humanidade foi criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a. Assim como a &#8220;sabedoria arcana e inef\u00e1vel de Deus&#8221; (DAR 7.16) brilha em todas as coisas, mas \u00e9 diversa das coisas singulares, tamb\u00e9m a alma simples, indivis\u00edvel e sem forma por natureza n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a coagula\u00e7\u00e3o e o agrupamento dos corpos, por isso n\u00e3o duvidamos da efic\u00e1cia vital da alma, que se mistura e se difunde nos elementos do corpo. A alma infunde os elementos com sua for\u00e7a vital e, uma vez dissolvido o agrupamento que comp\u00f5e os corpos, aquela natureza simples e n\u00e3o composta permanece presente nas partes. Em outras palavras, nas palavras de Macrina: \u201cporque o composto se dissolve, n\u00e3o necessariamente se segue que o que n\u00e3o \u00e9 composto tamb\u00e9m se dissolve\u201d (DAR 7.16). Desta forma, defende-se a ideia de que a alma permanecer\u00e1 unida aos elementos que formaram o corpo ap\u00f3s a sua desintegra\u00e7\u00e3o pela morte. No momento da ressurrei\u00e7\u00e3o dos corpos, a alma mais uma vez informar\u00e1 o corpo ressuscitado. Interpretou-se que se trata aqui de um v\u00ednculo com a doutrina est\u00f3ica segundo a qual o princ\u00edpio divino, imanente ao universo, est\u00e1 intrinsecamente ligado ao material, embora se denomine esp\u00edrito e seja racional (Moreschini, 2014, p. 372).<br \/>Greg\u00f3rio questiona novamente sua mestra, com o problema das paix\u00f5es da alma, pois s\u00e3o o desejo e a raiva os geradores dos movimentos (DAR 8.19). Macrina responde que as paix\u00f5es est\u00e3o na alma, mas n\u00e3o s\u00e3o a alma, pois ela \u00e9 semelhante a Deus e n\u00e3o h\u00e1 paix\u00f5es nela. Aqui se retoma uma imagem desde o in\u00edcio, pois ela argumenta que \u00e9 necess\u00e1rio &#8220;ignorar a carruagem de Plat\u00e3o e o tronco dos cavalos atrelados a esta carruagem [&#8230;] e deixar de lado o que ensina aquele fil\u00f3sofo que veio depois de Plat\u00e3o&#8221; (DAR 8.20, cf. Fedro 246a-254e, Rep\u00fablica 441e-442b) para procurar o fundamento nas Escrituras. O que Macrina rejeita \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de uma canga de cavalos diferente entre si em seus impulsos, ou seja, ela desconfia do chamado problema do hom\u00fanculo que trata as partes ou poderes da alma como quase-sujeitos (Annas, 1981, pp. 150-151). O que se segue na exposi\u00e7\u00e3o de Macrina \u00e9, de fato, uma elimina\u00e7\u00e3o cuidadosa de qualquer independ\u00eancia para a vida afetiva, ao mesmo tempo que nega que seja intr\u00ednseca \u00e0 alma. As Escrituras ensinam que tudo o que \u00e9 estranho a Deus, visto que a alma \u00e9 criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a, n\u00e3o pertence \u00e0 defini\u00e7\u00e3o da alma. Essas paix\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o constituintes de naturezas n\u00e3o racionais, portanto n\u00e3o caracterizam o que \u00e9 pr\u00f3prio da alma racional, n\u00e3o s\u00e3o a natureza da alma, mas afetos e perturba\u00e7\u00f5es \u201ccomo verrugas que surgem da parte pensante da alma. Essas partes s\u00e3o consideradas coisas da alma, porque est\u00e3o relacionadas, mas n\u00e3o como aquilo que por sua ess\u00eancia e natureza \u00e9 a alma\u201d (DAR 8.24). Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a psicologia de todo o pensamento niceno e se conecta com sua antropologia, que segue a doutrina b\u00edblica do homem criado \u00e0 imagem de Deus: como imagem de Deus, o homem foi inicialmente desprovido de paix\u00e3o, que se agarrou \u00e0 sua alma como um resultado do pecado, sem deixar de ser algo intrinsecamente estranho a ele. A ess\u00eancia da alma, portanto, n\u00e3o est\u00e1 aprisionada na irracionalidade. Greg\u00f3rio novamente se op\u00f5e a Macrina, neste caso seguindo exemplos b\u00edblicos em que as paix\u00f5es cumprem uma fun\u00e7\u00e3o no desenvolvimento da virtude. Macrina aceita a obje\u00e7\u00e3o e se ocupa dessa confus\u00e3o. Ele exp\u00f5e, a fim de esclarecer o assunto, uma interpreta\u00e7\u00e3o da ordem da cria\u00e7\u00e3o encontrada nas Escrituras. Desejo e raiva n\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas essenciais da alma, mas, em uma escala de realidade que vai do grau mais baixo (a planta e seus movimentos indicam a natureza animada em seu estado essencial) ao mais alto (a alma racional no homem), constituem um s\u00e9rie de qualidades que s\u00e3o adicionadas \u00e0 pr\u00f3pria alma:<\/p>\n<p>O numen divino chegou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do homem seguindo um determinado caminho e uma coer\u00eancia que tem sua pr\u00f3pria ordem. Porque, como nos diz a hist\u00f3ria, ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do universo, o homem n\u00e3o esteve imediatamente na terra, ao contr\u00e1rio, ele foi precedido pela natureza daqueles que n\u00e3o t\u00eam raz\u00e3o, assim como, antes destes, existiam as plantas. A Sagrada Escritura mostra com isso, a meu ver, que a for\u00e7a vital se une \u00e0 natureza corporal seguindo seu pr\u00f3prio processo, penetrando e infundindo-se primeiro naqueles que n\u00e3o t\u00eam os sentidos, depois alcan\u00e7ando aqueles que os t\u00eam e, finalmente, ascendendo at\u00e9 aqueles que s\u00e3o dotados de mente e intelig\u00eancia e participam da raz\u00e3o (DAR 10.25).<\/p>\n<p>O homem abrange todas as esp\u00e9cies vitais. A for\u00e7a dotada de raz\u00e3o n\u00e3o pode estar na vida corporal se n\u00e3o for pela media\u00e7\u00e3o dos sentidos, e a comunh\u00e3o se d\u00e1 pelos afetos ou paix\u00f5es, que s\u00e3o movimentos da alma que podem estar a servi\u00e7o da virtude ou do v\u00edcio, de acordo com o uso que a vontade e o livre arb\u00edtrio fazem deles. Aqui Macrina apresenta mais uma vez a imagem do cocheiro, que representa a raz\u00e3o que deve reger o movimento irracional das paix\u00f5es dos cavalos. Isso implica uma concep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o concorda com a ideia origeniana da pr\u00e9-exist\u00eancia das almas (Karamanolis, 2020). O racional cresce a partir do mais elementar. O poder de anima\u00e7\u00e3o move-se lentamente atrav\u00e9s dos diferentes n\u00edveis da vida material, do vegetal ao animal e do animal ao racional, o n\u00edvel em que \u00e9 mais plenamente ativo precisamente como raz\u00e3o. No entanto, mesmo neste est\u00e1gio, ele n\u00e3o pode ser separado da mat\u00e9ria, porque a raz\u00e3o requer experi\u00eancia sensorial para operar. Ou seja, aqui a defini\u00e7\u00e3o \u00e9 centrada em termos da for\u00e7a motriz: a alma \u00e9 o que efetua o movimento e, portanto, \u00e9 um termo aplic\u00e1vel a tudo o que, em um determinado n\u00edvel de exist\u00eancia, produz e sustenta o movimento pr\u00f3prio desse n\u00edvel. Nos seres humanos, ent\u00e3o, a alma \u00e9 um conceito complexo porque o movimento pr\u00f3prio para os humanos \u00e9 complexo: a alma humana \u00e9 criada, viva e inteligente \u00ac\u2013 como vimos na primeira defini\u00e7\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m \u00e9 uma for\u00e7a vital ou poder de anima\u00e7\u00e3o que trabalha em conjunto com a vida sens\u00edvel. Em geral, podemos tra\u00e7ar a distin\u00e7\u00e3o entre ess\u00eancia (ous\u00eda) da alma, para a refer\u00eancia \u00e0 alma como distintamente ativa e inteligente, e natureza (ph\u00fdsis) da alma, para a realidade mais complexa da alma como animadora de um corpo. Nossa animalidade pode se tornar uma virtude quando a raz\u00e3o dirige o desejo e a raiva, que n\u00e3o s\u00e3o ruins em si. Esta hist\u00f3ria de intelig\u00eancia animada fornece uma ferramenta para lidar com o problema de como vincular a unidade ps\u00edquica ao conflito ps\u00edquico.<br \/>Greg\u00f3rio objeta mais uma vez que, se a purifica\u00e7\u00e3o das almas implica que n\u00e3o h\u00e1 movimento destitu\u00eddo de raz\u00e3o, na alma perecer\u00e1 a faculdade do desejo e com ela todo desejo para o bem (DAR 15.42). Macrina responde com outra ideia central para o pensamento niceno. Com efeito, indica que a alma de alguma forma imita a natureza celeste e, tendo alcan\u00e7ado a tranquilidade, o apaziguamento e o fim de todas as coisas que agora s\u00e3o almejadas como boas, encontrar\u00e1 a \u00fanica coisa que n\u00e3o tem fim: o amor e a caridade, que nunca perecem. A a\u00e7\u00e3o do amor n\u00e3o tem limites porque o que \u00e9 belo ou bom em si n\u00e3o tem limites. Desta forma, o mal ser\u00e1 expulso do que existe. Assim, dois conceitos centrais est\u00e3o ligados: a ep\u00e9ktasis e a apokat\u00e1stasis. A ep\u00e9ktasis implica aquele desejo constante, t\u00edpico de uma vida destinada ao crescimento infinito na contempla\u00e7\u00e3o de Deus e na virtude, visto que o amor e o desejo da alma n\u00e3o t\u00eam limites na capacidade de crescimento, com a concep\u00e7\u00e3o paradoxal de uma perfei\u00e7\u00e3o que consiste em um progresso que n\u00e3o tem fim (Dani\u00e9lou, 1944, p. 291ss). Por isso, poder\u00edamos argumentar que o texto toma a dor humana comum pelo luto, compreens\u00edvel e permiss\u00edvel, como paradigma do desejo, ou seja, da fixa\u00e7\u00e3o em um objeto: a dor que \u00e9 moldada ou sintonizada pela mente deve, presumivelmente , ser capaz de ver o outro como algo mais do que o mero objeto de apego. A cren\u00e7a de que a vida eterna da alma \u00e9 o crescimento eterno \u00e9 uma das contribui\u00e7\u00f5es mais conhecidas e distintas de Macrina-Greg\u00f3rio para a espiritualidade crist\u00e3: o objetivo n\u00e3o \u00e9 a plenitude atemporal, mas uma expans\u00e3o constante da consci\u00eancia amorosa, at\u00e9 mesmo uma renova\u00e7\u00e3o do deslumbramento (Williams, 1993, p. 241). A ideia origineana da apokat\u00e1stasis entende que, no final dos s\u00e9culos, todas as coisas ser\u00e3o restauradas em Cristo e o mal deixar\u00e1 de existir, um estado de retorno \u00e0 santidade original anterior ao pecado, uma restaura\u00e7\u00e3o universal de modo definitivo.<br \/>Uma \u00faltima reflex\u00e3o. Ao longo deste di\u00e1logo, a alma \u00e9 vista como essencialmente sem g\u00eanero, e uma igualdade espiritual fundamental \u00e9 mantida entre homens e mulheres, que n\u00e3o s\u00e3o determinados simplesmente por sua oposi\u00e7\u00e3o \/ complementaridade: eles s\u00e3o precisamente iguais como mentes corporificadas, lutando da mesma forma com a tarefa de tornar a exist\u00eancia animal uma vida significativa. H\u00e1 quem tenha feito leituras muito cr\u00edticas sobre a figura de Macrina em Greg\u00f3rio, pois interpretam que se trata, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de estrat\u00e9gias que fortalecem o discurso universalizante masculino (Clark, 1998; Burrus, 2005; Halperin, 1990). No entanto, devemos considerar que a teologia de g\u00eanero de Greg\u00f3rio n\u00e3o se concentra na diferen\u00e7a, mas na unidade (a conflu\u00eancia de masculino e feminino em um estado sem g\u00eanero), que desestabiliza o g\u00eanero por meio da transposi\u00e7\u00e3o anag\u00f3gica para um estado angelical sem g\u00eanero (Boersma, 2013, pp.110 -111). A figura de Macrina representa uma altera\u00e7\u00e3o nos pap\u00e9is usuais, tanto femininos quanto masculinos, uma vez que ela adota os dois tipos de pap\u00e9is e assim os transforma (Cadenhead, 2018).<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Carolina Ara\u00fajo<\/p>\n<p>Bibliografia<br \/>Edi\u00e7\u00f5es e tradu\u00e7\u00f5es<br \/>Cadiz, L. (1952). 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